Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

17/03/2026

Crónica da passagem de um governo (41b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 41a)

Será mais uma manifestação de reverência pelo semanário de referência?

Concedo que, à parte considerações ideológicas, o jornalismo do Expresso é provavelmente o de melhor qualidade do Portugal dos Pequeninos com um grau de independência não muito vulgar, o que não é dizer muito porque o jornalismo de Portugal dos Pequeninos é de fraca qualidade e está muitas vezes ao serviço de alguém. Em consequência, as “notícias” do Expresso, por vezes opinião travestida, são importantes para credibilizar qualquer governo, de onde os governos PS terem movido as suas melhores influências para retribuírem a boa-vontade, como nestas manobras de lease-back com o Novo Banco. Menos do que os governos PS e com menos sucesso (veja-se o escarafunchar da moradia e da Spinumviva do Dr. Montenegro), também os governos PSD tentaram aliciar as boas-vontades. É neste contexto que pode ser vista a decisão da CMVM de dispensar de uma OPA a compra de uma participação na Impresa pelos herdeiros do falecido Sr. Burlesconi, sem dar opção aos accionistas minoritários, como aqui explica o jornal Eco.

A gigafábrica de IA, mal não fará (Marcos 16:18)

À míngua de reformas, o Dr. Matias, ministro da Reforma do Estado, gasta o seu talento a anunciar gigafábricas de IA e, mostrando o que está a fazer no governo, arregimentou spin doctors que enchem as páginas dos jornais com gigabytes de conversa fiada sobre o tema. Não se trata só da Gigafábrica de IA em Sines (por agora só uma candidatura aos dinheiros de Bruxelas), as gigafábricas irão multiplicar-se por todo o país (por agora só Abrantes).

Afinal, o que são gigafábricas? Para quem pense que albergarão batalhões de cientistas e técnicos altamente especializados, contribuindo assim para a retenção de talentos, pense outra vez. Por exemplo em Sines, prevê-se um investimento pantagruélico de 18 mil milhões de euros que serão gastos principalmente em hardware made in Taiwan, sistemas de refrigeração made in Germany, kms de fibra óptica, tudo para consumir e equivalente a mais de metade do consumo total do país, energia que será produzida em resmas de painéis solares fabricados na China e espalhadas pelo Alentejo e outros lugares pitorescos. Não serão batalhões de técnicos, serão umas poucas centenas, nem serão altamente especializados - esses estarão noutros países -, serão engenheiros electrotécnicos, programadores, administrativos, etc., indispensáveis para manter a funcionar um supercomputador com milhares de GPU da Nvidia.

E isto é mau? Claro que não, mas não nos façam de atrasados mentais. É muito bom para um país que tem milhares de Km2 vazios, centenas de dias por ano de sol e um clima agradável para os técnicos estrangeiros e não consegue fazer melhor.

Canários na mina de carvão

Não vou escrever sobre os factores exógenos, pelos quais pouco se pode fazer além de rezar para que os Srs. Bibi & e o seu ajudante Donaldo se cansem ou os aiatolas se rendam, o estreito de Ormuz não fique fechado por muito mais tempo e o barril de petróleo não chegue aos USD200, enquanto os tugas compram mais uns popós, sem esquecer os Porsches que se vendem como pãezinhos quentes.

Por agora, já tivemos o comboio de tempestades do qual pode resultar um défice de 0,8% do PIB e, ainda antes do tsunami petrolífero, a semana passada as emissões de OT a 7 anos e a 9 anos fizeram-se com yields mais elevadas 29 e 12 pontos-base, respectivamente, do que as yields das últimas emissões dos mesmos prazos.

16/03/2026

It's too much, even for someone like Mr. Trump

Crónica da passagem de um governo (41a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Subsidiar os preços em vez de apoiar as famílias

Face aos aumentos dos preços do petróleo resultantes do fecho do estreito de Ormuz (onde a frota de Albuquerque chegou no princípio do século XVI e os portugueses lá construíram o Forte de Nossa Senhora da Conceição) em resposta à cruzada dos Srs. Bibi & Trump, o governo decidiu uma vez mais subsidiar os combustíveis através de uma dedução no ISP. Dito de outro modo, em vez de subsidiar as famílias mais vulneráveis (como fez o governo trabalhista inglês), o governo decidiu que a redução de receita fiscal devida à dedução no ISP seria compensada por todos os contribuintes, mesmo os que não precisam e em média gastam mais combustíveis.

