Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

11/04/2011

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (38) – silêncio apenas brevemente interrompido por sussurros quase inaudíveis

«Estes seis anos de governação não foram perfeitos (e os eleitores farão o seu julgamento), mas o estado a que chegámos tem uma explicação mais longa no tempo e não se resolve apenas com mais austeridade. Sem demagogia, considero que um futuro mais digno exige políticos que sirvam o País. Pode parecer irrealista mas não tenham dúvidas que pode ser possível, um dia.»
[Manuel Arcanjo, no Negócios online]

À atenção dos senhores dos compromissos: tomem nota deste nome, porque não há muitos mais com quem se possa fazer um princípio de conversa.

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: O estado simplex

10/04/2011

DIÁRIO DE BORDO: Um exercício de pactologia nacional

Ao ler o texto do Compromisso Nacional (com maiúsculas para acentuar a transcendência da iniciativa) assinado por 47 personalidades, a memória faiscou-me e recordei o inefável professor Carrilho e o neologismo que há uns anos inventou, por mim diligentemente preservado no Glossário das Impertinências:

Pactologia
«Recurso à conversa dos consensos para ocultar a incapacidade de se assumirem posições difíceis, em nome das quais, justamente, se foi eleito».

O professor Carrilho não se deu ao trabalho de definir «consenso» e deixou-me o encargo de o fazer também no Glossário:

Consenso
Um acordo virtual, sobre matérias que não se sabe exactamente quais são, mas sobre as quais se suspeita existirem opiniões muito diferentes, que nenhuma das partes está muito interessada em conhecer. Durante o processo de procura do consenso todos se sentem obrigados a fingir boa vontade para chegar a resultados práticos que, em definitivo, ninguém quer chegar. Há dois desfechos possíveis para o consenso: o positivo e o negativo (em rigor equivalem-se nos efeitos finais). No consenso positivo concorda-se com «grandes princípios», o que entre gente sem princípios não significa o que significa. No consenso negativo concorda-se que não se concorda, por a outra parte estar de má fé como se demonstrou durante o processo negocial (quem está de má fé é afinal o único ponto insusceptível de consenso).

Esclarecidas estas questões metodológicas, constato que o amplo consenso conseguido no Compromisso Nacional é, como não podia deixar de ser, baseado em equívocos, o menor dos quais não é o de esperar que o próximo governo seja «suportado por uma maioria inequívoca».

Os equívocos começam no diagnóstico onde predomina a tese oficial da esquerdalhada, agora convertida em tese de bloco central, de que na génese da crise portuguesa está a crise financeira e económica mundial cuja origem foi nos Estados Unidos (where else?). O facto da China, a Índia e o Brasil crescerem a dois dígitos ou quase, a África a 4 ou 5%, os Estados Unidos a 3%, a maior parte da Europa ao redor dos 2%, a OCDE a 2,9% e a economia mundial a crescer entre 3 e 4% 4,5% segundo a estimativa do FMI, não parece abalar o diagnóstico do compromisso. Só faltou dizer que a crise se deveu à ganância do capitalismo neo-liberal. Por cá teríamos talvez uns problemazitos, coisa de pouca monta, e por fatalidade, pelo fado ou pelo destino somos «mais vulneráveis».

Para usar a síntese de Carlos Abreu Amorim, «hoje, a nossa média do crescimento económico é a pior dos últimos 90 anos. Temos a maior dívida pública dos últimos 160 anos e a dívida externa mais alta dos últimos 120. O desemprego é o mais elevado dos últimos 80 anos e conhecemos a segunda maior vaga de emigração desde meados do século XIX». Como e porquê chegámos aqui? Não há responsáveis por isto? Somos todos responsáveis? [vou escrever sobre a minha responsabilidade, um dia destes]

Dirão os «pragmáticos», os diagnósticos não interessam. O que interessa são as medidas. Ah é? E as medidas não são soluções para os problemas que os diagnósticos pretendem identificar? E como se consegue o milagre de chegar a acordo quanto às soluções quando não há acordo sobre os problemas? Concretizando, se a nossa crise resulta da crise financeira criada pela ganância do capitalismo neo-liberal americano, só temos que esperar que o camarada Obama trate do assunto. Nós por cá todos bem. Vamos continuar a insuflar a ficção do Estado Sucial, a engordar o «monstro» do doutor Cavaco, a alimentar as corporações que o habitam e a abençoar a promiscuidade entre este Estado e o empresariado do regime.

Os equívocos continuam na medicina dos compromissos. Compromisso entre o presidente, o governo e os principais partidos para mais um PEC - o PEC 4.1, uma versão melhorada do rejeitado pelo parlamento que agora aprovará o que antes rejeitou. Compromisso entre os principais partidos, com a bênção presidencial, para assegurar o suporte por uma «maioria inequívoca».

