Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

31/03/2007

SERVIÇO PÚBLICO: José Sócrates, o controleiro

Os impulsos manipulativos deste governo, e em particular do seu primeiro ministro, não são novidade. O que pode surpreender é a intensidade que a manipulação atingiu com o caso do escândalo do diploma da universidade Independente. Para além das dezenas de spin doctors gravitando à volta do governo que se mostraram incansáveis nas últimas semanas, o próprio engenheiro Sócrates deu o exemplo na linha de frente telefonando «pelo menos seis vezes ao jornalista (do Público) que investigou a história», segundo o Expresso (a peça «Impulso irresistível de controlar» parece um aceitável exemplo de jornalismo sem causas).

30/03/2007

SERVIÇO PÚBLICO: as flexibilidades inflexíveis

(Prima para ampliar as flexibilidades )
Hoje o governo publicou 64-portarias-64 inflexibilizando a flexibilidade de outros tantos departamentos de vários ministérios. Nos dias anteriores foram dezenas e nos dias seguintes hão-de ser mais dezenas de ejaculações legislativas flexibilizantes, no âmbito do Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado (PRACE).

Não me parece que a alguma cabeça no governo ou a alguma entre as 7 centenas de milhares de utentes da vaca marsupial pública ocorra a mais ínfima e humilde dúvida acerca da utilidade social do monstro, que ajudam a manter e os alimenta, e da elevada probabilidade do resultado destas "reformas" ser o aumento da burocracia e a aplicação inexorável da lei de Parkinson (ver aqui Parkinson Law revisited).

29/03/2007

CASE STUDY: a centralidade euro-atlântica, o quinto império da doutora Vitorino

«Portugal será Plataforma Atlântica para mercados ibérico e europeu», titula o DE e continua:
A secretária de Estado dos Transportes portuguesa garantiu hoje, na abertura do I Encontro Hispano-Luso Empresarial de Logística, em Salamanca, Espanha, que o Governo de Lisboa pretende "transformar" Portugal numa "plataforma atlântica" para os mercados ibérico e europeu.
Ana Paula Vitorino explicou, no discurso de abertura dos dois dias de trabalhos - que contam com cerca de 200 empresários das regiões Centro/Norte de Portugal e Castela e Leão a discutir as mais valias das plataformas logísticas -, que Portugal deve potenciar a sua centralidade euro-atlântica.

Vejamos alguns portos europeus insignificantes que podem ensombrar o destino da plataforma atlântica da doutora Vitorino para os mercados ibérico e europeu. O arco do norte: Vigo, La Coruna, Gijon, Santander, Bilbao, Bordéus, St. Nazaire, Brest, Cherburgo, Le Havre, Calais, Dunquerque, Antuérpia, Roterdão, Amersterdão, Bremen, Hamburgo, Kiel, etc. O arco mediterrânico: Cádiz, Valencia, Tarragona, Barcelona, Marselha, Génova, Civitavecchia, Nápoles, etc.

A doutora Ana Paula Vitorino pode explicar-nos quem vai usar os ineficientes portos portugueses para descarregar e transportar depois por milhares de kms cargas para o Norte de França dispondo dum porto como o Havre, ou para o Sul da França com Marselha, ou para a Europa central com Amesterdão ou Hamburgo?

Talvez o maior obstáculo para alcançar o que está ao nosso alcance sejam os delírios que nos levam a imaginar atingir o inatingível.

Clique para ampliar - os pontos amarelos são as insignificâncias.
(Fonte: European Sea Ports Organization)

28/03/2007

BLOGARIDADES: o que já não é mau

Eu sabia que alguém algum dia ia escrever isto: Os casais de hoje, modernos e desempoeirados, não são sexualmente mais felizes do que os de ontem. São é mais livres de sofrer, o que já não é mau.

Foi o marinheiro FNV num post inspirado.

27/03/2007

ARTIGO DEFUNTO: fazer dos leitores otários

Aeroporto da Ota 2007-03-27 00:05
Novo aeroporto deve avançar já
A construção rápida de um novo aeroporto de Lisboa é a principal preocupação dos empresários, que recusam prolongar o debate público.

É urgente avançar com o novo aeroporto, seja em que localização for ...

Os vários empresários e especialistas contactados pelo Diário Económico concordam a uma só voz ...


Quem são os vários? António Mota (Mota-Engil, a maior construtora portuguesa), Diogo Vaz Guedes (Somague - Sacyr Vale Hermoso, a 2.ª ou 3.ª construtora ibérica), Pedro Gonçalves (Soares da Costa, uma das maiores construtoras portuguesas), Vera Pires Coelho (Edifer, idem), Vasco de Mello (Brisa, associado da Mota-Engil).

Assim vai o jornalismo de causas.

26/03/2007

CASE STUDY: Salazar, Felipão e o engenheiro Sócrates

Tenho dificuldade em encontrar um dia mais humilhante para a esquerda em geral, em particular para o PC (a nossa relíquia) e a esquerdalhada, do que o dia de ontem em que o professor Salazar, o Botas, bateu irremediavelmente Cunhal como «o maior português de sempre».

Já escrevi várias vezes aqui no Impertinências sobre o Botas, sob cujo regime vivi suficientes anos da minha vida. Recordo, outra vez, uma delas, escrita a propósito do SuperMário.
Será preciso recordar que Salazar foi saudado pela esmagadora maioria dos que viveram a baderna republicana, entre 1910 e 1926, como um cirurgião que limpou a gangrena que corroía o tecido social e um contabilista que sabia fazer contas e pôs ordem no peditório das migalhas do orçamento? Que o fez impondo uma ditadura meio bafienta, não foi visto como um problema, pelo menos até ao fim da guerra, em 1945. Parecia mais um mal menor e necessário, comparado com o clima político-social que se vivia nessa altura na Europa continental, de Vilar Formoso até Vladivostoque. A oposição ao Botas limitava-se ao PC e a uma folclórica sucessão de conspirações falhadas em que a oposição republicana (a que, recorde-se, pertencia o doutor Soares) se embrulhava regularmente. O povo, esse, tratava da vidinha e via o Botas como um seguro contra devaneios, loucuras e assaltos à mesa do orçamento. O regime fassista mostrava contenção onde outros mostravam holocaustos e gulagues. E a coisa foi assim até ao início da guerra colonial. A partir daí e até à queda da cadeira e posterior passamento, o doutor Salazar foi de facto pouco apreciado pelas gerações que chegaram à idade da razão entre 1961 e 1968 e perceberam que iriam talvez morrer pela pátria do doutor Salazar, ainda que em quantidades relativamente moderadas face às que a baderna republicana tinha incompetentemente sacrificado na 1ª guerra - só na batalha de La Lys morreu o equivalente a mais de metade das baixas mortais na guerra colonial que durou 13 anos (7.000 e 12.000 respectivamente).

