Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

21/11/2005

SERVIÇO PÚBLICO: a arrogância cultural do «humanismo» ignorante

A propósito dos arrotos humanistas do doutor Soares, leia-se esta prosa do economista (mais um «ignorante») Vítor Bento (no DE de 18):
«Arrogância cultural

”Eles abafam piedosamente o sorriso ao falarem de cientistas que nunca leram uma obra relevante da literatura inglesa. Descontam-nos como especialistas ignorantes. Contudo, a sua própria ignorância e a sua própria especialização são alarmantes. Por diversas vezes tenho estado presente em encontros de pessoas que, pelos padrões da cultura tradicional, são considerados muito cultos e que, com considerável prazer, têm expressado a sua incredulidade pela ignorância dos cientistas. Uma ou outra vez fui provocado e perguntei à minha companhia quantos deles conseguem descrever a Segunda Lei da Termodinâmica. A resposta foi fria e foi também negativa. Todavia, eu perguntei algo que pode ser o equivalente científico de: ‘Já leu uma obra de Shakespeare?’”
Charles Snow, ”The Two Cultures”

Existe nas sociedades modernas, uma perigosa segmentação cultural, que se tem vindo a agravar com a especialização do ensino, entre a formação com origem nas chamadas ”humanidades” e com origem nas ciências. Se se entender a cultura, muito simplesmente, ”como aquilo que torna a vida digna de ser vivida”, como admite T. S. Eliot (Notas para uma Definição de Cultura), uma equilibrada articulação entre diferentes actividades e diferentes áreas do saber é essencial para o sucesso cultural, e a sua ausência pode conduzir à desintegração cultural, conducente, ela própria, à desintegração social.
Os efeitos desta segmentação são, porém, agravados por um sentimento de arrogante superioridade moral muitas vezes demonstrado por alguns ”intelectuais literários”, que se consideram a si mesmos detentores da ”verdadeira cultura”, desvalorizando como mera tecnocracia os conhecimentos obtidos pelo estudo das ciências. Este sentimento, de raízes pré-modernas, tem atravessado praticamente toda a modernidade, alimentando recorrentes controvérsias, e carrega os sinais claros de uma expressa marca social que, entre outras manifestações, sobrepõe o pensamento à acção, as artes aos ofícios e o ”intelectual” ao ”manual”.
Este mesmo sentimento re-emergiu recentemente entre nós, para desvalorizar as qualificações científicas dos economistas para o desempenho de funções de representação política, contrapondo-lhe a superioridade dos ”conhecimentos literários” (ainda que por vezes não passem da especialização em generalidades). Mas sob o véu das diferenças culturais, o que esta linha argumentativa acaba por transportar é a ideia subliminar de uma aristocrática distinção social, insinuando que a origem patrícia assegura melhor preparação para o desempenho de funções políticas do que a origem plebeia.
O que mais surpreende nesta posição é que ela provenha de sectores de esquerda, provavelmente os mais afectados pela burguesa corrosão ”pós-modernista”. Primeiro, porque a esquerda, originariamente trabalhista e programaticamente progressista, foi tradicionalmente favorável às virtudes das ciências, vistas como fonte de progresso. Segundo, porque o conhecimento técnico e científico proporciona mais oportunidades de progressão social do que a ”cultura literária”. Terceiro, porque se perguntarem aos trabalhadores se preferem ser politicamente representados por quem saiba manter uma conversação erudita nos salões sociais ou por quem compreenda os mecanismos necessários à criação e preservação de empregos e à melhoria dos níveis de vida, o que é que acham que eles vão escolher?
É que, como lembrava Alfred Marshall, no final do século XIX, ”… o carácter do homem tem sido moldado pelo seu trabalho de todos os dias e pelos recursos materiais que desse modo procura, mais do que por qualquer outra influência, com excepção dos seus ideais religiosos; e as duas grandes acções formadoras da história mundial têm sido a religiosa e a económica”. Sendo assim, saber de economia talvez seja conveniente.»

O post «Humanismos e Trivialidades» do Semiramis ajuda a compreender as raízes da arrogância «humanista» - basicamente o desprezo pelo trabalho lato sensu.