Além de equívocos potencialmente nocivos, como todos os equívocos o são, estes compromissos são inúteis porque em matéria de medidas de curto prazo, isto é em matéria de PEC, o que se fará é o que o eixo Paris-Bruxelas-Frankfurt-Berlim mandar que seja feito. A curto prazo, qualquer governo fará o papel de gestão do protectorado portucalense. A diferença são as reformas a médio e longo prazo que o país precisa para sair do buraco onde o conduziu a presença asfixiante do Estado omnipresente. E nesta matéria não há compromissos – haverá alternativas, se as houver, o que também não é certo se o PSD continuar a ser um PS com outra gente e os mesmos hábitos.

09/04/2011

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Simplesmente governador. Não é ministro e muito menos anexo

Secção Res ipsa loquitur

Tiremos o chapéu ao governador do BdeP por, perante a ameaça de submersão da banca pelos 40 mil milhões de euros de dívida pública, ter dado corda aos sapatos e tomado uma atitude firme perante os bancos, o governo e o presidente, levando a fechar a torneira que vinha alimentando o financiamento do estado falido e empurrando a declaração de falência para a frente.

Cinco afonsos (inclui estes dois de reserva) pela firmeza de Carlos Costa, que assim envergonhou, mais uma vez, o ex-ministro anexo Constâncio.

As agências de rating são como os alcatruzes – umas vezes para cima, outras vezes para baixo

Quatro economistas ligados ao ao berloquismo, tele-evangelismo e causas fracturantes vão apresentar uma denúncia ao PGR contra a Moody’s, a Fitch e a Standard & Poor’s por «violações ao dever de apresentação objectiva e imparcial de recomendações de investimento a que estão obrigadas» as quais, segundo eles, configuram «comportamentos presumivelmente criminais» criando «um conflito de interesses na actividade destas agências de notação financeira, em particular quando baixam os ratings a estes países [Portugal, Espanha, Grécia ou Irlanda, entre outros], fazendo aumentar os juros das suas dívidas e influenciando a evolução de um mercado em que actuam os fundos financeiros que são seus proprietários».

Se eu investisse em dívida pública portuguesa, adicionaria outra denúncia: a da manutenção do rating da dívida portuguesa, fazendo diminuir os juros numa altura em que aqui no (Im)pertinências já era evidente o nível de junk. Para citar um único exemplo, a Standard & Poor’s só em Abril do ano passado baixou o rating de longo prazo da dívida portuguesa de A+ para A-, numa altura em que a Grécia já era BBB+, o que constitui uma clara violação «ao dever de apresentação objectiva e imparcial de recomendações de investimento a que estão obrigadas».

08/04/2011

BREIQUINGUE NIUZ: Espera-se a todo o momento o anúncio da rodagem do docudrama «Realengo, uma Columbine tropical» dirigido por Michael Moore

«Um homem armado invadiu uma escola da zona de Realengo, no Rio de Janeiro, disparando indiscriminadamente, sendo relatadas as mortes de 13 pessoas, 12 delas crianças.»

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: A batota como política orçamental oficial

Montagem da Infografia do Negócios online

Pro memoria (24) - José Sócrates, de animal feroz a pedinte, em apenas 18 dias

  • 19-03-2011 «Eu não estou disponível, da minha parte, para governar com o FMI»
  • 04-04-2011 «Entre nós e o FMI há 10 milhões de portugueses»
  • 06-04-2011 «O Governo decidiu dirigir à Comissão Europeia um pedido de financiamento»
Lembrete aos distraídos: o «pedido de financiamento» à CE vai ser atendido pelo FEEF o qual, como se sabe, só fará um empréstimo em conjunto e sob as condições acordadas com o FMI.

07/04/2011

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: É também uma questão de incompetência (2)

Como se pode ver no gráfico, a concentração da dívida a vencer a curto prazo é tão grande que conseguir a sua renovação nas condições actuais exigiria um custo tão elevado que engoliria a poupança, aniquilaria o investimento e liquidaria a economia. Ou então nos obrigará a um bailout do FEEF-FMI (já se viu que a FMI virá sempre no pacote – felizmente), a uma reestruturação da dívida com reescalonamento e muito provavelmente a um haircut e à renegociação dos juros, como aqui no (Im)pertinências se vem prescrevendo há muitos meses.

O parágrafo anterior foi escrito há duas semanas e também se aplica, palavra por palavra, ao gráfico do WSJ aqui ao lado.

Ó Luís vê lá na … se … como é que fico … vou olhar prós …


Se o homem convertesse um módico das suas competências mediáticas e manipuladoras em competências de governação e perseguisse o interesse do país e não o da sua clique, outro galo cantaria e não estaríamos onde nos conduziu.

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (37) – ainda haverá gente honrada no PS?

«O socialista Narciso Miranda defendeu hoje que o Governo caiu porque José Sócrates quis, considerando que foi um "golpe de mestre"» e considera Sócrates «parte do problema e não de qualquer solução». Ainda haverá gente honrada no PS? A pergunta é (im)pertinente porque, salvo erro, a nomenclatura socialista não parece considerar um paradigma de honradez Narciso Miranda, um dos raríssimos socialistas a expressar opiniões heréticas.

