Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
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Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
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28/04/2026

Crónica da passagem de um governo (47b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 47a)

O peditório da restauração, o Álvaro e o príncipe Vassíli (continuação)

Mais cedo o “Álvaro” metesse o pau no ninho de vespas, neste caso no peditório da restauração, mais cedo as vespas começariam a escarafunchar as suas cuecas que neste caso assumem a forma de aplicação das poupanças, investimento que, com quatro meses de atraso em relação à compra de acções de duas empresas portuguesas, mas apenas uma semana depois do Álvaro ter metido o pau no ninho, foi “denunciado” pelo jornalismo de causas anticapitalistas que habita a redacção do Avante da família Azevedo.

«O SNS é um tesouro». Quanto mais precisam menos têm

O diagrama mostra que à medida que passamos das classes médias-altas (A+B) para as classes baixas, é maior a dependência exclusiva do SNS e maior a probabilidade de doença e não, não estou a sugerir que a utilização do SNS causa a pobreza. 

mais liberdade

Estou a constatar que a pobreza conduz à dependência de um serviço estatal cada vez mais degradado, ou, sabendo-se que os pobres que trabalham em empresas com seguros de saúde podem optar e optam pela saúde privada, para ser mais rigoroso, direi que são cada vez os mais pobres e os mais velhos que não têm alternativa ao SNS.

A UGT como só representa 8% dos trabalhadores compensa com a representação dos partidos e o Dr. Centeno, que nunca teve de fazer despedimentos, debita bitaites

mais liberdade

O diagrama ilustra algo óbvio para qualquer criatura que não tenha as meninges contaminadas pelo pensamento milagroso: a estagnação de produtividade com o aumento dos salários é o caminho certo para a pobreza relativa. Para sair desse caminho muita coisa tem de mudar a começar pelos empresários, mas, já que estamos a tratar da lei laboral, algumas modificações serão indispensáveis e uma delas é aumentar a flexibilidade do emprego que permita aos empresários reduzir o pessoal sem fechar a empresa e despedir toda a gente, em alternativa a optarem pela “precariedade” e recorrerem maciçamente aos contratos a prazo. É neste contexto que devemos olhar para as posições de sindicatos, que representam sobretudo funcionários públicos e trabalhadores com emprego vitalício e são dirigidos por gente ao serviço de partidos que ocultam informação.

É claro que também se pode aderir às visões de criaturas como o Dr. Centeno que numa conferência garantiu, do alto da sua ciência como economista do trabalho, que nunca dirigiu uma empresa sujeita à concorrência em que tivesse de tomar decisões de despedimento, que o «mercado de trabalho não tem défice de flexibilidade». Ou então ler o que escreveu com muito mais realismo o Conselho das Finanças Públicas sobre o mercado de trabalho no seu relatório «Perspetivas Económicas e Orçamentais 2026-2030»:
«Para a resiliência do mercado de trabalho contribui a elevada proporção de empresas que ainda identificam a dificuldade em contratar pessoal qualificado como um fator limitativo da atividade, fomentando a retenção de mão-de-obra (labour hoarding) perante choques adversos que se assumem ser maioritariamente temporários.»

27/04/2026

Crónica da passagem de um governo (47a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
O Dr. Matias ainda não percebeu que não é por invocar o Altíssimo que o milagre acontece

Quando falava na AI Summit 2026 na quarta-feira, o ministro da Reforma lá voltou com o seu mantra «Portugal tem condições únicas para atrair a indústria do futuro da inteligência artificial» o que até poderia não ser um disparate se ele quisesse referir que as condições de Portugal são raríssimas de tão fraquinhas.

Terá o Dr. Matias tido uma epifania percebendo por que não acontece o milagre?

Nessa mesma conferência, o Dr. Matias também deu indícios de que anda a ler o (Im)pertinências que já aqui escreveu que «a transformação digital no Estado sucial dos Pequeninos não é em vez de, é em cima de» e disse:
«Não vale a pena digitalizar aquilo que é complexo, não vale a pena digitalizar aquilo que é antiquado… a criar uma camada de burocracia digital em cima da burocracia física».
Louvado seja o Senhor, Dr.

Se há “reformas” que nunca deixaram de se fazer são as reformas por idade

Como as dos 900 polícias que o Dr. Luís Neves anunciou irão ser aposentados este ano ao mesmo tempo que nos tranquilizou com o anúncio de 1.400 (= 600 + 800) novos agentes que entrarão mitigando a gravíssima carência de pessoal do Estado sucial policial.