BLOGARIDADES: «Os activistas LGBT são anti-liberais»

«Os activistas LGBT são anti-liberais», defende o blasfemo João Miranda, e o Impertinências concorda.

Além disso, acho-os ridículos (todos), promíscuos (quase todos) e perversos (muitos).

DIÁRIO DE BORDO: a doutora Filomena sai do armário

Não li e provavelmente não vou ler o «Bilhete de Identidade» de Maria Filomena Mónica. Não aprecio o género confessional e também receio que a boa ideia que tenho dela não resistisse à exposição das suas partes pudendas.

[Ao ler o prenúncio da exposição dos seus parceiros em O Independente, ocorreu-me, uma vez mais, que as nossas enfezadas elites vivem em endogamia o que não é bom para os genes - e por isso são enfezadas?]

20/11/2005

SERVIÇO PÚBLICO: a decomposição das instituições da república prossegue acelerada

(O «gato constipado» no Expresso de 19-1)

Abel Pinheiro (5.ª coluna do CDS), Paulo Portas, Fernando Marques da Costa (5.ª coluna do doutor Sampaio), Rui Pereira (ex-director do SIS), entre outros, foram ouvidos a chafurdar nesta pocilga e a refocilar no meio dos sobreiros. Entre os grunhidos foram ouvidas referências a conversas do engenheiro Sócrates e do doutor Sampaio.

19/11/2005

SERVIÇO PÚBLICO: Andam com o gajo ao colo (2)

Já aqui dei guarida aos protestos do doutor Soares sobre a alegada preferência dos mídia na pré-campanha pelo doutor Cavaco, com manifesto prejuízo da exposição mediática do majestático ego do próprio doutor Mário, segundo ele mesmo.

Como acontece frequentemente com os protestos, estes protestos não parecem ter sustentação nos factos - donde talvez se pudesse concluir que o doutor Soares daria um excelente praticante do jornalismo de causas, pelo menos em causa própria.

Aproveitando a boleia do insurgente BrainstormZ, aqui fica o registo dos factos segundo a Marktest.

18/11/2005

ARTIGO DEFUNTO: filáucias do jornalismo de causas expostas pela pitonisa Joana

Mais duas demonstrações de jornalismo de causas para quem se «não há factos - os factos correspondem à visão do mediador, do repórter», ainda menos há previsões de factos futuros. Desta vez foram expostas pela pitonisa Joana do Semiramis, a propósito da irremediável confusão entre projectar desejos e fazer um previsão falível mas honesta, na circunstância relativamente às consequências da eleição da esquerdista Andrea Nahles sobre o futuro da coligação alemã e à popularidade de Sarkozy - o único governante que teve uma atitude firme face aos motins.

A Joana bem podia ter evitado a filáucia de escolher um título pesporrente como «Filáucias».

Post scriptum:
Títulos pesporrentes são os que usam termos que aparecem menos de 300 vezes nas pesquisas Google e obrigam o Impertinências a ir ao dicionário.
Filáucia
[Do gr. philautia.]
s.f. Amor-próprio; egoísmo; presunção, vaidade.
(Dicionário de Cândido de Figueiredo)

16/11/2005

ESTÓRIAS E MORAL: fábula da rã e do tacho

Estórias

O BdeP revê a previsão de crescimento em 2005 para 0,3% e o ministro das Finanças desvaloriza a previsão, comentando em Londres que não a quer «sobrevalorizar». (DE)

A taxa de desemprego atingiu a 7,7% no 3.º trimestre, o valor mais elevado desde 1998 (INE, citado pelo DE).

