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11/09/2004

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Uma lucidez talvez acidental.

Secção Still crazy after all these years
Talvez algumas das nossas luminárias não sejam completamente ignorantes fora do domínio das benditas «humanidades», como o maradona (com minúscula) sustentou e eu concordei.
Talvez algumas delas tenham um módico de conhecimento, se não das «ciências exactas», ao menos das ciências experimentais, como a puta da vida. Pode ser o caso da doutora Clara Ferreira Alves que na sua página «Pluma Caprichosa» da Única do Expresso escreveu na semana passada umas palavras higiénicas («O estudante»), afogadas no oceano de trivialidades que é esse apêndice do saco de plástico.
Eis algumas delas:
«No meu tempo, muito in illo tempore, a porta da universidade não tinha um carro e contavam-se pelos dedos os meninos que andavam de carrinho. Hoje, o adolescente exige aos pais, assim que atinge maioridade, o seu automóvel como antes exigira o seu telemóvel. Não sobra para as propinas. Dantes, os pais e os professores exigiam coisas aos filhos, que estudassem e se aperfeiçoassem, senão iam trabalhar e deixar de vadiar. Hoje, a proposta inverteu-se e são os filhos que exigem a mesada e a cerveja gelada, o CD e a sapatilha, cama, mesa, pensão de alimentos e roupa lavada. O estudante, incluindo o estudante de café, sumiu-se, devorado pela sociedade de consumo, e é raro ver passar na rua um rapaz ou uma rapariga carregando um pacote de livros, uma pasta recheada de papéis, um objecto que identifique como estudioso e não como comensal da universidade, com direito a cantina e estudo acompanhado. Os estudantes identificam-se pelo apego a capas e batinas com rótulos de hotel colados no tecido e grandiosos projectos de bebedeiras e queimas das fitas. De resto, os livros nunca aparecem em cena, e os erros de ortografia abundam. Uma variação muito estimável do estudo, o estudante-trabalhador, está praticamente extinta, visto pais sustentam os filhos até aos 30 anos.»
Dois afonsos bem merecidos para a doutora Clara (eram cinco, mas descontei três pelas suas derivas de santanete, que por vezes a acometem).

Não é certo que esta lucidez da doutora Clara a vá atormentar para sempre. Como ela teve o cuidado de nos informar, «estas considerações vieram-me à cabeça no Brasil» - um país muito dado a revelações. Quando regressar logo se vê.

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