O Dr. Tiago diz que o “cancelaram”

O Dr. Tiago Antunes, ex-secretário de Estado do Eng. Sócrates e suporte do Simplex e do Câmara Corporativa, dois blogues criados para promoção do Animal Feroz, foi proposto para Provedor de Justiça pelo PS e aceite pelo PSD e o Chega. Não passou no parlamento e queixou-se ao Expresso «fui vítima de cancelamento». O semanário de reverência com a simpatia que os amigos do Eng. Sócrates sempre lhe merecem, ofereceu-lhe 1.100 (mil e cem) palavras em metade de uma "broadshit" para se lamentar.

«Pagar a dívida é ideia de criança»?

BdP
«Palavras para quê? É um artista português!»

O peditório da restauração, o Álvaro e o príncipe Vassíli

O sector da restauração que com o Dr. Costa foi bafejado por uma descida do IVA inútil para aumentar a procura (foi absorvida pelo aumentos dos preços) e muito útil para melhorar as margens dos “restauradores”, voltou ao peditório queixando-se de uma crise que consiste em ter crescido «desde 2019, … 69% em termos nominais e 25% em termos reais», como salientou o governador do BdP Dr. Santos Pereira, o “Álvaro”, incorrendo num crime de lesa peditório severamente punido pela opinião pública. E é este o quid da questão porque o Álvaro está a gastar preciosa munição, melhor usada nas guerras que são de sua conta ou, como escreveu alguém, não seguindo o conselho do príncipe Vassíli a quem Tolstói pôs na boca sábias palavras sobre a «influência … um capital que é preciso guardar bem para que não desapareça».


(Continua)

21/04/2026

Crónica da passagem de um governo (46b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 46a)

Mal não fará (Marcos 16:18), mas assim não vamos lá

Já o escrevi, os centros de dados recorrentemente anunciados com investimento de milhões de euros usarão resmas de megawatts produzidos em incontáveis hectares cobertos por painéis solares fabricados na China e contribuirão com dúzias de empregos semi-qualificados. O anúncio pela AWS European Sovereign Cloud da Amazon descrito pomposamente pelo Expresso como «uma nova infraestrutura europeia de computação em nuvem concebida para responder às exigências de soberania digital da União Europeia» não é excepção.

O governo merece todas as críticas, menos as estúpidas

O Dr. Montenegro foi incinerado pela oposição durante o debate quinzenal que teve lugar no parlamento na semana passada à pala da inflação em geral e do aumento dos combustíveis em particular, acusado de insensibilidade por não derramar mais subsídios, ou seja, por não espremer uns portugueses com impostos para dar a outros. O Dr. Ventura destacou-se nas baboseiras esmerando-se a apresentar a diferença de preços da gasolina entre Elvas e Badajoz à vista, mostrando um desvelo pelo socialismo que faria inveja ao Dr. Sánchez, responsável pelo milagre dos preços de Badajoz.

É indispensável saber quem são os clientes das empresas dos políticos. Os doadores dos partidos é segredo de Estado

A Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECPF) vai passar a retirar das lista de doações aos partidos os dados pessoais que identifiquem os doadores.

«Pagar a dívida é ideia de criança», dizia o Eng. Sócrates

O governo do Dr. Montenegro parece estar a seguir o conselho do Animal Feroz. Segundo o relatório da UTAO as amortizações das OT têm vindo a ser chutadas para a frente e o período 2026-2039 irá exigir um grande volume de reembolsos.

Canários na mina de carvão

As más notícias multiplicam-se e as boas notícias não são notícias, são pensamento milagroso para aliviar o povo. O BdP já tinha reduzido a previsão de crescimento de 2,3% para 1,8%. O CFP tirou agora 0,2 pontos percentuais à estimativa de crescimento, subiu a da inflação para 2,9% e prevê um défice nas contas públicas. O FMI prevê um crescimento de apenas 1,9% e a inflação a subir de 2,1% para 3,1% e um défice de 0,1%. E pronto, é o que há.