O ministro das Obras Públicas informa-nos que «foi decidido dar prioridades às linhas que são auto-sustentadas na sua exploração», deixando-nos na ignorância acerca de como fará o milagre. Milagre que toda a Europa que tem TGV aguarda ansiosamente para por fim ao défice que aflige praticamente todas as linhas. (DE)

Enquanto isso, o ministro da Saúde reconhece que existem funcionários redundantes (1.000 em 6.000 só no Hospital de Santa Maria), mas garante-lhes que «não têm razão para estar preocupados». Quem não é funcionário do ministério deverá ficar preocupado com a falta de preocupação do ministro. (DE)

Estas quatro notícias podem ler-se todas elas na edição online do Diário Económico de hoje. Ontem tivemos outras e amanhã teremos ainda outras vagamente preocupantes. Nada de novo, business as usual. Nada que impressione os portugueses embalados pelo suave ronronar dos ministros do governo do engenheiro Sócrates - aqui a tradição continua a ser o que era, porque pouco os distingue dos ministros anteriores dos consolados dos doutores Durão Barroso e Santana Lopes, salvo uma maior preocupação pela pose de Estado.


Moral (sob a forma duma conhecida fábula que ilustra o problema da mudança na gestão)

Era uma vez uma rã que saltitava alegremente na beira dum lago, despreocupada e alheia aos perigos do mundo. Perigos que na circunstância consistiam num tacho acabadinho de pôr ao lume pelos operários que trabalhavam na obra ali mesmo ao lado. No tacho esperavam cozer umas batatas para acompanhar as febras de porco que aguardavam, impacientes, pela companhia. Tacho dentro do qual a nossa rã finalizou o seu último e acrobático salto.

Em pleno inverno, um frio de rachar, aquela água morna era o paraíso para uma pobre rã de sangue frio. E assim foi ficando, cada vez mais confortável. Até ao ponto em que o calor a fez suar (nesta estória as rãs suam). Mas era tudo tão devagarinho que a nossa amiga se foi deixando estar. Quando se deu conta das borbulhas escaldantes que subiam do fundo do tacho, só teve tempo de dizer com os seus botões «estou feita» e encomendar a alma ao criador.

15/11/2005

DIÁRIO DE BORDO: dizer que um não serve, não faz do outro um candidato conveniente

Andava há uns dias a ruminar um post sobre as ilusões acerca do doutor Cavaco Silva, que alguns liberais de diferentes inclinações, escrevendo em diferentes mídia, parecem alimentar para se consolarem da falta de um candidato genuinamente liberal - vá lá, deixemos cair o liberal, ao menos genuinamente adverso ao colectivismo, com alguns pergaminhos demonstrados na contenção da vaca marsupial pública, e na limitação do seu tratador, o nefasto estado napoleónico-estalinista.

Como tal criatura manifestamente não se descobre entre os candidatos, essas esperançosas e sofridas almas inventaram um. Não vou gastar o meu latim a demolir as suas infundadas esperanças porque o Causa Liberal já o fez aqui, melhor do que eu poderia fazê-lo. Só acrescento que tudo indica que as convicções profundas do doutor Cavaco foram, são e serão as dum adepto do estado social, por muito que o seu sentido pragmático o faça declarar que temos que viver com a globalização. Temos, porque não há outro remédio. O doutor Cavaco é um keynesiano stricto sensu que vê no estado um instrumento privilegiado da política económica. Ele percebe que temos que viver com os mercados, porque não há outro remédio. Ele não vê um estado mínimo a regular as «imperfeições» do mercado. Ele vê o mercado a limitar os «excessos» do «monstro», usando as suas palavras.

Há ainda uma outra ilusão numa outra banda do espectro político. É no centro-direita não liberal que imagina o doutor Cavaco como o seu factótum que irá usar os mesmos expedientes do doutor Sampaio para dissolver o parlamento e para dar lugar a uma nova maioria, uma AD reconstruída, que aprovaria uma revisão constitucional, crisálida a partir da qual a lagarta do regime actual se transformaria na borboleta dum salvífico regime presidencial. Creio que estão profundamente enganados. E é nessa minha convicção, aliás, que reside o essencial das razões para não termos outro remédio senão pôr a cruzinha no nome do doutor Cavaco. Citando o falecido doutor Cunhal, vamos ter que engolir o sapo e é tudo. Não se faça disso uma expiação, mas não se faça também uma comemoração.