Para todos os que chegaram a idade da razão depois de 1974, o doutor Salazar, o Botas, é um cromo dinossáurico de que alguns dos cromos seus pais se queixavam nos intervalos de se queixarem do custo de vida que não lhes permitia comprar o ansiado plasma. Tudo por junto, deve haver uns 5% dos eleitores que se podem inflamar com as boutades do doutor Soares e mais 0,1% que se sentirão transportados pelos delírios do Ivan. Mesmo esta insignificância, no lugar do Ivan, eu não a consideraria como garantida, porque até a minha prima Violinda percebe que se há alguém «que se apresenta não como a solução para a crise, mas como um elemento de continuidade numa solução já existente» só pode ser o doutor Soares, que se vencesse as eleições seria o presidente de todos os situacionistas, 32 anos depois do almirante Tomás.
Como se vê enganei-me redondamente. Pelos vistos, o Botas não é um cromo dinossáurico para a maioria dos que se deram ao trabalho de votar no concurso. E porquê? pergunta-se. Por uma daquelas coincidências que só podem ser explicadas por uma boa teoria da conspiração, a resposta à pergunta pode encontrar-se no ensaio que o blasfemo Pedro Arroja escreveu sobre Felipão e as razões do seu sucesso. É um texto tão na mouche (aparte as fantasias papistas) que só não o transcrevo porque pode ser lido aqui no seu habitat natural.

As razões do sucesso de Salazar in illo tempore e ainda hoje devem-se essencialmente às mesmas razões do sucesso de Scolari - uma visão e uma liderança perfeitamente adaptadas aos desafios e à época e à cultura local. Baseado na minha experiência de muitos anos a liderar songamongas portugueses (e outros) garanto, sem quaisquer dúvidas, que um e outro são mestres no estilo de liderança pater benignus. Um dia Scolari, como Salazar, cairá da cadeira e entrará em declínio, mas será recordado mais tarde como é hoje Salazar.

E o que acontecerá ao engenheiro Sócrates dentro de 40 anos? Alguém o recordará? Até pode ser, mas de modo completamente diverso. A semelhança de estilos é perfeitamente superficial. Sócrates também é autoritário, mas tem pouca autoridade. Sócrates não tem competências visíveis, para além da manipulação mediádica, o contrário de Salazar, um jurista e financista competente, e de Scolari, um jogador esforçado e um treinador experimentado. Sócrates é arrogante, o contrário da simplicidade e (aparente) humildade de Salazar e de Scolari. Sócrates quer impor a sua visão porque é a dele. Salazar impôs e Scolari impõe a sua visão porque são (se apresentam como) meros portadores dum desígnio.

Chegado a este ponto, antevejo a repulsa do liberalismo académico, na remota hipótese de algum dos seus representantes chegar até aqui. Então e o Homo Liberalensis? perguntarão. Não o vejo escondido nas profundezas da alma portuguesa à espera do dia da libertação, respondo.

25/03/2007

ESTÓRIA E MORAL: a vida para além do orçamento

Estória

O governo anunciou com grande pompa que o défice foi 3,9%, inferior ao previsto (4,6%). Daquelas bocas não saiu nenhuma explicação convincente do milagre, que prosaicamente se deve ao aumento das receitas resultante de mais impostos e dum saque mais eficaz (1).

Quanto às despesas estamos conversados. As despesas correntes aumentaram ligeiramente abaixo da inflação e o que se reduziu foi o investimento. Não que eu chore por causa da redução do investimento público, antes pelo contrário, mas os factos são os factos.

O anúncio do governo foi acompanhado da habitual e deliberada ocultação do critério do défice: na óptica da contabilidade pública, para aprovação na Assembleia da República e apreciação pelo Tribunal de Contas, ou na óptica da contabilidade nacional para reportar ao Eurostat e à Comissão Europeia. Ópticas que costumam ter resultados significativamente diferentes.

A doutora Manuela Ferreira Leite, que deve saber do que fala, fez ela própria umas quantas perguntas no seu Ponto sem Nó do Expresso, cujas respostas do governo eu pagaria para ouvir. Perguntou quais os montantes de:

  • regularização de dívidas fiscais?
  • receitas antecipadas?
  • venda de património (incluindo autarquias)?
  • mais-valia da venda da venda da Galp?
  • dividendos extraordinários?
E fechou com uma pergunta pérfida: como estão a ser contabilizadas as indemnizações compensatórias?

Moral

As statisticians (2) know well, data tortured long enough will almost always confess (no Economist, a long time ago).

Notas de rodapé
(1) Eficácia a creditar ao doutor Paulo Macedo, felizmente de regresso ao Millenium bcp. Felizmente? Sim felizmente, porque também nesta matéria são aplicáveis as
funções zingarilho - quanto mais eficiência na cobrança mais delapidação na despesa.
(2) À primeira vista pareceria mais adequado falar de contabilistas. À segunda vista lembrei-me de ter lido algures que statisticians lack the guts to be accountants e resolvi que ficasse assim.

23/03/2007

TRIVIALIDADES: (ainda) as trapalhadas do diploma

Em 07-03-2007 Fernando Sobral escreveu no Jornal de Negócios um artigo de opinião (O neurónio tecnológico) a propósito do deslumbramento do engenheiro Sócrates na sua visita à Finlândia por essa altura.

Um leitor com o pseudónimo Breogan escreveu um longo comentário a esse artigo com o título As tecnologias do eng sanitário! O comentário é um requisitório implacável, aparentemente fundamentado em factos (não necessariamente verdadeiros), que pretende desmontar a alegada encenação académica do engenheiro Sócrates. Vale uma leitura crítica.

