Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

03/02/2026

Crónica da passagem de um governo (35b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 35a)

Um novo pletórico peditório, desta vez o das tempestades

Uma tempestade proporciona uma oportunidade para as lamentações, as acusações e performances dos passa-culpas e culmina num peditório e lamento dos subsídios sempre insuficientes, subsídios que os pedintes nunca chegam a perceber que não saem dos bolsos do governo, mas dos bolsos dos contribuintes. Várias tempestades multiplicam as oportunidades dos pedintes e as demonstrações de caridade das autoridades que, desta vez, se desdobraram em 14 medidas que somam 2,5 mil milhões, que é um número para encher o olho que mistura subsídios com créditos.
 
No final não se fará nada para planear as respostas e mitigar os danos no futuro e ficará tudo na mesma. E não, isto não é coisa deste governo, é coisa de todos os governos, é coisa do desporto nacional de chutar a bola para o lado ou para a frente inspirada numa cultura de improviso e desenrascanço.

[Contava-se nalgumas empresas alemãs com quem trabalhei que cada uma delas deveria ter um português numa redoma com uma legenda “partir em caso de emergência” para as raríssimas situações em que os alemães não teriam nada preparado, um português sairia da redoma para lidar com uma situação que para ele seria trivial e igual a qualquer outra.]

Canários na mina de carvão

A estimativa rápida do INE confirma uma baixa do crescimento do PIB de 2,1% em 2024 para 1,9% em 2025, abaixo das previsões do governo (2,0%), ou seja, descemos um degrau no mesmo patamar de crescimento medíocre, numa trajectória de queda nos últimos 3 anos (3,1%, 2,1%, 1,9%). Sem o crescimento do turismo e os dinheiros do PRR já estaríamos em recessão. Para alcançarmos a França, um país não particularmente dinâmico, se crescêssemos um ponto percentual acima, precisaríamos de quatro décadas para atingir o mesmo PIB per capita.

INE

Os canários piariam ainda mais alto se acrescentarmos os resultados de um inquérito a 1500 empresários da indústria, que antecipa uma queda acentuada do emprego nos próximos meses, e que a indústria do calçado, uma das mais competitivas desde que se começou a focar no calçado de qualidade, está a começar a ser ameaçada pelos produtores asiáticos que já dominam o mercado do calçado barato e estão a entrar no upper market, a preços que não deixarão de ser muito mais baixos do que os portugueses. Se a tudo isto acrescentarmos o impacto das tempestades em milhares de empresas, o retrato não fica bonito.

Como no passado, os empresários e os consumidores, embalados pelos cânticos governamentais, não ouvirão o piar dos canários e continuarão, como se não houvesse amanhã, a comprar os seus popós cuja venda aumentou 18% em termos homólogos, em cima de um parque automóvel existente que nos coloca na metade superior do ranking europeu, aquela metade em que o crescimento da produtividade deveria situar-se para garantir que continuaremos a comprar popós no futuro.

Uma Boa Nova, ou talvez não

A dívida pública em percentagem do PIB reduziu-se de 93,6% em 2024, para 89,7% em 2025.

Dívida pública: nota de informação estatística — dezembro de 2025 (BdeP)

Essa é a boa notícia. A má notícia é que o valor da dívida líquida e da dívida bruta aumentaram quase 4 mil milhões e a redução da dívida bruta no último trimestre atingiu quase 20 mil milhões para melhorar a fotografia.

02/02/2026

Crónica da passagem de um governo (35a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
O estado do Estado sucial. Um exemplo

Para deter 37 membros do Grupo 1143, um grupo cuja ideologia causa mais danos às suas mentes alucinadas do que à democracia, a Polícia Judiciária teve de alugar 49 veículos por falta de cabimento orçamental para a compra de novos veículos o que não a impediu de ter contratado no ano passado 113 inspectores e estar em curso o recrutamento de mais 150.

Boa Nova

O governo anunciou ter pedido à CP propostas para subconcessionar a operadores privados as linhas suburbanas de Sintra-Azambuja, Cascais, Sado e Porto. Apesar de não parecer uma boa ideia encarregar a CP de fazer uma proposta de auto-amputação das linhas potencialmente mais rentáveis, poderá ser uma boa notícia se houver uma decisão um pouco mais rápida do que a escolha da localização do novo aeroporto de Lisboa. A coisa poderá à primeira vista parecer uma medida reformista se esquecermos que a linha de Cascais era privada nos tempos do Estado Novo e só foi nacionalizada durante o PREC.

Enquanto espera que Portugal venha a ser é «um líder mundial na IA», o ministro da Reforma do Estado, Dr. Matias, apresentou aos empresários a Carteira Digital da Empresa que terá três documentos a que se juntarão mais tarde vários outros. Ninguém se lembrou de perguntar ao ChatGPT, ao Gemini ou ao karaokê Amália se em vez da digitalização das papeladas não faria mais sentido eliminar algumas delas.

