Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

04/06/2022

DIÁRIO DE BORDO: Tiananmen, 3 de Junho de 1989

Na história do Portugal dos Pequeninos, o século XXI não é assim tão diferente do XIX (7)

Continuação de (1), (2), (3), (4), (5) e (6)

Lendo «O Fundo da Gaveta» de Vasco Pulido Valente, dei comigo a pensar que, mudando a época, as modas e os protagonistas, o Portugal do século XIX me faz lembrar o Portugal da III República. Nos posts desta série cito algumas passagens que mais intensamente evocam essa ideia.

As reformas e os interesses

As reformas de Viseu e Sá foram mal recebidas até pelo seu campo. Os funcionários ameaçados ou prejudicados, especialmente os engenheiros, reuniram-se, associaram- se, protestaram. A opinião progressista mudou pouco a pouco de tom. Deixou de clamar, em abstracto, contra o simples excesso de funcionários e dirigiu as suas imprecações unicamente às prebendas, sinecuras e acumulações. Depressa acusava o Governo do mesmo erro de Ávila, o de «não distribuir igualmente os sacrifícios», esquecendo os «poderosos» e trazendo «lágrimas» aos «humildes». Em Setembro, já declarava, sem disfarce, que não existia excesso de funcionários, enquanto o Estado central se não libertasse das suas «vastíssimas» e «complicadas» funções. No ministério do Reino, por exemplo, quatro escreventes ocupavam-se a conceder licenças para «touradas, exposições de cabeças falantes e mulheres gordas ou magras»; como dispensá-los? Daqui se seguia que os esforços de Viseu e de Sá poupariam, na melhor das hipóteses, algumas dezenas ou centenas de contos, mas não desatariam o «nó», que «apertava» o país. Isto punha uma descentralização mítica como condição prévia a qualquer reforma da burocracia do Estado e, como se admitia, acessoriamente, que um Estado descentralizado não seria por força mais barato, negava os fundamentos do programa radical.

De volta ao défice, como sempre…

Na prática, esse programa já falhara. Em Outubro, o Governo encontrava-se perante as soluções tradicionais para financiar o défice e satisfazer os encargos da dívida: contrair mais um empréstimo; subir os impostos; aumentar a circulação fiduciária.

(…)

… e ao aumento dos impostos

A Câmara dos Deputados aprovou a Loulé parte dos aumentos de impostos que recusara a Samodães, incluindo o de 20% da contribuição predial. Votou igualmente uma nova lei de desamortização e o acordo final com a companhia de Caminhos de Ferro de Sul e Sueste, para fortalecer o crédito externo. Como de costume, os ministros anunciaram dezenas de reformas dos serviços, destinadas a diminuir a despesa do Estado.

[Do capítulo Ressurreição e morte do radicalismo (1864-1870)]

(Termina aqui esta série)

03/06/2022

Private schools have become truly obscene. Don't just count on them to fix the broken social elevator

«Parents at elite private schools sometimes grumble about taking nothing from public schools yet having to support them via their tax dollars. But the reverse proposition is a more compelling argument. Why should public-school parents—why should anyone—be expected to support private schools? Exeter has 1,100 students and a $1.3 billion endowment. Andover, which has 1,150 students, is on track to take in $400 million in its current capital campaign. And all of this cash, glorious cash, comes pouring into the countinghouse 100 percent tax-free.

These schools surround kids who have every possible advantage with a literal embarrassment of riches—and then their graduates hoover up spots in the best colleges. Less than 2 percent of the nation’s students attend so-called independent schools. But 24 percent of Yale’s class of 2024 attended an independent school. At Princeton, that figure is 25 percent. At Brown and Dartmouth, it is higher still: 29 percent.

