Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

01/09/2012

DIÁRIO DE BORDO: Grande Saltitão contra Grande Parlapatão

Um Romney flip-flopper, mesmo aditivado com um Ryan, arrisca-se a não conseguir mobilizar todo o potencial eleitorado republicano e, ainda mais dificilmente, o eleitorado independente para conseguir derrotar o Grande Parlapatão. Por isso, muito provavelmente Michelle Obama ficará mais 4 anos a tratar dos legumes na sua horta da Casa Branca.

Para 2016, o GOP já tem um bom candidato. Condoleeza Rice no seu discurso na Convenção Republicana colocou-se sobre os tacos de partida.
«And on a personal note– a little girl grows up in Jim Crow Birmingham – the most segregated big city in America - her parents can’t take her to a movie theater or a restaurant – but they make her believe that even though she can’t have a hamburger at the Woolworth’s lunch counter – she can be President of the United States and she becomes the Secretary of State.»

31/08/2012

Há 20 anos seria massacre, atrocidades

Se há 20 anos a polícia sul-africana respondesse a protestos violentos de mineiros negros disparando rajadas de metralhadora e matando 34 deles, como seria classificada essa acção? Muito provavelmente de massacre, atrocidades, no meio de exaltadas indignações.

Se isso tivesse acontecido então, o que fariam as autoridades do apartheid em relação aos mineiros? Acusá-los-iam de homicídio dos seus colegas? Não sabemos. Sabemos apenas que é isso que farão as autoridades da África do Sul livre do apartheid.

ESTADO DE SÍTIO: A «negociata» da RTP

Segundo a respectiva comissão, os trabalhadores da RTP, em boa verdade os principais beneficiários desse conceito chamado «serviço público de televisão» que consiste numa programação igual aos canais privados, para pior, opõem-se à «negociata».

Não vou entrar em discussões filosóficas ou constitucionais sobre o tema RTP, vou apenas republicar alguns dados elementares sobre a «negociata» que seria para um «privado» comprar o paquiderme ou este ser-lhe concessionado.

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Aproveito para implorar aos beneficiários do serviço público de televisão o favor de não tratarem quem os escuta como atrasados mentais. Obrigado.

30/08/2012

Curtas e grossas (9)

«Mas quem anda um pouco esquecido até pode pensar que os nossos problemas só começaram com Sócrates ou Passos. Sem dúvida que os Drs. ou Engs. das licenciaturas modernas lusófonas que nos governam prestaram e prestam um péssimo serviço ao país, mas as profundas deficiências estruturais da economia e da democracia portuguesa não foram criadas por eles. Elas foram herdadas dos senhores professores doutores, dos Drs. ou Engs. das licenciaturas sérias da "Ivy League" portuguesa. Uma geração que desperdiçou os fundos estruturais para construir um estado onde enriqueceram, engordaram, expandiram o sector empresarial do Estado para acumular salários milionários, legalizaram o roubo com o nome de PPP (que agora aparecem a renegociar em nome do lado beneficiado), passaram ao sector privado para rentabilizar o tráfego de influências. Mais velhos, acumulam pensões pelo "grande" serviço público prestado e debitam moralidade nos noticiários das nove ou das dez (enquanto choram as pensões de miséria dos mais carenciados). Os jotinhas serão porventura maus. Mas os senhores doutores foram certamente muito mais daninhos.»

«Mitos de Verão: a incompetência não começou agora», Nuno Garoupa no negócio online

CASE STUDY: Brasil, o estado social tropical

Depois de 9 anos de governação do PT, primeiro comandado por Lula da Silva e depois pela «presidenta» Dilma Rousseff, o aparelho de estado brasileiro consolidou o seu peso mastodôntico e o tradicional dirigismo na economia. Não obstante, ou, melhor, por isso mesmo, em seguida a vários anos de forte crescimento, proporcionado pelas medidas dos governos de Fernando Henrique Cardoso e puxado pelas exportações de minerais e produtos agrícolas, a economia desacelerou para 2,7% o ano passado e estima-se que não atinja 2% este ano. Para um país com um crescimento demográfico superior a 1% e um PIB per capita de menos de USD 12 mil (PPC), com recursos minerais abundantes, incluindo enormes reservas de petróleo no pré-sal, reconheça-se que é um crescimento anémico. Consciente disso, o Banco Central irá provavelmente cortar uma vez mais taxa base para tentar espevitar a economia, expediente que num país com uma longa tradição de hiperinflação talvez não seja uma boa ideia - ainda hoje a inflação está acima dos 5%.

