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30/11/2025

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (76) - Líder mundial na IA? No desperdício alimentar ninguém nos bate

Outros portugueses no topo do mundo.

O nosso Portugal dos Pequeninos não terá «as condições para se tornar um líder mundial na IA», como garantiu o Dr. Matias, ministro da Reforma do Estado, excitado pela numerosa plateia internacional que o escutava na Web Summit, mas ninguém lhe tira o lugar no topo do despercício alimentar, segundo os dados do Eurostat citados pelo Expresso.


É extraordinário que os cidadãos de um país onde ainda hoje há quem tenha fome e ainda estão vivos os que há não muitas décadas conviviam com uma frugalidade a que hoje se chamaria fome, deitem para o lixo em média quase 300 gramas de comida por dia.

25/07/2025

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (75) - Duvido que algum dia o "Amália" cante. É o nosso fado

Outros portugueses no topo do mundo.

Já aqui tinha feito uma referência ao "Amália", um «LLM português», à época ainda por baptizar, que o Dr. Luís Montenegro anunciou com pompa e circunstância durante a Web Summit com o propósito de «inovarmos em português, preservando o nosso idioma e utilizando a nossa cultura ao serviço da inovação». Para além do facto de provavelmente não dever ser classificado como um LLM, e ser um ou vários domain-specific models dos quais já existem milhares, duvidei desde logo se algum dia veríamos tal modelo.

O LLM português que chegou a estar previsto para estar pronto no primeiro trimestre de 2025 «partiria de uma base em open source já existente, o Tower LLM, da Unbabel». Três meses depois a task force que estava a desenvolver o Amália anunciou que o seu mandato seria até ao final de 2028.

Ora acontece que a Unbabel, uma start-up portuguesa dedicada à tradução, que já então estava em dificuldades, provavelmente viu no "Amália" uma tábua de salvação e através dos lóbis do costume chegou até ao ouvido do Dr. Montenegro, tem nesta altura «os dias contados» e está a tentar ser comprada. Daí que sem nenhuma surpresa ter sido agora anunciado que o «projecto tem respeitado o calendário do Governo, mas só deverá ser público em 2026, contrariando expectativas». Calendário? Qual calendário? Expectativas? Quais expectativas? Não certamente as minhas que não sou dado ao wishful thinking e tenho agora reforçada a mesma dúvida que tinha quando tudo começou: algum dia veremos tal modelo?

15/11/2024

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Web Summit - as 200 mil dormidas já ninguém nos tira (11) - Talvez chegue para pagar o LLM português

Uma sequela de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9) e (10)

Desde 2016 pela mão do Dr. Costa primeiro e, depois, do Dr. Medina, e actualmente do Dr. Moedas, a Web Summit da iniciativa do Paddy em Dublin de 2009 a 2015 foi movida para Lisboa graças a um generoso subsídio de 11 milhões por ano, reduzido mais tarde para 7 milhões, que a câmara de Lisboa paga ao Paddy (a que acrescem a venda de entradas e o trabalho voluntário) para os alfacinhas terem o privilégio de receber umas dezenas de milhares de participantes estrangeiros.

A fantasia das startups está cada vez mais distante. Apesar de tudo, este ano disse a organização ainda estiveram umas 3 mil de 90 países. Segundo um estudo da Crunchbase as startups que cá vêm captam, em média, 5,5 milhões de dólares de novos investimentos por ano o que são peanuts neste negócio e são a consequência do pouco interesse que os investidores e venture capitalists manifestam por esta «Exponoivos para startups» como lhe chamou o fundador da Remote. Esse pouco interesse reflecte-se na queda de 3 lugares de Portugal no ranking da “Global Startup Ecosystem Index 2024”, da StartupBlink e na felicidade com que 400 startups brasileiras declaram esperar pelo menos 22 milhões de dólares em investimentos, o que seria até um montante modesto para meia dúzia. 

