Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

28/07/2017

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (LXIV)

Outros purgatórios a caminho dos infernos.

Este é o 64.º post de uma longa série iniciada em Janeiro de 2015 que começava assim: E será um purgatório se o novo governo Syriza-Gregos Independentes retiver apenas a retórica e deixar cair o seu programa. Será um inferno se o não fizer.

Tem sido um purgatório. O governo deixou cair o seu programa e até Tsipras evoluiu para uma retórica diferente: a retórica do social-democrata.

Não surpreende assim que, finalmente pela primeira vez em três anos, a Grécia se tenha financiado no mercado, tendo conseguido colocar três mil milhões de euros a cinco anos com um yield de 4,625% e uma procura superior ao dobro da emissão. O FMI já anunciou um novo empréstimo de 1,6 mil milhões na condição de haver algum haircut (simbólico), a CE/BCE já adiantou parte de uma tranche de 8,5 mil milhões e a CE já recomendou a saída do Procedimento por Défice Excessivo.

O que mostra este caminho seguido pelo governo «revolucionário» Syriza-Anel? O falhanço das políticas esquerdistas que Costa tanto parecia admirar quando por essa altura dizia «Vitória do Syriza é um sinal de mudança que dá força para seguir a mesma linha».

Costa e Tsipras têm assim em comum terem conseguido sobreviver fazendo o contrário do que prometeram e de diferente o facto de se poder ter dúvidas da sinceridade de Tsipras ao dizer ao Guardian «nobody will say we are corrupt or dishonourable or have had our hand in the honey pot» e não se ter dúvidas sobre a falta de sinceridade se a mesma coisa tivesse sido dita por Costa.

Pro memoria (351) - A obra feita de Costa nos incêndios florestais (2)

[Continuação de (1)]

«António Costa, que defendeu abertamente esta “lei da rolha”, tem de facto razões para estar preocupado, pois deixou rasto em muitas das decisões que estão a condicionar negativamente o que se está a passar com as nossas florestas. Recordemos algumas delas:
  • Foi de António Costa, como ministro da Administração Interna, a decisão de apostar tudo num sistema de combate aos incêndios focado em extinguir rapidamente as ignições e que desvalorizou a reforma da floresta. É essa opção que, neste ano quente e de imensa acumulação de combustível nas matas, mostra não ser capaz de evitar tragédia atrás de tragédia.
  • Foi também de António Costa a decisão de manter o contrato com o SIRESP, o sistema de comunicações que está sempre a falhar, tendo-se limitado a renegociá-lo para lhe retirar valências que hoje fazem imensa falta.
  • Foi ainda de António Costa a decisão política, como primeiro-ministro, de promover a aprovação de um pacote legislativo para a floresta que é duramente criticado tanto pelos especialistas em florestas e em fogos florestais, como pelos agentes económicos do sector. Costa, como já referi, preferiu fazer umas flores à esquerda, com o Bloco, para enganar o pagode, perdendo-se mais uma oportunidade de tomar as medidas que têm de ser tomadas.
  • Foi com António Costa que ascendeu a Presidente da Autoridade Nacional de Protecção Civil um coronel (antes esse lugar fora sempre ocupado por um oficial general) que tem como currículo ter quase sempre seguido Costa de perto: Joaquim Leitão foi em 2005 adjunto do gabinete do secretário de Estado da Administração Interna quando António Costa era ministro, em 2008 foi nomeado comandante do Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa pelo presidente da Câmara António Costa, em Janeiro de 2016, com o novel governo Costa, regressou ao Ministério da Administração Interna, de novo como adjunto. É esse mesmo Joaquim Leitão que hoje preside ao caos notado no combate a tantos e tantos incêndios, tal como preside à “lei da rolha”.
  • Foi com este governo de António Costa que o MAI nomeou 30 chefias da Protecção Civil 74 dias antes da tragédia de Pedrógão, sendo que um dos novos nomeados, o 2.º comandante de Leiria, foi quem dirigiu as operações no terreno durante o fogo de Pedrógão Grande das 19h55 às 22h do dia 17 de Junho, isto é, no período em que ocorreu a maioria das mortes. Trata-se de Mário Cerol, um advogado, comandante dos bombeiros de Alcobaça e, vejam lá, antigo mandatário de uma candidatura do PS a esse município.
  • António Costa estava ao lado de Rui Esteves, o comandante operacional da ANPC nomeado pelo seu governo, quando, na noite de sábado para domingo no incêndio de Pedrógão Grande, este declarou que os meios envolvidos no combate àquele fogo eram “claramente” os adequados e que a sua determinação era extinguir o incêndio nessa mesma noite ou no domingo – o incêndio levaria cinco dias a ser extinto. Agora, foi esse mesmo Rui Esteves que, a partir de Proença-a-Nova (que fica no seu distrito de origem, Castelo Branco), dirigiu no terreno o combate ao incêndio de Mação, tendo de responder às queixas já verbalizadas pelos autarcas deste município sobre as opções que tomou.»
Se isto é um primeiro-ministro, José Manuel Fernandes no Observador