Aversão ao risco

A aversão ao risco é uma das características da cultura do Portugal dos Pequeninos como este blogue vem há décadas lembrando (por exemplo no post DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: aversão ao risco é o que nos sobeja).

mais liberdade

A coisa é tão doentemente acentuada que as sociedades de capital de risco, criadas no princípio da década de 90, que pretendiam imitar o venture capital, se dedicaram na maioria do casos a fazer exactamente o contrário financiando empresas quase falidas. Não admira que, como o diagrama mostra o capital de risco tenha um peso muito menos significativo do que na média das UE, que já de si não é um bom exemplo.

Pensamento milagroso, desta vez vai ser diferente?

Incentivando a fatal aversão ao risco dos portugueses em geral e dos empresários em especial, o governo anunciou que vai despejar a fundo perdido quase mil milhões generosamente oferecidos pelos contribuintes europeus para financiar a inovação. Naturalmente, as “ajudas à inovação” vão ser dadas a projectos aprovados pelos nossos venture capitalists que são os apparatchiks do Banco Português de Fomento que geriu um sistema de garantia mútua que até ao final de 2020 registou perdas por pagamento de garantias de 881,08 milhões e desde 2012 até 2024 registou perdas de 124 milhões nas cerca de 300 startups em que participou.

Boa Nova. Uma reformazita

Arriscando estar a deitar foguetes antes da festa, festejo a iniciativa do governo de podar o Instituto de Emprego e Formação Profissional de ramos inúteis eliminando estruturas e chefias infectadas pelo parkinsonismo (o de C. Northcote Parkinson e não o de James Parkinson).

(Continua)

14/03/2026

CASE STUDY: Um imenso Portugal (67) - Um Brasil igual ao Chile e mais do que Alemanha

Outros imensos Portugais

Com um défice orçamental nominal de 8-9%, o rácio da dívida pública do Brasil de Lula da Silva tem vindo a crescer de 62% em 2010, sendo actualmente quase o dobro da média dos rácios dos países latino-americanos, e o FMI estima que em 2030 atingirá 99%.  

Por coincidência, 62% em 2010 era aproximadamente o rácio da dívida portuguesa antes de José "Animal Feroz" Sócrates, amigo do peito de Lula da Silva, ter iniciado em 2005 o caminho para a bancarrota. Por outra infeliz coincidência, o rácio do Brasil, estimado pelo FMI para 2030, de 99% está próximo dos 98% de Portugal registados em 2023.

Uma das maiores ameaças ao equilíbrio fiscal é o sistema de segurança social cujas pensões, que representam actualmente 10% do PIB, representarão em 2050 uma percentagem mais elevada do que a da Alemanha e da média da OCDE, países muito mais envelhecidos do que o Brasil. Com uma estrutura etária semelhante à Chile ou do México, os gastos com pensões do Brasil já atingem em percentagem do PIB o nível do Japão.

Diferentemente do que di Lampedusa prescreveu para a Sicília, no caso do Brasil (e de Portugal) é  preciso que muito mude e nada fique na mesma.

12/03/2026

Khamenei May Be Gone, thank you Bibi and thank you Don, but (3) - Trump puts his mouth where his head is; the Ayatollah puts his head where his mouth is.

Continuation of (1) and (2)
The new Supreme Ayatollah Mojtaba Khamenei is the second son of Ali Khamenei, killed in the Israeli attack along with Mojtaba's wife and son. The new leader has a fortune obtained from the clandestine sale of Iranian oil that rivals Trump's, and that's where the similarity ends.

