Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

08/10/2026

Crónica da passagem de um governo (70b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 70a)

O Estado sucial mau pagador é o mesmo Estado sucial mau cobrador

Que o Estado sucial paga tarde e a más horas aos seus fornecedores é um facto antigo e bem conhecido. Menos conhecido e sobretudo menos falado é o Estado sucial ser um mau cobrador aos seus devedores, nomeadamente os contribuintes. É o que ficamos a saber ao ler o parecer à conta geral do Estado de 2025 do Tribunal de Contas que nos informa que existiam quase 30 mil milhões de euros, o equivalente a cerca de 10% do PIB desse ano, em cobrança coerciva, o que é equivalente é cerca de 45% da receita fiscal do ano, sendo que cerca de 40% é dívida incobrável e 60% desta dívida diz respeito a empresas que deixaram fiscalmente de existir.

O Estado sucial é mau pagador, mau cobrador e senhorio incompetente

Dos mais de 3000 imóveis propriedade de Segurança Social, quase 1000 estão devolutos, ocupados indevidamente ou sem contrato de arrendamento válido. Em 2025 o número de edifícios devolutos ou com a ocupação indevida aumentou 14% (fonte: parecer à conta geral do Estado do TdC). Isto já seria bastante grave se não existisse em Portugal uma séria carência na oferta de habitação. Nestas condições concretas, uma entidade pública gerir com semelhante desleixo um recurso escasso é algo do foro criminal.


O Estado sucial faz o bem sem olhar a quem

Ainda pela via do Tribunal de Contas, que, podemos especular, está a cobrar ao governo os conflitos sobre as suas competências, governo a quem acusou de «procurar denegrir a imagem do Tribunal perante a opinião pública», ficámos a saber que o governo torrou mais de meio milhão de euros em subsídios cujos propósitos e beneficiários não são conhecidos.

O SNS como lugar geométrico da cunha

Cada vez que se escarafuncha um organismo público, rapidamente se encontra uma cloaca de onde emanam odores a cunhas. Aconteceu mais uma vez com o caso das gémeas que espoletou uma investigação do DIAP onde se concluiu que a bolha político-mediática usa recorrentemente a via da cunha.

O governo evita uma «hecatombe social»

O alerta do Dr. Dominguinhos, presidente da Comissão Nacional de Acompanhamento de que se, com o fim do PRR, «a consequência for a devolução do dinheiro vamos ter uma hecatombe social», não caiu em orelhas moucas e foi escutado pelo Dr. Castro Almeida, ministro da Economia, que já convenceu o governo a aprovar um financiamento de 200 milhões para acabar as obras inacabadas até ao final de 2027, garantindo assim que não haverá um euro dos contribuintes europeus que não seja torrado.

Está a ser difícil distinguir as “contas certas” do Dr. Sarmento das do Dr. Centeno

As contas do 1.º semestre apresentaram um saldo orçamental positivo equivalente a 0,5% do PIB. Como o Conselho Económico e Social constatou, a coisa foi possível graças à «sobreorçamentação ou subexecução do investimento», por outras palavras, graças à autoestrada mexicana do investimento público.

Fonte

Onde ainda existe alguma diferença é no crescimento da despesa pública que está mais imparável com o Dr. Sarmento, como mostra o gráfico acima,

Em conclusão, a visível decomposição do PS-D…

… vai ser o terreno fértil, suspeito, para o socialismo de direita ou de esquerda chegarem ao poder, o que pode não ser muito pior e, com alguma sorte, pode ser uma cura para as ilusões de um eleitorado viciado no facilitismo e na procura de soluções mágicas. 

07/10/2026

The men who possibly raised the alarm before October 7th.

Yigal Carmon, founder of the Middle East Media Research Institute (MEMRI), publicly warned in August 2023 that a major regional conflict could erupt in September or October. Drawing on Arabic- and Persian-language media, Carmon identified escalating threats, military preparations, increasingly advanced weapons, and public statements by Hamas and other Iranian-backed groups. Officials in Israel and the United States largely dismissed his warning.

Carmon’s new report, Chronicles of a Disaster Foretold, argues that Hamas’s intentions were visible through open sources long before the October 7 attack. It highlights earlier discussions about breaching Israel’s border, increasingly explicit statements about an imminent “decisive battle,” and a large Hamas military exercise in September 2023 that closely resembled the subsequent assault. Carmon acknowledges that he mistakenly expected the war to begin in northern Israel, but maintains that Hamas successfully misled Israeli leaders into believing it prioritized economic development over conflict.