A única coisa que cresceu obvia e continuamente foi o Estado e a despesa pública. Apesar do número de funcionários públicos não ser muito elevado pelos padrões europeus, estima-se em 12% da população activa de 105 milhões (66% nos serviços e apenas 14% na indústria), a despesa com salários e pensões dos funcionários públicos ultrapassa 12% do PIB. Já hoje os salários dos funcionários públicos são o dobro do sector privado para funções comparáveis e crescem rapidamente puxados por constantes greves e exigências absurdas de aumentos múltiplos da inflação.

29/08/2012

Lost in translation (155) – Família é o que o notário quiser

Uma notária de Tupã no Estado de S. Paulo, no Brasil, formalizou em escritura pública uma união civil entre um homem e duas mulheres que há 3 anos partilhavam a casa, as despesas e as contas bancárias.

A notária esclareceu que a lei não impede uma «união poliafectiva» (poligamia, costumava a coisa chamar-se) e que «estamos apenas a reconhecer o que já existe, não estamos a inventar nada. Para o melhor e para o pior, isso não interessa, o facto é que o que considerávamos uma família antes não é necessariamente o que é hoje uma família».

Porque não ampliar «união poliafectiva» a qualquer número de pessoas e combinação de sexos: masculino, feminino, bi-sexo, sexo vagabundo? Ou mesmo «uniões poliafectivas» combinando humanos com animais? Não seria uma bela causa fracturante para o Bloco de Esquerda revitalizar as suas anémicas hostes após a saída do coordenador tele-evangélico? Aqui fica a sugestão.

SERVIÇO PÚBLICO: Podia ser muito pior (2)

Podia ser muito pior, mas está pior do que o mês passado. Como tem sido abundantemente referido pelos mídia e pela oposição (a distinção neste caso é pouco relevante), o défice derrapou pela enésima vez e o objectivo do PAEF só será atingido com a ajuda da Nossa Senhora de Fátima. Vejamos a conta consolidada até Julho.

28/08/2012

Temos um Estado com um defeito de Constituição

Qualquer que seja o modelo de solução para a RTP parece haver sempre constitucionalistas ou palpiteiros que defendem ser o modelo em causa inconstitucional. Não me admiro, porque os 296 artigos da constituição numa centena de páginas fazem o papel de um caderno de encargos do PREC e são o muro de Berlim de todas as corporações na manutenção dos seus direitos adquiridos.

Não me admiro, mas tenho dúvidas que a Constituição não autorize a concessão do serviço público de televisão (ver aqui uma boa argumentação nesse sentido). Seja como for, a extinção simples da RTP e do serviço público de televisão, o único modelo que faria mais sentido, é muito provavelmente inconstitucional.

Dúvida: depois do ruído ensurdecedor sobre a licenciatura à medida de Miguel Relvas, o silêncio recente tem alguma relação com o outro ruído ensurdecedor sobre a solução para a RTP que substituiu o primeiro?

A pobreza está de volta à Europa

Jan Zijderveld, presidente da Unilever, uma das maiores multinacionais de produtos de grande consumo, em entrevista ao Financial Times Deutschland admitiu que a sua empresa está a adaptar-se aos novos tempos de pobreza que a Europa espera e vai alterar a sua estratégia de produtos aproximando-a da estratégia nos países emergentes. Quem pretenda antecipar o que se vai passar na Europa é preferível prestar atenção a quem depende do realismo das suas previsões do que à retórica fantasista em europês.