Infelizmente, as leis da oferta e da procura não se mudam por decreto

mais liberdade

As leis da oferta e da procura não se mudam por decreto e ignoram olimpicamente as dezenas de planos e as centenas de medidas que os sucessivos governos nos têm oferecido,

Os portugueses «vão ter razões para confiar no SNS». Os incentivos errados

A incapacidade de as urgências hospitalares darem conta do recado tem obviamente várias razões que vão desde uma procura aumentada pelo envelhecimento da população, a dificuldade de recrutar e reter médicos de Urgência e Emergência até ao expediente que os “utentes” usam para fintar as filas de espera das várias especialidades entrando pela porta das urgências, sem esquecer o défice de gestão dos apparatchiks a todos os níveis que o governo nomeia. A acreditar no médico Nuno Figueiredo e Sousa, a estas causas devemos acrescentar uma infinidade de motivos fúteis que constituem uma parte das chamadas “falsas urgências” de que ele dá dezenas de exemplos na sua página do Instagram (fonte).

O governo AD também circula na autoestrada mexicana do investimento

Numa das crónicas anteriores referi que o governo AD orçamentou um crescimento da ordem dos 30% e até ao final do 3.º trimestre o crescimento foi apenas 17%, executando apenas metade do investimento previsto. Confirma-se agora que no ano passado do investimento orçamentado de 12,7 mil milhões o governo apenas executou 9,5 mil milhões, ou seja, pouco mais de 2/3.

(Continua)

01/02/2026

Há nativismos bons e nativismos maus? (1)


E se, de repente, os tetranetos de Gerómimo, Touro Sentado, Cochise, Cavalo Louco et alia federassem Apaches, Sioux, Navajos, Cherokees, Comanches e as restantes nações índias e expulsassem os imigrantes europeus desde a chegada dos Peregrinos no Mayflower? 

30/01/2026

CASE STUDY: Unintended consequences of Trump's America for Americans

«We find immigrants represent 16 percent of all US inventors, but produced 23 percent of total innovation output, as measured by number of patents, patent citations, and the economic value of these patents. Immigrant inventors are more likely to rely on foreign technologies, to collaborate with foreign inventors, and to be cited in foreign markets, thus contributing to the importation and diffusion of ideas across borders. Using an identification strategy that exploits premature inventor deaths, we find that immigrant inventors create especially strong positive externalities on the innovation production of their collaborators, while natives have a much weaker impact. A simple decomposition illustrates that immigrants are responsible for 36% of aggregate innovation, two-thirds of which is due to their innovation externalities on their native-born collaborators.»

The Contribution of High-Skilled Immigrants to Innovation in the United States, Shai Bernstein et al.

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If Robert Merton had written his paper "The Unanticipated Consequences of Purposive Social Action" (1936) in the third decade of the 21st century, MAGA's immigration policies would have played a central role in his research.

29/01/2026

CASE STUDY: O resultado das políticas de rendas acessíveis são rendas inacessíveis

Rendas mais recentes de um T1 compilados pelo Eurostat
Salário médio em cada cidade estimado pelo ERI (Créditos)

Não será por acaso que, também neste domínio, o Portugal dos Pequeninos tem como companhia sobreviventes do colapso do "socialismo real".

28/01/2026

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (78) - Em matéria de IA, como noutras, o país real continua distante dos delírios dos dirigentes

Outros portugueses no topo do mundo.

Utilizadores mensais de IA, em percentagem da população em idade activa
Fonte: Global AI Adoption in 2025—A Widening Digital Divide

Sendo certo que dizer, como o Dr. Matias, ministro da Reforma do Estado, que o Portugal dos Pequeninos tem «todas as condições para se tornar um líder mundial na IA» é algo do domínio do pensamento milagroso, o 20.º lugar no ranking europeu de utilização da IA e o 35.º mundial, estão em linha com outros domínios e não são um desastre.

27/01/2026

A democracia não está em perigo. É a inteligência que está em perigo

Este post pode ser lido como sequela de O inimigo do meu inimigo não é necessariamente meu amigo e
O estatismo populista e o estatismo socialista partilham o estatismo.

Nos dois diagramas seguintes estão representadas os resultados das respostas deste vosso escriba ao Votómetro Presidenciais 2026 do Observador, respostas que constituem um exemplo de como uma criatura pode estar praticamente equidistante dos dois candidatos em relação aos temas escolhidos, não se identificando com nenhum deles. O quid reside em quais os temas em que essa criatura está mais próxima ou afastada dos referenciais dos dois candidatos, algo quase impossível de compreender por uma mente unidimensional.


A democracia, por agora, não está em perigo. É a inteligência que está em perigo, disse sagazmente Manuel João Vieira, talvez lembrando-se do general Millán-Astray a gritar a Miguel de Unamuno "¡Muera la inteligencia! ¡Viva la muerte!

Não está em perigo a inteligência do Doutor Ventura, que é "esperto que nem um figo" ou “fino como o alho”, mas a inteligência dos seus seguidores, que o "líder da direita" (se ele é isso, eu sou o Clark Kent) insulta, excitando a amígdala e entorpecendo o neocórtex com seu discurso primário e inflamado.