Para fechar o capítulo das fantasias e do pensamento milagroso, evoco o Dr. Luís Montenegro, primeiro-ministro em exercício do Portugal dos Pequeninos, que foi à Web Summit anunciar urbi et orbi o lançamento de «um LLM português - Large Language Model - para inovarmos em português, preservando o nosso idioma e utilizando a nossa cultura ao serviço da inovação». Esquecendo o facto que dada a língua portuguesa e dados os exemplos citados (um "tutor educativo" e "acesso aos serviços da administração pública de forma mais simples»), possivelmente não estamos a falar de um LLM, dos quais em todo o caso já existem por aí umas cinco dezenas, mas de um ou vários domain-specific models dos quais já existem milhares, permito-me manter dúvidas sobre se algum dia veremos tal modelo.

Dúvidas que, para ser curto, se fundam no investimento necessário que para um mid-scale LLM  pode atingir 50 milhões e para um Large-Scale LLM pode ir até mil milhões e no seu desenvolvimento sair da iniciativa de quatro instituições públicas, a saber Faculdade de Ciências e Tecnologia da Nova e Instituto Superior Técnico em articulação com a Fundação para a Ciência e a Tecnologia e o Centro para a IA Responsável (sublinho a palavra-chave "articulação"). 

Contudo, não me interpretem mal imaginando que considero a Web Summit uma inutilidade. Longe disso, considero uma excelente iniciativa para promover o turismo alfacinha, o que já é não nada mau, dada a carência de grana para pagar as importações de bens de consumo duradouro e popós e a partir de  agora um LLM português.
_____________________
Post scriptum:
Já depois de ter escrito este post, tomei conhecimento que afinal o LLM português previsto para estar pronto no primeiro trimestre de 2025 «parte de uma base em open source já existente, o Tower LLM, da Unbabel». A Unbabel foi uma startup portuguesa e é hoje uma empresa madura dedicada à tradução sobre a qual escrevi em 2015. Estranhamento nunca excitou os mídia portugueses, sempre muito dados ao wishful thinking. O investimento previsto é de 20 a 30 milhões e aplicando o coeficiente nacional de derrapagem a coisa vai parar a uns 7 ou 8 anos de royalties pagos pelo Paddy. Ou seja, estamos perante não de um desenvolvimento de raiz mas de uma adaptação de um modelo existente, adaptação que com as competências da Unbabel pode ser que algum dia fique concluída.

11/05/2023

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Web Summit - as 200 mil dormidas já ninguém nos tira (10) - O Paddy já exportou a "Exponoivos" para o Rio, Qatar and beyond

Uma sequela de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8) e (9)

Desde 2016 pela mão do Dr. Costa primeiro e, depois, do Dr. Medina, seu sucessor na câmara e, espera-se, na liderança do PS, a Web Summit da iniciativa do Paddy em Dublin de 2009 a 2016 têm sido realizada em Lisboa graças a um generoso subsídio de 11 milhões por ano até 2028, que o Dr. Costa paga ao Paddy para os alfacinhas terem o privilégio de receber umas dezenas de milhares de participantes estrangeiros.

Ora acontece que ainda o ano passado o Paddy disse esperar em 2025 ou 2026 começar a realizar 
Web Summits em África, há dias confirmou que em 2024 será realizada no Qatar e a semana passada teve lugar a Web Summit Rio que teve apenas uns 21 mil participantes, menos de um terço dos 70 mil em 2019 e menos de metade dos 43 mil do ano passado em Lisboa. 

De onde, o principal input da Web Summit para Lisboa que são as dezenas de milhares de participantes estrangeiro que sempre ajudam a compor o orçamento tenderão a reduzir-se, uma vez que o público para este género de eventos é limitado e a concorrência irá aumentar. 

Há quem acredite (por exemplo, Carlos Moedas sonha com uma fábrica de unicórnios) que o principal input da Web Summit é o incentivo à criação de startups lusitanas, mas isso é um delírio sobre o qual já escrevi nos anteriores posts desta série, até porque, como explicou o fundador da Remote, uma das poucas startups portuguesas que vingou, que não costuma dar-se ao trabalho de comparecer na Web Summit, um unicórnio «faz-se com negócio real (...) a Web Summit é uma Exponoivos para startups.»