«Face a uma catástrofe, tudo aquilo de que Costa é capaz é de recorrer a toda a espécie de malabarismos que lhe granjearam a dúbia fama de político excepcionalmente habilidoso. Só que, confrontado com uma realidade não moldável aos exercícios circenses a que nos habituou e que tanta admiração provocam nos aficionados da política, a tal habilidade revelou-se aquilo que na sua essência radicalmente é: um puro jogo destinado a preservar o poder sem qualquer princípio que respeite verdadeiramente ao bem público. Quer dizer: uma coisa oca produzida pelo vazio.

António Costa minguou aos olhos de todos – e minguou também aos seus próprios olhos, por mais que tente disfarçar este aspecto das coisas. A sua percepção da realidade tenta adaptar-se em vão àquilo para o qual se encontra radicalmente impreparado, já que a situação exige uma concepção da política muito diferente daquela que é a sua, restrita à sabedoria mundana de todos os truques e truquezinhos conducentes à ascensão ao poder e à sua manutenção.
(...)
Não tenho a mínima dúvida que Costa tem plena consciência que a sua reacção a toda a catástrofe dos fogos provou a sua incapacidade como homem de Estado para defender o bem público.»

Um homem muito perigoso, Paulo Tunhas no Observador

Discordando de Paulo Tunhas, tenho as maiores dúvidas que Costa tenha essa plena consciência. Porque o Estado para Costa é apenas um trampolim, porque o bem público para Costa consiste no bem da sua tribo socialista e porque Costa pertence àquele género de pessoas com as quais se poderia fazer um excelentíssimo negócio: comprá-lo pelo preço do que ele vale e vendê-lo pelo preço do que pensa valer.

27/07/2017

Pro memoria (350) - O poder corrompe e a aparência dele amolece e desvenda a hipocrisia

«No Verão de 2015, ainda com Passos Coelho no Governo, o Bloco convocou uma conferência de imprensa para dizer que "a incompetência do Governo não pode encontrar justificação na meteorologia” e que “compete a um Estado competente colocar um dispositivo no terreno que permita contrariar os efeitos, tanto ao nível do ataque direto como da prevenção”. E agora?

Creio que o que dissemos na altura tem estado a par do que dizemos na actualidade. Agora, creio que nenhum de nós pode negar que estamos a assistir a algo que manifestamente não tem apanhado o país preparado. As alterações climáticas deixaram de ser matéria de disputa científica, o país está numa seca severa e claramente não temos um país devidamente estruturado para responder a estas circunstâncias. Se há responsabilidades de governos, há, de muitos governos. Infelizmente tínhamos alertado para a necessidade de preparar o país para as alterações climáticas, quer no que toca ao ordenamento quer à limitação de espécies, e de ter uma forma de pensar a Protecção Civil garantindo que isso representasse um aumento da capacidade no terreno. Mas percebemos que, anos depois, estes alertas não tiveram consequência. E que agora estamos a ser confrontados com uma realidade difícil.»

(Entrevista do Público a Pedro Filipe Soares, o líder parlamentar do BE) 

Com a proximidade ao poder e a ilusão do poder, o berloquismo perdeu a frescura, manteve a falta de maturidade e sucumbiu à hipocrisia e à língua de trapos do politiquês. Pior é difícil.

