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18/05/2026

Crónica da passagem de um governo (50a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
O governo do Dr. Montenegro continua a obra de ampliação do Estado sucial

O Dr. Montenegro está a mostrar-se um sucessor à altura do Dr. Costa que recebeu 655 mil funcionários públicos do “neoliberalismo” (que, por sua vez, herdou 730 mil do socialismo socrático) e aumentou esses efectivos para mais de 740 mil. O Dr. Montenegro está a continuar a expansão e só no primeiro trimestre deste ano acrescentou mais uns milhares ao pletórico aparelho atingindo 767 mil utentes da vaca marsupial pública.

O Estado sucial-pulicial

O consenso no seio do governo sobre o aumento dos efectivos policiais não podia ser mais completo. Já sabíamos que o Dr. Luís Neves atribuiu o desgoverno das polícias e a incompetência das respectivas chefias à falta de efectivos, falta que deve ser dos poucos problemas que as polícias portuguesas não têm (cfr. a série de posts Vivemos num estado policial?). Ficámos agora a saber que o próprio Dr. Montenegro prometeu aos autarcas alfacinhas e tripeiros mais 400 polícias e o comandante-geral da GNR já anunciou que vai exigir 1.800 militares para a reactivação da Brigada de Trânsito extinta em 2007 para optimização de meios e eficiência administrativa. 

O Estado sucial já está no futuro

Todas as projecções confiáveis apontam para a insustentabilidade do sistema português de Segurança Social dentro de uma dúzia de anos, isto é, por volta de 2038 as contribuições deixam de ser suficientes para cobrir as despesas com pensões e, a partir daí, outra meia dúzia de anos depois, o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social poderá ficar esgotado. 

Com a Caixa Geral de Aposentações (CGA) – a segurança social dos funcionários públicos – não será preciso esperar tanto tempo. As despesas com pensões pagas pela CGA. que cresceu mais de 7% o ano passado (fonte Conta Geral do Estado), vão exigir que os montantes transferidos do OE, que em 2024 já foram superiores a 7 mil milhões de euros, terão de ser uma vez mais aumentados.

A prioridade do governo é antecipar a insustentabilidade da SS

É nesse contexto que ganham sentido as promessas do ministro das Finanças que, parecendo ter mais juízo do que o Dr. Matias, afinal talvez não tenha, ao prometer um novo bónus das pensões este ano «se houver margem orçamental», fazendo depender da gestão de tesouraria a antecipação de um longo prazo insustentável.

O Dr. Matias e a IA

Na falta de reformas com impacto efectivo na máquina burocrática do Estado sucial com os seus referidos 767 mil utentes, que consome 43% do que o país produz, dos quais mais de 86% são despesa primária, o Dr. Matias, ministro Adjunto e da Reforma do Estado, esfalfa-se a falar dia sim, dia sim na IA, que para ele parece cada vez mais consistir na construção de centros de dados para consumir resmas de MW produzidos por resmas de painéis solares fabricados na China que alimentam resmas de processadores desenhados nos EUA e fabricados em Taiwan para armazenar resmas de dados europeus. É um desperdício de inteligência natural.

A Inteligência Artificial de Sines não é ficção científica, é apenas ficção

Se não fosse a retórica do Dr. Matias não ter aparentemente limites, diria que teria atingido o ápice com a sua grandiloquente afirmação numa qualquer das inúmeras conferências onde derrama as suas visões de que «hoje Sines é um polo tecnológico de ponta. Hoje já é produzida Inteligência Artificial em Sines, não é ficção científica».

(Continua)

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