06/11/2021

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Web Summit - as 200 mil dormidas já ninguém nos tira (9) - Uma Exponoivos no "país unicórnio"

Uma sequela de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7) e (8)

Recapitulando: o número estimado de participantes estrangeiros entre 2016 e 2019 foi 50, 59, 60 e 77 mil, respectivamente, e em 2021 não atingiu 43 mil. Apesar disso, já concedi que umas dezenas de milhar de visitantes que por cá apareçam para ver o show de várias luminárias, incluindo o extra-programa do presidente Marcelo a agitar-se no palco, gastem umas dezenas de milhões de euros, vá lá uns cento e tantos milhões (as estimativas para 2019 apontam para um VAB entre 58 a 96 milhões), justificando assim os 11 milhões que o governo paga com o nosso dinheiro ao Paddy. Quanto aos intangíveis, que por serem intangíveis nunca ninguém os vai tanger, esses, como já aqui escrevi, são insultos à inteligência.

Volto agora aos impactos intangíveis a propósito das declarações exuberante do director executivo da Startup Portugal que na sua comunicação da Web Summit anunciou o 5.º unicórnio [a Remote] e concluiu que «temos mais do que Espanha, Grécia e Itália juntos. Estamos a ficar conhecidos como um país unicórnio, mas isso é uma forma de cativar a atenção.» 

Como escrevi num outro post sobre a fábrica de unicórnios do Dr. Moedas, a nacionalidade dos fundadores só é considerada na Complete List Of Unicorn Companies da CBInsights quando a sede da startup se situa fora dos Estado Unidos. Por isso se, como suspeito, espanhóis, gregos e italianos não sofrem tão intensamente de «uma vontade de exibição que toca as raias da paranoia» nas palavras sábias de Eduardo Lourenço, não se preocuparam a catar na lista as startups fundadas por nacionais dos respectivos países.

Como que a repor as coisas no seu lugar, o fundador da Remote, o 5.º unicórnio anunciado pelo excitado director executivo da Startup Portugal, não se deu ao cuidado de comparecer na Web Summit e explicou que um unicórnio «faz-se com negócio real (...) a Web Summit é uma Exponoivos para startups. É uma feira, ponto (...) e não é uma feira que vai levar a que se chegue lá». Estamos conversados, ponto.

04/11/2021

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Web Summit - as 200 mil dormidas já ninguém nos tira (8) - Os efeitos deletérios do tempo nos delírios

Uma sequela de (1), (2), (3), (4), (5), (6) e (7)

Retomo esta série recapitulando: já concedi que umas dezenas de milhar de visitantes (o número estimado de participantes estrangeiros entre 2016 e 2019 foi 50, 59, 60 e 77 mil, respectivamente) que por cá apareçam para ver o show de várias luminárias, incluindo o extra-programa do presidente Marcelo a agitar-se no palco, gastem umas dezenas de milhões de euros, vá lá uns cento e tantos milhões, justificando assim os 11 milhões que o governo paga com o nosso dinheiro ao Paddy. Quanto aos intangíveis, que por serem intangíveis nunca ninguém os vai tanger, esses, como já aqui escrevi, são insultos à inteligência.

Para de seguida corrigir: os cento e tantos mil participantes e as 200 mil dormidas este ano são bastante menos porque o número de participantes foi inferior ou mesmo muito inferior ao dos anos anteriores e não atingiu 43 mil.

E acrescentar que, confirmando as reservas que desde 2016 venho apresentando aos impactos anunciados pelo jornalismo de causas e louvaminhados pelo comentariado do regime, o estudo «Avaliação do Impacto da Web Summit» da Universidade do Minho concluiu que da Web Summit resultaram os seguintes Valores Acrescentados Brutos (arredondados para milhões de euros) para os cenários menos e mais optimista:

  • 2016..... 44 a 73
  • 2017..... 50 a 82
  • 2018..... 58 a 95
  • 2019..... 58 a 96

Repare-se na amplitude dos intervalos entre os cenários sugerindo que estamos no domínio da realidade virtual, ou pelo menos da realidade aumentada.