CASE STUDY: Há incêndios e incêndios, há florestas e florestas e há respostas e respostas

Isotérmicas em Julho (fonte)
No sudeste da França em dois dias arderam 7 mil hectares, os incêndios foram combatidos por 4 mil homens, foram deslocadas 10 mil pessoas e não houve vítimas. Em Pedrógão Grande arderam 30 mil hectares num incêndio combatido por 1.600 homens, foi deslocado um pequeno número de pessoas e houve um número não inferior a 65 mortos.

Nas duas regiões as temperaturas médias em Julho são semelhantes (ver mapa à direita) e a composição da floresta é diferente: em Pedrógão Grande predomina o pinheiro e eucalipto e nas zonas do sudeste da França predomina o carvalho e o mato (maquis) muito combustível. O que é verdadeiramente diferente é a capacidade de resposta dos Estados português e francês.

26/07/2017

Dúvidas (202) – Quem é realmente Alexis Tsipras? (3)

[Continuação de (1) e (2)]

Há dois anos perguntava-se José Manuel Fernandes a respeito das cambalhotas de Alexis Tsipras, o tribuno esquerdista do Syriza arvorado em primeiro-ministro da Grécia, «Um génio ou um desastrado? Um reformista radical ou um revolucionário dissimulado? Um estadista ou um populista?» 

Nessa altura, respondeu JMF às suas próprias interrogações: «o meu instinto inclina-se mais para que é um radical a caminho da social-democracia».

Também por essa altura, Alexis Papachelas admitia ironicamente no ekathimerini.com que Tsipras parecia um neoliberal ao justificar no parlamento a aprovação das medidas do 3.º resgate. Hugo Dixon admitia no Politico: «Alexis Tsipras is either a liar or a resident of Lalaland», Alexis Tsipras ou é um mentiroso ou um lunático e eu mantinha a questão em aberto.

O tempo parece mostrar que o instinto de JMF estava certo. Leia-se esta entrevista de Tsipras ao Guardian e registe-se a humildade, realismo e flexibilidade que um social-democrata não renegaria:

Humildade
«When I came into this office, I had no experience, or sense, of how big the day-to-day difficulties would be,”  I have made mistakes … big mistakes»

Realismo
A respeito dos planos de Varoufakis para adoptar uma moeda própria: «when we got to the point of reading what he presented as his plan B it was so vague, it wasn’t worth the trouble of even talking about. It was simply weak and ineffective.»
A respeito da saída da UE: «Leave Europe and go where … to another galaxy?” he quips. “Greece is an integral part of Europe. Without it, what would Europe look like? It would lose an important part of its history and its heritage.»
“If you go out into the street and ask about this government, many might say ‘liars’, but nobody will say we are corrupt or dishonourable or have had our hand in the honey pot.»

Flexibilidade negocial
«All this time we have been in continual negotiation and continual quest for compromise between our programme and the memorandum [of bailout conditions]»

25/07/2017

Curtas e grossas (48) - Não são de direita (parecem mais de esquerda). São betinhos

Os betinhos de Loures anunciando a derrota antecipada (*)
«Quando, na semana passada, Assunção Cristas reuniu a Comissão Política do CDS para retirar o apoio a André Ventura e, desta forma, por termo à coligação com o PSD naquela autarquia, Pedro Pestana Bastos aplaudiu e ofereceu-se para ser candidato, caso fosse preciso. (...) E põe a fasquia alta: “Ter menos votos do que o PSD será uma derrota. O que aqui está em causa é o modelo de direita que queremos para o país”, diz ao Expresso»

O modelo de direita? Qual modelo? Qual direita? A direita que mete a cabeça na areia, nega a realidade e se borra de medo de contrariar a vulgata do pensamento único?

(*) Inspirado no analista Vasco Pulido Valente que há uns anos, depois de ter falhado estrondosamente uma previsão, despromoveu-se a comentador, garanto que se a minha profecia não se confirmar farei o mesmo. (Não sou analista nem quero ser comentador, mas a intenção é que conta.)

CASE STUDY: «A única função das previsões económicas é tornar respeitável a astrologia» (2)

Continuação de (1)

The Econonist
O FMI tem falhado por excesso as previsões de crescimento do PIB mundial, revendo-as quase sempre em baixa. Sublinho: a nível mundial, onde os erros das previsões nacionais se compensam parcialmente. A nível nacional as previsões têm sido um desastre. Estamos agora numa fase singular em que as previsões estão a ser revistas em alta devido à sincronia das economias americana, chinesa e europeia.