The numbers are even more astonishing when you consider that they’re not distributed evenly across the country’s more than 1,600 independent schools but are concentrated in the most exclusive ones—and these are our focus here. In the past five years, Dalton has sent about a third of its graduates to the Ivy League. Ditto the Spence School. Harvard-Westlake, in Los Angeles, sent 45 kids to Harvard alone. Noble and Greenough School, in Massachusetts, did even better: 50 kids went on to Harvard.

However unintentionally, these schools pass on the values of our ruling class—chiefly, that a certain cutthroat approach to life is rewarded. True, they salve their consciences with generous financial aid. Like Lord and Lady Bountiful, the administrators page through the applications of the nonwealthy, deciding whom to favor with an opportunity to slip through the golden doors and have their life change forever.

But what makes these schools truly ludicrous is their recent insistence that they are engines of equity and even “inclusivity.” A $50,000-a-year school can’t be anything but a very expensive consumer product for the rich. If these schools really care about equity, all they need to do is get a chain and a padlock and close up shop.
»

Excerto de The Atlantic

02/06/2022

DIÁRIO DE BORDO: Coragem? A mim parece mais cobardia

Depois de muita escavação pelos áctivistas do costume, foi descoberto que o juiz António Almeida Costa em tempos se manifestou contra a legalização do aborto (com argumentos meio estúpidos, mas isso para o caso interessa pouco) e, mais recentemente, defendeu a punição dos jornalistas por violações do segredo de justiça.

Antes de continuar, devo esclarecer que, quanto ao aborto, não tenho nenhuma tese prêt-a-porter (ver a série já antiga de posts «a maiêutica do aborto») e quanto à punição dos jornalistas sou a favor do ostracismo pela opinião pública dos jornalistas de causas, especialmente no caso de causas próprias.

Quanto ao fundo da questão, isto é, quanto ao juiz António Almeida Costa deve ser ou não cooptado pelos outros juízos para integrar o Tribunal Constitucional, não tenho opinião sobre se as opiniões dele nas matérias em causa são relevantes para a decisão, sendo certo que a opinião dos juízes do TC foi de não o cooptar por razões que a maioria não revelou.

Em contrapartida tenho, uma opinião muito clara sobre a consideração que Associação Portuguesa de Mulheres Juristas fez da «corajosa posição assumida pela maioria dos/as Juízes e Juízas». Para mim a posição d@s juíz@s não só não é necessariamente corajosa, se se limitaram a sucumbir à chantagem áctivista, e é até, provavelmente, cobarde se o fizeram. 

Corajosa é, pelo contrário, a posição do juiz António Almeida Costa por se atrever a ter, a manter e a assumir opiniões certamente condenadas pela matilha áctivista e pelas classes palradoras e provavelmente impopulares.

01/06/2022

Novo Império do Meio, um gigante com pés de barro (4) - A engenharia social não costuma dar bons resultados, também na pandemia

Continuação de (1), (2) e (3)

Confinamento repressivo à força bruta numa Xangai com 25 milhões de habitantes há quase dois meses, com protestos populares impossíveis de esconder mesmo numa sociedade controlada pelos bonzos do PCC, uma situação semelhante em Pequim onde entrando não se pode sair e no total mais 200 milhões de chineses sujeitos a restrições mostraram o falhanço do supremo líder Xi Jinping como «comandante em chefe da guerra popular».

Uma estratégia errada ("Covid zero") para combater uma variante da Covid (Omicron) muito mais contagiosa e muito menos agressiva aprovada pela comissão permanente do Politburo que considerou que o aligeiramento das medidas que em todo o mundo foi adoptado levaria a um grande número de casos graves e de mortos. 

É claro que isso reflecte o receio de que a rede decrépita e insuficiente de hospitais chinesa soçobre perante o aumento dos internamentos (onde é que já vimos o mesmo?). É também a consciência do mau estado geral de saúde dos idosos e a consciência de que há mais de 100 milhões de idosos não vacinados.  E porquê? Porque, em vez usar os recursos disponíveis prioritariamente na vacinação, eles foram usados para fazer obsessivamente testes e também porque não foram usadas vacinas mais eficazes mRNA porque as disponíveis são fabricadas pelo decadente Ocidente. (fonte)

Nada disto é admitido porque o supremo líder camarada presidente Xi é infalível, sobretudo agora que se aproxima a sua nomeação para um terceiro mandato como chefe do PCC.