Mojtaba Khamenei served in the armed forces during the Iran-Iraq war, knows the political system inside out, and has strong ties to the Revolutionary Guard. With this past and the hatred that will result from the assassination of three family members, it is predictable that he will do everything to resist the "special operation" hoping that Trump's volatility, the horror of the loss of American lives, and the consequences of a crisis stemming from the closure of the Strait of Hormuz and the destruction of oil infrastructure in the Persian Gulf will do the rest.

That is why I continue to consider the most likely outcome is that, after a few weeks, Mr TACO (Trump Always Chicken Out) will wait for the first pretext to cower.

11/03/2026

Crónica da passagem de um governo (40b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 40a)

«Lay-off a 100% avança com aliança de PS, Chega e restante esquerda»

A expressão «Chega e restante esquerda» é um pouco simplista, ao meter o Chega na esquerda quando, na verdade, é mais um híbrido que em matéria social é socialista, como neste caso em que vota uma proposta que obrigará as empresas a pagar durante o lay-off extraordinário (uma emergência em que arriscam a falência) o mesmo salário, do qual resultará um rendimento líquido maior do que se estivessem a trabalhar.

Está tudo explicado. O governo não tem "fetiche sobre o crescimento

Quem o disse foi o ministro da Economia que, por isso, deveria mudar o título para ministro da Ecoanomia. Percebe-se agora que o governo, não se preocupando com o aumento da produtividade, não faz as reformas indispensáveis para aumentá-la e assim criar mais riqueza. Fica por esclarecer por que diabo o ministro se queixa da «excessiva retração» dos bancos e do «excesso de prudência (que) atrasa o crescimento económico».

O Dr. Matias e a atracção de talento

Enquanto prepara Portugal para vir a ser «um líder mundial na IA», o ministro da Reforma do Estado, Dr. Gonçalo Matias, anuncia um projeto estratégico para criar uma gigafábrica de Inteligência Artificial (IA) de escala europeia, para posicionar o país como um dos principais polos de computação avançada da Europa e «atrair investimento e talento» (fonte). O Dr. Matias devia limitar a ambição à venda de electricidade. Atrair talento é muita ambição. Já ficaríamos gratos se o Dr. Matias se ficasse pela retenção do talento que todos os anos abandona o Portugal dos Pequeninos, enquanto se criam “vias verdes” para atrair trabalhadores para a construção para fazerem o trabalho que o nosso talento que ficou retido não está disponível para fazer.

Os canários na mina de carvão estão em risco de vida

E não estão em risco de vida porque em Janeiro o Índice de Volume de Negócios na Indústria, que tinha crescido 2,3% em Dezembro, teve redução homóloga nominal de 1,5% (fonte INE), após o crescimento de 2,3% observado no mês anterior. Isso são miudezas face aos possíveis impactos da «operação militar especial» Trump-Bibi em curso. 

Enquanto isso fazem-se jogos florais…

… e o Dr. Passos Coelho aponta o dedo ao Dr. Montenegro que não faz reformas (que, por boas razões, se suspeita que os eleitores podem não querer) e o Dr. Montenegro desafia o Dr. Passos Coelho para um duelo nas directas do partido de ambos.

10/03/2026

Crónica da passagem de um governo (40a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Oremos para que o choque fiscal estimule a oferta de habitação (2)

Que a oferta de habitação é insuficiente, ninguém parece ter dúvidas. Também parece claro que a procura aumentou e a crise da habitação se agravou com o Programa Crédito Habitação Jovem que levou os empréstimos para compra de habitação pelo escalão etário 18-35 anos a representarem no ano passado 60% dos 39,3 mil milhões de novos empréstimos e ainda com o investimento estrangeiro em imobiliário que no ano passado atingiu 3,9 mil milhões e representou 46% do investimento directo estrangeiro.

Pelo lado da oferta e dos sucessivos programas para a aumentar, as notícias não são melhores. Nos dois últimos anos, dos 114 mil fogos projectados apenas 72,7 mil foram licenciados, confirmando a minha dúvida de que as medidas fiscais sejam suficientes para estimular a oferta sem a simplificação da burocracia municipal.