24/07/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (93)

Outras avarias da geringonça.

Mostrando o seu apreço pelo direito dos eleitores à informação, o governo de Costa proibiu comandantes dos bombeiros de dar informações sobre os fogos. Porquê? Porque os incêndios que mais preocupam o governo não são os das florestas são os dos mídia, como o número de mortos de Pedrógão Grande.

Mostrando o seu apreço pela verdade, o governo de Costa colocou em segredo de justiça a lista dos nomes dos falecidos no incêndio de Pedrógão Grande. A arbitrariedade e propósito absurdo de tal segredo, os hábitos de Costa e vários indícios (entre eles o respeitador semanário de reverência Expresso que dá uma no cravo dos factos e outra na ferradura do governo) tornam provável ser o número de mortos superior ao anunciado pelo governo, como indicia esta investigação privada. A ser assim, é muito provável que a mistificação do governo se venha a refugiar na exclusão das mortes indirectas, o que escreve Poiares Maduro seria como «se o governo britânico dissesse que as pessoas que morreram ao saltar da torre em chamas no recente incêndio em Londres não eram vítimas do mesmo pois não morreram vítimas de inalação ou queimaduras...»

Exemplos do costume (52) - Os caciques

Passos Coelho será tudo menos um santo, mas pelo menos desta vez está inocente das manobras de «mobilização artificial de militantes nas eleições internas partidárias» para o PSD Lisboa, em benefício do beato Nuno Morais Sarmento devidamente patrocinado por santa Manuela Ferreira Leite, manobras que o Observador documentou.

Tão revelador como a reportagem do Observador é o facto de apenas o Expresso (citando a SIC) lhe ter feito referência. Guess why. Adivinhe não porquê o Expresso (deve ter sido acidente), mas porquê nenhum dos outros jornais. Imagine-se o clamor indignado dos pandeiretas do jornalismo de causas se essa mobilização tivesse sido em benefício da facção de Passos Coelho...

Os ingénuos que imaginam que este tipo de manobras se circunscreve a facções do PSD, desiludam-se. Recomenda-se vivamente a leitura de «Os predadores», já aqui citado a propósito de «A rede da agência de empregos no município» montada por Costa em Lisboa, da autoria de Vítor Matos, não por acaso um dos jornalistas que subscreve a peça do Observador.

23/07/2017

DIÁRIO DE BORDO: Não há pachorra para a brigada do pensamento único

A pretexto das entrevistas do Expresso a Gentil Martins, um médico notável, e do Jornal i a André Ventura, o candidato PSD/CDS à câmara de Loures, o universo mediático foi atravessado por ondas de indignação provenientes dos círculos do politicamente correcto e de outras correntes esquerdistas fazendo o papel dos novos polícias do pensamento único. A que pretexto? Porque o primeiro classificou a homossexualidade como «anomalia» (bem-vindo ao clube) e o segundo porque se referiu indirectamente e no contexto do concelho de Loures à «etnia cigana» como sendo um dos grupos que «vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado (e) acharem que estão acima das regras do Estado de direito».

Os polícias do pensamento reagiram prontamente exigindo procedimentos disciplinares e queixas-crime contra as duas criaturas tresmalhadas do pensamento único. Não vou efabular sobre a «ciência» da homossexualidade ou as demonstrações factuais de que os ciganos de Loures são «quase exclusivamente» como os caracteriza André Ventura, embora considere que uma e outra opiniões mereceriam uma análise e discussão sérias. Também não vou discutir a forma como essas opiniões foram expressas que é obviamente discutível.

Tão pouco vou apontar, outra vez, o dedo aos polícias do pensamento único todos eles grandes defensores em abstracto da liberdade de expressão e em concreto da liberdade de expressão das ideias conformes à sua vulgata. Vou apenas salientar um argumento sofista, particularmente repugnante, tratando-se de gente ilustrada.

O argumento consiste na tentativa de reverter a acusação que lhes é feita de polícias do pensamento único vitimizando-se por serem criticados, de onde, segundo a sua lógica, isso significaria que os «homofóbicos» e os «racistas» são intolerantes e não suportam as críticas. Ora acontece, que se saiba, nenhum «homofóbico» ou «racista» apresentou ou ameaçou apresentar, queixa-crime ou exigiu procedimento disciplinar contra um qualquer polícia do pensamento único. Há também nesta matéria uma divisão profunda entre os que combatem o que entendem ser ideias erradas com argumentos melhores ou piores e os polícias do pensamento único que pretendem calar os que eles rotulam de «homofóbicos» e de «racistas».