Curiosamente, o estudo de 2021 da Universidade do Minho chegou a números muitíssimo inferiores (menos de metade) aos do cenário mais pessimista do estudo de 2018 «Impacto Económico da Web Summit 2016-2028» do Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia que em devido tempo aqui citei, cenário que na altura considerei o mais realista, mas afinal nem por isso. Aposto singelo contra dobrado que se em 2024 vierem a ser realizadas novas estimativas estas serão muito inferiores ao do estudo de 2021.

Confrontado com estas conclusões, o Paddy começou por dizer que não comentava para de seguida fazer o comentário mais desonesto que lhe ocorreu: «o relatório, a meu ver, tem a ver com as eleições».

17/02/2019

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Web Summit - as 200 mil dormidas já ninguém nos tira (7) - Ó afronta das afrontas

Uma sequela de (1), (2), (3), (4), (5) e (6)

Recapitulando: já concedi que umas dezenas de milhar de visitantes (o número de participantes em 2018 foi cerca de 70 mil), vá lá, uns cento e tantos mil, que por cá apareçam para ver o show de várias luminárias, incluindo o extra-programa do presidente Marcelo a agitar-se no palco, gastem umas dezenas de milhões de euros, vá lá uns cento e tantos milhões, justificando assim os 11 milhões que o governo paga com o nosso dinheiro ao Paddy. Quanto aos intangíveis, que por serem intangíveis nunca ninguém os vai tanger, esses, como já aqui escrevi são insultos à inteligência.

Outro dos intangíveis atribuído à realização da Websummit pela coligação do jornalismo de causas com os opinion dealers foi transformar Lisboa numa Tech City e fazê-la constar do respectivo ranking, colocando a capital dos alfacinhas no topo do mundo, a exemplo das resmas de portugueses (sobretudo alfacinhas) já no topo do mundo.

Infelizmente para o complexo de inferioridade nacional, a Savills que promove esse ranking não ligou às aspirações da coligação e borrifou-se para Lisboa e não a incluiu nas 30 cidades mais tecnológicas, apesar da lista incluir, ó afronta das afrontas, Bangalore e a Cidade do Cabo.

20/01/2019

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Web Summit - as 200 mil dormidas já ninguém nos tira (6)

Uma sequela de (1), (2), (3), (4) e (5)

Recapitulando: já concedi que umas dezenas de milhar de visitantes (o número de participantes deste ano foi cerca de 70 mil), vá lá, uns cento e tantos mil, que por cá apareçam para ver o show de várias luminárias, incluindo o extra-programa do presidente Marcelo a agitar-se no palco, gastem umas dezenas de milhões de euros, vá lá uns cento e tantos milhões, justificando assim os 11 milhões que o governo paga com o nosso dinheiro ao Paddy. Quanto aos intangíveis, que por serem intangíveis nunca ninguém os vai tanger, esses, como já aqui escrevi são insultos à inteligência.

Um dos intangíveis que justificaria a Web Summit seria o efeito atractivo das palhaçadas sobre os investidores que, segundo o wishful thinking dos promotores, trariam resmas de investidores dispostos a torrar o seu dinheiro nas ideias luminosas das luminárias de serviço.

Não é bem essa a ideia de Stephan Morais, o promotor da Indico Capital Partners, um fundo privado e independente de capital de risco, que reuniu 46 milhões para investir em startups tecnológicas e que, por isso, tem de pôr o dinheiro onde põe a boca. 

Segundo ele «a vasta maioria das pessoas e das instituições com quem falamos e que não quis investir, disseram que não faziam venture capital e que esta classe de ativos não lhes interessava. Ou então diziam que não investiam no sul da Europa. (...) A credibilidade de Portugal foi um fator importante… negativamente (...) o país é visto como o sul da Europa, ou seja, não aparece no radar. Os investidores institucionais não querem saber do Web Summit.»