14/11/2005

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: SuperMário é um blogue de cromos

Secção Padre Anchieta
«Quando Soares ontem disse, no contexto de uma questão sobre a universidade de Coimbra, que era o «anti-Salazar», melhor teria sido dizer (ou era isso que estava nas entrelinhas) que era o «anti-Cavaco». Por um lado, porque esta construção da personagem de Cavaco - o anti-politicismo, o messianismo, a desconfiança perante os mecanismos essencialmente liberais de debate (no parlamento, no espaço público, etc.) - é na essência uma herança da memória de Salazar (cuja marca na nossa memória política não é propriamente pequena). Mas, por outro lado, Soares é, na circunstância presente, o anti-Cavaco no sentido em que se apresenta não como a solução para a crise, mas como um elemento de continuidade numa solução já existente.»
O parágrafo anterior faz parte de post levemente delirante do Ivan do SuperMário (blogue não oficial de apoio à candidatura de Mário Soares à reforma compulsiva).

Será preciso recordar que Salazar foi saudado pela esmagadora maioria dos que viveram a baderna republicana, entre 1910 e 1926, como um cirurgião que limpou a gangrena que corroía o tecido social e um contabilista que sabia fazer contas e pôs ordem no peditório das migalhas do orçamento? Que o fez impondo uma ditadura meio bafienta, não foi visto como um problema, pelo menos até ao fim da guerra, em 1945. Parecia mais um mal menor e necessário, comparado com o clima político-social que se vivia nessa altura na Europa continental, de Vilar Formoso até Vladivostoque. A oposição ao Botas limitava-se ao PC e a uma folclórica sucessão de conspirações falhadas em que a oposição republicana (a que, recorde-se, pertencia o doutor Soares) se embrulhava regularmente. O povo, esse, tratava da vidinha e via o Botas como um seguro contra devaneios, loucuras e assaltos à mesa do orçamento. O regime fassista mostrava contenção onde outros mostravam holocaustos e gulagues. E a coisa foi assim até ao início da guerra colonial. A partir daí e até à queda da cadeira e posterior passamento, o doutor Salazar foi de facto pouco apreciado pelas gerações que chegaram à idade da razão entre 1961 e 1968 e perceberam que iriam talvez morrer pela pátria do doutor Salazar, ainda que em quantidades relativamente moderadas face às que a baderna republicana tinha incompetentemente sacrificado na 1ª guerra - só na batalha de La Lys morreu o equivalente a mais de metade das baixas mortais na guerra colonial que durou 13 anos (7.000 e 12.000 respectivamente).

Para todos os que chegaram a idade da razão depois de 1974, o doutor Salazar, o Botas, é um cromo dinossáurico de que alguns dos cromos seus pais se queixavam nos intervalos de se queixarem do custo de vida que não lhes permitia comprar o ansiado plasma. Tudo por junto, deve haver uns 5% dos eleitores que se podem inflamar com as boutades do doutor Soares e mais 0,1% que se sentirão transportados pelos delírios do Ivan. Mesmo esta insignificância, no lugar do Ivan, eu não a consideraria como garantida, porque até a minha prima Violinda percebe que se há alguém «que se apresenta não como a solução para a crise, mas como um elemento de continuidade numa solução já existente» só pode ser o doutor Soares, que se vencesse as eleições seria o presidente de todos os situacionistas, 32 anos depois do almirante Tomás.

Por tudo isto, e ainda por outras imensas coisas que escreveria se tivesse pachorra e tempo, daqui manifesto a minha solidariedade com o doutor Soares, desejando-lhe uma tão longa vida quanto a que o meu pai já atingiu, junto com 5 bourbons para premiar a sua pertinácia nas receitas do costume. Para o Ivan reservo, também, votos duma tão longa vida quanto a minha (pelo menos) e dedico-lhe 5 sinceros chateaubriands.