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Professor Louçã chumba pela segunda vez em Rudimentos de Finanças

Secção George Orwell

Com poucos dias de intervalo o professor Louçã voltou a provar uma de duas coisas, ou ambas: a) é um rematado demagogo, sem o menor pingo de honestidade intelectual, para quem o rigor ou a verdade são indiferentes; b) é um rematado incompetente. Primeiro demonstrando que não sabe calcular os juros e agora demonstrando que não faz a menor ideia do que sejam custos e perdas, proveitos e ganhos e resultados, prejuízos ou lucros.

Comentando o modelo para a RTP, o insigne mestre, com a sua habitual linguagem colorida, acusou o governo de criar «um negócio pró menino e prá menina. Vai ser a primeira privatização na história de Portugal, em que a empresa que fica com o que é público não só não paga nada como vai receber».

E vai receber o quê? Segundo os termos com que a maioria dos jornais resumiu a lengalenga, coincidência que indicia o manipulado berloquista, «lucros na ordem dos 140 milhões de euros por ano com a taxa cobrada aos contribuintes», ou seja com a «Contribuição audiovisual» cobrada na factura de electricidade.

27/08/2012

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (63) - o que é hoje verdade pode ser mentira amanhã

Em Março de 2010 o ministro das Finanças Teixeira dos Santos do governo PS admitiu no parlamento a privatização da RTP dependendo de «um desequilíbrio financeiro significativo que recomenda primeiro a estabilização». (DN, citado pelo Insurgente).

Em Agosto de 2012 o secretário-geral do PS António José Seguro quis «ser muito claro: quando o PS for Governo voltará a existir um serviço público». (negócios online)

Como disse há muito anos um conhecido filósofo da bola, o que é hoje verdade pode ser mentira amanhã.

Um dia como os outros no serviço público de televisão

ESTADO DE SÍTIO: Depende do inquilino do Eliseu - se for Sarkozy chama-se exclusion, se for Hollande chama-se fermeté

20minutes.fr
«In 2010 the public targeting of Roma camps by Nicolas Sarkozy, the former French president, ran into virulent opposition from the left. However, as a Socialist government embarks on the same course, the reaction is more muted. Some are even arguing that it is all different now, citing the less racially incendiary rhetoric of Mr Hollande and Mr Valls and the abolition of quotas for repatriation. But the policy is essentially the same. And those on the left are surprisingly quiescent. Christiane Taubira, justice minister and a member of the Radical Party of the Left (PRG), demurred when asked to compare Mr Valls’s policies to Mr Sarkozy’s

«Liberté, égalité, fermeté?», Economist, Aug 18th 2012

26/08/2012

Pro memoria (63) – não basta estar na oposição, é preciso ter memória … e moral

Para quem admitia há 2 meses no parlamento que «o Governo assumiu uma meta, para a qual está a trabalhar … de cerca de 30 por cento de redução [dos custos das PPP e que espera] … até ao fim de vida dos contratos, uma redução entre 4 mil e 4,5 mil milhões de euros» ter conseguido até agora uma redução de 854 milhões e admitir implicitamente que a meta passou a ser mil milhões, não é caso para celebrações.

Não sendo caso para celebrações, não é também caso para ser o PS, a quem pertenceram os governos responsáveis por 90% das PPP, e provavelmente pela mesma proporção de rendas concedidas aos concessionários amigos, a dizê-lo.

Mais concorrência, precisa-se

Fonte: WSJ
Apesar da queda dos salários nos PIGS, em certos casos acima de 2 dígitos, a inflação continua a crescer face à Alemanha. Porquê? O resultado da baixa dos salários está a ser capturado pela falta de concorrência.

25/08/2012

CASE STUDY: Contra as inevitabilidades marchar, marchar (2)

Ao ler última catilinária semanal de Miguel Sousa Tavares no Acção Socialista Expresso, que as férias da criatura tornaram ainda mais indignada do que o habitual, recordei o que aqui escrevi há algum tempo sobre a psicose política, uma espécie de paranoia, que assalta os intelectuais de esquerda (o «esquerda» aqui talvez seja supérfluo) e os leva a negar a realidade e as suas «inevitabilidades» e a ficar reféns de teorias da conspiração que as suas mentes criam para explicar fenómenos cuja génese não compreendem e abominam.