Lá se vai mais um mito.

07/12/2018

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Web Summit - as 200 mil dormidas já ninguém nos tira (5)

Uma sequela de (1), (2), (3) e (4)

Já concedi que umas dezenas de milhar de visitantes (o número de participantes deste ano foi cerca de 70 mil), vá lá, uns cento e tantos mil, que por cá apareçam para ver o show de várias luminárias incluindo o extra-programa do presidente Marcelo a agitar-se no palco, gastem umas dezenas de milhões de euros, vá lá uns cento e tantos milhões, justificando assim os 11 milhões que o governo paga com o nosso dinheiro ao Paddy. 

No relatório sobre «Impacto Económico da Web Summit 2016-2028» do Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia publicado há dias são feitas várias estimativas sobre o impacto económico e fiscal do evento até 2028. No diagrama seguinte representa-se três cenários dos impactos sobre o valor bruto da produção.


O cenário mais realista (C) está próximo das minhas especulações a olho por cento e é uma coisa, digamos, no domínio do discutível, mas fazível. Outra coisa, mais no domínio do pensamento mágico é o cenário A. Quanto aos intangíveis, que por serem intangíveis nunca ninguém os vai tanger, esses, como já aqui escrevi são insultos à inteligência. 

A meio caminho entre o pensamento mágico e o insulto estão as estimativas dos efeitos totais no emprego equivalente anual que no cenário A vão desde quase 2 mil em 2016 a quase 4.700 em 2028. Basta pensar que, num evento que dura três dias, se o envolvimento médio do emprego criado pelo evento for 15 dias de trabalho, os 4.700 empregos em equivalente anual estimados para 2028 corresponderiam a quase 70 mil empregos temporários, ou seja quase 1 trabalhador por cada 1,5 participantes.

16/11/2018

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Web Summit - as 200 mil dormidas já ninguém nos tira (4)

Uma sequela de (1), (2) e (3)

O presidente do IST, um olhar conhecedor, visita a Web Summit e conclui que «é inevitável ficar com a sensação que as tecnologias e a inovação lá apresentadas são, na sua grande maioria, superficiais. Existem centenas de expositores que promovem serviços e produtos semelhantes, sem qualquer carácter distintivo e com uma componente de inovação muito limitada».

Em matéria de tecnologia e inovação estamos conversados. Contudo, dirão os crentes que a Web Summit é uma plataforma para promover o empreendedorismo nas tecnologias através das celebradas startups. Pois dirão, mas o certo é que segundo o relatório da Scaleup Portugal o investimento em startups tecnológicas reduziu-se em 14% entre 2011 e 2016. Até Nicolau Santos, o insuspeito pastorinho da economia dos amanhãs que cantam, concedeu num momento raro de lucidez que «a Web Summit não só não dinamizou a aposta nas empresas tecnológicas portuguesas, como não conseguiu atrair nem novas ideias nem investidores estrangeiros para startups portuguesas»

Que a mudança de Dublin para Lisboa trouxe vantagens para o Paddy não há dúvida: a garantia de 11 milhões durante 10 anos foi para ele uma lança em África - expressão que se adequa bastante ao caso, porque a diferença com África não é assim tão grande, apesar do Paddy não ter nada a ver com o Santo Condestável. A empresa do Paddy, cuja reputação tem algumas manchas,  registou um lucro de 128 mil euros em 2015, ainda em Dublin, e saltou no ano seguinte para 2,1 milhões, em Lisboa.

De resto, deixemo-nos de megalomania e tenhamos um módico de realismo. Alguma das grandes ou mesmo médias cidades europeias esteve disposta a pagar ao Paddy para ele mover o circo para lá?