Post (scriptum) de alembrança:
A secção Padre Anchieta está assim descrita no Glossário das Impertinências:

O padre José Anchieta, linguista e evangelizador de índios do Brasil, fez imensas coisas, inclusive este poema, que não interessa nada para o caso, mas que cai bem citar no blogue:
Vi-me agora num espelho
e comecei de dizer:
Corcós, toma bom conselho
Porque cedo hás de morrer.
Mas, com justamente ver
o beiço um pouco vermelho
Disse: fraco estás e velho
Mas pode ser que Deus quer
Que vivas, para conselho
O importante para esta secção é a lenda. Corria o ano de 1554, num certo dia, numa breve parada, após longa, acelerada e extenuante caminhada para Reritiba à frente dos Tupis que lhe carregavam as trouxas, o Padre Anchieta deu-se conta que os índios, sentados sobre as suas tralhas se recusavam a recomeçar. Perguntando-lhes o porquê, explicaram-se os Tupis, com grande soma de pachorra, que na rapidez da caminhada a alma lhes tinha ficado para trás e tinham precisão de esperar por ela.

13/11/2005

ESTÓRIAS E MORAIS: da justiça entrevada ao jornalismo emocional

Estória - o Supremo decide o ressarcimento no Além
Ao fim de 13 anos de laboriosas andanças para cima e para baixo nas diversas instâncias, o STJ condenou a Shell, que já não opera há anos em Portugal, a pagar uma indemnização de meio milhão de euros ao revendedor de Caldas das Taipas entretanto falecido - vítima de falta de pachorra?

Moral
A justiça pode não ser cega, mas é coxa.


Estória - «afectos reprimidos»
Numa escola de Gaia uma estória que envolve duas garotas, talvez lésbicas (ou «fufas» segundo as suas próprias palavras), derramou-se durante a semana pelos mídia infectados pelo pensamento politicamente correcto (PC) e relançou na ordem do dia a grande questão do século: para que servem as escolas? Esta questão fundacional, civilizacional e fracturante já ficou pendente no século passado desde que as equipas do PC aterraram no ministério da educação. Para não me alongar na lista cito apenas duas das mais ilustres luminárias: o engenheiro de almas Roberto Carneiro e a doutora em felicidades Ana Benavente.
«Afectos reprimidos» chamou-lhes a jornalista de causas do Expresso, doutora Susana Branco.

Moral
«Abunda a malícia, onde falta polícia» (ditado popular).


Estória - tudo o que pode cair, um dia cai
Os afectos reprimidos não foram a única estória que apaixonou os nossos jornalistas durante a semana. Também excitou a sua mente imaginativa a morte de 5 operários portugueses que preferiram ser explorados em Espanha numa auto-estrada em construção, a trabalhar em Portugal. Os jornalistas mais criativos viram aqui a mão negra da globalização (ou mundialização, como eles preferem dizer), os menos delirantes só conseguiram culpar a ganância do empreiteiro pela «falta de condições de segurança». Falta essa que, por uma coincidência misteriosa, não afectou 4 outros operários portugueses que usavam «cintos de segurança obrigatórios».

(No país onde caiem pontes construídas e em construção, ainda ninguém se lembrou de culpar a ganância dos empresários gauleses do bâtiment pela morte dos incontáveis portugueses que em Agosto tombavam (e tombam ainda, mas menos), aos magotes, nas estradas espanholas já construídas, a bordo de bagnoles que demandavam a pátria?)

Moral
«As pessoas passam a vida a confundir com notícias aquilo que lêem nos jornais» (A. J. Liebling).

12/11/2005

BLOGARIDADES: um voto contra o abdicacionismo

«Mas, entretanto, no Metro de Londres e a 7 de Julho, a Al Khaeda matou politicamente Mário Soares. O que então disse e depois repetiu, demonstram que Mário Soares se infantilizou para esconder a respeitabilidade que lhe devemos pelos seus oitenta anos de idade. Mário Soares já não tem a idade para ser esquerdista, um esquerdista irresponsável do género bloquista, porque lhe falta - lei da vida - a margem do tempo para ganhar experiência, maturidade e bom senso que, mais tarde, equilibre os desequilíbrios das “verduras”. ...

O que Mário Soares disse, e repetiu, sobre o terrorismo, é plenamente aceitável como opinião individual ou mesmo na qualidade de opinion maker. É espantoso e irresponsável mas é legítimo como opinião. Mas Soares colocou-se além das margens do sistema de defesa das democracias e, por isso, irrecuperável para desempenhar um papel institucional e, muito menos, voltar ao cargo de Supremo Magistrado da Nação.

