Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

28/05/2026

The news of Mr. Trump's reputation as a great negotiator is more exaggerated than the news of Mark Twain's death while he was still alive

«Donald Trump’s reputation and political career were built on his dealmaking prowess, yet the president keeps demonstrating that he is a terrible negotiator.

Repeatedly over the past nine years, Trump has gotten rolled by counterparts during high-stakes exchanges. North Korea, Russia, Russia again, China, and China again have gotten the better of the United States. Trump has had to slink back to Washington without much to show except empty talk about friendship with whatever dictator has just run circles around him. He’s had some success in brokering agreements when acting as a third party (though not nearly as much as he pretends) but much less luck when his own government is a participant. The one glaring exception came when he was effectively negotiating with himself, getting his own administration to set up a $1.8 billion slush fund for his political allies.

The newest example of Trump’s artlessness is Iran. Let’s review the past few days: Trump posted on Saturday that he was close to striking a deal with Tehran that would end the war he started earlier this year and reopen the Strait of Hormuz. As the outlines of the agreement began to emerge, it looked both incomplete and bad: Trump had postponed discussing the hardest issues—matters, such as nuclear weapons, that led him to go to war—in exchange for opening the strait, which was open before Trump started the war. Hawkish Trump allies promptly criticized the deal, and despite histrionic pushback from Trump aides, the president had begun backing off claims of an imminent agreement by Sunday. “If I make a deal with Iran, it will be a good and proper one, not like the one made by Obama,” he posted. “Our deal is the exact opposite, but nobody has seen it, or knows what it is. It isn’t even fully negotiated yet.” Yesterday, in a sign that a deal might not be near at all, the U.S. military conducted what it called “self-defense strikes” against Iranian targets—directly contradicting the administration’s previous claims about having wiped out any threats to the United States in Iran.»

David A. Graham, The Atlantic

27/05/2026

Crónica da passagem de um governo (51b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 51a)

Boa Nova

O Dr. Seguro já promulgou as medidas fiscais para promover a construção de habitação (redução do IVA) e do arrendamento (redução do IRS e do IRC). Não se esperem milagres porque a fiscalidade é apenas uma das variáveis da equação e algumas das outras variáveis permanecem inalteradas, como seja a absurda burocracia camarária, diligentemente promovida por resmas de apparatchiks, que envolve os licenciamentos, a que se escapa apenas com os lubrificantes habituais: luvas e cunhas de amigos e/ou do partido.

Quanto aos programas de apoio à construção de habitação, estamos conversados. Por exemplo, o Programa de Apoio ao Acesso à Habitação “1.º Direito”, lançado pelo Dr. Costa e o Dr. Pedro Nuno no início de 2023, dois anos depois, estava contratualizada mais de 90% da primeira tranche do dinheiro disponível e só tinham sido entregues menos de 10% das casas previstas. Três anos depois tinham sido entregues 12% das casas.

«Pagar a dívida é ideia de criança»?

Segundo a nota de informação estatística do BdP, em Março o endividamento da economia aumentou 5,4 mil milhões de euros, dos quais 1,7 mM do sector público, 2,2 mM das empresas privadas não financeiras e 1,6 mM das famílias.

Não ajuda muito constatar que as taxas da dívida pública estão a aumentar (a emissão de BT a 12 meses da semana passada foi com uma yield 0,3 pontos percentuais acima da emissão do mesmo prazo há dois meses) e irão continuar no contexto que se avizinha.

Os portugueses «vão ter razões para confiar no SNS»

Há várias causas para a doença de que sofre o SNS, das quais não é provável que faça parte a falta de dinheiro que continua a ser arremessado sobre os problemas: a despesa total com medicamentos aumentou 15,8% para 4,4 mil milhões de euros, dos quais os hospitais públicos aumentaram 11,2% para 2,5 mM; no 1.º trimestre deste ano, a despesa com medicamentos dos hospitais voltou a aumentar 7,6%. (fonte)

Take Another Plan. «Ser sócio do Estado na TAP? “Jamais”!”»

As palavras em título são de João Tovar Jalles, um economista que Harry Truman talvez considerasse ter uma só mão (*), para sumarizar o absurdo de esperar que um investidor privado torrará dinheiro indefinidamente na TAP com o Estado a mandar. Como que a dar-lhe razão por antecipação, o presidente do Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil (SPAC), avisou que poderá haver «um problema na estabilidade laboral» se a Lufthansa for accionista da TAP e sabemos que até agora todos os governos têm levado muito a sério os “avisos” dos pilotos.

Canários na mina de carvão

É cada vez mais ruidoso o coro dos canários a que são surdas as luminárias domésticas sempre tão concentradas nos seus inchados egos. A CE baixou as suas previsões de crescimento para 1,7%, com um défice de 0,1%, antecipa a perda de quota de mercado das exportações portuguesas, alerta para o impacto no turismo, que representa 1/6 da economia, da eventual escassez e da escalada dos preços do jet fuel, e do risco de "estaglação" (inflação a coexistir com um crescimento baixo ou nulo).
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(*) «Give me a one-handed Economist. All my economists say 'on one hand...', then 'but on the other...», disse um dia exasperado o presidente americano.

25/05/2026

Crónica da passagem de um governo (51a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Enquanto esperamos que o Portugal dos Pequeninos tenha «todas as condições para se tornar um líder mundial na IA», por que não…

… pedir ao Claude IA da Anthropic para ajudar os “técnicos” do MAI a desentropiar a implementação do Entry/Exit System (EES) para controlo dos passaportes que começou a funcionar em Outubro do ano passado, teve de ser suspenso em Dezembro e voltou a funcionar em Abril multiplicando as filas de espera nos aeroportos. 

O governo tentou chutar o problema para Bruxelas que já fez saber que os problemas não resultam do EES mas da sua implementação em Portugal. (fonte)

… enquanto isso, é aconselhável estar atento aos próximos passos dos tecnogarcas…

Face aos custos crescentes e ao impacto ambiental das quantidades pantagruélicas de energia consumidas pelos centros de dados usados pela IA, que o Dr. Matias anseia por acolher em Sines, para processar esses dados e para dispersão de quantidades igualmente pantagruélicas de calor produzidas pelos processadores, o Sr. Elon Musk e outros tecnogarcas estão a pensar em lançar centros de dados no espaço para resolver os problemas de potência e arrefecimento.

Take Another Plan. Festeja-se a redução dos prejuízos

O Avante da família Azevedo informa-nos num título celebratório que os «prejuízos da TAP caíram 63% para 39,9 milhões de euros no primeiro trimestre». As perdas continuam, apesar dos 3,2 mil milhões injectados com dinheiro dos contribuintes, a maior parte dos quais nunca assentaram o seu rabito num assento da TAP. Se isto foi no primeiro trimestre, em que ainda não se sentiram os efeitos das aventuras do Sr. Trump no Irão, podemos imaginar o que se seguirá.

O Dr. Montenegro está a alcançar o pior dos dois mundos: não toma medidas impopulares e fica impopular…

Segundo a sondagem do Barómetro da Aximage para o DN, apenas 23,2% dos inquiridos votariam agora na coligação AD que tem menos 10,2 pontos percentuais de intenções de voto do que o PS e menos 0,3 pontos percentuais do que o Chega.

… em parte isso pode dever-se à falta de memória dos portugueses

mais liberdade


Os portugueses parecem não ter ficado agradecidos ao Dr. Montenegro por lhes ter diminuído os impostos, do mesmo modo que não ficaram agradecidos ao Dr. Passos Coelho por os ter feito sair do resgate tornado inevitável pelo Eng. Sócrates que continua a viver tranquilamente dos rendimentos provenientes da Operação Marquês, já esqueceram o Dr. Costa que levou os impostos ao pináculo em 2023, como se pode ver no gráfico.

O Estado sucial pagador do fraque...

O facto de, apesar da redução, continuar a cobrar abundantes impostos não torna o Estado sucial melhor pagador aos seus fornecedores a quem deve há mais de 90 dias 337 milhões de euros, mais 42% do que no ano passado (fonte).

… é o mesmo Estado sucial cobrador do fraque

No final do ano passado segundo a Conta Geral do Estado, os impostos por cobrar voltaram a aumentar e quase atingiram os 30 mil milhões de euros, dos quais cerca de 40% é considerada dívida incobrável.

Contas certas à custa de um futuro incerto

O Conselho das Finanças Públicas parece ser a única instituição a dar-se conta que os tão celebrados excedentes da execução orçamental se devem por inteiro aos Fundos de Segurança Social que são reservas para fazer face às responsabilidades pelas pensões futuras que, o mais tardar por volta de 2028, deixarão de ser cobertas pelas contribuições para a SS, e são tratados como se fossem receitas correntes.