Também não há dúvida que os nossos políticos estão rendidos ao evento que funciona como uma alternativa trendy ao circuito da carne assada. Por exemplo Marcelo, que aproveita para soltar o compère que há dentro de si, Costa, ainda sem o talento de Marcelo, dá o seu melhor e até Medina que faz as vezes de porteiro.

O que resta então, para além da treta dos intangíveis? Umas dezenas de milhar de visitantes (o número de participantes foi cerca de 70 mil) que gastaram umas dezenas de milhões de euros que devem valer os 11 milhões que o governo paga ao Paddy com os nossos impostos. Moral da estória: até ver, façam lá a feira mas não insultem a nossa inteligência (de quem tem alguma, claro).

21/11/2017

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Web Summit - as 200 mil dormidas já ninguém nos tira (3)

Uma sequelas de (1) e (2).

Já aqui abordei irónica e superficialmente a questão dos "intangíveis" da Web Summit na visão mirífica de Nicolau Santos. Para quem quiser olhar para esta questão com mais seriedade, recomendo este artigo de Nuno Garoupa. À laia de teaser aqui vai um excerto:

«Quando pressionados pelas tais externalidades positivas, os promotores privados e públicos da Web Summit rapidamente rejeitam o economicismo dos números e optam pela conversa dos imensos ganhos intangíveis. Curiosamente, os tangíveis não se medem quantitativamente, mas os intangíveis são uma realidade qualitativa inapelável que supostamente deveria calar o "bota-abaixismo". O problema dos intangíveis é que Portugal já não consegue viver com tanta fartura - os intangíveis da Expo98, do Euro 2004, das capitais da cultura, da economia do mar, das autoestradas, dos choques tecnológicos, da paixão pela educação são de tal forma avassaladores, que o Orçamento do Estado, coitado, tem dificuldade em lidar com eles.»

04/11/2017

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Web Summit - as 200 mil dormidas já ninguém nos tira (2)

Na primeira edição do evento escrevi aqui: a mim parece-me excelente termos 50 mil forasteiros, com um razoável poder de compra, durante quatro dias em Lisboa a lotarem os hotéis, os restaurantes e os bares e a gastarem umas dezenas de milhões de euros (a estória das centenas de milhões é mais do foro da ficção) que tanta falta nos fazem para pagar as dívidas. O que tenho dificuldade em acompanhar são os delírios antecedentes e subsequentes.

Quanto às consequências do evento na transformação deste jardim à beira-mar numa espécie de pátria de startups e de Silicon Valley manifestei as maiores reservas. Um vale do silicone talvez.

Pois bem, agora é oficial. Nicolau Santos, o nosso pastorinho favorito dos amanhãs que cantam, já emitiu o seu veredicto. Ora lede:

«Depois da Web Summit de 2016 não houve un1a startup portuguesa que surgisse e se tornasse uma estrela no mundo das tecnologias de informação. E o ano de 2017, "será dos mais fracos dos últimos anos, porque não têm existido transações relevantes em Portugal este ano, com exceção da Série A da Codacy [€5 milhões] e da Série B da Feedzai [cerca de 50 milhões de dólares]", diz Stephan Morais, ex-administrador da Caixa Capital (capital de risco da CGD), num trabalho do meu colega João Ramos que publicamos amanhã no caderno de economia do Expresso. E conclui: "Duas transações não fazem um ecossistema."

Por outras palavras, a Web Summit não só não dinamizou a aposta nas empresas tecnológicas portuguesas, como não conseguiu atrair nem novas ideias nem investidores estrangeiros para startups portuguesas. Aliás, a falta de investin1ento português privado é o grande calcanhar de Aquiles do modelo de financiamento deste tipo de en1presas, muitas das quais correm o risco de morrer precisamente porque não conseguem obter os fundos suficientes para dar um salto em frente, internacionalizando-se e atacando os mercados externos.»

Ora, se ele, que foi capaz de acreditar no vigarista Artur Baptista da Silva, não acredita na miraculosa visão que no nosso jornalismo promocional nos quer implantar no nosso cérebro reptiliano, então podemos tomar como certo que a Web Summit, sendo boa para a hotelaria, a restauração e o alojamento, é igual ao litro para o resto.

