Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

29/01/2026

CASE STUDY: O resultado das políticas de rendas acessíveis são rendas inacessíveis

Rendas mais recentes de um T1 compilados pelo Eurostat
Salário médio em cada cidade estimado pelo ERI (Créditos)

Não será por acaso que, também neste domínio, o Portugal dos Pequeninos tem como companhia sobreviventes do colapso do "socialismo real".

28/01/2026

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (78) - Em matéria de IA, como noutras, o país real continua distante dos delírios dos dirigentes

Outros portugueses no topo do mundo.

Utilizadores mensais de IA, em percentagem da população em idade activa
Fonte: Global AI Adoption in 2025—A Widening Digital Divide

Sendo certo que dizer, como o Dr. Matias, ministro da Reforma do Estado, que o Portugal dos Pequeninos tem «todas as condições para se tornar um líder mundial na IA» é algo do domínio do pensamento milagroso, o 20.º lugar no ranking europeu de utilização da IA e o 35.º mundial, estão em linha com outros domínios e não são um desastre.

27/01/2026

A democracia não está em perigo. É a inteligência que está em perigo

Este post pode ser lido como sequela de O inimigo do meu inimigo não é necessariamente meu amigo e
O estatismo populista e o estatismo socialista partilham o estatismo.

Nos dois diagramas seguintes estão representadas os resultados das respostas deste vosso escriba ao Votómetro Presidenciais 2026 do Observador, respostas que constituem um exemplo de como uma criatura pode estar praticamente equidistante dos dois candidatos em relação aos temas escolhidos, não se identificando com nenhum deles. O quid reside em quais os temas em que essa criatura está mais próxima ou afastada dos referenciais dos dois candidatos, algo quase impossível de compreender por uma mente unidimensional.


A democracia, por agora, não está em perigo. É a inteligência que está em perigo, disse sagazmente Manuel João Vieira, talvez lembrando-se do general Millán-Astray a gritar a Miguel de Unamuno "¡Muera la inteligencia! ¡Viva la muerte!

Não está em perigo a inteligência do Doutor Ventura, que é "esperto que nem um figo" ou “fino como o alho”, mas a inteligência dos seus seguidores, que o "líder da direita" (se ele é isso, eu sou o Clark Kent) insulta, excitando a amígdala e entorpecendo o neocórtex com seu discurso primário e inflamado.

26/01/2026

Crónica da passagem de um governo (34)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Não deram um lugar ao Dr. Centeno? Preparem-se para o aturar mais quatro anos

A candidatura do Dr. Centeno à vice-presidência do BCE (Banco Central Europeu) ficou pelo caminho, porque, especula-se, o Dr. Miranda Sarmento não se empenhou o suficiente porque, dizem, quando este era ainda candidato a ministro das Finanças, o Dr. Centeno o apelidar de Professor Pardal. Se foi assim, foi um erro porque se tivessem ajudado do Dr. Centeno a ir para Bruxelas não teriam de o aturar, ainda para mais ressabiado por todas as suas sucessivas candidaturas terem falhado: sucessor do Dr. Costa, sucessor do Dr. Marcelo, vice-presidência da EBA ou do BCE.

Quem disse que os portugueses têm falta de iniciativa? Ou de como criar um problema para não resolver outro

A criação da Autodeclaração de doença (“auto-baixa” no patuá jornalístico) foi uma das inovações do governo do Dr. Costa em 2023. Tratava-se, diziam, de reduzir o congestionamento das urgências dos hospitais - que, como se sabe, continuaram. Está a ser uma medida de grande sucesso – o ano passado os portugueses atribuíram-se mais de meio milhão de baixas, sobretudo às segundas e quartas-feiras. Nas palavras esclarecidas do presidente da Associação Nacional das Unidades de Saúde Familiar, a criação das falsas baixas «foi das medidas mais úteis para acabar com ‘falsas urgências’»

Os portugueses «vão ter razões para confiar no SNS». O triunfo da iniciativa privada nos serviços públicos

O médico Luís Duarte Costa que dirige o Serviço de Urgência do hospital Amadora-Sintra, depois de 18 anos no Hospital da Luz, reconheceu haver «24 horas de espera para pulseiras amarelas … Portugal é o país da OCDE em que o número de urgências por 100 mil habitantes é maior. A seguir vem Espanha, mas com metade do nosso valor. Por contraste, o nosso país é o último da lista na capacidade de obter uma consulta para doença aguda num espaço de três dias (…) doentes com indicação para internamento que ficam dias em macas no balcão».

Nada de novo. Novo é o Dr. Duarte Costa reconhecer que «é ridículo e imoral haver cirurgiões que, num dia útil normal, fazem duas cirurgias e quando estão no SIGIC, no mesmo número de horas, operam oito ou dez pessoas. Pode-me dizer: “Porque têm o dinheiro à frente.” Então que se ponha o dinheiro à frente.»

Ainda não chegaram as vacas magras e já há fila no peditório (cont.)

O empresariado português é muito atreito a peditórios, como aqui se viu com a restauração, um dos sectores que mais beneficiou com o turismo, inscreveu-se queixando-se das “grandes superfícies”. Só teve de esperar alguns dias para o governo, pela boca do ministro dos peditórios Dr. Castro Almeida, anunciar o donativo, consistindo no diferimento da amortização das dívidas ao Fundo de Turismo e da assunção por este da responsabilidade das dívidas à banca até 60 mil euros com 30% a fundo perdido, concretizando assim a vocação dos governos PS e PS-D para a socialização das perdas dos empresários falhados.