31/05/2022

PUBLIC SERVICE: On Tyranny (12)

On Tyranny, Timothy Snyder

Tentando compreender o racional da clique putinesca ao decidir invadir a Ucrânia (4) - Eliminar um exemplo para os súbditos do império russo

Continuação (1), (2) e (3).

«A Ucrânia entrou em guerra em boa forma, com sua economia crescendo a um ritmo anualizado trimestral de quase 7%; preços altos para suas exportações de grãos, ferro e aço; uma indústria bancária bem regulamentada e um déficit governamental inferior a 3% do PIB no ano passado. A dívida era de pouco menos de 50% do PIB, um número que muitos ministros das finanças só podem sonhar. Um sistema de impostos e benefícios impressionantemente digitalizado significa que as receitas ainda estão a chegar das partes da economia que ainda estão funcionando. Pensões e salários do governo ainda estão sendo pagos, mesmo em áreas que agora estão sob ocupação russa, graças a sistemas digitais resilientes e uma internet surpreendentemente ilesa. A maioria das empresas, por enquanto, ainda está a pagar aos seus funcionários, mesmo que não possam operar normalmente, ou mesmo estejam paralisadas. Surpreendentemente, os impostos sobre os salários caíram apenas 1%.

Mas não é fácil. O Banco Mundial previu que o PIB da Ucrânia encolherá talvez 45% em 2022.  (O ministro das Finanças Serhiy Marchenko estima 44%). E ambas as estimativas são, é claro, extremamente incertas. As receitas alfandegárias, uma parte significativa da arrecadação de impostos do governo, caíram para cerca de um quarto do seu nível pré-guerra graças às importações mais baixas e à suspensão de muitos direitos. Os salários militares são outro grande fardo. Tudo isso soma uma lacuna de financiamento de cerca de US $ 5 bilhões por mês, diz ele. Isso é cerca de 5% do PIB esgotado da Ucrânia para cada mês que a guerra continua. (...)

Isso não é sustentável, admite o ministro Marchenko, que teme que, se a guerra durar mais do que mais três ou quatro meses, medidas dolorosas sejam necessárias, envolvendo enormes aumentos de impostos e cortes de gastos. O receio real é que o que se tornou nos últimos anos uma economia bastante orientada para mercado, pode ver uma onda de nacionalizações, desfazendo anos de progresso severo.»

It will be hard for Ukraine’s economy to sustain a long war (excerto)

30/05/2022

Semanário de Bordo da Nau Catrineta comandada pelo Dr. Costa no caminho para o socialismo (16)

Continuação das Crónicas: «da anunciada avaria irreparável da geringonça», «da avaria que a geringonça está a infligir ao País» e «da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa». Outras edições do Semanário de Bordo.

O Estado sucial como máquina de extorsão

Para quem imagina que o país se afunda nos rankings, ficará desapontado ao confrontar-se com o dos impostos nos custos de trabalho para as empresas. No Portugal dos Pequeninos o Estado captura em média 41,8% do que um trabalhador custa a uma empresa, o que nos coloca no 10.º lugar nos 36 países da OCDE (Taxing Wages 2022, OCDE). Dito de outro modo, um trabalhador só recebe em média 72% do salário bruto que o empregador paga. Como se fosse pouco, até a CE considera que a retenção de IRS na fonte é demasiado elevada (Commission Staff Working Document).

E se já somos dos melhores entre os melhores em matéria fiscal, o governo não dorme em cima dos louros e a receita fiscal líquida do Estado aumentou 18% até Abril.

Então não estamos a crescer mais do que a Óropa?

