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20/04/2019

A maldição da tabuada (50) - A psicologia clínica e forense convive mal com a aritmética mais elementar

«A elevada taxa de suicídio nas forças de segurança é o tema analisado na segunda das duas crónicas bimensais de abril pelo psicólogo clínico e forense Mauro Paulino.

Entre 2000 e 2018 suicidaram-se 71 agentes da PSP e 73 guardas da GNR, um total de 144 mortes noticiadas na comunicação social, mas que não espelham a realidade de um tema tabu que se teima em não querer enfrentar ou que insistentemente se silencia, como se esta postura fosse, por si só, trazer mudanças.»

Excerto de «O suicídio de pessoas que estão para além da farda» no Expresso Diário do dia 15 de Abril.

Analisemos então o tema tabu com base nos dados demográficos disponíveis:
  • Segundo a peça citada, nos 19 anos de 2000 a 2018 suicidaram-se 144 agentes ou 7,6 por ano;
  • Existiam em 2017 em Portugal 21.350 polícias e 22.365 guardas da GNR (fonte PORDATA); admitindo que nesse período existissem em média 40 mil agentes teriam-se suicidado 0,19 por ano;
  • Admitamos para simplificar que todos os polícias eram homens entre os 25 e os 64 anos e comparemos com a população residente masculina;
  • Segundo o Censo 2011 residiam em Portugal cerca de 5.047 mil homens e, segundo as estatísticas do INE, os suicídios causaram 981 mortes em 2016, dos quais cerca de 76% eram homens, ou seja 748 mortes ou o equivalente a 0,15 suicídios por mil homens residentes, uma taxa um pouco inferior à das forças de segurança;
  • Porém, se admitirmos que as taxas de suicídio são muito mais baixas nos jovens e comparamos as 748 mortes por suicídio com a população residente masculina com mais de 25 anos que rondava os 3.964 mil, as 748 mortes corresponderiam a 0,19 por mil homens residentes, ou seja por coincidência a taxa das forças de segurança.
Em conclusão,
  1. de acordo com aquelas premissas aproximadas, não há nenhuma razão para concluir que o suicídio nas forças de segurança seja um problema mais grave do que na população masculina em geral;
  2. de onde poderíamos concluir que a psicologia clínica e forense convive mal com a aritmética mais elementar.

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