Como escrevi há dias, uma coisa é contraditar os desatinos, outra é tentar calar os desatinados. É esta a grande diferença entre quem defende a liberdade e quem a usa para calar a desconformidade. E, a propósito, recomendo vivamente a leitura de «A ditadura da ideologia de género» de Bernardo Sacadura no Observador.

22/07/2017

ACREDITE SE QUISER: Myselfie, himselfie, yourselfie, ourselfies, themselfies

Alguns psicólogos explicam a obsessão pelas selfies com a ocorrência de problemas de saúde mental, como o transtorno dismórfico corporal que se caracteriza por uma preocupação mórbida por um defeito real ou imaginário e comportamentos compulsivos que se desenvolvem em resposta a essas preocupações.

Nalguns casos esses comportamentos têm consequências no mundo real. Em 2015 morreram mais pessoas a tentarem fazer selfies perfeitas do que de ataques de tubarão. Além dos praticantes da selfie também as obras de arte estão a sofrer consequências. Alguns exemplos (fonte: The Economist Espresso):
  • Em 2014, um estudante italiano destruiu uma estátua do início do século XIX, ao subir ao seu colo para disparar uma selfie; 
  • Um americano ficou preso numa escultura representando uma vagina de 32 toneladas de Fernando de la Jara e teve que ser libertado por 22 bombeiros;
  • A semana passada em Los Angeles, uma mulher tentando a selfie perfeita derrubou uma fila de esculturas de Simon Birch causando 200 mil dólares de danos. 
A estes casos podemos acrescentar o do visitante do Museu Nacional de Arte Antiga que em Novembro do ano passado derrubou um São Miguel do séc. XVIII. Também poderíamos acrescentar o caso do presidente dos afectos que com milhares de selfies um pouco por todo o lado tem contribuído para o presente estado de euforia (tecnicamente um episódio maníaco) a que se seguirá, como habitualmente, uma profunda depressão, salpicada com surtos de indignação.

21/07/2017

Lost in translation (294) - O socialês de Costa em português corrente

Colidindo no Funchal com uma manif de «lesados do Banif», entre outras engraxadelas aos manifestantes, Costa sacou da sua demagogia de bolso e disparou:
«Há vontade política de responder a uma situação gravíssima, que é um conjunto de pessoas honestas que fizeram confiança num sistema que as aldrabou, como é evidente.»
Como se pode traduzir isto em português corrente sem filtros? Talvez assim:
O governo vai tentar sacar aos contribuintes que não foram tolos mais impostos para compensar os outros contribuintes que aplicaram dinheiro em produtos financeiros obscuros que não percebiam, vendidos por um banco zombie cujo accionista maioritário já falecido era um emérito simpatizante do Partido Socialista, outros contribuintes que confiaram num sistema do qual o Partido Socialista foi o fundador e sustentáculo principal, promovendo a maior promiscuidade entre a banca e a política.

CASE STUDY: Câmara de Lisboa – a obra feita de Costa, Medina & Salgado

Estão em curso no DIAP (Departamento de Investigação e Acção Penal) inquéritos sobre aprovações durante os mandatos de Costa e Medina, com Manuel Salgado como vereador do Urbanismo: a construção da Torre das Picoas e as obras de ampliação do Hospital da Luz (na altura pertencia ao GES, presidido por Ricardo Salgado, primo do vereador).

A esses casos juntam-se outros como a construção de um edifício de escritórios de 17 andares nas Picoas inicialmente aprovado apenas para 7 andares, num terreno de uma empresa ligada ao BES.
E outras batotices como a transferência da gestão de vários edifícios da câmara para a Associação de Turismo de Lisboa (ATL) para fintar o escrutínio da oposição, da Assembleia Municipal e do Tribunal de Contas.