O drama do terrorismo, pela sua eficácia e poder corruptor, obrigou a colocar-nos acima (se preferirem, ao lado) da divisão esquerda/direita. Porque, com a morte da civilização, também as ideologias e separações de visão social, iriam na enxurrada. Cedendo à Al Khaeda de que adiantaria ser-se de esquerda? Nada, penso eu. Neste sentido, vejo Soares como um candidato inútil para a esquerda. Por assim pensar, nunca terá o meu voto (agora, nem com a mão a tapar-lhe o retrato). Um voto apenas, mas um voto. Que será contra Mário Soares e o abdicacionismo que ele representaria, se se candidatasse
(Encontrado aqui, no Água Lisa (3), um blogue surpreendente)

11/11/2005

DIÁRIO DE BORDO: sejamos equitativos

Se «lesões cutâneas superficiais na fronte e no pé direito» alegadamente causadas num jovem, que alegadamente incendiava carros, pela alegada intervenção de 2 polícias merecem a suspensão dos seus alegados autores e de mais 6 seus colegas alegados espectadores, poderemos dizer que a alegada destruição de propriedades privadas e públicas merece o quê? E a alegada co-autoria num alegado homicídio de um sexagenário perpetrado por alegados participantes nessa alegada destruição a propriedades privadas e públicas merece a guilhotina?

SERVIÇO PÚBLICO: todos fizeram o que lhes competia

Ontem, na votação do princípio da convergência de alguns regimes especiais de aposentação com o regime geral da Segurança Social, a esquerda nas suas diversas encadernações votou contra. Fez o que lhe competia. O PSD e o CDS-PP abstiveram-se, isto é votaram na esperança que a memória dos eleitores do partido do Estado (750.000 funcionários públicos, outros tantos cônjuges ou namorada(o)s, 3 milhões de reformados, etc.) lhes traga a benção dos seus votos quando chegar a altura.

Hoje, na votação na generalidade do orçamento, a esquerda nas suas diversas encadernações votou contra. Fez o que lhe competia. O PSD e o CDS-PP também. Votaram contra, isto é votaram a favor da confirmação da política despesista que o governo em que estiveram coligados foi incapaz de inverter.

SERVIÇO PÚBLICO: já não se trata de não fazer as coisas certas, trata-se de fazer as coisas erradas

O Público anunciava ao princípio da manhã de ontem que «o Millennium bcp propôs ao Governo a passagem da totalidade dos trabalhadores do banco para o regime geral da Segurança Social o que, a concretizar-se, implicará a transferência para a Segurança Social do fundo de pensões dos seus empregados, avaliado em quatro mil milhões de euros, o equivalente a 2,9 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2005».

No fim da manhã acrescentava que «o ministro do Trabalho e da Solidariedade Social, Vieira da Silva, e o representante da comissão de trabalhadores do BCP, Bastos Torres, disseram hoje que desconhecem qualquer proposta do Millennium bcp para a transferência do fundo de pensões do banco privado para o regime geral da Segurança Social

À tarde citava a administração do BCP que «afirma que não apresentou nenhuma "proposta formal" para a passagem da totalidade dos seus trabalhadores para o regime geral da Segurança Social e a consequente transferência do fundo de pensões

Para perceber o que pode estar a passar-se não é preciso enveredar por teorias conspiratórias. Basta ligar o desconfiómetro e analisar os factos.