It was Israel’s failure to anticipate the attack to a broader “perceptual failure”: officials assumed that financial support and economic incentives would contain Hamas, while funds were allegedly diverted toward weapons, tunnels, and military capabilities. It also places Carmon’s warnings within current Israeli political disputes, including criticism of Prime Minister Benjamin Netanyahu, demands for an independent investigation into the October 7 failures, and allegations concerning Qatar’s influence and financial ties. Despite criticism of MEMRI’s methods and accusations from Qatar, Carmon insists that the evidence was publicly available and that Israeli leaders ignored clear warning signs.

(Source The Man Who Raised the Alarm Before October 7)

This is further evidence, in addition to the alleged warnings from the head of Egypt's intelligence services, Abbas Kamel, and the President of the United Arab Emirates, Mohammed bin Zayed, that Bibi and his government used Hamas, first to weaken the Palestinian National Authority (PNA) and Fatah, and then, anticipating what was coming, ignored the warnings because this could divert attention from corruption charges, save them from the courts, and give them a chance to win the next elections, as well as provide an opportunity to eliminate Hamas and weaken the Ayatollah regime. All of this aligns well with known facts, but some argue that even if true, which they deny, stating this is antisemitism and favors the Shiite dictatorship, meaning that those who say this place the truth on the side of antisemitism and the Shiite dictatorship.

06/10/2026

Crónica da passagem de um governo (70a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
O Dr. Montenegro não se poupa a tentar resolver os grandes problemas nacionais

E foi assim que interveio no momentoso quid pro quo entre Cristiano Ronaldo, um jogador em fim de carreira que já foi um dos melhores do mundo, e o Sr. Jorge Jesus, um seleccionador cuja ignorância da língua portuguesa não o impede de obter bons resultados. E ainda teve tempo de telefonar ao Sr. Proença, presidente da Federação e antigo árbitro bem-sucedido, dizem, mas que falhou na arbitragem entre o CR7 e Jesus.

A tragédia dos alunos sem professor é uma comédia de baixas e de imobilidade

Para não me repetir, remeto para o item "Afinal quantos professores temos?", onde concluí que não se sabe quantos professores existem, sendo certo que durante o consolado costista o número de alunos se reduziu em cem mil, redução parcialmente compensada pela invenção de novas disciplinas.

Como as baixas no presente ano lectivo só na primeira semana ultrapassaram os dois mil professores e os milhares de professores do Norte que não estão a dar aulas não estão disponíveis para vir para o Sul, só por milagre se evitariam os 664 horários por preencher na região de Lisboa (fonte)

Deve um ministro responder pelos erros de uma plataforma?

Já se sabia há mais de dois meses e está agora claro que a causa principal dos atraso na avaliação da provas está os erros da Plataforma de Classificação e Supervisão (PCS), desenvolvida por uma empresa Blat seleccionada por um instituto com autonomia administrativa (Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação - EduQA).

O Estado sucial português é o garante do direito ao aborto nos PALOP

Segundo a DGS, mais de quatro em cada dez IVG (o nome politicamente correcto do aborto) foram de mulheres estrangeiras, e mais de metade destas provenientes dos PALOP.

Não é o turismo que é de mais, é o resto que é de menos

O Dr. Machado, secretário de Estado do Turismo, estima que o turismo vai crescer este ano 2,5%, e ultrapassar 32 milhões de turistas e 125 milhões de dormidas. Dizem os detractores do turismo que este crescimento aumenta a dependência de um sector muito volátil com qualificações e salários baixos que manterão baixa a produtividade do trabalho. Os detractores esquecem que, com a prevista redução futura dos dinheiros de Bruxelas, é preciso encontrar um sucedâneo que evite ter de fazer reformas.

Primeiro estranha-se, depois entranha-se

A CReSAP é uma entidade criada pelo governo de Passos Coelho para avaliar os candidatos a nomeações para cargos públicos. Foi completamente ignorada durante os consolados do Dr. Costa, cujos governos enxamearam o aparelho do Estado sucial com gente incompetente ou/e corrupta. Pelos vistos, o governo actual está a seguir o mesmo caminho, nomeando 85% a 90% dos quadros que já ocupavam o cargo em regime de substituição, isto quando não fazem como o Dr. Pinto Luz que nomeou o seu chefe de gabinete para presidente do Instituto de Mobilidade e Transportes.

É por isso que o preço da gasolina é uma questão nacional

Como se vê no gráfico seguinte, o aumento do preço dos combustíveis está a dificultar o uso do automóvel pelos pobres que constituem quase 90% da população. 

mais liberdade

Entretanto, os neoliberais entendem que o aumento do preço dos combustíveis é apenas o resultado do aumento do preço das matérias-primas devido ao bloqueio de um quinto da produção mundial que passava, e agora não passa, pelo Estreito de Ormuz. Em consequência, dizem os neoliberais, é um problema que não se resolve com subsídios directos ou indirectos (o nome politicamente correcto de tirar dinheiro a uns para dar a outros) mas com o ajuste da procura à oferta, como o estão a fazer os consumidores ignorantes destas subtilezas (o consumo de combustíveis reduziu-se 10,3% em resposta ao aumento de 6,3%).