Nota de rodapé
Este comentário chegou-me hoje por email. Não deixa de ser curioso que, tendo uma matéria factual tão impressiva sido tornada pública, a imprensa só agora, um ano depois e a propósito das trapalhadas de universidade Independente, a tenha começado a tratar. Também na bloguilha a repercussão foi aparentemente limitada - alguns blogues referiram-se-lhe pontualmente e a coisa morreu de morte natural.

ESTADO DE SÍTIO: as fixações freudianas do estado napoleónico-estalinista

É só um sintoma, mas o que dizer dum estado cujo poder executivo tem nos últimos 12 meses 873 ejaculações legislativas a propósito da caça? É uma média inumana de 3,5 ejaculações por dia útil.

22/03/2007

TRIVIALIDADES: as trapalhadas do diploma

Do ponto de vista das suas competências como líder político e primeiro ministro é irrelevante se o senhor José Sócrates é engenheiro civil, tem uma licenciatura em engenharia ou tem um qualquer outro diploma académico.

Do ponto de vista político, eu não confio num político que é uma construção mediática, que não é portador duma visão política e carece de autenticidade.

Se estas especulações se confirmarem é mais um passo na desconstrução do político José Sócrates.

SERVIÇO PÚBLICO: desinteresse pelos conflitos de interesse

O ex-presidente do ISP (Instituto de Seguros de Portugal), entidade reguladora e de supervisão dos seguros, doutor Rui Leão Martinho, demitiu-se nos finais do ano passado e foi hoje nomeado presidente do Conselho de Administração da Tranquilidade, seguradora do grupo Espírito Santo, uma das empresas supervisionadas pelo ISP. (DE)

Não é a primeira basculação entre supervisão e operador supervisionado (o doutor Constâncio do BdeP já basculou várias vezes e o ISP tem um longo historial de basculações), mas a reincidência não despenaliza as piores práticas.

Num país que se leva a sério um ex-supervisor tem, por lei, um «período de nojo» de vários anos para poder assumir um cargo numa empresa supervisionada, por razões que não precisarão de ser explicadas.

Se um país não se leva a sério, não pode esperar que outros países o tomem a sério.

21/03/2007

BLOGARIDADES: estória do blogue quando jovem

Blogs: The evolution (*)
Sometime in 1971
Stanford's Les Earnest creates the "finger" protocol.
December 1977
The finger protocol becomes an official standard.
January 1994
Swarthmore student Justin Hall begins compiling lists of links at his site, links.net, and continues adding to the site for 11 years.
January 1995
Early online diarist Carolyn Burke publishes her first entry for Carolyn's Diary.
April 1997
Dave Winer launches Scripting News, which he calls the longest-running Web log currently on the Internet.
September 1997
Slashdot begins publishing "News for Nerds."
December 1997
Jorn Barger's RobotWisdom.com site apparently becomes the first to call itself a Web log.
Sometime in 1999
Brad Fitzpatrick launches Livejournal, which he calls his "accidental success."
• Peter Merholz of Peterme.com declares he has decided "to pronounce the word 'weblog' as 'wee-blog.' Or 'blog' for short."
• The word "blog" first appears in print, according to dictionary publisher Merriam-Webster.
August 1999
Three friends who founded a San Francisco start-up called Pyra Labs create a tool called Blogger "more or less on a whim."
January 2001
First crop of blogs nominated for the "Bloggies" award.
October 2001
First version of Movable Type content management software becomes available.
February 2003
Google acquires Pyra and its Blogger software.
May 2003
First official version of WordPress open-source blogging software released for download.
October 2003
Six Apart releases first version of its Typepad blogging service.
January 2004
Boston-based Steve Garfield launches his video blog, considered one of the first such "vlogs."
October 2005
VeriSign buys Dave Winer's Weblogs.com. Around the same time, AOL snaps up blog publisher Weblogs Inc.
February 2006
Veteran blogger Jason Kottke abandons his yearlong attempt to live off of micropayments through his blog.
January 2007
Members of the Media Bloggers Association are among the first bloggers to receive press credentials from a federal court.
February 2007
Freelance video blogger Josh Wolf becomes the longest-serving journalist behind bars in U.S. history, on contempt charges.

(*) Fonte: Blogs turn 10 - who's the father?, Techrepublic

20/03/2007

ESTADO DE SÍTIO: visão de longo prazo

O primeiro-ministro anunciou ontem um programa de investimento de mil milhões de euros na requalificação das escolas secundárias até 2015. O programa começará com 4 num universo de 332 escolas. Para atingir em nove anos a totalidade das escolas, o investimento até ao final do programa terá que incrementar-se em média 50% em cada ano (se os custos de requalificação de cada escola forem em média aproximadamente iguais). Sabendo-se o apreço em que eleitores têm as obras, sejam elas rotundas, auto-estradas ou escolas, deverá entender-se que, com a dilação do investimento, o senhor engenheiro quer deixar os louros da obra feita para futuros governos e reserva para si a humilde tarefa dos anúncios. Bem haja.

Com o mesmo racional podia o programa agora anunciado cobrir um investimento (a preços constantes) de dez mil milhões de euros nos 94 anos que faltam até ao fim do século. Poderá o facto de não o ter feito significar que o senhor engenheiro Sócrates não tenciona recandidatar-se a um 4.º mandato? Bem haja, uma vez mais.

19/03/2007

SERVIÇO PÚBLICO: o aborto e a condição feminina

«NÃO acompanhei de perto a questão do referendo sobre o aborto e os esforços legislativos que se seguiram. Mas desde há mais de 20 anos que tenho um conhecimento razoável dos Estados Unidos, pelo que o melhor contributo que posso dar é, provavelmente, falar do caso americano, que em certo sentido 'vai à frente' do caso português.
O controle reprodutivo - primeiro, a generalização dos meios contraceptivos, depois, a liberalização do aborto - teve um enorme efeito na condição da mulher americana. É notável o aumento de mulheres com curso superior ou pós-graduação, com participação activa na vida política, com carreiras profissionais onde há cinquenta anos praticamente não eram vistas. É, também, notável o maior equilíbrio de funções nas relações familiares.