Nas últimas semanas foi muito propagandeado o crescimento previsto pela CE para este ano que é o mais elevado da Óropa, graças ao crescimento nos dois anos anteriores ter sido dos mais baixos.

A fogachada está a acabar porque, segundo as previsões da mesma CE, no próximo ano a coisa esvazia-se e até o Expresso titula na 1.ª página do Caderno de Economia «PIB português regressa à cauda do pelotão a partir de 2023». Se compararmos com os países do nosso campeonato, o crescimento português entre 2019 e 2023 será o mais baixo de todos, com excepção da Chéquia.

Inventando a sua própria oposição

Insatisfeito com a inexistência de oposição por parte do Dr. Rio, que durante o seu mandato agora terminado tentou oferecer-se um parceiro do Dr. Costa, e com os ex-aliados agora na oposição, o Dr. Costa inventou a oposição do Livre e, como escreveu Helena Matos, «prestou-se a uma farsa na discussão deste Orçamento do Estado: impavidamente os socialistas aprovaram medidas que já existiam – caso do conforto térmico e do IVA dos produtos de higiene menstrual – deixando que Rui Tavares as apresentasse como pioneiras e suas.» E foi assim que na pletora de 1.500 propostas de alteração do OE, o PCP bateu o recorde com 353 e o Livre com as suas 84 propostas teve o maior rácio de aprovação, logo a seguir aos incumbentes.

Take Another Plan

A TAP informou que no primeiro trimestre o prejuízo foi SÓ de 121 milhões ou um quarto das receitas operacionais (491 milhões), o que é verdadeiramente notável. Outra boa notícia é que a manterem-se os prejuízos e a serem necessárias injecções de capital a TAP terá de ficar no perímetro orçamental agravando o défice a dívida pública e o impacto nas contas públicas, que foi APENAS 1,2 mil milhões em 2020 e 641 milhões em 2021, será muito maior.

29/05/2022

TIROU-ME AS PALAVRAS DE BOCA: As classes palradoras do Portugal dos Pequeninos desconstroem o atraso

«Com a viragem do milénio quis a providência que as sementes do pós-modernismo, semeadas em Paris a partir dos anos 70 do século anterior, germinassem, com o surpreendente propósito de abolir a realidade e instituir o império das narrativas. Escusado será dizer que a novidade, importada via universidades americanas, encontrou entre nós o ecossistema ideal, pois não há povo mais farto da realidade que os portugueses, por muito boas razões.

Num país em que a falta de produtividade é relativamente compensada pelo pleno emprego e por vidas sacrificadas ao trabalho, as classes palradoras, acolitadas pelas universidades e departamentos de ciências sociais, descobriram, renovada, a nossa inclinação ancestral e vivem num mundo de narrativas e representações, como eles dizem, agora com o respaldo das civilizações superiores. Antigamente, a investigação era uma atividade de resultado relativamente incerto, que supunha integridade e abertura ao desconhecido; agora, consiste numa violentação da realidade para dela extrair a murro a comprovação dos preconceitos da narrativa. Se fulano, sobrevivência da modernidade, falar em atraso, beltrano, flor da pós-modernidade, pergunta: o que é “atraso”? Para quê vencer o atraso se podemos desconstruir o atraso?»

Sérgio Sousa Pinto, excerto de Os assassinos de planetas

A história do Portugal dos Pequeninos, o século XXI não é assim tão diferente do XIX (6)

 Continuação de (1), (2), (3), (4) e (5)

Lendo «O Fundo da Gaveta» de Vasco Pulido Valente, dei comigo a pensar que, mudando a época, as modas e os protagonistas, o Portugal do século XIX me faz lembrar o Portugal da III República. Nos posts desta série cito algumas passagens que mais intensamente evocam essa ideia. 

Uma espécie de PREC avant la lettre

Com outra seriedade, e porque a história do regime encorajava todas as ilusões, passou-se ao aliciamento de militares. Penicheiros notórios esforçaram-se por «seduzir os chefes dos corpos de guarnição», «iludir» os sargentos e «insubordinar a Guarda Municipal. Distribuíram-se até folhetos pelas ruas incitando a Guarda a revolta.

(…)

Afastado o desenvolvimento, ficava o funcionalismo que a regeneração, os históricos e a fusão tinham usado para empregar a classe média e, ligando-a ao statu quo, demovê-la de aventuras revolucionárias. Só que o funcionalismo era o alvo por excelência das principais reformas a que estavam comprometidos os radicais: a simplificação dos serviços, a luta contra a corrupção, a descentralização.

[Do capítulo Ressurreição e morte do radicalismo (1864-1870)]

(Continua)

28/05/2022

PUBLIC SERVICE: On Tyranny (11)

On Tyranny, Timothy Snyder

 In short don't be a troll.

27/05/2022

O que faz a democracia são as instituições

O Cabinet Office é uma espécie de secretariado do governo do Reino Unido que apoia o primeiro-ministro e os ministros. Tem vários departamentos e cerca de 8.000 funcionários, na maioria funcionários públicos (civil servants).

Um desses funcionários é Sue Gray que é a Second Permanent Secretary to Cabinet Office e nessa qualidade foi encarregada de dirigir o inquérito ao "partygate", as festas na residência oficial do primeiro-ministro em Downing Street em que foram alegadamente violadas as regras do confinamento.

Foi publicado há dias o relatório final de 37 páginas com fotos dos eventos investigados. A conclusão principal foi:
«Qualquer que seja a intenção inicial, o que aconteceu em muitas dessas reuniões e a maneira como elas se desenvolveram não estava de acordo com as orientações da Covid na época. Mesmo levando em conta as pressões extraordinárias que os funcionários e assessores sofreram, as constatações factuais deste relatório ilustram algumas atitudes e comportamentos inconsistentes com essa orientação. Também fica claro, a partir do resultado da investigação policial, que um grande número de indivíduos (83) que participaram desses eventos violou os regulamentos da Covid e, portanto, as orientações da Covid.»
O relatório sublinha ainda que «a liderança sénior no centro, tanto política quanto oficial, deve assumir a responsabilidade por essa cultura» (de acreditar que estavam dispensados de cumprir as regras).

Transportemos estes acontecimentos para o Portugal dos Pequeninos com o Dr. Costa e os seus boys a organizarem parties em S. Bento durante a parte mais feroz do confinamento. Caro leitor, consegue imaginar ter lugar um inquérito? Em particular, consegue imaginar um funcionário público a dirigir o inquérito? E, já agora, consegue imaginar um inquérito dirigido por um funcionário público chegar a estas conclusões que podem levar à queda do primeiro-ministro? 

Não consegue? Eu também não. É a diferença entre uma democracia plena e uma democracia avariada. 

[Apesar de um relatório como este ser impensável entre nós, para os melhores padrões jornalísticos britânicos pelos vistos deveria ser mais rigoroso e independente - leia-se, por exemplo, Sue Gray produces a patchy account of the Downing Street parties - o que nos leva a confirmar, se houvesse dúvidas, que uma imprensa profissional e independente é uma peça essencial da democracia.]  

26/05/2022

Mitos (319) - Nacionalismo só com um corno

Unicórnios na newspeak são as startups tecnológicas, não cotadas em bolsa, avaliadas em mais de mil milhões de dólares. De acordo com a Complete List Of Unicorn Companies da CBInsights há no total mais de 1.000. Apesar da obsessão dos mídias domésticos com os unicórnios portugueses, em boa verdade, eles são mais raros do que o lince da Serra da Malcata e ainda assim os poucos que se podem encontrar só se podem considerar portugueses se o critério for a nacionalidade de algum dos fundadores.

Can Silicon Valley still dominate global innovation?

Como se pode ver nos diagramas acima, nenhuma cidade portuguesa está no mapa-mundo dos unicórnios. De facto, dos sete unicórnios portugueses recenseados pela AICEP (Farfetch, OutSystems, Talkdesk, Feedzai, Remote, SWORD Health, Anchorage Digital), um já não é classificado como tal (Farfetch que já está cotada) e os outros seis estão sedeados em cidades americanas: Boston, São Francisco (3), São Mateo e Nova Iorque.

O que a AICEP escreveu «Portugal já tem mais unicórnios que Espanha, Grécia e Itália juntos», não faz sentido porque Portugal não tem unicórnio nenhum e os nacionais dos países citados, tal como os portugueses, têm mais unicórnios do que os sedeados nesses países. É o nacionalismo ridiculamente saloio do costume muito cultivado entre nós, a começar por S. Ex..ª, o papagaio-mor do reino, e a acabar no político ou no jornalista mais incógnito.

25/05/2022

TIROU-ME AS PALAVRAS DE BOCA: Vê-se melhor à distância

«Se há coisa que a pandemia nos ensinou é que a economia portuguesa é um bocado lenta a reagir e que as autoridades portuguesas têm uma tendência para achar que Portugal é excepcional quando os choques externos demoram a se revelar. A invasão da Rússia mudou estruturalmente a Europa e, consequentemente, Portugal. Os efeitos ainda não estão solidificados, mas dão para se vislumbrar. 

(...)

Qual o papel de Portugal no meio disto? Até aqui, Portugal tem usado o investimento da UE para alimentar a corrupção e a extração de rendas; o mesmo se pode dizer das relações diplomáticas portuguesas. Por exemplo, no contexto actual, se Portugal tivesse usado melhor os investimentos em energias renováveis, estaria em melhor situação para fazer face aos efeitos da invasão. Outro exemplo, se as relações diplomáticas com Angola servissem os interesses de Portugal e da UE, também poderiam ser benéficas na gestão do défice energético da UE.

Viver do turismo, financiamento a taxas de juro negativas, e transferências da UE são estratégias inconsistentes com a situação mundial actual. Ou Portugal muda, ou os portugueses mudam: o aumento da emigração é quase certo. Ou talvez emigrar seja mesmo o fado de Portugal e, nesse caso, não há mesmo mudança estrutural.» 

Rita R. Carreira a olhar desde Memphis para o Portugal dos Pequeninos, governado por gente pequenina com mentes pequeninas, que encontrou uma solução para se perpetuar no poder

24/05/2022

Dúvidas (336) - Quem sabe faz. E quem não sabe, faz o quê? Ensina?

Uma espécie de continuação da dúvida: Como explicar que um país geralmente mal gerido por gestores medíocres ou maus tenha um ensino de gestão de qualidade?

Sendo certo que a Suíça (4,5 milhões) e a Noruega (5,5 milhões) têm também quatro escolas no top 50 e a Espanha tem cinco, não deixa de ser um feito notável para um país periférico com elites merdosas.

23/05/2022

Semanário de Bordo da Nau Catrineta comandada pelo Dr. Costa no caminho para o socialismo (15)

Continuação das Crónicas: «da anunciada avaria irreparável da geringonça», «da avaria que a geringonça está a infligir ao País» e «da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa». Outras edições do Semanário de Bordo.

Cuidando da freguesia eleitoral

O governo do Dr. Costa voltou a aumentar a freguesia eleitoral do PS no 1.º trimestre para 741,3 mil funcionários públicos, mais 7,4 mil do que no final do ano passado e mais 15,8 mil do que no 1.º trimestre de 2021. Recorde-se que o governo de Passos Coelhos reduziu 68,7 mil funcionários públicos de 727,8 para 659,1 mil e o governo do Dr. Costa, que começou por declarar praticar a regra "saem dois entra um" substituída depois por sai "um entra um", tem praticado a regra de "sai um e entram n", e adicionou 82,2 mil aos 659,1 mil que recebeu, atingindo 741,3 mil na última contagem. E, no entanto, não há nenhum departamento do Estado sucial que não se queixe de “falta de recursos”.

Boa Nova

O Dr. Costa anunciou que a CE previu um crescimento da economia portuguesa em 2022 que é o mais alto da UE. O Dr. Costa esqueceu-se de referir que esse crescimento miraculoso se deve essencialmente a duas coisas: (1) O PIB português caiu 8,4% em 2020 e só este ano atingirá o valor nominal de 2019; (2) ainda assim, esse crescimento é essencialmente explicado pela recuperação do turismo que se deve mais à Nossa Senhora de Fátima do que ao governo.

Choque da realidade com a Boa Nova

Para tentar manter o PCP a bordo da geringonça, o Dr. Costa anunciou durante a discussão do OE 2022 que as creches seriam gratuitas. Passados alguns meses, ficaram de fora as crianças das creches sem acordos de cooperação e ninguém sabe ainda como vai ser.

Anunciada com pompa a circunstância a participação portuguesa no reforço da presença militar da NATO nos países de Leste, além da dimensão ridícula (367 militares) falta equipamento aos fuzileiros que não terão veículos blindados, que um dia serão comprados prometeu o vice-almirante das vacinas.

«Empresa Financeiramente Apoiada Continuamente (pelo) Estado Central»

Desde que há dois anos o governo do Dr. Costa aprovou a nacionalização de 71,73% do capital social da EFACEC todos os meses é anunciada na imprensa amiga a sua venda. Entretanto, a Parpública continua a derramar dinheiro, os quadros de topo a saírem e o endividamento da empresa a aumentar. Quantas vezes já ouvimos esta estória?

Com a morte da geringonça chega o fim da “paz social”

Este ano até Abril, os pré-avisos de greve aumentaram 85% para 270. Quarta-feira foi a greve do Metro de Lisboa, muitas outras se seguirão.

PUBLIC SERVICE: On Tyranny (10)

On Tyranny, Timothy Snyder

I would also add reject the lies some call alternative facts and turn down conspiracy theories.

22/05/2022

A única função das previsões meteorológicas é tornar respeitável a astrologia, teria dito Galbraith se ainda fosse vivo

«Temperaturas iguais ou superiores a 35 ºC, nalguns casos perto dos 40 ºC, noites quase tropicais, poeiras em suspensão…»


Os meteorologistas em disputa com os economistas da Mouse School of Economics. 

ARTIGO DEFUNTO: Da admiração pelo tirano e a simpatia pelas suas causas à co-fundação de um clube liberal (uma espécie de “NATO do pensamento”) em apenas cinco semanas, seguido dois meses depois de uma epifania

Apesar do Dr. Miguel Sousa Tavares (MST), também conhecido como tudólogo, depois do delírio que aqui comentei, ter continuado a delirar na sua coluna do Expresso sobre a invasão da Ucrânia pelos exércitos putinescos, decidi não fazer novos comentários por ter concluído que a criatura caiu no buraco negro da sua imensa vaidade e continuou a escrever disparates desmentidos pelos factos, supõe-se com o único propósito de evitar retratar-se dos que já tinha escrito (desconsidero a hipótese do Dr. Tavares ser um mero troll aliciado pelo Федера́льная слу́жба безопа́сности Росси́йской Федера́ции).

Abro uma excepção para comentar a sua explicação (uma epifania?) para o pedido de adesão à NATO da Finlândia e da Suécia que ultrapassa tudo quanto se poderia imaginar sair daquela cabeça. Segundo o Dr. Tavares, «o que levou os políticos da Finlândia e Suécia a pedirem a adesão à NATO não foi a invasão da Ucrânia pela Rússia e o medo de verem isso replicado nas suas fronteiras, mas sim o falhanço da invasão da Ucrânia pela Rússia. Se essa invasão tem sido um sucesso militar para Moscovo, como era de prever, nem a Finlândia nem a Suécia se teriam movido da sua zona de conforto, de neutralidade, onde viveram pacificamente desde o pós-guerra.»