20/04/2026

Crónica da passagem de um governo (46a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Prestação Social Única, a reforma do século

Frequentemente no Portugal dos Pequeninos as reformas consistem em aprovar leis em cima das existentes mantendo intocado o essencial. A criação da Prestação Social Única, à qual o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) dedica 500 milhões, é só mais um exemplo de manter oito ou mais prestações sociais, incluindo o Rendimento Social de Inserção (RSI), agregando-os. Sim, leram bem. O verbo não é eliminar ou, vá lá, simplificar. O verbo é «agregar», por 500 milhões. Por sorte, a coisa está atrasada e os 500 milhões estão em risco.

O peão socrático falhou a Provedoria de Justiça

O Dr. Tiago Antunes, ex-secretário de Estado do Eng. Sócrates e suporte do Simplex e do Câmara Corporativa, dois blogues criados para promoção do Animal Feroz, foi proposto para Provedor de Justiça pelo PS e aceite pelo PSD e o Chega. Na votação teve apenas 104 dos 151 votos necessários. A única surpresa é ter conseguido pelo menos 46 votos não socialistas.

Tribunal de Contas defende o Relatório Minoritário

O Tribunal de Contas, queixou-se pela boca da sua presidente de o governo «procurar denegrir a imagem do Tribunal perante a opinião pública» e, espantosamente, considerou para justificar a manutenção do visto prévio que «os gestores ficam com a sensação que podem fazer tudo sem serem condenados», fazendo o papel do juiz que no filme de Spielberg “Relatório Minoritário” manda prender os criminosos antes de os crimes serem cometidos.

Os portugueses «vão ter razões para confiar no SNS». Medicamentos que criam diabéticos, emagrecer não sai barato e as verrugas saem caras

Em cinco anos o número de diabéticos aumentou 12%, tudo por causa do Ozempic e outros medicamentos para o diabetes do tipo 2 que, por coincidência, também servem para emagrecer. Afinal era uma fraude que custou ao SNS 250 milhões.

Muito mais baratos - apenas pouco mais de 800 mil euros - ficaram os pagamentos indevidos por mais de 500 cirurgias dermatológicas adicionais no Hospital de Santa Maria.

Governar ao ritmo dos telejornais e no final mais uma reforma (aumentar o número de chuis)

Os telejornais do fim de semana da Páscoa atulharam-se de notícias dos 20 mortos nas estradas. Sem surpresa, o inefável ministro da Administração Interna Dr. Luís Neves apressou-se a manifestar a sua «profunda preocupação e consternação» e a prometer medidas estratégicas «muito em breve».

Estamos no Portugal dos Pequeninos com o seu Estado sucial governado por um governo que se pretende reformista e por isso ninguém ficará surpreendido se souber que as medidas "estratégicas" anunciadas nos dias seguintes consistiram em constatar a falta de polícias (*) e reactivar a Brigada de Trânsito da GNR extinta em 2007 e, como não poderia faltar numa reforma, um novo Código da Estrada.

_____________

(*) Para se perceber a crónica falta de polícias, remeto para as duas dezenas de posts que escrevemos sobre esse momentoso problema que assola o Estado sucial do nosso Portugal dos Pequeninos que se encontra no sexto lugar no ranking da UE  do número de chuis por 100 mil habitantes.
 
(Continua)

14/04/2026

Crónica da passagem de um governo (45b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 45a)

Hoje Há Conquilhas Amanhã Não Sabemos

Comecemos pelas boas notícias. A guerra de Bibi-Trump contra o que resta dos Aiatolas parece estar a desviar o turismo do Médio Oriente para os destinos europeus e, inevitavelmente, para o nosso Portugal dos Pequeninos onde os hotéis estão a registar um aumento significativo das reservas. É claro que o aumento da dependência de uma actividade com elevada sazonalidade e volatilidade e com mão de obra pouco qualificada não é uma boa notícia a longo prazo, mas quem é que quer saber disso?

Canários na mina de carvão
[Lembrete: nas minas de carvão usavam-se canários que são muito sensíveis ao monóxido de carbono e ao metano para alertar os mineiros de um perigo iminente.]

Não nos iludamos. Não foi a guerra de Bibi-Trump contra os Aiatolas que criou a vulnerabilidade da economia portuguesa. A guerra é apenas mais uma circunstância incontrolável para a qual estamos mal preparados para enfrentar e que, por enquanto, só tem efeitos sobre a inflação que em Março aumentou para 2,7% (INE).