(Leia aqui uma descrição mais extensa da obra feita)

ACREDITE SE QUISER: Babel no Pacífico

«Papua New Guinea: Speaking in tongues

India, with 22 official languages, is often considered the world’s most linguistically diverse place. In fact that prize goes to Papua New Guinea, a country of just 7.6m. Its 850-odd languages have between a few dozen and 650,000 speakers. The reasons for this variety are topography, which keeps villages isolated; a largely rural population; and fierce tribal divisions. But the growth of Tok Pisin, a creole, is threatening smaller languages.»

(The Economist Espresso)

20/07/2017

Chávez & Chávez, Sucessores (59) - Pajarito amigo, el pueblo de la jerigonza está contigo

Outras obras do chávismo.

Há dois anos que o pajarito não aparece a Maduro

Portugal, único país de la UE que descarta las sanciones a Venezuela
«Un informe de la delegación de la UE en Caracas apunta que 27 de los 28 Estados miembros están abiertos a dicha posibilidad» (El País)

Sem surpresa, o governo, pela boca do MNE que gosta de malhar na direita e acaricia a esquerda, nega que tenham sido discutidas sanções (nega algo que El País não afirma) (*) e diz que o governo «favorece uma solução política inclusiva na Venezuela». Não explica se a solução política inclusiva inclui Maduro, a nomenclatura e as milícias chávistas.

Também sem surpresa, o presidente Marcelo defende «o diálogo, um diálogo genuíno, um diálogo aberto, um diálogo sem condições, entre todos». Com muito afecto, poderia acrescentar.

(Fonte para a inclusão e o diálogo: a RTP)

(*) Actualização:
«MNE reagiu à notícia do El País para dizer que sanções à Venezuela não foram discutidas por ministros da UE. Mas a chefe da diplomacia europeia admitiu, no início da semana, que o tema foi abordado». (Observador)
Apanha-se mais depressa um coxo do que um mentiroso se o mentiroso tiver boa imprensa.

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (41) - Não há nem haverá crise, garantiu

Outras preces.

Encarnando um híbrido de Zandinga e de um professor de economia da Mouse School of Economics, Marcelo Rebelo de Sousa informou durante a sua visita ao México que «todas as análises de crise e todas as decisões sobre a crise passam pelo Presidente da República», e garantiu urbi et orbi que «não haverá razões institucionais que limitem a capacidade de crescimento», acrescentando «quando eu digo não haverá, não haverá».

O Marcelo de que estamos a falar é o mesmo Marcelo que uns meses antes de ser entronizado presidente do PSD também garantiu que «só se Cristo descer à terra» se candidataria. O mesmo Marcelo que garantiu ter havido o célebre jantar com Paulo Portas com vichyssoise de entrada. O mesmo que implicitou no início do mandato que só cumpriria o primeiro e está a fazer tudo para assegurar o segundo. O mesmo que garantiu a Isabel II que, com oito anos de idade, filho de um ministro de Salazar, estava na primeira fila da plebe que na Praça do Comércio a viu passar na visita a Lisboa em 1957. O mesmo que ainda garantiu a Isabel II ter-se encontrado com ela em 1985 como «líder da oposição». O mesmo a quem o «Presidente da República Federativa do Brasil, (...) pediu para ser recebido» mas não apareceu. O mesmo que em pleno incêndio de Pedrógão Grande garantiu que «tudo está a ser feito com critério e organização», para poucos dias depois garantir que se iria «apurar tudo, mas mesmo tudo, o que houver a apurar». Ainda o mesmo Marcelo que depois de ter minimizado o desaparecimento de munições em Tancos, veio dias depois defender «uma investigação que apure tudo, factos e responsabilidades». Ah!, já quase esquecia, o mesmo que garante que «não haverá razões institucionais que limitem a capacidade de crescimento».

É certo que a última e definitiva garantia «quando eu digo não haverá, não haverá» ultrapassa tudo o que a musa antiga canta, mas é compreensível que o presidente Marcelo se tenha ultrapassado a si próprio se porventura tiver circulado na auto-estrada mexicana daquela estória que também não sabemos se é verdadeira.