(Continua)

24/05/2026

Donald Trump's ceasefire, or whatever it is, shows how America has changed

«If Operation Epic Fury has truly ended, following the announcement of a two-week ceasefire on April 7th, it will have lasted nearly as long as Operation Desert Storm, the campaign to expel Saddam Hussein’s Iraqi forces from Kuwait in 1991. A comparison of the two wars shows how much America has changed.

Back then, President George H.W. Bush sought approval from Congress and the UN Security Council before opening fire. This time round, Donald Trump did not bother with such formalities. Bush, who died in 2018, patiently persuaded 41 other countries to join America’s military coalition. Mr Trump started the war with one ally, Israel. He did not consult other allies, but then demanded they help when things got hard, and denounced them as “COWARDS” when they proved reluctant.

The elder Bush laid out a clear, limited objective: reversing one country’s seizure of another. Mr Trump offered a shifting array of goals, from destroying Iran’s missiles and nuclear programme to regime change.

Bush, who did not have access to social media, chose his words carefully. His terse response to Iraq’s invasion of Kuwait in 1990 was “This will not stand.” Mr Trump has been more verbose and less measured. “Open the Fuckin’ Strait, you crazy bastards, or you’ll be living in Hell—JUST WATCH! Praise be to Allah,” he posted on Truth Social on April 5th.

The 41st president declared victory only after he had won, and in his victory address praised American soldiers and allies—but not himself. Mr Trump declared victory early and often. “We won. In the first hour it was over,” he boasted on March 11th. Despite being over in the first hour, it lasted nearly six more weeks, snuffed out hundreds of lives and made humanity measurably poorer.

On the morning of April 7th Mr Trump vowed to wipe out Iranian civilisation if the regime did not meet his terms. For ten and a half hours, the world wondered how seriously to take this astounding threat. Then he backed down, citing progress in negotiations. The next day he sounded cheerful. “This could be the Golden Age of the Middle East!!!” he posted on Truth Social, adding: “Big money will be made.”

The liberation of Kuwait from the Middle East’s most torture-happy despot marked a high point of American power—a unipolar moment after the end of the cold war. It also pushed Bush’s approval rating at home to nearly 90%. Democrats as well as Republicans applauded. Mr Trump’s war has been less well-received.»

Donald Trump’s ceasefire shows how America has changed

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This text is part of an article that was published on April 9th, and since then, Mr. Trump has proclaimed victory several times, threatened to annihilate Iran, and announced imminent agreements. There is a chasm between the US with a president like George H.W. Bush and the US with a cheerleader like Donald Trump.

22/05/2026

CASE STUDY: A IN sai mais barata do que a IA

«Em Fevereiro, a Cortical Labs, uma startup australiana, anunciou que um programador havia ensinado um de seus "computadores biológicos" - feito de 200.000 células cerebrais humanas montadas em um chip de silício - a jogar "Doom", um clássico jogo de tiro em primeira pessoa. A empresa já havia ensinado um grupo de neurónios a jogar o muito mais simples "Pong". No entanto, suas ambições são muito maiores do que os videogames. Espera que os neurónios, embalados em "computadores biológicos" supereficientes e encaixados em racks em data centers convencionais, um dia ocupem seu lugar ao lado dos chips de silício carregados de transistores que definiram a computação convencional nos últimos meio século.

No coração do sistema de Cortic está uma matriz de milhares de pequenos electrodos, sobre os quais estão os neurónios criados a partir de células-tronco retiradas de um doador humano. A matriz permite que um computador convencional capte a actividade elétrica gerada por esses neurónios e os estimule com actividade eléctrica própria. Os neurónios são mantidos vivos até seis meses por tubos e bombas que fornecem oxigênio e nutrientes, e removem resíduos celulares como o dióxido de carbono. Tudo está embalado em uma caixa projetada para caber nos racks padrão de servidores usados em data centers comerciais.

Os neurónios oferecem várias vantagens em relação à electrónica na computação, diz Hon Weng Chong, chefe da Cortical. Eficiência é uma delas. Modelos modernos de inteligência artificial consomem energia em milhões de watts. Esse consumo de energia tornou-se uma das maiores barreiras ao crescimento do sector. Os neurónios, por outro lado, consomem pouca energia: um cérebro humano típico, composto por quase 90 bilhões deles, consome cerca de 20 watts.