1.º facto - este chuto para a frente (já se verá porquê) da transferência de responsabilidades e dos correspondentes fundos para a Segurança Social já foi dado muitas vezes no passado recente, com destaque especial para o caso da CGD (ver o inventário pelo insurgente João);

2.º facto - esta eventual transferência dos fundos de pensões é altamente conveniente, agora e sobretudo no futuro, para o Millenium bcp que, tendo recorrido maciçamente à antecipação de reformas do pessoal dos bancos que comprou, ficou com o volume gigantesco de responsabilidades por pensões no regime de «benefícios definidos»;

3.º facto - isso obrigou e obrigará no futuro a dotar o fundo para compensar menos-valias durante as fases de bear market (veja-se o que se passou com os fundos de pensões ingleses que têm insuficiências de biliões de libras);

4.º facto - esta eventual transferência dos fundos de pensões do Millenium bcp é altamente conveniente para o governo actual, porque lhe permite minimizar o défice durante algum tempo;

5.º facto - essa transferência é altamente inconveniente para a sustentabilidade da Segurança Social pois faz entrar imediatamente 15 mil reformados com pensões muito superiores à média e aumenta as responsabilidades futuras pelas pensões de 12.400 activos que transitariam para o regime geral;

6.º facto - como a Segurança Social vive num sistema de pay as you go, os 4 mil milhões de euros irão financiar a despesa corrente com pensões, subsídios de desemprego, doença and so on e, talvez (um grande talvez), uma pequena parte fosse afectada ao fundo de estabilização da segurança social.

Em conclusão, numa operação destas todos ganham, excepto vocês, que são novos, os meus filhos e os meus netos. Na pior hipótese, eu por mim tanto me faz. Na melhor hipótese, pode ser que o estado napoleónico-estalinista me alivie a punção fiscal durante um ou dois anos.

Post scriptum: já não menciono o facto desta eventual transferência ser exactamente o contrário do que se está a fazer um pouco por todo o lado, e até na Europa Social, e, a bem dizer, até cá no burgo, com as tímidas reformas que visavam reforçar o 2.º e o 3.º pilar e não aumentar a insustentabilidade do 1.º pilar.

10/11/2005

O IMPERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: o político El Pibe visto um detractor

«O célebre Maradona tem-se apresentado ultimamente como defensor dos povos oprimidos. Ainda recentemente, quando o doido do Hugo Chávez disse que «se criássemos um clube dos países devedores seriamos mais fortes» (ou seja vamos lá ver se nos organizamos para não pagar as nossas dívidas) o não-menos-doido Maradona auto-proclamou-se paladino dos países devedores na cimeira de Mar del Plata.

Será porque ele próprio deve ao fisco italiano Eur 31.782.429 por não ter pago impostos entre 1985 e 1990?

Será porque se junta aos contestatários da globalização quando é ele próprio o produto mais acabado dessa mesma globalização?

Será porque só recebia cerca de US$ 10.000.000 por ano de patrocínio para representar essa vil marca que explora os pobres de todo o mundo vendendo-lhes Coca Cola?

Será ainda porque, quando magoado por outro jogador durante um jogo de futebol, pretendia que esse jogador lhe entregasse todo o salário até ao fim da recuperação?

Até o New York Times o apelidou de «a perfect latin american idiot» apoiando-se no título do livro «»Guia ao perfeito idiota sul-americano» escrito pelo filho de Mário Vargas Llosa e outros jornalistas!

Devia ter sabido retirar-se da cena mundial a tempo.

Lembra-me outra personalidade cá da praça que se recusa a aceitar que seu tempo foi outro.»

(AB, um amigo e um detractor compulsivo)

El Pibe é um exemplo de como um génio também pode ser um idiota. A outra personalidade é um exemplo de como ter muito passado não garante um grande presente e muito menos um grande futuro.

09/11/2005

BREIGUINQUE NIUZ: vai chamar pai a outro

«O Estado está a substituir mais de cinco mil pais na prestação de alimentos aos filhos menores. Segundo os últimos dados do Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social (IGFSS), a que o DN teve acesso, desde Janeiro e até 31 de Outubro os processos do Fundo de Garantia de Alimentos Devidos a Menores (FGADM) custaram ao Estado 6,1 milhões de euros - ultrapassando já os 5,3 milhões gastos em 2004.» (DN)

08/11/2005

DIÁRIO DE BORDO: não vou escrever sobre essas coisas

Não vou escrever sobre a iniquidade do multiculturalismo.

Não vou escrever sobre o silêncio de 9 dias de M. Chirac, que os mídia domésticos acharam mais curtos do que os 2 de Mr. Bush.