09/11/2016

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Web Summit - as 200 mil dormidas já ninguém nos tira

Entendamo-nos: a mim parece-me excelente termos 50 mil forasteiros, com um razoável poder de compra, durante quatro dias em Lisboa a lotarem os hotéis, os restaurantes e os bares e a gastarem umas dezenas de milhões de euros (a estória das centenas de milhões é mais do foro da ficção) que tanta falta nos fazem para pagar as dívidas. O que tenho dificuldade em acompanhar são os delírios antecedentes e subsequentes.

Começando pelos delírios antecedentes que consistem na ilusão de que Lisboa foi escolhida para hospedar a Web Summit porque se tratava da capital europeia com maior número de startups e geeks por quilómetro quadrado (não me tomem à letra, isto é metafórico, certo?). A realidade é bem mais prosaica. Lisboa foi escolhida, como é público e notório mas ignorado pelos delírios comunicacionais, meramente porque Dublin, onde até 2015 se realizou a Web Summit, como nos informou Paddy Cosgrave, o seu fundador,  não deu garantias a tempo de «um plano de controle de trânsito adequado, um plano para aumentar a frequência de transportes públicos, um plano que permita que os hotéis não manipulem tanto os preços e uma melhor solução de internet de banda larga.».

Quanto ao delírios de Lisboa estar inundada de startups e geeks (é uma metáfora outra vez...), veja-se a lista dos 31 painelistas portugueses que irão botar faladura: 9 políticos profissionais (surpreendentemente, o presidente Marcelo não faz parte de lista), 9 personalidades ligadas ao futebol e ao desporto (incluindo um surfista e uma judoca), 2 professores universitários e o resto terá vagamente uma relação com o tema da cimeira.

Na falta de resposta atempada de Dublin, o bom do Paddy aterra em Lisboa e, sem conhecer a história portuguesa, nem saber que os portugueses têm uma costela de Oliveira de Figueira - os políticos têm todas elas -, acreditou piamente nas tretas do Costa de Figueira, nessa altura ainda residente na praça do Município. Paddy foi demasiado crédulo, como se está a ver.

Quanto aos delírios subsequentes de que tudo correria sobre rodas, a cidade está um caos devido às obras e a outros ponderáveis, os transportes públicos estão em paralisia e a internet de banda-larga falhou logo na cerimónia de abertura. O plano dos preços dos hotéis funcionou bem no que respeita aos hotéis: «os preços aumentaram, em média, 68% na semana em que decorre a Web Summit».

Ainda no domínio dos delírios subsequentes, o primeiro-ministro Costa anunciou ufano 200 milhões de «co-investimento público» em que «quem decide a sua aplicação são os investidores internacionais ou nacionais que escolhem as melhores empresas, os melhores projectos, a quem é necessário assegurar 'venture capital'». Manifestamente, mesmo que não tenha reservas mentais (hipótese altamente generosa) sobre quem vai decidir os investimentos, Costa não faz a menor ideia do que seja o 'venture capital', na melhor hipótese pensa que será parecido com o FEDER. Enfim, como se escreve aqui no Blasfémias é «esta a estratégia socialista de atrair empresas para Portugal».

Para terminar, entendamo-nos outra vez: não concluo que tudo isto é uma desgraça. Não é. Para começar, porque umas dezenas de milhões de euros para pagar hotéis e restaurantes com preços inflacionados são sempre bem-vindos, e, para acabar, porque os web summiteers vão deixar Portugal felizes e contentes com o sol, o vinho tinto, a noite lisboeta e todo o resto do cardápio. Oremos para que perdoem os engarrafamentos, a desorganização, a oratória pletórica, as falhas do wifi, os preços dos hotéis e dos comes e bebes e tudo o resto - afinal de contas se fosse em Marraquexe poderia ser pior -, e talvez estejam dispostos a voltar em 2017 e 2018, contribuindo para a felicidade da restauração.