Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

14/07/2005

O MEU LIVRO DE CABECEIRA: «Portugal, Hoje - O Medo de Existir» (1)

Por instinto resisto a ler best sellers. Prefiro que o tempo depure as trivialidades, poupando-me leituras. É por isso é que ando sempre atrasado e fora de moda. Dois exemplos: só li o Ulisses uns bons 70 anos depois do Joyce o ter escrito e ainda hoje estou à espera que a Odisseia ganhe pátina.

Talvez por influência dos eflúvios que emanam do local quebrei a regra e, enquanto esperava que a pitonisa bebesse o seu Kassotis, dei comigo a ler o Portugal, Hoje - O Medo de Existir de José Gil.

Quase desisti, atolado na prosa evasiva dos primeiros capítulos, contaminados pelo jargão tipo emplastro. Aquela treta da não-inscrição estava a tornar-se demasiado enjoativa para um sujeito pragmático, que espera ver problemas identificados, soluções desenhadas e acções planeadas, que fica ouriçado com a «problematização», como se os problemas não fossem já de si suficientemente difíceis para haver necessidade de os complicar.

A coisa começou a interessar-me por volta do 5º capítulo («O pequeno infinito») - nessa altura estavam os sacerdotes a retorcer a profecia para a tornar ainda mais enigmática, mais ou menos o mesmo que José Gil estivera a fazer nos primeiros capítulos. Nesse 5º capítulo o doutor Gil identifica o que chamou o esvaziamento da fala como um dos traços característicos da alma lusitana.

Agora sim, estava perante uma arguta observação do autismo dos portugueses que falam, frequentemente ao mesmo tempo, a maior parte das vezes sobre trivialidades, saltitando de tema para tema, com um falatório dispersivo, incapazes de se focalizar, tudo isto sem se escutarem uns aos outros.

Não é só nas mesas-redondas, onde as luminárias peroram obsessivamente cada uma para si num ruidoso cacarejar. Também no quotidiano dos portugueses isso é visível, isto é audível. Mesmo nos meus amigos, que são quase todos portugueses mais ou menos descentrados e atípicos, está presente o esvaziamento da fala.

(Para ser honesto, suspeito que também estou contaminado)

Sem comentários: