Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano)

30/09/2003

Diário de Bordo - Amarcord

Fui rever ao King, este admirável filme do princípio dos anos 70, onde Fellini nos retrata a sua Rimini de adolescente, algures na década dos 30, em plena ascensão do fascismo, que aliás nos é mostrado com alguma indulgência.
Quando o filme terminou, um casal de mastronças tipo esquerdistas senis com look retro 68 comentava ao sair: “belo filme, mas um bocado sexista”. Devia ser por causa daquelas abundantes bundas e gloriosas tetas que o Fellini nos mostra com evidente prazer. Coitado dele, se ressuscitasse seria obrigado pelo fundamentalismo politicamente correcto a refazer toda a sua obra.
Enquanto esperava pelo Fellini, passeei os olhos por aquela pequena capela da cultura alfacinha que é a Assírio & Alvim, os quais olhos me caíram na tradução da obra do Doutor João Magueijo que, pasme-se, tinha facturado 10.000 exemplares, o que para o tema é obra.
Lembrei-me de reproduzir uma estória que no princípio deste ano emalei para os meus amigos. Vem a seguir.

Estórias e morais - Velocidade da luz e penis envy

A estória ...
Apesar de, nos piores momentos, as minhas dúvidas sobre a viabilidade da Pátria poderem ser facilmente confundidas com ausência de patriotismo, a verdade é que sou é um patriota envergonhado. Cada vez que sei dum feito dum patrício, o meu coração rejubila de alegria.
Foi o que se passou há uns meses com as referências elogiosas na nossa imprensa à obra e à pessoa dum tal Doutor João Magueijo a quem eram creditadas investigações, ou melhor especulações científicas, que punham em causa o postulado einsteiniano da constância da velocidade da luz, pelo menos no início do Big Bang, que é o momento em que começa a erecção do universo. O nosso Doutor João, que é lecturer no Imperial College de Londres, tinha então acabado de publicar uma obra notável chamada «Faster than the speed of light: The story of a scientific speculation».
Ainda mal refeito do raro êxtase patriótico, eis que me chega aos olhos uma review da dita obra, onde se começa por dizer que o nosso Doutor João tentou pintar-se como "um brilhante heterodoxo, um sucessor de Richard Feynman, ou um rival teórico do grande Einstein", o que, segundo o reviewer, seria absolutamente ridículo. Quem sou eu para discordar?
Segundo o reviewer, depois de se apresentar como um rapaz cheio de potencial, e de grande precocidade, o nosso João borra a pintura porque não diz nada que já não se saiba (excepto no que respeita à sua pessoa) e dá largas à sua má-língua e chega até a insinuar que os editores das publicações científicas sofrem de «penys envy» (por lhe terem recusado a publicação dos seus trabalhos?).
Termino aqui a estória para não cair no mesmo erro do nosso João e, dando um exemplo de grande rigor científico, enuncio duas possíveis hipóteses:
Hipótese A: a natureza favoreceu o nosso João, quer na matéria, quer no espírito, ao contrário do reviewer que, sofrendo de «penis envy» e não podendo aumentar o seu ego, tenta diminuir o do nosso João
Hipótese B: O nosso João está a fazer bluff e a sua matéria é tão escassa como o seu espírito.
... e a moral só podia ser uma lei científica, na circunstância a apropriada Lei da Entropia de Schopenhauer:
“Se se deita uma colher de vinho num barril de detritos, fica-se com detritos. Se se deita uma colher de detritos num barril de vinho, fica-se com detritos”

29/09/2003

Avaliação contínua

Secção Sol na eira e chuva no nabal
A Associação de Estudantes do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas barricou hoje a entrada para a faculdade, protestando contra a propina máxima (852 euros) adoptada pelo Conselho Directivo, que, segundo os rapazes, "traduz uma política de elitização das universidades, tornando "extremamente difícil e mesmo impossível para alguns" a frequência do ensino superior.
O Impertinente tem para ele que, a avaliar pelas aglomeração de veículos em torno dessa e de quase todas as faculdades, seria mais eficaz combater a elitização das universidades, baixando o preço da gasolina, porque ao preço actual (0,97 euros) a propina máxima não chega nem para fazer 900 km por mês.
Talvez mais pertinentes, serão as formas de luta praticadas por 20 estudantes do ISCTE que acamparam nas instalações da faculdade, o que permitirá deslocar o dinheiro poupado na renda para mais uns litros de gasolina.
Depois de algumas hesitações, O Impertinente resolve adjudicar 3 chateaubriands aos rapazes, para premiar a sua distracção sobre quem paga a propina, que são os pais deles (20% da propina) e os contribuintes (80% da propina).

Secção Assaults of thoughts
Na véspera de enfrentar a coluna da esquerdalhada que estará de dente afiado na Conferência Trabalhista que começou hoje, Tony Blair deu duas entrevistas ao Observer e à BBC, onde disse algumas coisas chocantes, a propósito da intervenção no Iraque, do putativo relatório apimentado e de outras trapalhadas. “Fizemos tudo bem. Não temos nada que nos arrepender, nem que pedir desculpa. Nem muito menos voltar atrás» ou «Se há uma coisa que aprendi em seis anos e meio de governo é que não posso estar neste lugar se tiver medo das sondagens», foram algumas das suas afirmações.
Independentemente do fundo da questão, que O Impertinente agora não discute, por tal clareza, nos tempos que correm em que os governantes se borram de pavor a olhar para as sondagens, Tony Blair merece 2 afonsos.
Melhor ainda escreveu Anatole France, prémio Nobel da Literatura de 1921: “Não há governos populares. Governar é descontentar." Se fosse hoje, levaria 5 afonsos.

28/09/2003

Estórias e morais – O Profeta, Aisha e o multiculturalismo

Em várias cidades portuguesas, belgas e suiças realizaram-se ontem marchas brancas pelos direitos das crianças e contra a pedofilia. Não foram vistos adeptos das várias correntes do multiculturalismo e do relativismo moral, que são conhecidos pela sua pulsão manifestante. Esta estória é-lhes dedicada.
A estória ...
Segundo o lente Bukhari, os companheiros do Profeta relataram que, certa altura, o Arcanjo Gabriel apareceu a Maomé, que na época tinha 50 anos, e revelou-lhe desnudada uma menina de 6 (seis) anos, chamada Aisha. O Profeta já tinha várias esposas (à data da morte tinha 9, segundo as escrituras), e a sua libido, talvez por isso, estava exaurida. Talvez por isso, ou apesar disso, ninguém chegará a saber, nem mesmo o lente Bukhari.
Três anos depois, o Profeta desposou a pequena Aisha, então com 9 anos. Logo após as núpcias, a falecida libido do Profeta ressuscitou e retomou o ímpeto dos 40 anos, sempre segundo as fontes citadas pelo lente Bukhari. E desta maneira Aisha arrumou a concorrência e tornou-se a favorita do Profeta, que dizem as crónicas preferia "comer os frutos de árvores intocadas".
... e a moral ...
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.
Esclarecimento:
Para que O Impertinente não tenha que se esbofetear a si próprio, como disse que faria a Dr.ª. Clara Pinto Correia, depois de reconhecer que plagiou o New Yorker, esclareço que esta estória já foi contada recentemente pelo Economist e já tinha sido contada séculos antes por Bukhari, um lente do islamismo "considerado o mais autêntico dos primeiros compiladores dos pensamentos do Profeta".

25/09/2003

Estórias e morais – Eça, Darwin & McKensey

A estória ...
À lista dos queirozianos pós-modernos acrescentaram-se recentemente as luminárias do McKensey Global Institute, apoiadas por várias outras, incluindo o nobel Robert Solow e o nosso Sérgio Rebelo. Concluem as sumidades, após aturados estudos, aquilo que já sabemos, mas não temos coragem de aceitar: somos pouco produtivos porque nos falta quase tudo o que é necessário para produzir e nos sobeja quase tudo o que só serve para fazer de conta.
À medida em que o estudo vai sendo tornado público, e transformado em trivialidades para o consumo das diferentes audiências, que vão desde os sindicatos até às associações empresariais, sem esquecer o governo e o zé povinho, vamos assistir à sua transformação numa arma de arremesso.
Os sindicatos hão-de (ou hádem, como diria o Dr. Coelho, o saudoso maquinista do PS) concluir que afinal os nossos trabalhadores são tão bons como os melhores, pelo que devemos já começar a tratar dum novo Código do Trabalho verdadeiramente constitucional.
As associações empresariais hão-de proclamar que os nossos empresários só precisam é de mais apoios do governo e o governo há-de dizer que nós, portugueses, somos do melhor que há, só que a oposição não deixou desabrochar os óbvios atributos empreendedores e produtivos dos patrícios, coisa a que a oposição responderá que o governo nos deprime.
Como chegámos aqui? A génese da coisa está toda explicada no Darwin.
Primeiro, os melhores exemplares da espécie começaram por ser torrados desde os finais do século XV na fornalha das descobertas e da colonização e, mais recentemente, gerações inteiras de menos acomodados que queriam fazer pela vida, lá foram durante décadas servir de pasto à caldeira da economia europeia.
Segundo, porque os exemplares que ficaram nos Galápagos lusitanos habituaram-se a parasitar outras espécies.
Terceiro, porque a casta dominante, ajudada pela placidez bovina da manada, cercou a lusa ilha com uma mar de estupidez, ignorância, paroquialismo e mediocridade. Assim segregou e decantou a maternal cultura do desgraçadinho, o ódio à concorrência, obsessão pelos direitos adquiridos, e todo restante software mental capaz de arrasar o hardware mais dotado.
O que fazer? Também está no Darwin. Liquidar o conservacionismo dos direitos adquiridos e aceitar que a selecção natural deva escolher os mais dotados, quer na variedade "trabalhadores», quer na dos «empresários», dos «governamentários», etc. (um longo etc.).
É obra, carago! Seria uma trapalhada plena de conflitualidade (Vade retro).
... e a moral é ...
«O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós» (Jean-Paul Sartre num dos poucos momentos de clarividência que teve, et voilà).

24/09/2003

Convergência real, chulé e poias, seguidas duma visão órfica e trágica do amor

Trabalho de campo
3ª Feira passada, 8:30. Tudo começou com o ar de cidade fantasma que a essa hora o centro de Lisboa tem, surpreendente aos olhos dum dos dois alemães que os acasos da vida profissional juntaram nessa manhã ao Impertinente. A essa hora as cidades europeias fervilham com a agitação de cidadãos a fazerem pela vida.
O cheiro a chulé que brotava dos pés do motorista de táxi, surpreendeu até o segundo alemão, já numa fase avançada de aculturação aos nossos originais costumes.
O destino era uma daquelas avenidas com um misto de residência das classes A e B, comércio de bairro e empresas de serviços. Os últimos metros foram percorridos aos saltinhos por cima dos buracos deixados por obras intermináveis, e por entre os carros estacionados em cima dos passeios, evitando o campo minado das prodigiosas quantidades de poias semeadas por cães de todos os tamanhos.
O meu embaraço só era comparável ao olhar irónico do alemão aculturado e à ostensiva repulsa do outro.
Nova entrada para os Dicionários do Ês: Convergência real.
Mas o Impertinente não se ocupa só de trivialidades materiais, também trata das coisas do espírito. Aqui vai uma antiga entrada para a secção Locuções do Dicionário do ês (dialecto Critiquês):
Tensão entre a visão órfica e trágica do amor
O mesmo que "não há cenas de sexo entre a gueixa e o shogun no jardim", como em «O filme organiza-se em torno da tensão entre a visão órfica e trágica do amor, que a clivagem do social intensifica e os acordos harmónicos com que a natureza prodigaliza o que lhe é inerente», escrito pelo crítico do Expresso António Cabrita, há dois meses, a propósito do filme Dolls de Takeshi Kitano, que lhe daria um tiro entre os olhos se lesse tal coisa a propósito dum dos seus filmes.

23/09/2003

Estórias e morais: A estória da História

A estória ...
O meu assolapado amor pelos dicionários, levou-me a comprar há algum tempo o Dictionary of World History, uma edição ao preço da chuva da Oxford University Press, comprada com um gordo desconto na Amazon UK. Aqui fica a singela homenagem à globalização.
Enquanto a família se comovia a ver na TV os esforçados bombeiros suando atrás dos fogos, as lágrimas escorrendo para o buço das Tis Zulmiras e as conferências de imprensa do zumbi que faz as vezes de MAI, eu escavava as 700 páginas do dicionário à procura dos nossos notáveis e luminárias de estado.
Eis aqui o compte rendu, como diria o Dr. Eduardo Prado Coelho, se não estivesse ocupado com o seu orgasmo vertical.
Entre aproximadamente 7.000 nomes de luminárias, que segundo a OUP tiveram alguma importância para encrencar a vida dos povos, encontramos os seguintes patrícios (por ordem de fracções de coluna):
Uma coluna, por junto, para os Dons Joões I, o Grande, II, o Perfeito, III, o Piedoso, IV, o Afortunado, V, o das Mobílias, VI, o Fujão
Infante Dom Henrique, o Navegador (1/4)
Bartolomeu Dias, o da Boa Esperança
Marquês de Pombal, o Reconstrutor (1/4)
Afonso de Albuquerque (1/6), o Vice-Rei
Dom Pedro IV (ou I do Brasil) (1/5), o Traidor
Dona Catarina de Bragança, a Consorte de Carlos II de Inglaterra (1/6)
António Salazar, o Botas (1/6)
Marcelo Caetano, o Pusilânime (1/10)
Com uma singela referência na entrada Portugal, que ocupa umas míseras 2,8 colunas, encontrei ainda (por ordem de chegada à ribalta):
Dom Afonso Henriques, o Fundador
Doutor Dom Mário Soares, o Bochechas
General Eanes, o Emproado
Doutor Aníbal Cavaco, o Tabú
Doutor Jorge Sampaio, o Confuso ou Contornável
Engenheiro António Guterres, o Desaparecido;
e, para terminar, uma incontornável referência na entrada Alcácer Quibir:
Dom Sebastião, o Desejado
... e a moral é …
A História, não tem moral.

22/09/2003

Case study: É precisa imensa saúde para aguentar tanta doença

Há uns meses, O Impertinente escreveu numa Estória e Moral que, segundo as estimativas do ministro Bagão Félix, todos os dias faltam em média 7,6% dos "activos", isto é cerca de 410.000 songamongas estão desenfiados, a tratar das suas maleitas, reais ou imaginárias. Dito de outra maneira, cada "trabalhador" está doente, em média, 18 dias úteis ou 3 semanas e meia por ano. As estimativas do ministro, se pecarem, não é por excesso, porque foram baseadas em inquéritos no sector privado e é de supor que os funcionários públicos não faltam menos.
Nessa altura, era para O Impertinente um mistério a causa de tanta doença. Já não é.
O prof. Michael Rose da Bath University, citado no dia 3 de Setembro por Matthew Lynn da Bloomberg, chegou a duas importantes conclusões sobre os workalcoholics, baseadas num seu estudo dos trabalhadores britânicos.
Se a primeira conclusão é digna de Monsieur de La Palice - os trabalhadores compulsivos ganham mais dinheiro, a segunda é um pouco menos óbvia - os workalcoholics, além de ganharem mais dinheiro, são mais felizes e, pasme-se, mais saudáveis. Ao contrário, os songamongas calaceiros são mais infelizes, mais doentes e, claro, roiem-se de inveja do dinheiro ganho pelos workalcoholics.
Assim se percebe que somos mais atreitos à maleita porque os workalcoholics lusitanos são uma espécie mais rara do que o lince da Serra da Malcata. E assim se explica o défice crescente do SNS.

21/09/2003

Declarações de princípio

O princípio foi em Abril de 2001 quando O Impertinente começou a enviar umas Crónicas de escárnio e maldizer a alguns dos seus amigos, amargurado, desculpou-se ele, com a dissolução do país pelos sucos gástricos do Engenheiro das Correntes Frouxas.
As crónicas ainda resistiram à fuga do Engenheiro, do pântano para o limbo presidencial, depois da hecatombe autárquica de Dezembro de 2001.
Resistiram até Fevereiro deste ano. Sucederam-lhes umas Estórias e Morais, que se interromperam em Agosto.
E porquê? E porquê em Agosto? E logo no dia 21?
Na véspera ouve dois atentados, e, nesse dia fatídico para as Estórias, O Impertinente escreveu num Early Morning Email (assim seria baptizado pelo Abrupto, se o Abrupto enviasse emails destes aos amigos e, um grande se, se o Abrupto tivesse amigos):
"quando o camião-bomba matou Sérgio Vieira de Mello e mais 20 pessoas que trabalhavam para a ONU, os olhos da esquerdalhada encheram-se de lágrimas de crocodilo. Ainda as lágrimas não tinham secado, e já os seus olhinhos rebolavam de gozo quando foi conhecido o atentado que fez 20 mortos judeus".
Aconteceu que este email foi muito mal recebido por alguns amigos d'O Impertinente que pediram para não receber mais ofensas por esta via. Tinham eles toda a razão, porque estavam a ser vítimas dum spam terrorista e impertinente.
Aconteceu também, na semana seguinte, o Dr. Saraiva (o “lesma”, como lhe chamou por despeito o Dr. Power Rangel) usar no seu editorial do Expresso o título “lágrimas de crocodilo” a propósito da mesma reacção da esquerdalhada, fazendo-me questionar se não seríamos almas gémeas, dúvida que ainda hoje me deixa um pouco apreensivo.
Talvez por isso, fez-se um clique na mente d'O Impertinente, que já fazia blogues sem se dar conta, como aquele gajo francês que fazia poesia sem o saber. Seriam blogues avant la lettre, como diria o Dr. Eduardo Prado Coelho, ao remexer a sua colecção de lingerie no seu apartamento parisiense, preparando o orgasmo vertical?
Se já os fazia, porque não publicá-los?