Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

10/09/2026

Crónica da passagem de um governo (66b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 66a)

Canários na mina de carvão

[Recordo que nas minas de carvão se usavam canários que são muito sensíveis ao monóxido de carbono e ao metano para alertar os mineiros de um perigo iminente.]

Aparentemente está tudo a correr bem na mina. Até uma jornalista íntegra e profissional como Helena Garrido, não sente o cheiro do metano (o monóxido de carbono não tem odor). Estamos a crescer, o desemprego é historicamente baixo, os salários crescem acima da inflação, a dívida pública continua a diminuir e as contas públicas estão equilibradas e, cereja no topo do bolo, a Fitch subiu a notação de A para A+. Até poderia ter celebrado a redução do défice da balança comercial de bens (como este jornal) e não o fez, eventualmente porque olhou para o comportamento do conta corrente e viu esta evolução da balança corrente

Trading Economics

Depois vêm as más notícias. A pior de todas é que a produtividade do trabalho – o indicador crucial que reflecte a capacidade do país criar riqueza – é a quarta mais baixa da UE e voltou a cair no 2.º trimestre

Expresso

A segunda pior é que, se é certo que a dívida pública tem vindo a diminuir, tudo aponta para os juros irem aumentar, como as pessoas mais atentas já perceberam (A subida dos juros vai doer, O acerto de contas chegou) e os mercados já anteciparam, e mostram as yields da dívida colocada nos últimos dias que aumentaram face à últimas emissões 29 (prazos 8,7 e 3,4 anos) e 55 (prazo 8 anos) pontos base. (fonte)

Com o metano a vazar na mina, a gerência acende uma fogueira para aquecer os mineiros

E o que faz o governo para mitigar os riscos externos e internos que ameaçam a economia portuguesa? Ora, faz o que sabe fazer. Em plena orgia de oratória, a propósito das trapalhadas do Dr. Neves, o Dr. Montenegro anuncia o bodo aos pobres com uma descida de IRS e uma gratificação de Natal aos pensionistas. Isto é coisa de pobres com pouca vergonha, o Sr. Trump, que é rico sem vergonha, prometeu USD 5.000 a cada adulto se o seu partido ganhar as eleições intercalares.

09/09/2026

Crónica da passagem de um governo (66a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Coisas que me assombram (1)

O mesmo Ministério Público que correu a abrir um inquérito aos atrasos na digitalização dos exames do secundário empurrou durante semanas com a barriga para a frente a abertura do inquérito às trapalhadas do Dr. Neves. E, tanto quanto se saiba, não foi por pensar que as trapalhadas do tanque-piscina, das obras de 15 mil euros e das outras miudezas, todas por junto, não valeriam o esforço de uma Justiça caquética que anda há mais de uma década a investigar e julgar o Sr. Eng. Sócrates e a sua golpada, a maior desde Alves dos Reis (com um apartamento em Paris em vez de um banco comercial).

Coisas que me assombram (2)

A mesma Inspeção Geral das Atividades em Saúde que abriu uma investigação ao Hospital Garcia de Orta, reconhecido como um dos hospitais onde faltam obstetras, por ter fechado a consulta de IVG (o nome woke de aborto), não se deu ao trabalho de investigar o que se passou com um doente crónico de 70 anos com sinais de AVC que só foi observado 23 horas depois de ter entrado no Hospital Amadora-Sintra com pulseira amarela (atendimento máximo em 1 hora).

Coisas que me assombram (3)

(3a) Para que precisa uma urgência pediátrica de um hospital, na circunstância, o de Dona Estefânia, de 9 (nove) chefes e 
(3b) por que se demitem en masse os 9 (nove) chefes «exclusivamente» das «funções de coordenação e chefia», isto é, das funções para as quais foram nomeados chefes. (fonte)

Governo e oposição encharcam-se em gasolina (alguém poderia acender um fósforo?)

