É mais difícil encontrar uma criatura pública que não reclame reformas do que um lince ibérico à solta. No entanto, se há coisa que os portugueses detestam, são reformas, apesar de poucos políticos assumirem publicamente essa falta de gosto, com a notável excepção do Dr. Costa, que algures em 2017 disse aos microfones da Rádio Renascença «A expressão reformas estruturais arrepia-me. Qualquer cidadão normal fica logo alérgico.» Daí, suspeito, a sua bem-sucedida carreira.
De onde, permito-me concluir, não se pense que a escassez de reformas do governo do Dr. Montenegro o vá apear, tanto mais que os numerosos anúncios são, em princípio, compensação suficiente para manter sossegado o eleitorado. O que traria o desassossego não seria a falta de reformas, mas as “reformas estruturais” e, sobretudo, a falta de subsídios de todas as naturezas.
É por isso que o governo não poupa aos contribuintes a extorsão para o pagamento de subsídios para compensar o aumento do preço dos combustíveis (uma política completamente errada), sendo o último desses aos agricultores,
Daí que, com a vantagem de não ser governo nem, suspeito, estar com muita pressa de o ser, o Dr. Ventura tenha proposto em Abril a descida da idade da reforma, corrigindo a pontaria depois de admoestado pelo Dr. Passos Coelho para a reforma com 40 anos de descontos ou 65 anos de idade, proposta apimentada com o limite máximo das pensões fixado em € 4.500 limite que abrangeria provavelmente menos de 0,1% do número de pensões.
A “reforma” que todos os governos não falham: aproximar o salário mínimo do salário mediano a caminho do salário médio
Por falar em reformas, o BdP, atravessando a fase interventiva que sempre acompanha um novo governador, chama a atenção no seu boletim de Junho para os riscos dos sucessivos aumentos do salário mínimo o aproximaram cada vez mais do salário mediano (isto é, do montante em que o número de salários mais baixos e mais altos é aproximadamente o mesmo) aumentando a relação (índice de Kaitz, que era o mais alto em 2024 na Zona Euro) entre os dois, de 87% em 2019 para 91% em 2025. Dito de outra maneira, o incentivo para os trabalhadores dos escalões mais baixos de salário melhorarem o seu desempenho é cada vez menor, o que é uma preciosa ajuda para manter a produtividade do trabalho em 76% da média da UE, a 6.ª mais baixa.
Já agora, sublinhe-se que tem sido o aumento do salário mínimo que mais contribuiu para Portugal ter tido nos dois últimos anos o segundo maior crescimento real dos salários nos países da OCDE.
Derrapagem é o outro nome para a gestão das obras do Estado sucial
