Uma tempestade proporciona uma oportunidade para as lamentações, as acusações e performances dos passa-culpas e culmina num peditório e lamento dos subsídios sempre insuficientes, subsídios que os pedintes nunca chegam a perceber que não saem dos bolsos do governo, mas dos bolsos dos contribuintes. Várias tempestades multiplicam as oportunidades dos pedintes e as demonstrações de caridade das autoridades que, desta vez, se desdobraram em 14 medidas que somam 2,5 mil milhões, que é um número para encher o olho que mistura subsídios com créditos.
[Contava-se nalgumas empresas alemãs com quem trabalhei que cada uma delas deveria ter um português numa redoma com uma legenda “partir em caso de emergência” para as raríssimas situações em que os alemães não teriam nada preparado, um português sairia da redoma para lidar com uma situação que para ele seria trivial e igual a qualquer outra.]
Canários na mina de carvão
A estimativa rápida do INE confirma uma baixa do crescimento do PIB de 2,1% em 2024 para 1,9% em 2025, abaixo das previsões do governo (2,0%), ou seja, descemos um degrau no mesmo patamar de crescimento medíocre, numa trajectória de queda nos últimos 3 anos (3,1%, 2,1%, 1,9%). Sem o crescimento do turismo e os dinheiros do PRR já estaríamos em recessão. Para alcançarmos a França, um país não particularmente dinâmico, se crescêssemos um ponto percentual acima, precisaríamos de quatro décadas para atingir o mesmo PIB per capita.
Os canários piariam ainda mais alto se acrescentarmos os resultados de um inquérito a 1500 empresários da indústria, que antecipa uma queda acentuada do emprego nos próximos meses, e que a indústria do calçado, uma das mais competitivas desde que se começou a focar no calçado de qualidade, está a começar a ser ameaçada pelos produtores asiáticos que já dominam o mercado do calçado barato e estão a entrar no upper market, a preços que não deixarão de ser muito mais baixos do que os portugueses. Se a tudo isto acrescentarmos o impacto das tempestades em milhares de empresas, o retrato não fica bonito.
Como no passado, os empresários e os consumidores, embalados pelos cânticos governamentais, não ouvirão o piar dos canários e continuarão, como se não houvesse amanhã, a comprar os seus popós cuja venda aumentou 18% em termos homólogos, em cima de um parque automóvel existente que nos coloca na metade superior do ranking europeu, aquela metade em que o crescimento da produtividade deveria situar-se para garantir que continuaremos a comprar popós no futuro.
Uma Boa Nova, ou talvez não
A dívida pública em percentagem do PIB reduziu-se de 93,6% em 2024, para 89,7% em 2025.
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