MAS o que também salta à vista do economista (pelo menos deste economista) é aquilo que Diane Pearce caracteriza como a 'feminização' da pobreza: o facto de as mulheres representarem uma fracção cada vez maior dos pobres.
Um estudo recente de três economistas americanas sintetiza alguns dos factos da situação actual. A taxa de pobreza em famílias com dois adultos é de 7%. Em famílias com apenas um adulto, o valor sobe para um astronómico 40.3%. Dentro deste grupo, mais de 80% corresponde a mulheres solteiras. Tudo isto aconteceu nas últimas décadas; nos anos 50, o número de mães solteiras era entre um terço e metade do número actual.

TEMOS de ser cautelosos para não confundir correlação temporal com causalidade. Mas a explicação de George Akerlof, Janet Yellen e Michael Katz parece plausível. A ideia é que o controle reprodutivo reduz o poder de negociação da mulher. Até aos anos 60, a mulher pode exigir a promessa de casamento como condição para relações pré-matrimoniais. Após o choque tecnológico-legal-social da pílula e do aborto, esta condição perde peso. De facto, o 'casamento de pena1ty' tornou-se rapidamente uma coisa do passado.
Ora, quem perde com a mudança são as mulheres que não sabem usar a pílula; ou que acham que abortar é um crime; ou que, simplesmente, querem ter filhos. Perdem porque acabam como mães solteiras - algumas por opção, certamente, mas muitas por força das circunstâncias.
A mulher ganhou com a liberalização do aborto pois agora tem maior liberdade de escolha; logo, a condição feminina melhorou com o aborto liberalizado - este argumento está errado por dois motivos. Primeiro, porque não toma em consideração os efeitos indirectos que a liberalização do aborto teve, nomeadamente ao contribuir para desvalorização do casamento. Em segundo lugar, porque se trata de um raciocínio sobre a média quando de facto o impacto do aborto liberalizado foi muito diferente entre as mulheres ricas e as mulheres pobres.

PARA um economista, esta é a ironia do debate sobre a liberalização do aborto: enquanto que a defesa das mulheres mais pobres e desprotegidas é frequentemente apontada como argumento chave, a evidência dos Estados Unidos sugere que a liberalização piorou justamente a situação das mulheres mais pobres e desprotegidas
O aborto e a condição feminina, Luís Cabral, professor da Universidade de NY, no SOL

BREIQUINGUE NIUZ: a dream came true

O sonho do presidente da Galp de tornar «mais transparente» o mercado do gás natural com criação duma OPEP do gás tornou-se realidade. A Rússia, Irão, Venezuela, Argélia e Catar decidiram criá-la. Não havendo dúvidas sobre o que são os criadores, para afastar as dúvidas sobre o que será a criatura um diplomata árabe já esclareceu que será conduzida «por políticos, até mesmo a nível de Ministério de Negócios Estrangeiros».

Quer a coisa que será conduzida por políticos, quer os sonhos do presidente da Galp, senhor engenheiro Oliveira de Figueira, ficaram assim mais transparentes.

18/03/2007

ARTIGO DEFUNTO: porque ri Berardo?

Esta semana os semanários de referência praticamente ignoraram Joe Berardo. O caderno Confidencial do Sol dedica-lhe um mísero 1/3 da capa com foto em pose pensador e só no interior se redime oferecendo-lhe toda a página 12 e 1/3 da página 13 com foto corpo inteiro. O caderno Economia do Expresso ainda é mais parco - dedica-lhe apenas 1/3 da página 13 com foto em pose de estadista.

É pouco. Muito pouco para a visão que o senhor comendador tem para nos transmitir, os pensamentos que faz questão de partilhar connosco e as lições que tem para nos oferecer.

Porque ri Berardo? Tenho para mim que ele se ri com um sorriso esfíngico ao pensar como lhe é fácil que as suas causas também sejam causas do jornalismo de causas. Ele que até já foi aplaudido à entrada da AG da PT pelos empregados desta que ainda não tinham sido contemplados com a rescisão por mútuo acordo.

ARTIGO DEFUNTO: as trombetas de Sócrates

O que há de notável nas conclusões do relatório da NAV sobre a Ota divulgadas pelos mídia? A incompetência demonstrada pelo governo e a falta de seriedade com que tem tratado este tema?

Isso não é notável. O que é notável é a pronta e competente resposta da central de manipulação dos mídia que este governo tem montada.

Em poucas horas, a NAV informa que os constrangimentos serão removidos, a Força Aérea anuncia que mudará os voos, a NAER jura que não há estudos que ponham causa a opção Ota. Até aqui nada de extraordinário porque são os empregados bem-mandados do estado napoleónico-estalinista e o ministro a dizer a única coisa que poderia dizer em alternativa a pedir a demissão (o silêncio do primeiro-ministro, sempre pronto a soltar sound bites para a abertura dos telejornais, fala bem alto). Extraordinária é a oleada câmara de eco dos mídia. Nem me dou ao trabalho de fazer links. Eles são aos magotes.

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: o que fizeram ao dinheiro?

Nós tivemos 20 anos de fundos comunitários, e no final deste período temos um défice externo acima de 8% do PIB. As responsabilidades externas líquidas totais face ao exterior ultrapassam os 70%. A taxa de crescimento do Produto potencial baixou, a produtividade também. Analistas estrangeiros perguntam-me: o que fizeram ao dinheiro? O País está realmente diferente ao nível das infra-estruturas, do sistema rodoviário. Porém, em termos de capacidade competitiva face aos outros países não se notou nada. Temos uma economia pouco desenvolvida em termos de concorrência. E por isso é que é fulcral a abertura.
(no Semanário Económico, entrevista a Carlos Andrade, economista-chefe do BES)

17/03/2007

CASE STUDY: l'exception française

Nos últimos 4 meses suicidaram-se 3 engenheiros da Renault. Das duas uma, ou é obra de puro acaso, o que é possível ainda que pouco provável, ou há uma ou várias causas comuns aos 3 suicídios.

A dúvida não é irrelevante, e a Renault parece ter encontrado a resposta ao anunciar que vai contratar 110 novos engenheiros, melhorar as condições de trabalho, e apresentou um plano aproximar as chefias das equipas de engenharia e «facilitar o diálogo». (Le Figaro)

É surpreendente? Nem por isso. No coração da Óropa social, no seio dum dos campeões nacionais as relações de trabalho estão ao nível dos finais da década de sessenta, quando as pedras da calçada foram levantadas e os assustados patrões franceses descobriram Peter Drucker com uma década de atraso e apressaram-se a desfraldar a bandeira da gestion participatif, a que foram timidamente acrescentando par objectifs.