Boa Nova ou a coexistência do TGV com a autoestrada mexicana

Sei que os governos precisam de contar estórias para entreter os eleitores, mas não será um exagero e um insulto à inteligência de alguns eleitores, o governo do Dr. Montenegro que orçamentou para 2025 um investimento 21,5% superior ao de 2024 e até ao final de Outubro e executou apenas metade do total previsto para o ano, anunciar «um conjunto de decisões estratégicas centradas na Alta Velocidade, incluindo a aquisição de novos comboios pela CP – Comboios de Portugal, num investimento global superior a 1,6 mil milhões de euros», a ter lugar num futuro indefinido, algures entre 2029 e 2031.

Canários na mina de carvão

A Universidade Católica reviu em baixa o crescimento da economia portuguesa em 2026 de 2,0% para 1,8%.

25/01/2026

You can't fool all of the people all the time (11)

Other "You can't fool all of the people all the time."

YouGov (Source)
Deeper and deeper.


Standard profile of what remains of Trump's devotees: man, old, white, semi-literate. I bet the most educated devotees are predominantly motivated by ideology - recommended reading Leor Zmigrod, The Ideological Brain.

24/01/2026

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: O estatismo populista e o estatismo socialista partilham o estatismo

 Este post pode ser lido como sequela de O inimigo do meu inimigo não é necessariamente meu amigo.

«Chamar “socialista” a Ventura, como fiz deliberadamente no título, não é rigoroso em termos clássicos de ciência política. É uma provocação. Mas não é uma provocação absurda, e importa explicar porquê.  

(...)

Para quem considere exagerado atribuir a Ventura uma veia “socialista”, os factos ajudam. No último Orçamento do Estado, PS e Chega votaram juntos 82 vezes em alterações orçamentais. Sempre que a solução passava por “dar coisas”, aumentar despesa ou socializar custos, PS e Chega encontraram-se. 

Se a questão for um pequeno ajustamento nas propinas, ainda que simbólico, aproximando-as do seu custo real e responsabilizando os estudantes, PS e Chega unem-se para impedir. 

Se a escolha for entre o pagamento de uma portagem pelo utilizador ou a sua diluição pelo contribuinte, PS e Chega convergem na promoção da ilusão da gratuitidade. 

Se a TAP escapar ao controlo do Estado, ambos chorarão o desaire. 

O estatismo de Ventura é, aliás, tão pronunciado que durante a vaga inflacionista causada pela guerra na Ucrânia defendeu preços tabelados e margens controladas — uma proposta que nem a própria Mariana Mortágua chegou a avançar. 

Mas a convergência não se esgota no que defendem; manifesta-se também no que não têm coragem de defender. Nenhum dos dois foi capaz de apoiar claramente o pacote laboral, mesmo quando este se apresentava como tímido e moderado. Nenhum teve a coragem política de se demarcar da greve geral, preferindo acenar à rua, aos sindicatos e ao descontentamento organizado, em vez de assumir uma posição responsável, ainda que impopular. Ambos revelam a mesma aversão ao conflito reformista e a mesma dependência do aplauso imediato. 

Tudo isto conduz a uma conclusão desconfortável para muitos dos seus apoiantes: ao nível do modelo económico, as diferenças entre Ventura e Seguro são reduzidas. Ambos defendem soluções assistencialistas incapazes de gerar crescimento sustentado e criação de riqueza a longo prazo. Nenhum parece disposto a promover as reformas estruturais, quase sempre dolorosas, de que o país necessita. Mantendo a terminologia provocatória do título: ambos são socialistas.»

Vamos ter um Presidente socialista. Resta saber qual, Miguel A. Baptista

23/01/2026

A courageous speech by Mark Carney in Davos: Enough of "living a lie." "Nostalgia is not a strategy."

«In 1978, the Czech dissident Václav Havel, later president, wrote an essay called The Power of the Powerless, and in it, he asked a simple question: how did the communist system sustain itself?

And his answer began with a greengrocer.

Every morning, this shopkeeper places a sign in his window: ‘Workers of the world unite’. He doesn't believe it, no-one does, but he places a sign anyway to avoid trouble, to signal compliance, to get along. And because every shopkeeper on every street does the same, the system persist – not through violence alone, but through the participation of ordinary people in rituals they privately know to be false.

Havel called this “living within a lie”.

The system's power comes not from its truth, but from everyone's willingness to perform as if it were true, and its fragility comes from the same source. When even one person stops performing, when the greengrocer removes his sign, the illusion begins to crack. Friends, it is time for companies and countries to take their signs down.

In 1978, the Czech dissident Václav Havel, later president, wrote an essay called The Power of the Powerless, and in it, he asked a simple question: how did the communist system sustain itself?

And his answer began with a greengrocer.

Every morning, this shopkeeper places a sign in his window: ‘Workers of the world unite’. He doesn't believe it, no-one does, but he places a sign anyway to avoid trouble, to signal compliance, to get along. And because every shopkeeper on every street does the same, the system persist – not through violence alone, but through the participation of ordinary people in rituals they privately know to be false.

Havel called this “living within a lie”.

The system's power comes not from its truth, but from everyone's willingness to perform as if it were true, and its fragility comes from the same source. When even one person stops performing, when the greengrocer removes his sign, the illusion begins to crack. Friends, it is time for companies and countries to take their signs down.