O aumento do preços dos combustíveis é provavelmente uma das poucas coisas sobre as quais governo e oposição nada podem fazer, para além de obrigar os contribuintes a pagar mais impostos para terem combustíveis uns cêntimos mais baratos. Pois é precisamente um dos temas em que o governo e a oposição socialista mais se têm engalfinhado, a propósito do dinheiro que o governo do Dr. Montenegro estaria a ganhar «à custa do sacrifício dos portugueses» e do dinheiro que o governo do Dr. Costa «se fartou de ganhar dinheiro à custa da subida dos preços» (ver aqui um sumário da discussão mais estúpida desde Dona Maria II). É uma mistura inextricável de desfaçatez e ignorância.

O desastre de uma década de políticas educacionais woke e a lei de Merton

Não deveria ter surpreendido ninguém, mas, como sempre, neste Reino de Pacheco nunca se antecipam as consequências do que se faz. Os resultados do PISA 2025 (o Programa Internacional de Avaliação de Alunos da OCDE, trienal, para avaliação do desempenho escolar, realizado desde 2000) caíram como uma bomba. Um recuo de duas décadas no desempenho em Leitura e Matemática.

O Dr. João Costa o último dos ministros de Educação do Dr. Costa mostrou o máximo de seriedade que se pode esperar de um ministro socialista e disse que «não descarta responsabilidades» e remeteu as soluções para «os países [se sentarem] à mesa», se fosse religioso, invocaria o Espírito Santo.

Não vou desenvolver a coisa (o outro contribuinte diz que vai escrever um post sobre esta desgraça educacional e outras) e apenas saliento mais uma aplicação da lei de Merton ou das consequências indesejadas: o facilitismo foi um dos álibis do woke para proteger os pobres e não é que o PISA 2025 revela que os alunos pobres estão quatro anos atrasados em relação aos outros…
 
(Continua)

08/09/2026

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (82) - "Quem é capaz, faz, quem não é, ensina" (II)

Outros portugueses no topo do mundo. Outro "Quem é capaz, faz, quem não é, ensina"

O ano passado, seis escolas de gestão portuguesas atingiram boas posições no ranking mundial do Financial Times de formação de executivos. Este ano, cinco dessas seis escolas (menos a FEP) foram classificadas no ranking Masters in Management 2026 do FT

Financial Times

Tem de se concordar que, para um Portugal dos Pequeninos representando 0,13% da população e 0,28% do PIB nominal mundial, não é coisa pouca ter 5 mestrados em gestão entre os 100 melhores. 

Esse resultado é atingido por um país em que as empresas estão longe de ser um modelo de gestão (com aquelas notáveis excepções que se contam pelos dedos das mãos ou, vá lá, com benevolência, pelos dedos das mãos e dos pés) e a administração pública é o locus privilegiado da incompetência de gestão. Não encontro, por isso, outra explicação além da de George Bernard Shaw «Those who can, do; those who can’t, teach». Com esta ironia não pretende diminuir o mérito de umas dezenas de profs que, ao arrepio do conformismo endémico, não se rendem à cacistocracia dominante.

06/09/2026

LASCIATE OGNI SPERANZA, VOI CH'ENTRATE: Vamos todos fingir que o problema não existe? Sim, vamos (13) - A leveza insustentável do sistema público de pensões (IX)

Continuação de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10), (11), (12)

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As projecções de Luís Portugal, que conhece bem o tema, num cenário razoavelmente optimista, confirmam que os 42 mil milhões do FEFSS cobrem cerca de um quarto das responsabilidades da Segurança Social por pensões e não dão para mandar cantar um cego, como dizia minha avó. Se adicionarmos as responsabilidades da CGA, que há anos não tem contribuições e é financiada pelo OE, o buraco assume profundidades abissais, como aqui andamos há mais de duas décadas a escrever (ver etiqueta pensões).

04/09/2026

ARTIGO DEFUNTO: Ranking Mais Idiota do Ano (2)

Pela segunda vez (a primeira foi o ano passado), o (Im)pertinências escolhe o Ranking mais Idiota do Ano e concede a Taça ao Jornal de Negócios.