Vejamos algumas passagens ilustrativas de «O fim das tréguas» que a pena torturada de MST produziu para nos demonstrar como o mundo está contra nós.

«Aparentemente, os mercados, as agências de notação, a srª Merkel, o Bundesbank, o FMI e os vários outros autores da farsa euro peia concertaram-se entre si para proporcionar aos devastados povos da periferia europeia um período de tréguas de que eles próprios também deviam precisar.

CASE STUDY: Um minotauro espera a PT no labirinto da Oi (6)

[Outras esperas do minotauro: (1), (2), (3), (4) e (5)]

Como temos vindo a prever em anteriores posts dedicados ao minotauro, é cada vez mais visível a realidade do barrete enfiado pela PT ao vender a Vivo, pagar um dividendo extraordinário aos accionistas e comprar a paquidérmica Oi infestada de parasitas (só Aspons serão milhares), tudo com a ajuda de José Sócrates, Lula da Silva, dos banqueiros do regime e de vários génios da gestão doméstica.

Depois da miséria dos resultados de 2011, continua a perder clientes num mercado em forte crescimento. No mês passado perdeu 110 mil contra 461 mil ganhos pela Vivo.

DIÁRIO DE BORDO: O melhor da arte urbana 2011 (30)


24/08/2012

A pergunta que se queria evitar

«"A conclusão é clara, os portugueses cumpriram e o Governo falhou, este Governo falhou em toda a linha, falhou perante a 'troika', estava obrigado a um défice de 4,5% e falhou, o Governo falhou perante os portugueses, pois exigiu enormes sacrifícios em troca de um défice de 4,5%", afirmou o secretário-nacional do PS João Ribeiro, numa declaração sem direito a perguntas na sede do PS em reacção aos dados da execução orçamental.» (Económico)

Teria o secretário-nacional do PS pretendido evitar a pergunta incómoda:
Como classificaria as falhas nos défices dos orçamentos dos governos de José Sócrates e Teixeira dos Santos, por exemplo o de 2009 que começou por ser de 2,2% e acabou em 10%?
(A este respeito, ver a nossa série de posts sobre o défice de memória)

A maldição da tabuada (12) – se não sabes fazer contas, não devias ser jornalista (II)

«Beneficiários de RSI vão poder ser forçados a trabalhar em troca de nada
Medida aprovada ontem em Conselho de Ministros prevê até 15 horas de trabalho semanal em instituições não lucrativas»
(Público via Blasfémias)

Os números:
  1. Um operário com o salário mínimo de 485 € trabalha 40 horas por semana, à razão de cerca de 3,03 € por hora;
  2. Um beneficiário do Rendimento Social de Inserção com um subsídio de 189,52 € passará a ter uma "actividade útil" até 15 horas por semana e não mais de seis horas por dia, à razão de no mínimo 3,16 € por hora.

DIÁRIO DE BORDO: Já tenho saudade


Já tenho saudade do tempo em que os EU eram o império do mal, antes da redenção pelo verbo de Santo Obama. Já tenho saudade do tempo em que a Europa tinha softpower e a Alemanha era nossa amiga, nós importávamos carros e eles contribuíam com 1/3 dos subsídios. Já tenho saudade do tempo em que as agências de rating ainda não tinha percebido que a Alemanha não garantia a nossa dívida e nos davam a notação A.

Agora tudo mudou. Guantamamo foi será fechado, logo que possível. O Afeganistão está estará em breve pacificado. Os taliban converteram-se um dia irão converter-se à democracia. O Irão persuadido pela silver tongue de Santo Obama abandonou o programa nuclear bélico garante que o programa nuclear bélico tem fins pacíficos. A Europa continua soft mas sem power.

Precisamos de dinheiro e de avalistas e a Alemanha já não é nossa amiga e nós em retaliação deixámos de importar continuamos a importar todos os carros que podemos com o pouco dinheiro que temos. As agências de rating perceberam que seremos nós a pagar as dívidas (se pagarmos) e dão-nos uma notação junk.

Foi só há 4 anos mas parece uma eternidade.