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24/09/2006

ARTIGO DEFUNTO: a marca de Sócrates


No seu afã de puxar pela economia mediática, o Expresso não se poupa a esforços.

Na página 3 consola-nos com uma dívida pública que não deverá ultrapassar os 69,3% do PIB em 2007 e este ano «deverá fechar nos 68,7%». Quatro páginas mais à frente, a jornalista que também escreveu na página 3, descai-se com uma má notícia: o Boletim Estatístico do BdeP conta outra estória e o título da página 7 é inquietante pelos padrões manteigueiros do Expresso:
Dívida atinge 73% do PIB

Desapego à realidade? Não admira. O chefe da jornalista, o economista Nicolau Santos, dá-lhe um exemplo desse desapego, com os seus delírios solidários na página 5. Preocupadíssimo com o «sistema de capitalização puro e duro» que nos conduzirá inexoravelmente a uma «sociedade bem mais desigual, egoísta e cruel», o doutor Nicolau, depois de nos confessar as suas dúvidas sobre o sistema misto, redime-nos dum futuro cruel explicando que a solução está em reduzir as pensões mais altas ou, dito dum modo, a solução está na progressividade das contribuições para a Segurança Social. Nada de novo. Apenas uma extensão do IRS.

A fixação do Expresso na economia mediática, na ânsia de nos dar boas notícias, se por um lado revela os tiques manipulativos do jornalismo de causas, por outro evidencia a marca de Sócrates. Contrariamente ao engenheiro Guterres, que se empenhava em dar testemunho aos incréus do universo paralelo em que vivia, o engenheiro Sócrates sabe perfeitamente em que universo vive. A ambição dele é mais terrena: ele só quer que nós acreditemos que a coisa não está tão má quanto parece (estando, a culpa é da oposição), e que, seja como for, ele nos pastoreará até ao jardim das delícias, onde chegaremos por alturas do seu segundo mandato.

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