Não vou escrever sobre a pátria por excelência do modelo social europeu consumida e aterrorizada pelos motins mais violentos nas últimas décadas na Europa social.

Não vou escrever sobre o povo que Sarah Afonso, falando com a nora que lhe escreveu as memórias, contrapunha ao nosso, dizendo (cito de memória a ideia geral) que nós somos encantadores como pessoas e execráveis como povo, e os franceses são execráveis como pessoas e encantadores como povo.

Não vou comentar o que Sarah Afonso disse à nora, apesar de ter muito que se lhe diga.

Nem mesmo vou escrever sobre o enviesamento irremediável dos mídia, infiltrados pelo esquerdismo até à medula.

Não. Nada disso.

Vou apenas concluir, a propósito dos motins em França, que a maior manifestação de racismo vista em muito anos é da responsabilidade das diversas esquerdas e das suas câmaras de eco nos mídia. Tudo o que é escrito ou dito pela esquerda tem uma premissa: os magrebinos são inimputáveis. São um povo inferior, os magrebinos.

07/11/2005

SERVICE PUBLIQUE: Les uns et les autres

Uma das fotos seguintes é de Clichy-sous-Bois, um exemplo da segregação dos excluídos muçulmanos magrebinos, condenados a incendiar as cidades dos ricos. Outra é do bidonville de Champigny, um exemplo das condições d'accueil que o estado social francês deu nos anos 60 aos brancos cristãos portugueses, a quem foi concedido o privilégio de construir as cidades dos ricos que agora os excluídos muçulmanos magrebinos incendeiam. Adivinhe qual é qual.












(Fotos confiscadas daqui e daqui, ao Grande Loja, um blogue talvez neoliberal)

06/11/2005

CASE STUDY: a ciência de causas

aqui se tratou do jornalismo de causas, que, nas palavras Baptista-Bastos, é o jornalismo em que «não há factos. Os factos correspondem à visão do mediador, do repórter».

Existe o jornalismo de causas e existe a ciência de causas, em que também «não há factos». O seu mais conhecido pioneiro foi o cientista de causas Lysenko, também já aqui citado. Se Lysenko ainda fosse vivo ficaria orgulhoso dos seguidores e provavelmente surpreendido pela sua visão da ciência lhe ter sobrevivido e ser hoje bastante popular entre os climatologistas politicamente correctos.

Conferência de Lysenko sob o olhar atento de José Estaline

Vem isto a propósito dos vaga-lumes da ciência do politicamente correcto que brilharam na noite da nossa ignorância com a sua ciência das causas dos furacões. Entre os muitos sound bites debitados, um deles parecia um pouco mais aderente ao estado actual do conhecimento do sistema climático. Segundo esses vaga-lumes, verificar-se-ia nas últimas décadas um aumento do número dos furacões e isso seria causado pelo da temperatura superficial do mar, o que parecia condizer com os factos.

Talvez sim, ou talvez não. A equipa do doutor Webster (ver aqui o artigo publicado em 16-09 na Science, ou aqui uma interessante e acessível referência), trabalhando os dados das temperaturas medidas por satélite de 6 bacias oceânicas desde 1970 não encontrou nenhuma relação entre o aumento da temperatura superficial, verificado em todas as bacias salvo no Pacífico Sudoeste, e o número ou intensidade dos furacões, que só aumentou no Atlântico Norte. Não parece, portanto, possível sustentar cientificamente uma relação de causa-efeito, tanto mais que o segundo maior aumento do número e intensidade dos furacões se verificou na bacia Pacífico Sudoeste onde não se registou aumento da temperatura do mar.

05/11/2005

SERVIÇO PÚBLICO: o padrinho Mário em Belém alimentou com patacas o polvo socialista no mar da china

Quem tem a memória curta e já esqueceu o que foi a trafulhice soarista de 10 anos apadrinhada em Macau, poderá refrescá-la em O Independente que continua a saga da semana passada. Desta vez com a ajuda do connaisseur Mateus. Lá estão as Emaudios, os Maxwell, os Melancias e os outros faxistas, os Costas, os Coelhos, os Vitorinos et allia.