São os frutos duma sociedade profundamente hierarquizada (*) em que os subordinados não têm qualquer controlo sobre o seu trabalho e as suas vidas, o que, sabe-se hoje, tem efeitos nefastos no sistema imunitário e na saúde mental.

(*) Como mostram os estudos de Geert Hofstede a França é o país europeu com o índice Power Distance mais elevado.

16/03/2007

CASE STUDY: a doença é tão profunda que a poção tem que ser administrada em doses cavalares

Escreveu-se aqui no Impertinências «que a PT gastou no ano passado 229 milhões de euros para despedir por mútuo acordo, pré-reformar ou suspender 792 trabalhadores, à média de 300 mil por cabeça. Apenas um pouco mais do que pagou aos vários outros milhares com que fez acordos semelhantes nos anos anteriores. Mais 1.000 estão na fila de espera deste ano para receberem maquia semelhante

Acredite-se ou não, depois de ter feito a felicidade de milhares de songamongas que agora bóiam nas piscinas de hidroginástica, suam nos ginásios para abaterem uns centímetros às volumosas barrigas ou para endireitarem as protuberantes bossas, nem assim a PT consegue melhor do que um rácio de receitas por empregado de 75% da média dos 13 operadores incumbentes europeus, o que, em si mesmo, não é um benchmarking exaltante. (JN)

15/03/2007

NÓS VISTOS POR ELES: não será por falta de leis

«Contudo, existe um mecanismo administrativo paralisante em Portugal, não sei porquê. Todas as administrações bloqueiam sempre tudo. Aqui em Barcelona houve uma reforma administrativa na Câmara Municipal há 25 anos, reduziu-se o pessoal para um quarto e obrigou-se a responder e a dar as licenças em três meses. Foi um grande empurrão pois era um sistema que existia desde os anos 50. E quando falo com os políticos e os empresários em Lisboa fico com a impressão de que têm vontade de fazer coisas mas que existem muito entraves administrativos
(Palavras do arquitecto catalão Ricardo Boffil em entrevista ao Expresso)
Saberá o arquitecto Bofill que aqui em Portugal também houve uma reforma administrativa há 8 anos (regime jurídico da urbanização e edificação aprovado pelo Decreto-Lei n.º 555/99 de 16 de Dezembro) que obrigou as câmaras municipais a darem as licenças não em três meses mas em 30 dias?

Se soubesse, talvez Ricardo Bofill pudesse responder citando Filipe II de Espanha, I de Portugal, as leis em Portugal são duras, mas a prática é mole.

14/03/2007

O IMPERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: isso é lá com ELES

JARF transcreve do Destak de hoje, em meu benefício e de outros amigos comuns:
«As principais economias internacionais, incluindo a portuguesa, tenderão a subir o peso dos impostos sobre o consumo e a reduzir o dos impostos sobre as empresas e capital, segundo o economista António Simões Lopes (o bastonário da Ordem dos Economistas).
A culpa é, diz o especialista, da globalização. Paralelamente, os países vão confrontar-se com reduções de contribuições para a segurança social. E a pressão fiscal conduzirá à redução das despesas públicas, e ao aumento da dificuldade na implementação das políticas distributivas.»
Não sei se deva estar preocupado. Andamos a tomar a medicina das políticas distributivas há décadas e temos a saúde que temos. Não sendo possível garantir que, mudando a medicina, ficamos com melhor saúde, é de esperar que se continuarmos a tomar o mesmo remédio a doença não se cure.

Seja como for, uma coisa é certa: nós portugueses conseguimos colectivamente sempre encontrar (pelo menos) um culpado para a nossa miséria. Ele foi a monarquia, ele foi a república, ele foi o fassismo, ele foi o 25 de Abril, ele foi (e é) a Espanha, ele é a globalização. É um expediente muito conveniente, porque nos dispensa de mudarmos de vida.

Individualmente, dispomos ainda dos suspeitos do costume: ELES (*).

(*) Eles (socialês), segundo o Glossário das Impertinências, são:
(1) Os culpados da nossa miséria (dos fascistas aos liberais, passando pelos comunistas e, sempre, os espanhóis, e, em alternância, o governo e a oposição)
(2) Os responsáveis pelo trânsito da miséria para a felicidade (quase todos os referidos).
Antónimos: EU (que não sou parvo e não tenho nada a ver com isso) e NÓS (EU, a minha MÃE, a minha patroa, os putos, os amigos, talvez o clube, e o partido, às vezes)
.

13/03/2007

ARTIGO DEFUNTO: porque ri Sócrates?

A entrevista ao engenheiro Sócrates na Tabu do Sol não é uma entrevista. É um panegírico encomendado. É uma elegia amanteigada. É um paradigma do que é hoje o jornalismo de causas português e das relações promíscuas que mantém com os poderes fácticos (não só o político).

Sem querer entrar pelas veredas por onde andou o Grande Loja do Queijo Limiano, metendo o pau nos duvidosos pergaminhos académicos do senhor engenheiro, a verdade é que ficam umas dúvidas que o tom geral da entrevista só avoluma.

Onde não ficam dúvidas é sobre o valor que a vida do senhor engenheiro tem para o próprio. Com a liberalização do aborto irrestrito, confessa que alcançou uma daquelas «vitórias que valem uma vida».

12/03/2007

SERVIÇO PÚBLICO: climatologia de causas

Não sou adepto da estratégia negacionista nem sou portador da verdade inconveniente. Limito-me à dúvida cartesiana. Por falar nisso, eis um vídeo imperdível impregnado de Dangerous Thought Verboten in German Media, nas palavras do Davids MEDIENKRITIK.

O IMPERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: cada Manel com sua Maria

Ultimamente não tenho publicado nesta rubrica os insultos (alguns merecidos) que tenho recebido da(o)s minhas (meus) querida(o)s detractores.