Conversa fiada (4) – aldrabice até ao fim

«O factor fundamental que levou a que o Governo solicitasse esta ajuda foram as dificuldades financeiras do sector financeiro, nomeadamente quanto ao risco de falta de liquidez e de levantamento de depósitos, e não tanto por dificuldades de financiamento do Estado», disse uma «fonte governamental» à agência pública Lusa central de manipulação da clique socrática.

BREIQUINGUE NIUZ: Seis em cada dez portugueses têm aquilo que merecem

Segundo a sondagem da Católica:
  • 57% dos portugueses não consideram o governo socialista responsável pela bancarrota do Estado;
  • 61% não perceberam ainda que chegámos ao fim da linha e o bailout é indispensável.

Os amigos hermanos são para as ocasiões

Elena Salgado, a ministra espanhola da Economia diz que «não há risco de contágio e que a economia espanhola é “mais competitiva” e tem um “maior potencial” do que a economia portuguesa».

A memória dos banqueiros é mais curta do que a dos povos


Fernando Ulrich (BPI)
29 Outubro – “Entrada do FMI em Portugal representa perda de credibilidade”
26 Janeiro – “Portugal não precisa do FMI”
31 Março – “por que é que Portugal não recorreu há mais tempo ao FMI”

Santos Ferreira (BCP)
12 Janeiro – “Portugal deve evitar o FMI”
2 Fevereiro – “Portugal deve fazer tudo para evitar recorrer ao FMI” 4
 Abril – “Ajuda externa é urgente e deve pedir-se já”

Ricardo Salgado (BES)
25 Janeiro – “não recomendo o FMI para Portugal”
29 Março – “Portugal pode evitar o FMI”
5 Abril – “é urgente pedir apoio .. já”

[Do Cachimbo de Magritte - cheguei lá pelo Insurgente]

06/04/2011

BREIQUINGUE NIUZ: Já por lá passámos a correr há um mês e meio

Nem todos os obamas de Obama fazem felizes os obamófilos: episódio (50) – read my lips or see my leaps?

Como que a dar razão ao WSJ, quando escreveu «no one has done more to revive the reputation of Bush-era antiterror policies than the Obama Administration», vários anos depois de ter anunciado o encerramento de Guantanamo e de ter prometido julgar os detidos em tribunais civis, o presidente Obama decidiu que Khalid Sheikh Mohammed e outros acusados terão um julgamento militar em Guantanamo. Com dois anos e meio de atraso e depois de muita demagogia o obamismo converte-se ao bushismo.

Felizmente vamos ter a oportunidade em breve de agradecer ao senhor engenheiro o que tem feito por nós

«Hoje, a nossa média do crescimento económico é a pior dos últimos 90 anos. Temos a maior dívida pública dos últimos 160 anos e a dívida externa mais alta dos últimos 120. O desemprego é o mais elevado dos últimos 80 anos e conhecemos a segunda maior vaga de emigração desde meados do século XIX.» (Carlos Abreu Amorim no JN)

05/04/2011

Chamem os bombeiros. A casa está a arder

Segundo Pedro Santos Guerreiro do Jornal de Negócios, houve ontem uma reunião secreta no BdeP dos presidentes dos maiores bancos, presume-se que sejam Caixa, BES, BCP, BPI e Santander. Nessa reunião os presidentes informaram que não comprarão mais dívida pública. Uma pergunta e uma dúvida. Pergunta: se a reunião foi secreta como ficou o JN a conhecer o que lá foi dito? Dúvida: se o que lá foi dito é mesmo o que disserem que foi, onde irão os bancos buscar as belas margens (entre 3% e 5% conforme os prazos) que estavam a obter entre as taxas dos leilões e as taxas do BCE?

CASE STUDY: O que esperar do Mecanismo Europeu de Estabilidade?

Um dos propósitos das manobras dilatórias de José Sócrates era arrastar-se sem bailout até ao Conselho Europeu de 25 de Março onde supostamente seria criado (e foi) o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE). O MEE, esperava ele, viria a comprar abundantemente dívida pública no mercado primário a taxas de juros para amigos em troca das suas promessas envelopadas em PECs.

Erro dele, má fortuna. O MEE só funcionará a partir de 2013, em qualquer caso muito para além do adiamento possível da insolvência portuguesa, e, pior do que tudo, os empréstimos do MEE terão preferência no reembolso e obrigarão os Estados devedores a incluir nas novas emissões de dívida a colocar nos mercados uma cláusula que obrigará os investidores a participarem na eventual reestruturação da dívida incluindo haircut, perdão e/ou redução de juros, e o mais que for necessário. Imagine-se a que preços irão ser colocadas estas emissões e que yield irão ter.

Além disso, o acesso ao MEE terá como condição a adopção de programas de consolidação orçamental que farão inveja ao FMI.

Pior a emenda do que o soneto.