19/07/2017

Tiro (póstumo) nos pés de Teixeira dos Santos

Há 7 anos, um ano antes da chegada da brigada da troika, passaram pelo radar do (Im)pertinências dois artigos do NYT que então comentei neste post e agora transcrevo parcialmente:

«... fora do país e dos meios que têm um interesse directo em desvalorizar o risco de bancarrota portuguesa, o resto do mundo ou não presta atenção ou partilha quase sempre a antevisão duma tragédia grega. Num único dia, o NY Times, um bastião do politicamente correcto, insuspeito de antipatia pela causa da irresponsabilidade financeira, publicou dois artigos de muito mau augúrio para a economia e finanças públicas portuguesas: «Debt Worries Shift to Portugal, Spurred by Rising Bond Rates», de Landon Thomas e «The Next Global Problem: Portugal de Peter Boone e Simon Johnson, este último ex-economista chefe do FMI.

(...) A gravidade da situação de endividamento neste contexto é salientada pelo segundo artigo que estima que a uma taxa de juro optimista de 5% e com um défice primário de 5,2%, Portugal precisaria um agravamento fiscal de 10% o qual, sem uma impossível correcção monetária na Zona Euro, conduziria a um emprego socialmente devastador.»

Instruída por Teixeira dos Santos, a CMVM acusou então Boone, o primeiro autor do segundo artigo citado, de especular com a dívida pública portuguesa para obter mais-valias, uma vez que estava ligado à gestora de fundos Salute Capital Management. Foi então acusado pelo Ministério Público e, após vários anos a chocar a decisão, recentemente o tribunal ilibou-o sem julgamento. (Negócios)

Depois da decisão do tribunal, Peter Boone anunciou que iria processar o Estado português considerando que «foi uma caça às bruxas iniciada por uma declaração pública do antigo ministro das Finanças, professor Fernando Teixeira dos Santos, que se sentiu ofendido por eu ter questionado algumas das más decisões económicas que ele e os seus pares estavam a prosseguir». That's it!

Manifestações de paranóia/esquizofrenia (22) - O berloquismo como pensamento paranóico/esquizofrénico totalitário

Em entrevista ao SOL, André Ventura, candidato à câmara de Loures pelo PSD, em resposta à pergunta «Recentemente disse que somos demasiado “tolerantes com algumas minorias”. De que minorias falava?», disse:

«Vou-lhe ser muito direto: eu acho, e Loures tem sentido esse problema, que estamos aqui a falar particularmente da etnia cigana. É verdade que em Loures há mais, com uma multiculturalidade grande, mas em Portugal temos uma cultura com dois tipos de coisas preocupantes: uma é haver grupos que, em termos de composição de rendimento, vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado, outra é acharem que estão acima das regras do Estado de direito.»

Afinal a etnia cigana existe ou não? Vive quase exclusivamente de subsídios ou não? São perguntas que um adulto mentalmente equilibrado poderia fazer. Outro poderia contra-argumentar suportado em palpites, factos ou estatísticas ou o que lhe desse na realíssima gana.

O que fez a candidatura do Bloco de Esquerda à Câmara Municipal de Loures? «Apresentou, esta segunda-feira, uma queixa-crime ao Ministério Público e à Ordem dos Advogados contra o candidato do PSD/CDS-PP/PPM, devido a referências discriminatórias dirigidas à comunidade cigana.»

Alguns comentadores encartados, como Daniel Oliveira, arremessam-nos o sofisma de quem critica o politicamente correcto não aceita a liberdade de expressão e o contraditório. Se ele não consegue melhor argumento, seria melhor reformar-se da comentadoria. Não me dei conta de alguém apresentar, ou sequer ameaçar apresentar, queixa-crime contra um qualquer de entre a multidão de imbecis que promove as causas mais absurdas do portfólio de qualquer esquerdista vulgaris. Uma coisa é contraditar os desatinos, outra é tentar calar os desatinados.

De resto não adiantaria apresentar queixa-crime ao Ministério Público contra os berloquistas por querem calar os refractários ao pensamento único acusando-os de delitos de opinião. Os herdeiros de variados ismos (marxismo, bolchevismo, leninismo, esquerdismo infantil, marxismo-leninismo, trotskismo, estalinismo, luxemburguismo, maoismo et alia) e actuais representantes do esquerdismo senil são inimputáveis.

18/07/2017

Pro memoria (349) - Como um incêndio bastou para expor a falência de Marcelo, Costa & Geringonça, Lda.