Aproveito um email de RMR com umas cócegas no ego. Publico-o para arejar esta secção que estava a ficar com mofo.
O código genético berloquista mais a penseuse cinéfila encheram-me as medidas.
Com o chorrilho de baboseiras com que a comunicação social nos brinda, precisamos de impertinências que nos venham confirmar que há mais quem pense como nós e se sente sufocar sob a almofada do politicamente correcto.
De facto, com o novíssimo ABORTEX entrámos no século XXI e, portanto, os jovens vão ter de ser educados em conformidade para não sobrecarregar os serviços. Para isso, nada como uma visão gay da vida. Em vez de ser cada Manel com sua Maria, passa ser cada uma com cada uma e cada um com cada um. Adeus, gravidez na adolescência. E nós, em matéria de "IVG" (ainda gostava que me explicassem como se interrompe aquilo que se extermina, até já procurei no seu glossário) vamos de TGV, a trezentos à hora. Qual aconselhamento, qual carapuça. Para o aborto, rapidamente e em força.
Posso até estar a ser injusta, mas quase apostava que a penseuse também "pensa" assim.
O ABORTEX merece ter entrada directa para o Glossário (work in progress).

11/03/2007

ESTADO DE SÍTIO: pior que não fazer a reforma certa, é não a fazer e acrescentar uma reforma errada

Depois de ter deixado cair a única reforma que estava obrigado a fazer - o downsizing do estado napoleónico-estalinista e a correspondente dieta da vaca marsupial pública - o governo começou, como é seu costume (expediente herdado dos governos do engenheiro Guterres), a enviar balões-sonda através do inefável secretário de estado da Administração Pública, assessorado pelo ministro anexo Vital Moreira, para antecipar as possíveis reacções à medida mais estúpida que podia tomar neste contexto: aumentar os horários de trabalho e reduzir as férias.

Porquê estúpida? perguntarão os distraídos. Pois não é verdade que os utentes da vaca estão cheios de mordomias? Lá isso estão. Mas a verdadeira questão é o excesso de utentes e não a sua óbvia falta de produção. Se os funcionários públicos são relativamente improdutivos, o que se conseguirá com o aumento de mais 280 às suas horas de estacionamento nas repartições? Menor produtividade. E se a essas horas adicionais somarmos os efeitos de algumas medidas avulsas de simplificação administrativa? Ainda menor produtividade. A não ser que.

A não ser que se ampliem as já incomensuráveis funções do estado napoleónico-estalinista. Desfecho que se tornará inevitável pela força das coisas, quero dizer pelos efeitos da lei de Parkinson, que está aqui muito bem explicadinha para quem quiser refrescar a memória.

Este tema daria um esplêndido pretexto para construir mais uma teoria da conspiração, se fizesse o meu género, que não faz. O que o governo pretende é muito mais prosaico: à boleia da proverbial distracção dos sujeitos passivos, invejosos das mordomias dos utentes da vaca, impinge-lhes a ideia que toma medidas, que é um governo teso, que abomina a injustiça e ataca os privilégios. Os sujeitos passivos aplaudem e os utentes da vaca acomodam-se, porque já perceberam que devem pagar uma factura módica para não terem que pagar a factura grande.

10/03/2007

CASE STUDY: está-lhes no código genético

O Bloco de Esquerda está este fim de semana a preparar «iniciativas legislativas para a prevenção da gravidez adolescente e para tornar a Educação Sexual matéria obrigatória nas escolas». Embalado pela última vitória na guerra das causas fracturantes, o berloquismo prepara-se para iniciar mais uma batalha - a da educação sexual. Com a ecoanomia no estado em que está e estará, com as reformas a marcarem passo, com a gestão mediática a dar alguns sinais de desgaste, até pode ser que o engenheiro Sócrates embarque em mais esta batalha para distrair o eleitorado, à míngua de meios para umas obras de encher o olho e um alívio do cinto ao aproximar-se o countdown das eleições de 2009. Parece um bom complemento para a liberalização do aborto. Agora que o estado fornece os meios do aborto irrestrito, parece lógico adicionar-lhe alguma engenharia social, das almas e dos corpos, à pala de preparar as adolescentes para a contenção na utilização do serviço nacional de abortos, que os tempos estão difíceis.

Porquê esta obsessão, duma esquerda que se veste muitas vezes com roupagens libertárias, de atribuir ao estado um papel de intervenção cada vez mais intrusivo na vida privada dos cidadãos? A resposta é: está-lhes no código genético. Sabem de ciência certa que não têm qualquer chance de chegar ao poder pelo voto. Sabem que já não podem trautear os amanhãs que cantam, porque os amanhãs que cantaram no passado são hoje evocados como um requiem. Desconfiam absolutamente das famílias como lugar da educação por excelência, porque sabem que se podem convencer algumas toda a vida, não podem convencer todas, nem mesmo durante algum tempo. A família é uma instituição que nunca poderão controlar e que abominam por isso mesmo. Não há tomada de palácio de inverno que lhes valha no que respeita à família. Resta-lhe tentar controlar as escolas públicas (em grande parte já conseguem), os mídia (idem), entreter a opinião pública com as causas fracturantes e aprisionar os governos com as suas tácticas chantagistas. Nunca chegarão ao poder mas ajudarão a solapar as fundações das sociedades democráticas.

(A propósito das ambições de engenharia social sempre presentes nestes projectos de «educação social» releia-se este post antigo do Impertinências)

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: cinema independente

«La penseuse», Kurtz
Secção George Orwell (*)

É uma grande mentira que o cinema português seja pago pelos contribuintes. O ICAM subsidia os filmes portugueses com o dinheiro das taxas sobre a publicidade na televisão. Disse ontem a penseuse Maria João Seixas, por estas ou por palavras parecidas, aos microfones da Antena 2.

Cinco chateaubriands para a penseuse Maria João Seixas.

(*) George Orwell terá dito que há ideias e opiniões tão obviamente idiotas que é preciso ser-se um intelectual para se acreditar nelas.

08/03/2007

CASE STUDY: uma OPA é uma opa (2)

A Sonaecom procedeu à alienação de 11.291.657 acções da Portugal Telecom (cerca de 1%) a um preço médio de 9,62 euros. Realizou uma bela mais-valia, todavia insuficiente para pagar os 40 milhões que lhe custou a OPA. O mercado deveria pagar-lhe o diferencial entre o custo da OPA e a mais-valia que realizou para retribuir o valor que foi acrescentado à PT pela iniciativa da Sonaecom e pelos efeitos positivos para o mercado resultantes da separação das redes, do spin off da PT Multimédia e last but not least pela nomeação do doutor Granadeiro em substituição do Visconde Barão Doutor Horta e Costa, a Enfatuada Vacuidade do double windsor e do roupão de seda com brasão.