Sofisticação é outra. Os transistores de que são construídos os computadores são pequenos interruptores que podem estar em dois estados: ligado ou desligado. Os neurónios são mais complexos. O comportamento deles depende de vários factores, incluindo a voltagem através da membrana celular e de quanto tempo não recebem sinais de outros neurónios. Arquitecturas de computadores existentes também armazenam informações em locais distantes do processamento real. A Micron, grande fabricante de chips de memória, estima que até metade do orçamento energético de um processador de IA convencional é gasto para transferir dados. Também causa engarrafamentos, pois os dados são trocados de um lado para o outro. Cérebros misturam dados e processamento lado a lado, minimizando tais questões logísticas.»

Why a startup is teaching human brain cells to play “Doom”

21/05/2026

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (81) - "Quem é capaz, faz, quem não é, ensina"

Outros portugueses no topo do mundo.

Seis escolas de gestão portuguesas atingiram boas posições no ranking mundial do Financial Times de formação de executivos. Está a ser um acontecimento muito festejado, com razão, visto que entre as noventa escolas do ranking encontramos seis portuguesas, o que corresponde a 6,7% das escolas do ranking, um excelente resultado para um país que representa apenas 0,13% da população e 0,29% do PIB nominal mundial.


Como é que tão excelente resultado nas escolas de gestão se explica num Portugal dos Pequeninos que é um desastre em matéria de gestão das empresas e, sobretudo, do Estado? Uma vez mais, só me ocorre a explicação de George Bernard Shaw na sua peça "Man and Superman": «Those who can, do; those who can’t, teach».
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A posição das universidades portugueses no ranking das 90 é a da primeira coluna (#).

19/05/2026

Crónica da passagem de um governo (50b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 50a)

Lost in translation

Uma auditoria do IGF aos Regimes Fiscais de Ex-Residente e Residente Não Habitual concluiu que «a despesa fiscal do regime de RNH registou um acréscimo significativo de 2019 a 2024, respetivamente, de 619,7 milhões de euros (M€) para 1.741 M€, em linha com o aumento do número de beneficiários (41.229 para 128.958)».

Essa conclusão foi traduzida pela imprensa doméstica como «Residentes não habituais ‘custam’ 1,7 mil milhões aos cofres do Estado». Se assim fosse, para não custarem esses milhões ao Estado sucial seria preferível dar-lhes guia de marcha para regressarem aos seus países, poupando assim esses milhões ao Estado sucial, levando consigo os investimentos que fizeram e deixando de pagar os impostos que pagaram.

A flexibilidade segundo o Dr. Centeno chama-se rigidez

Em crónica anterior já citei o Dr. Centeno que numa conferência garantiu, que o «mercado de trabalho não tem défice de flexibilidade», emprestando a sua suposta autoridade de economista do trabalho às teses da UGT, ou, mais exactamente, do PS.


Por coincidência, o economista João Tovar Jalles comentou num artigo recente a confusão dos conceitos e publicou os gráficos acima, os quais, mais do que as palavras, mostram um mercado de trabalho português mais protegido e, em consequência, com mais contratos a prazo e mais desemprego jovem, desfazendo as fantasias do Dr. Centeno.

A palavra-chave aqui é “nominal”

O Volume de Negócios nos Serviços (VNS) registou no 1.º trimestre um crescimento nominal homólogo de 2,1%, o que seria uma boa notícia, não fora a inflação que fez do crescimento uma queda de -1,5% (INE).

Pensamento positivo

O Dr. Miranda Sarmento, que prometeu um novo bónus das pensões este ano «se houver margem orçamental», é o mesmo que admite que a dívida pública no final do ano represente 85% ou 86% do PIB, apesar de no final do 1.º trimestre andar pelos 91% e a conjuntura internacional não mostrar perspectivas cor-de-rosa.

O Dr. Montenegro tem concorrência socialista à esquerda e à direita…

O Dr. Carneiro faz o que entende lhe compete como opositor socialista e leva da UGT ao colo, o Dr. Ventura vai para além da oposição socialista de esquerda e acrescenta o aumento das férias à redução da idade de reforma em troca de um acordo no Código do Trabalho.

… e, não obstante, almeja uma maioria absoluta para o que pretende dilatar Portugal

Pelo menos foi o que disse na apresentação da sua candidatura a líder do PS-D sob a bandeira originalíssima «Fazer Portugal Maior»