Dito por outras palavras, os governos da Finlândia e Suécia não pediriam a adesão se vissem a Rússia de Putin como uma potência agressiva, poderosa e bem-sucedida que tivesse esmagado e anexado a Ucrânia. Nesse caso não se sentiriam ameaçados. Pelo contrário, como verificaram que a Rússia é um urso de papel, uma autocracia corrupta com um exército incompetente, vieram a correr pôr-se debaixo da asa da NATO. Haja deus! Até para o Dr. Tavares é excessivo.  

Não só é absurdo, como os factos o desmentem. Pelo menos desde Janeiro, um mês antes da invasão russa e face aos visíveis preparativos, os governos da Finlândia e Suécia já ponderavam seriamente o pedido de adesão - leia-se o artigo Ukraine crisis revives Nato debate in Finland and Sweden do FT.

Quanto à sua explicação para o alastramento da NATO se dever ao propósito de cercar a Rússia, remeto para a cronologia das agressões russas e do alargamento da NATO, que suporta a causalidade inversa.

21/05/2022

A história do Portugal dos Pequeninos, o século XXI não é assim tão diferente do XIX (5)

 Continuação de (1), (2), (3) e (4)

Lendo «O Fundo da Gaveta» de Vasco Pulido Valente, dei comigo a pensar que, mudando a época, as modas e os protagonistas, o Portugal do século XIX me faz lembrar o Portugal da III República. Nos posts desta série cito algumas passagens que mais intensamente evocam essa ideia.

Os interesses, sempre os interesses

O Estado não apenas servia ou patrocinava certos interesses privilegiados, constituía ele próprio um conjunto autónomo de interesses, concorrente com os outros.

Aqui há uma nova confusão. Compreende-se que os agentes económicos auto-suficientes e as profissões liberais que não precisavam de empregos públicos experimentassem uma acentuada relutância em sustentar uma administração que lhes parecia hipertrofiada e inútil e que, além disso, pesava sobre o mercado de capitais. O programa acentua que a carga fiscal «obstava à formação de riqueza» e «castigava o esforço produtivo» e que muitos «estabelecimentos)) e «companhias» estavam a sofrer com as dificuldades do «crédito» (ie., com a subida da taxa de juros) e se arriscavam a um «abalo» ou ao <<aniquilamento», se as coisas não mudassem depressa. A vontade de não permitir que os clientes do Estado o governassem não espanta naqueles que pagavam a conta sem receber de volta coisa nenhuma. Consegui-lo era mesmo a condição indispensável à maioria das reformas que propunham. Nunca um Parlamento de funcionários consentiria em extinguir, a título de poupança, o Tribunal de Contas, o Conselho de Estado e os Conselhos Superiores dos ministérios; em restringir os quadros das secretarias, do exército e da marinha; em baixar os «vencimentos excessivos»; e em proibir as acumulações e gratificações. Acima de tudo, nunca permitiria uma autêntica descentralização que a inteligência revolucionária do tempo imaginava ser a panaceia universal. Limitar a «oligarquia» do Estado, reduzir o Estado a proporções toleráveis e contrariar o seu «absolutismo» exigia uma maioria de deputados sem ligações com ele. Mas esse propósito não se percebe da parte da cauda plebeia do movimento oposicionista, onde proliferavam os pequenos funcionários ou aspirantes a funcionários.

(…)

O défice, sempre o défice

Pelo contrário, a necessidade de combater o défice ou de, pelo menos, parecer que o combatia, levou-o a restringir o programa de extensão da rede viária; e a dispensar «operários» das empresas do Estado e muitos pequenos funcionários.

[Do capítulo Ressurreição e morte do radicalismo (1864-1870)]

(Continua)