Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

27/10/2026

Crónica da passagem de um governo (73a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
A ditadura do politicamente correcto censura o óbvio ululante

O Dr. Benjamim Pereira, presidente do IHRU (Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana), possivelmente inspirado nas palhaçadas dos acampamentos, desabafou «eu não sei se a sociedade atual está disponível para o nível de sacrifício que os nossos pais e os nossos avós fizeram para ter uma casa». Perante a dúvida puramente retórica, à qual qualquer cidadão com mais de 50 anos responderia que não está disponível, as virgens indignaram-se e até o ministro que nomeou a criatura meteu o rabito entre as pernas e condenou o óbvio ululante.

Se o governo do Dr. Montenegro é um infortúnio, a oposição é uma desgraça. Mudam os líderes socialistas e o pensamento milagroso socialista permanece (2)

Pela boca do Dr. Mendonça Mendes, um histórico socialista que desde a passagem por Macau (uma das mais notórias madraças do PS) andou por quase todos os governos socialistas, defendeu no parlamento «medidas concretas para fazer face ao aumento do custo de vida» com a prodigiosa qualidade de não alterarem o saldo orçamental e sem reduzir outras despesas ou aumentar a receita fiscal.

Pensamento milagroso não é um exclusivo do socialismo

O Dr. Pinto Luz garantiu que «através do pacote fiscal e da nova política de arrendamento, milhares de senhorios que hoje estão fora do mercado de arrendamento (…) cerca de 300 mil casas (…) que podem ficar disponíveis "nos próximos meses ou no próximo ano», algumas segundas habitações e outras que estão atualmente no mercado de alojamento local.

Por falar em alojamento local que algumas almas culpam pela falta de habitação

Segundo a Câmara de Lisboa, os alojamentos locais caíram 40% em três anos e as rendas continuaram a aumentar.

Sem esperar pelo pensamento milagroso socialista, os consumidores tomam medidas…

… e ajustam o seu consumo de combustível aos novos preços resultantes do jogo do empurra entre Donald Trump e os guardas revolucionários.

O Estado sucial das taxas e taxinhas

mais liberdade

Em 2027, a carga fiscal portuguesa deve aproximar-se de 36% do PIB, abaixo dos 40% da média da UE e muito abaixo dos campeões, França, 45,6%, e Dinamarca, 44,7%, que, tendo valores próximos, são realidades políticas e sociais muito diferentes. Apesar de ter uma carga fiscal abaixo da média, o Estado social português tem mais de 20 impostos do que a média de 90 da UE, como se adoptasse o lema, já que não os posso espoliar mais, vou complicar-lhes a vida.

(Continua)

26/10/2026

Just as Soviet communism fell, pensioner communism must fall in the United Kingdom (and elsewhere)

«Vladimir Lenin distilled all politics to two questions: “Who? Whom?” Who will dominate, and whom will they dominate? Since 2010 the British state has offered simple answers. Who? Pensioners. Whom? Everyone else.

With the Conservative Party as its vanguard, pensioners bent the state to their will. The bits of it serving the working-age were squeezed, while those of concern to the elderly were protected. Pensioner preoccupations like leaving the European Union were pursued no matter the damage. Bungs such as free TV licences rained down. An old Marxist mantra was given a new twist: from each according to his ability; to each according to his age.

Yet change can come quickly to an ailing system, however indestructible it might seem. Alexei Yurchak, an anthropologist, titled an account of the collapse of the Soviet Union: “Everything Was Forever, Until It Was No More”. So it is in the 21st century with communism’s old-age cousin. Demographic change, economic struggles and inherent contradictions are set to bring about an end to a political settlement that once felt invincible. The end of pensioner communism is nigh.

When future historians tell the story of its fall, they will begin with a speech in Liverpool in September 2026. The speaker was a man who came not to destroy pensioner communism but to save it. Andy Burnham is more Mikhail Gorbachev, trying to buttress a failing edifice, than Boris Yeltsin, bringing in something chaotic and new. Britain’s new-ish prime minister pledged to overhaul the triple lock, a hitherto untouchable policy which raises state pensions each year by the highest of inflation, earnings or 2.5%.

Labour apparatchiks reacted like delegates at a Soviet congress. Mr Burnham softened things by saying no change would take place until 2030, after the next election. His party faithful applauded the triple lock’s retention and they applauded its repeal.  Gorbachev launched perestroika, a suite of reforms to shake up the whole economy. Mr Burnham is shuffling cash for the elderly. The savings (perhaps £20bn, or $26bn, a year by 2040) will go towards a new National Care Service, ensuring geriatrics do not pay as much for old-age care. Think of it as perestroika for pensioners.