30 dos 50 mais poderosos segundo o Jornal de Negócios

Alguns destaques:
  • A presença de Mr. Trump, Mme Lagarde, Frau von der Leyen, camarada Xi Jinping e Monsieur Macron, todos estes últimos menos poderosos do que o Dr. Montenegro, dá um cunho planetário ao ranking; 
  • A presença no 2.º lugar do Dr. Macedo mostra bem como a banca pública nacional tem um papel de relevo na galáxia das finanças;
  • Há pequenas coisas que muito reconfortam o ego patriótico e, entre elas, destaca-se a Dr.ª Azevedo, que, ao preceder o camarada Xi, evidencia o papel dos supermercados Continente no panorama internacional; 
  • É, por assim dizer, mais um exemplo de como os portugueses estão no topo do mundo.

02/09/2026

Crónica da passagem de um governo (65b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 65a)

«Funcionamento irregular da instituições»?

O Dr. Adalberto Campos Fernandes, socialista e ministro da Saúde do Dr. Costa, durante três anos de que não há memória de ter apontado “irregularidades”, e conselheiro do Presidente da República, diz, a propósito das trapalhadas miúdas de que é acusado o Dr. Luís Neves, haver «sinais muito preocupantes que indiciam materialmente um funcionamento irregular das instituições». Teria o Dr. Adalberto toda a razão se as instituições do Estado sucial lusitano tivessem por hábito funcionar “regularmente”. Como o que é regular nas instituições durante governações como as do Eng. Sócrates ou do Dr. Costa são as irregularidades, o Dr. Adalberto deveria ter dito algo como «há sinais muito preocupantes que indiciam materialmente o funcionamento regular das instituições».

O que está em causa na REN? A resposta à opacidade do governo tem sido o “liberalismo” dos iliberais (2)

Está por explicar (para além da explicação para retardados que o governo deu) o racional do governo para comprar uma participação de 13,7% na REN, o operador da rede eléctrica de alta tensão. O silêncio do governo foi preenchido pelo cacarejar de vozes “liberais” em protesto pela intervenção do governo numa empresa privada, apenas interrompido por um comentário com pés e cabeça do Eng. Mira Amaral, concorde-se ou não.

E assim se evita a «hecatombe social» prenunciada pelo Dr. Dominguinhos

Perante a proximidade do fim do PRR e o atraso para aplicar os respectivos dinheiros da bazuca, o Dr. Dominguinhos, presidente da Comissão Nacional de Acompanhamento, alertou que «se a consequência for a devolução do dinheiro vamos ter uma hecatombe social». O ministro da Economia ouviu o apelo e garantiu que não haveria devolução. Pelo contrário, haveria complementação pelo OE 2027 que financiará todos os projectos em “conclusão substancial” no final de Agosto, seja lá o que isso for. Os bafejados pelo anúncio suspiraram de alívio e os contribuintes que o pagarão não deram por nada.

Canários na mina

Primeiro os trinados: puxado pelas exportações, o PIB cresceu 2,5% em termos homólogos no 2.º trimestre e 0,8% face ao 1.º trimestre (INE). É poucochinho, diria o Dr. Costa se ainda por cá andasse.

Depois os pios: a inflação foi 3,3% em Agosto pelo que a variação média nos últimos 12 meses subiu para 2,7% (INE); o endividamento da economia aumentou 39,6 mil milhões no primeiro semestre de 2026, com o sector público a subir 22,6 mil milhões, a dívida das empresas privadas a crescer 4,2% e a dos particulares 9,9%, em termos homólogos (BdP); os yields da dívida pública portuguesa atingem máximos de 5 anos.

Trading Economics

A estes pios dos canários junta-se o grasnar da CE que faz um prognóstico baseado nas novas regras orçamentais para o crescimento da despesa pública que em Portugal se prevê seja 5,6% em 2026, acima do limite de 5,1%, e em 2027 atinja 5,5%, muito acima do limite de 1,2%, por força do crescimento da despesa corrente (mais liberdade).