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04/01/2009

ARTIGO DEFUNTO: E pur non si muove.

Um dos jornalistas de causas favoritos do (Im)pertinências é Nicolau Santos. Ele não se limita a dar-nos notícias. Ele nem sequer nos dá notícias. Ele não se limita a fazer análises. Ele nem sequer faz análises. O doutor Nicolau Santos na sua coluna do caderno de Economia do Expresso faz «Cem por Cento» de apologias, pratica o jornalismo apologético que é uma variedade do jornalismo de causas.

No seu artigo de princípio de ano, profeticamente intitulado «Êxito em 2008, receita para 2009», Nicolau Santos numa vertigem apologética celebra o crescimento da despesa pública e privada em investigação e desenvolvimento (I&D) que em 2007 foi 1,18% do PIB, ultrapassando a Itália e próximo da Espanha e da Irlanda. Cita com visível entusiamo vários outros indicadores, como o n.º de investigadores por mil activos (5) que quase alcança a média europeia, ou o número de dourorandos (1.500) e bolsas de doutoramento (2.000).

Lamento não estar possuído da mesma fé e, à falta dela, lembraria aos crentes que com o mesmo argumentário se poderiam celebrar os sucessos do ensino: a percentagem do PIB que lhe dedicamos pede meças a quase todos os países europeus e o n.º de professores por mil alunos bate todos os recordes. E, no entanto, os resultados do ensino são deploráveis (ver, por exemplo, o relatório PISA 2006). Como são medíocres os resultados da I&D, quer produção científica quer patentes. É esse o panorama que os gráficos seguintes tornam evidente.



(Fonte: Nota Técnica Research Metrics nº 5, Porto, 28Jun08, Centro de Química da Universidade do Porto)

Porquê o jornalismo de causas se ocupa a polir a supostamente abalada auto-estima doméstica, em vez de relatar factos e nos dar um retrato realista? Ora, que pergunta. Porque o jornalismo de causas é praticado pelos jornalistas de causas, militantes da comunicação apostados em nos trazer ao colo e inculcar a doutrina do trânsito inevitável para o «progresso» que, se ainda não chegou, é por falta de suficiente Estado comandado por um governo suficientemente «progressista».

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