Se a PT vale mais de que os 10,50 oferecidos pela Sonaecom, porque está a ser negociada a cotação muito abaixo da OPA (9,69 hoje)? O que sabe o senhor Joe Berardo, o doutor Ricardo Salgado e as outras luminárias que o mercado não sabe?

07/03/2007

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: agora é oficial - esqueçam a reforma da administração pública

Secção Entradas de leão e saídas de sendeiro

Ainda não tinha arrefecido os pequenos incêndios que lavraram pelo país a propósito do fecho das Urgências e já «aquela que foi anunciada como sendo ‘a mãe de todas as reformas’ para emagrecer o Estado, afinal, não vai criar condições para diminuir o número de trabalhadores da função pública, conforme consta do Programa de Governo», para usar as palavras do Diário Económico.

Dois anos após tomar posse o governo abandona a única reforma que seria, de facto, essencial ser feita e que só ele poderá fazer. Não adiantam incentivos ao investimento, pirâmides das obras públicas, ridículas Cadernetas de Competências profissionais, farsas de mobilidades.

Citando-me, onde se imaginava determinação e coragem política vê-se agora apenas teimosia e pesporrência. Tanto capital político delapidado em vão durante dois anos. A montanha mediática em trabalhos de parto do rato das reformas.

Mais cinco urracas para o governo pela continuação das saídas de sendeiro.

06/03/2007

ARTIGO DEFUNTO: a nova estratégia é igual à antiga, a boa imprensa também

«A nova estratégia do ministro da Economia é hoje assinalada no Porto, numa cerimónia em que vão ser contratualizados mais de 100 projectos de investimento e entregues mais de 30 prémios de boa execução no âmbito do SIME - Sistema de Incentivos à Modernização Empresarial, segundo dados avançados ao Jornal de Negócios.
O conjunto de projectos soma perto de 145 milhões de euros de investimento privado, com um incentivo associado próximo dos 38 milhões de euros. A estes projectos correspondem 780 postos de trabalho já criados - no caso das empresas premiadas - e 650 empregos a criar - no âmbito dos novos contratos de investimento. Em causa estão mais de 1.400 novos postos de trabalho».
A nova estratégia é igual à antiga. Não se sabe se os benefícios fiscais são para incentivar investimentos inviáveis ou se premeiam investimentos que sendo viáveis não precisariam de incentivos.

A boa imprensa também continua na mesma: mostra-se o multiplicador do incentivo que é 3,8 (39 m de incentivos «geram» 145 m de investimento) e conclui-se que «em causa estão mais de 1.400 novos postos de trabalho» = 780 que não são novos e 650 vamos rezar para que sejam novos.

CASE STUDY: somos todos franceses (2)

05/03/2007

CASE STUDY: somos todos franceses

Com a proibição de fumar nas instalações das empresas francesas desde 1 de Fevereiro, levantou-se uma nova questão que tem virtualidades de incendiar a França. Uma vez que os fumadores vão ter que fazer umas pausas para matar o vício na rua, devem essas pausas ser ou não contadas para efeito do cumprimento das 35 horas por semana?

Questão irrelevante? Talvez noutras paragens. Em França o tribunal da relação de Paris já fez doutrina no que respeita a contar como horário de trabalho os minutos que o pessoal da Euro Disney gasta entre os vestiários e o local de trabalho no parque. Em 2005 os caminhos de ferro franceses negociaram com os sindicatos a concessão de um feriado público contra 1m 52s de trabalho extra por dia.

Em alternativa a darem as suas passas na rua, os trabalhadores franceses poderão fazê-lo nos fumoirs nas instalações das empresas, que não poderão ter mais de 35m2, não podendo o pessoal de limpeza entrar nos fumoirs antes de decorrida 1 h depois do último viciado ter saído.

Extraordinário? Nem por isso. Afinal estamos a falar dum país onde a maior ambição da esmagadora maioria dos jovens é serem funcionários públicos.

Est que c'est bizarre? Pas du tout. C'est la France. Voilà.

(Estas e outras estórias tipicamente gaulesas podem ser lidas neste Economist já velhinho)

04/03/2007

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: ainda é só a buzina dos 2 anos

(Fonte: Sol)
Secção Entradas de leão e saídas de sendeiro

Ainda não é o buzinão dos 10 anos de governo do doutor Cavaco, mas pequenos incêndios alastraram por todo o país a propósito do fecho dos Serviços de Urgências.

Não está agora em causa se a decisão é certa ou errada. Provavelmente não fará sentido económico e social, pelo menos em vários casos, manter aqueles serviços - não é viável ter uma urgência em cada aldeia, monte, povoado. Não está em causa se a medida era polémica - era previsível que fosse. Está em causa que o governo estava convencido da necessidade da medida e, atento como está sempre à gestão mediática, não se acredita que imaginasse ir ser aplaudido por esse país fora quando a anunciasse. E, se estivesse, mostraria incompetência na única área em que ninguém contesta que a tenha - a gestão mediática.

E que faz o governo quando a primeira medida que tem de facto impacto imediato no povinho, que vai para além dumas páginas de tretas que pouca gente lê, de planos que jamais se executarão, de leis que nunca se cumprirão, é mal recebida pelo mesmo povinho que se levanta em protesto? Mete a viola no saco, assina protocolos a correr, adia, mantém, continua.

É a queda de mais um mito: o animal selvagem «assustou-se com as manifestações» (Sol) e manda o ministro assinar protocolos. Onde se imaginava determinação e coragem política vê-se agora apenas teimosia e pesporrência. Tanto capital político delapidado em vão durante dois anos. A montanha mediática em trabalhos de parto do rato das reformas.

Cinco urracas para o governo (4 para o primeiro ministro e 1 para o ministro da Saúde) pelas saídas de sendeiro e cinco chateaubriands (mesma distribuição) por não ter percebido a diferença entre as reformas no papel do Diário da República e as medidas no país real, como era moda dizer-se.