21/10/2026

Crónica da passagem de um governo (72b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 72a)

Chrystal Clear. Part 2

Já aqui citei o aviso de Kristalina Georgieva aos governos sobre os riscos que a economia mundial enfrentará e da inevitável «orientação prudentemente restritiva na política monetária», com cortes das despesas públicas, redução da dívida pública e aumento das taxas de juro.

Agora o Fiscal Monitor da OCDE, cujo tema central (Taxing Better to Boost Growth) é em si uma mensagem aos governos dos países membros, a quem exorta a reduzir as distorções induzidas por impostos, preservando a receita total, repondo a neutralidade do IVA, melhorando o tratamento tributário dos custos de investimento, fortalecendo os incentivos ao trabalho e à inovação e os custos de conformidade para aumentar a produtividade. Não por acaso, em vão se procuram traços destes propósitos no OE 2027 do governo do Dr. Montenegro e também não é por acaso que o FMI não acredita em excedentes dos orçamentos futuros.

Coisas que saltam à vista no OE2027

Infografia (adaptada) do Expresso

Quando se olha para o diagrama acima, alguns números que nos assaltam:
  • A carga fiscal atingirá 125,5 mil milhões, o que corresponde a 36% do PIB nominal previsto para 2027 (em 2025 foi de 35,3%);
  • Um terço das receitas orçamentais (44,6 mil milhões) são contribuições sociais que na sua esmagadora maioria se destinam a financiar pensões futuras e que em grande parte irão ser torradas no presente;
  • O total das contribuições sociais (44,6 mil milhões) cobre menos de três quartos das prestações sociais – quem é que garantiu a sustentabilidade da segurança social?
  • As contribuições sociais só são ultrapassadas como fonte de receita pelos impostos sobre a produção e importação (IVA, na sua maior parte – 62%);
  • O Estado sucial aplicará menos de 10 mil milhões ou menos de 7% das suas despesas para investir no seu capital fixo.
De como o governo do Dr. Montenegro continua a circular na autoestrada mexicana do investimento público…

mais liberdade

Se o governo do Dr. Montenegro é um infortúnio, a oposição é uma desgraça. O berloquismo (1)

Da incompetência dos batalhões de apparatchiks e dos seus comandos resultam inevitavelmente erros, como o do pagamento de pensões mais elevadas do que as devidas pela lei a uns milhares de reformados, desta vez antigos apparatchiks recebendo pensões da CGA. Agora que o governo pretende, de acordo com a lei (princípio que até a DECO reconhece) o Berloque de Esquerda, uma agremiação em vias de extinção, agarra-se como um náufrago a uma boia e produz uma queixa de 43 (quarenta e três) páginas que o chefe da turma Dr. Pureza e o deputado sobrevivente entregaram na Procuradoria-Geral da República.

20/10/2026

Crónica da passagem de um governo (72a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
O perigo amarelo. Portugal no topo do mundo

«O perigo amarelo» (Gelbe Gefahr) foi uma expressão popularizada pelo Kaiser Guilherme II em meados da década de 1890, depois da vitória do Japão na Guerra Sino-Japonesa de 1894-1895. Desde então, tem servido, um pouco por todo o mundo, para justificar a discriminação em relação ao Japão e à China. Nos EUA, por exemplo, justificou o Chinese Exclusion Act de 1882 e na Segunda Guerra Mundial, o internamento forçado de japoneses residentes em campos de concentração.

Num país descapitalizado, por décadas a viver acima das posses, tem-se mostrado imune a tais preconceitos e tem acolhido com fervor e gratidão os capitais chineses. Tal como mostra o paper China's Global Ownership de Jennie Baie et al., que vem sendo citado na mídia portuguesa, o Portugal dos Pequeninos é o país com maior participação relativa do capital chinês.

Portugal quase no topo do mundo, noutra modalidade

Segundo o World Economic Outlook de outubro do FMI, o nosso Portugal dos Pequeninos, em três décadas, de 2001 a 2031, crescerá 41,6%, o que o faz o décimo país do mundo com menor crescimento nesse período, a seguir a nove países liderados por Porto Rico, que abrangem seis países em vias de subdesenvolvimento e três cansados de ser desenvolvidos, liderados pela Itália.

Take Another Plan. Percebe-se, ou é preciso fazer um desenho?

mais liberdade

É certo que a venda de 49,99% é bastante menos má do que manter o Estado sucial como accionista único e muito menos boa do que o Estado sucial vender a totalidade ou, vá lá, ficar com uma participação minoritária. O que não é certo, como por diversas vezes mostrei com contas elementares, é que de qualquer das opções de venda resulte a recuperação dos subsídios pagos à TAP com impostos dos contribuintes, como o gráfico acima mostra. É preço da governação socialista nas suas diversas modalidades, PS e PS-D. Já agora, veja-se o diagrama acima.

(Continua)