A transformação digital no Estado sucial dos Pequeninos não é em vez de, é em cima de

Por falar em burocracia municipal, relato a minha experiência recente numa visita a uma das câmaras municipais com maior orçamento, considerada um modelo autárquico, para tentar agendar uma reunião com um arquitecto. Fiquei a perceber que, na verdade, a transformação digital (geralmente definida como a integração das tecnologias digitais nas operações de empresas e serviços públicos, com vista a simplificar ou, como se diz no patuá pós-moderno, agilizar os processos) consiste em montar em cima de um processo por natureza simples uma série procedimentos que envolvem criar registos com uma pletora de dados, confirmar e reconfirmar esses a dados com a chave móvel digital e vários códigos de acesso enviados por SMS, etc. e no final a simpática funcionária informa o munícipe que um dia vai receber uma telefonema para agendar a reunião.

Boa Nova
Choque da realidade com a Boa Nova

As más novas são várias. Em valor, o endividamento da economia (o total da dívida do Estado, das empresas não financeiras e das famílias) aumentou o ano passado em 28,9 mil milhões. A dívida pública na ótica de Maastricht aumentou em Janeiro 6,1 mil milhões ultrapassando os 280 mil milhões. E o Estado português foi um dos três países da OCDE que mais recorreu a novas emissões para amortizar dívida.

Isto são apenas os preliminares. Com as tempestade e as prováveis sequelas da «operação militar especial» Trump-Bibi no Irão as coisas vão mais difíceis, o que levou o ministro das Finanças, habitualmente tão optimista, a não excluir (uma maneira simpática de dizer que é quase inevitável) voltar aos défices.

(Continua)

09/03/2026

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: E se o povo não quiser reformas?

«(...) É claro que reformas deste tipo não teriam qualquer hipótese de aprovação no parlamento. Mesmo que o PSD as desejasse (o que não estaria assegurado), encontra-se entalado entre dois partidos, o Chega e o PS, avessos a reformas liberais e que defendem mais intervenção do estado na economia e na sociedade. A resposta de PPC a um impasse deste tipo é confiar no povo. O político reformista deve apresentar e advogar a sua agenda perante os eleitores sempre, em eleições ou fora delas. Deve apresentar as suas propostas com coragem, sem compromisso ou calculismos. Os consensos que muitos advogam são frequentemente bissetrizes que nada mudam, simulacros de reformas que reduzem a pressão para as verdadeiras alterações estruturais. Insistir sempre. Se não for possível, ouça-se o povo. 

Gosto! Mas ... e se o povo não quiser reformas? E se o povo preferir a quietude anestesiante do declínio gradual à agitação transformadora? Afinal foi o povo que deu ao Chega e ao PS o poder bloqueador que atualmente detêm.

É que as reformas têm sempre ganhadores e perdedores. Esperam os reformistas que os benefícios dos ganhadores sobrelevem as perdas dos perdedores - isto é, que as reformas sejam um jogo de soma positiva - e que existam mecanismos redistributivos que permitam a compensação daqueles prejudicados. Em jargão de economista, esperam que as reformas representem uma melhoria potencial à Pareto. O problema complica-se quando consideramos a dimensão intergeracional. Os benefícios das reformas podem levar muito tempo a manifestar-se e os maiores ganhadores podem vir a ser aqueles que hoje ainda são muito jovens ou mesmo ainda não-nascidos - ou seja, segmentos com pouca voz eleitoral ou sem ela Em contrapartida, os eleitores mais velhos, com as vidas resolvidas, são aqueles expostos a maiores riscos e para quem o up side das reformas é menos óbvio. Vê-se assim que em sociedades envelhecidas como a portuguesa, em que a idade mediana são 47 anos e 25% da população tem mais de 65 anos, conseguir maiorias eleitorais reformistas é tremendamente difícil.

O reformador arrisca-se, assim, a ser como o escuteiro que queria praticar a sua boa ação diária levando uma velhinha a atravessar a rua. Só que ela não o queria fazer.»

O reformador e o povo, José A. Ferreira Machado no Jornal Sol