03/03/2007

SERVIÇO PÚBLICO: o obra está à vista

Para quem duvida dos ímpetos reformistas do governo do engenheiro Sócrates, para quem não vê a reforma da administração pública em curso a todo o vapor, aconselha-se a leitura dos jornais: 23-empresas públicas-23, 5-fundações-5 e 35-grupos de trabalho-35.

DIÁRIO DE BORDO: porque será que não estou surpreendido?

Cruzei-me com o doutor Luís Arouca, actual reitor da Universidade Independente, 40 anos atrás. O então assistente do professor Jacinto Nunes já era um figurão emproado que chegava no seu descapotável, colete assertoado donde espreitava um relógio de bolso de ouro que consultava constantemente. Anos mais tarde, uma pessoa que então trabalhava comigo contou-me algumas peripécias da vida do doutor Arouca que deixavam prever o pior.

Porque será que as trapalhadas em curso na «Universidade» Independente não me surpreendem?

02/03/2007

BLOGARIDADES: impertinências censuradas

Via O Insurgente descobri o site Great Firewall of China e constatei que as chinesices da censura chinesa vão ao ponto de também incluírem o Impertinências na lista dos sites proibidos. Como o fruto proibido é mais desejado, tenho verificado um inesperado afluxo de visitas de sites alojados em servidores da região de Pequim (ainda não terão adoptado o plano tecnológico do doutor Zorrinho?).

01/03/2007

DIÁRIO DE BORDO: eu sabia que tinha escrito isto em algum lugar

Diz a patroa que sou como os mineiros (de Minas Gerais), dou um boi para não entrar na briga e uma boiada para não sair dela. Fiquei a ruminar aquela briga dos blasfemos sobre os méritos e deméritos do estado fassista do professor Botas e lembrei-me que, a propósito duns delírios do Ivan do SuperMário durante a campanha presidencial, escrevi este ensaio sobre o fassismo:

Será preciso recordar que Salazar foi saudado pela esmagadora maioria dos que viveram a baderna republicana, entre 1910 e 1926, como um cirurgião que limpou a gangrena que corroía o tecido social e um contabilista que sabia fazer contas e pôs ordem no peditório das migalhas do orçamento? Que o fez impondo uma ditadura meio bafienta, não foi visto como um problema, pelo menos até ao fim da guerra, em 1945. Parecia mais um mal menor e necessário, comparado com o clima político-social que se vivia nessa altura na Europa continental, de Vilar Formoso até Vladivostoque. A oposição ao Botas limitava-se ao PC e a uma folclórica sucessão de conspirações falhadas em que a oposição republicana (a que, recorde-se, pertencia o doutor Soares) se embrulhava regularmente. O povo, esse, tratava da vidinha e via o Botas como um seguro contra devaneios, loucuras e assaltos à mesa do orçamento. O regime fassista mostrava contenção onde outros mostravam holocaustos e gulagues. E a coisa foi assim até ao início da guerra colonial. A partir daí e até à queda da cadeira e posterior passamento, o doutor Salazar foi de facto pouco apreciado pelas gerações que chegaram à idade da razão entre 1961 e 1968 e perceberam que iriam talvez morrer pela pátria do doutor Salazar, ainda que em quantidades relativamente moderadas face às que a baderna republicana tinha incompetentemente sacrificado na 1ª guerra - só na batalha de La Lys morreu o equivalente a mais de metade das baixas mortais na guerra colonial que durou 13 anos (7.000 e 12.000 respectivamente).

Para todos os que chegaram a idade da razão depois de 1974, o doutor Salazar, o Botas, é um cromo dinossáurico de que alguns dos cromos seus pais se queixavam nos intervalos de se queixarem do custo de vida que não lhes permitia comprar o ansiado plasma. Tudo por junto, deve haver uns 5% dos eleitores que se podem inflamar com as boutades do doutor Soares e mais 0,1% que se sentirão transportados pelos delírios do Ivan. Mesmo esta insignificância, no lugar do Ivan, eu não a consideraria como garantida, porque até a minha prima Violinda percebe que se há alguém «que se apresenta não como a solução para a crise, mas como um elemento de continuidade numa solução já existente» só pode ser o doutor Soares, que se vencesse as eleições seria o presidente de todos os situacionistas, 32 anos depois do almirante Tomás.

DIÁRIO DE BORDO: os meus votos nas OPAs

Ainda não percebi para que tem a AdC dezenas (ou serão centenas?) de doutores, mestres, licenciados e bacharéis a lamberem resmas de papel e a remoer há muitos meses as OPAs da Sonae sobre a PT e do Millenium bcp sobre o BPI, a inventar remédios quando não há doenças e a não prescrevê-los quando as maleitas saltam aos olhos.

Só há dois pontos de vista relevantes, a saber: o do mercado e o do Impertinências. O do mercado devia ser claríssimo para toda a gente e consiste em:

a) não autorizar a OPA da Sonae sobre a PT que só reduz a concorrência;
b) obrigar a PT a desmembrar-se (lembram-se das babies Bell?);
c) autorizar a OPA do Millenium bcp sobre o BPI e deixar o mercado resolver o assunto.

Infelizmente o ponto de vista do Impertinências é bastante diferente, consistindo em:

a) incitar os belmiros, obrigar os accionistas actuais, poseurs (quase todos) enfatuados (Espíritos), verborreicos (Berardos), lunáticos (uns tristes armados em cavaleiros brancos), etc., a venderem ao preço oferecido;
b) aplaudir o extermínio que os belmiros fariam à entrada na barbacã da PT dos exércitos de carraças que as administrações anteriores deixaram agarradas à carcaça de PT, em particular a administração do Visconde Barão Doutor Horta e Costa, a Enfatuada Vacuidade do double windsor e do roupão de seda com brasão;
c) igual ao b) do mercado;
c) não autorizar a OPA do Millenium bcp sobre o BPI (é o meu banco de investimento há dez anos e os cheiros a incenso dos opantes agoniam-me);
d) obrigar o BPI a lançar uma OPA sobre o Millenium bcp;
e) aplaudir a desbeatificação que os ulrichs levariam a cabo dos exércitos de beatos que infestam o Millenium bcp.

E pronto é tudo. Não se pode estar sempre com o mercado.