(Continua)

05/10/2026

CASE STUDY: Um imenso Portugal (68) - Banco Master, um imenso BES

Outros imensos Portugais

Para quem não tenha reparado, Daniel Vorcaro do Banco Master, está a ser considerado o grande vencedor das eleições de ontem no Brasil, já que 13 dos eleitos são citados nas investigações relacionados com o escândalo do seu banco considerado «a maior fraude bancária na história brasileira». Entre esses eleitos encontramos Jaques Wagner (PT-BA) e Rui Costa (PT-BA), para o Senado,  Hugo Motta (Republicanos-PB), Antonio Rueda (União Brasil-RJ) e Nikolas Ferreira (PL-MG), para a Câmara dos Deputados, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) apurado em primeiro lugar para a segunda volta das presidenciais.

Tal como no caso do BES, as cumplicidades não ficaram pelo partido no poder. Para citar só um caso, Daniel Vorcaro comprou literalmente o juiz Alexandre de Morais do Supremo Tribunal Federal, um apoiante de Lula da Silva e do PT.

04/10/2026

"You can't fool all of the people all the time" (20) - Robot portrait of a Trump supporter: male, old, white, and poorly educated

Other "You can't fool all of the people all the time."

Back to the 19th century mercantilism

«In his second administration, Donald Trump has injected the federal government deep into private markets and undermined the independence of government agencies and institutions. Most notably, he repeatedly and publicly pressured the Federal Reserve to lower interest rates. In a sharp departure from the traditional US model, and the model of economic government that has prevailed in the United States for centuries, Trump’s administration has acquired equity stakes in more than 30 American firms, and has even taken control of large swathes of the Venezuelan economy. 

Until the 19th century, Trumpian-style mercantilism was widely regarded as sound economic policy. That changed after Adam Smith’s powerful refutation of mercantilism revolutionized economic thinking. When private sector producers compete with one another, Smith argued, an “invisible hand” generates benefits that none intend, resulting in the production of goods and services that constitute the true “wealth of nations.”»

By Anne O. Krueger  (*)
___________
Anne Krueger is an American economist, World Bank Chief Economist from 1982 to 1986, and deputy managing director of the International Monetary Fund (IMF) from 2001 to 2006.

03/10/2026

Um dia como os outros na vida do estado sucial (45) - O SNS24 para amigos e correlegionários

Observador

Tenho um amigo que herdou uma fortuna, nunca teve seguro de saúde e sempre se tratou no SNS. Quando um dia, atormentado pelo custo crescente do meu seguro de saúde e pela qualidade minguante do hospital privado que frequentava, lhe perguntei qual era o milagre, respondeu-me com grande honestidade, isso que escreveu o Miguel Pinheiro por outras palavras: "é preciso ter cunhas".

02/10/2026

Ricardo Reis, Too Candid for the IMF and Too Fiercely Independent for Trumpism

 «The prestigious position might have been awarded this summer to Ricardo Reis of the London School of Economics. But his occasionally blunt media comments reportedly cost him the job. According to the Financial Times, the offending remarks included some orthodox criticisms of President Donald Trump’s tariffs, which he said would raise prices and reduce efficiency. In response, the IMF “categorically” denied that “any candidate was disqualified because of their academic views on the detrimental impact of tariffs…It is not credible to suggest we would object to views that our own research has confirmed and publicised.”

Tariffs are not, however, the only targets Mr Reis has hit. In his column for Expresso, a Portuguese newspaper, he once described Mr Trump as a “protofascist”, albeit institutionally constrained. He later suggested that the president likes tariffs partly because of the exemptions he can grant. “Anyone who wants to pay less has to convince Trump with flattery, business deals with his family, gifts…For someone who sees the presidency as a way to enrich himself personally, or even simply to be flattered, tariffs are an excellent tool.” Last year a column entitled “Gringos on the pampas” marvelled at the Trump administration’s willingness to lend to Argentina. The Peronist left, which could reclaim power at the next election, “proudly never pay what they owe”, he wrote.

As an academic, he is entitled to such views. But as an IMF appointee, they might have caused a fuss. America, after all, is the fund’s biggest shareholder; Argentina its biggest borrower.

Mr Reis will not, then, go to Washington, where he would have formed a dynamic Bretton Woods duo with Michael Kremer, a Nobel-prizewinner nominated this week to be chief economist of the World Bank. His influence will instead remain indirect and intellectual. His research sheds light on several of the fund’s preoccupations, such as fiscal limits, the monetary mystique of central banks and the network of currency swap lines between them.»

Ricardo Reis was too frank for the IMF