«Passou o primeiro mês. Quase tão impressionante como a nossa capacidade de ainda nos chocarmos com o grande fogo do Pinhal Interior, é a incapacidade de conseguir respostas claras a perguntas simples sobre uma tragédia que matou 64 pessoas. Já passámos a idade da inocência, quando o Presidente da República dizia que “não era possível fazer mais” e o diretor-nacional da Polícia Judiciária apontava para a árvore onde caiu o raio fatal que ninguém viu, ninguém ouviu e nenhum satélite ou computador registou. Hoje não há dúvidas de que era possível ter-se feito muito mais, muito melhor. Até Marcelo já admitiu, em declarações à SIC, que o Estado falhou. As fragilidades ficaram à vista.

Já não há dúvidas sobre as falhas do SIRESP, ou sobre a fragilidade da estrutura operacional da Proteção Civil, cujos comandos distritais foram mudados dois meses antes dos fogos. O facto é que boa parte do que se sabe, só se sabe olhando para lá da cortina de fumo das explicações oficiais. O que se sabe não chega. É de uma fragilidade inadmissível.

Ontem à noite houve telejornais em direto de Pedrógão Grande, e lá ao longe via-se o fumo de novos incêndios, agora em Oleiros. E em Mangualde. E na Guarda. E em Alijó. E em Vila Nova de Foz Côa. Ao final da tarde de ontem, o presidente da câmara de Alijó afirmava que o fogo estava fora de controlo e acrescentou um apelo que mostra bem o que se passa no terreno: "Alguém que perceba de combate a incêndios tem de nos vir ajudar". Alijó declarou o estado de emergência municipal. Mangualde também. Casas, carros, animais, plantações e florestas foram devastados. A A25 chegou a estar cortada, mas esta manhã todas as vias cortadas estavam reabertas. No Público, Manuel Carvalho explica por que razão "o Governo não vai poder desvalorizar o incêndio de Alijó com a mesma negligência com que menorizou o assalto em Tancos".

O SIRESP, já se sabe, voltou a falhar - ou, na linguagem acética dos burocratas, "foram registadas algumas intermitências pontuais". António Costa, que foge de discutir o SIRESP como o diabo da cruz, voltou a apontar o dedo à PT/Altice, agora sem a nomear. É oficial: a empresa que era a festa do regime passou a besta do regime. “Fragilidade inadmissível”, disse o primeiro-ministro, sobre a rede da operadora de que deixou de ser cliente. Costa, que sabe o que fez quando era Ministro da Administração Interna, também sabe que a melhor defesa é o ataque: “Numa zona de grande densidade florestal, onde há elevado risco de incêndio, o sistema de comunicações de uma determinada companhia, que não vou dizer o nome para não me criticarem, assentar em cabos aéreos, e nessa rede circular não só a comunicação normal como a de emergência, expõe obviamente essa rede a uma fragilidade inadmissível”, disse. Não há como discordar. Infelizmente, esta evidência não ocorreu ao ministro que em 2006 adjudicou uma rede de comunicações de emergência a um consórcio que era servido por esta “companhia” que em zonas de “grande densidade florestal” estava dependente de “cabos aéreos”...»

Expresso Curto de hoje mostrando uma infrequente independência

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Os outros jogam ténis, Roger Federer respira

La souplesse elle-même
«A  diferença fundamental entre Roger Federer e os outros jogadores do planeta não é a mais evidente, ou seja, o facto de ele ganhar a maioria das vezes. Isso é um corolário, talvez uma coincidência, muitas vezes uma consequência lógica. A diferença real entre ele e outros, como todo mundo sabe, é que os outros jogam ténis, enquanto ele faz algo que tem mais a ver com a respiração, ou com o voo de aves migratórias, ou com a força renovada do vento de manhã. Algo escrito há algum tempo - inevitável -  no curso das coisas. Algo natural. Por acidente, Federer tem uma raquete na mão, mas, ao vê-lo jogar, muitas vezes esquece-se que isso é uma raquete e acaba por se acreditar que é uma espécie de pinça que os seres humanos tinham na origem, e que mais tarde nós perdemos porque é óbvio que era inadequada para a luta pela sobrevivência. Todos nós a perdemos, excepto ele, que, por razões obscuras (o carácter isolado da Suíça deve ter a ver com isso), emergiu ileso de séculos de mutação genética.»

Alessandro Baricco (de La Repubblica) em El País