Multiplicam-se os sinais de que as coisas se podem complicar. Em Fevereiro, ainda antes do fecho do estreito de Ormuz, o défice da balança comercial de bens aumentou € 489 milhões, principalmente devido à redução de 26% das exportações de produtos industriais. Dirão os optimistas – ou seja, os pessimistas mal informados – que isso não interessa porque o turismo na balança de serviços mais do que compensa esse défice. Pois é, plus ça change, plus c'est la même chose, diria o Jean-Baptiste.

Outra vez em Fevereiro, antes da guerra, o Índice de Volume de Negócios na Indústria do INE (fonte), que havia tido uma redução de 1,9% em Janeiro, apresentou uma nova redução homóloga nominal de 4,8%, e o emprego que havia caído 0,1% no mês anterior diminui 0,2%. Enquanto isso, as remunerações subiram 4,8% e 5,1% nos dois primeiros meses do ano e, que se saiba, não ocorreu nenhum milagre e a produtividade continua como estava. Plus ça change.

Quem não deve não teme, diz o povo. Os dirigentes têm medo de decidir, diz o Dr. Montenegro

Não vale a pena discutir que o visto prévio só faria sentido se o Tribunal de Contas fosse um órgão administrativo e não de fiscalização, como é. Percebe-se, por isso, que o governo tenha aprovado a dispensa do visto prévio. Que o tenha feito apenas para contratos até € 10 milhões é que se percebe com mais dificuldade. Ainda se percebe menos a justificação do primeiro-ministro de que os dirigentes têm medo de decidir, dirigentes que têm a ousadia de planear em diapositivos do PowerPoint um projecto de dezenas de milhões de euros como o Ferrovia 2020.

E não se percebe de todo que se limite o visto prévio do TdC e de seguida se limitem as responsabilidades dos gestores públicos à negligência grosseira e ao dolo, isto é, aos casos de incompetência terminal e crime.

No Estado sucial do Portugal dos Pequeninos, a Justiça é surda, mas não é cega

mais liberdade

Extraordinário não é 55% dos portugueses não terem confiança no sistema judicial. Extraordinário é ainda haver 45% dos portugueses que têm alguma confiança.

Um peão socrático na Provedoria de Justiça

O Provedor de Justiça «defende as pessoas prejudicadas por atos ou omissões injustos ou ilegais da administração ou outros poderes públicos ou que vejam os seus direitos fundamentais violados». E quem mais adequado ao cargo do que o Dr. Tiago Antunes, ex-secretário de Estado do Eng. Sócrates, agora proposto pelo PS e aceite pelo PSD e Chega, que garante não «fazer fretes a ninguém» e ter «total independência», garantia atestada por ter sido um dos suportes do Simplex e o Câmara Corporativa dois blogues criados para promoção do Animal Feroz agora a ser vítima de um julgamento.

13/04/2026

Crónica da passagem de um governo (45a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Uma organização que representa 8% dos trabalhadores rejeita uma reforma laboral pífia

Agora é oficial, depois de 8 (oito) meses de negociações e 53 (cinquenta e três) reuniões, a UGT, uma organização de sindicatos maioritariamente controlada pelo Partido Socialista, com pouco mais de 400 mil sócios, menos de 8% dos trabalhadores portugueses, diz “não” a uma tímida reforma da lei laboral.

Eu diria mesmo mais, que empresariado é este?

«Quem chegar a Portugal por estes dias vai perguntar que raio de classe empresarial tem o país: quando as coisas correm bem, as empresas registam lucros e distribuem-nos pelos acionistas (alguns deles com bolsos bem fundos…). Quando as coisas dão para o torto, pedem ao contribuinte que os ajudem a manter as margens.» Escreveu Camilo Lourenço e eu assino por baixo.

Sindicatos, empresariado e governo, a mesma luta

Colocando-se ao nível dos sindicatos e do empresariado, o governo votou em Bruxelas a favor da tributação dos lucros extraordinários das empresas energéticas, uma medida que já tinha sido adoptada pelo Dr. Costa em 2022 e que o Dr. Montenegro então classificou, e bem, de demagógica.

Take Another Plan. "Resultados sólidos", disse o TEBV (Tratador do Elefante Branco Voador)

Ainda pelo estreito de Ormuz circulava o jet fuel, os lucros da TAP já tinham caído 70% em 2024 e voltaram a cair 90% em 2025 para 4,1 milhões, equivalentes a pouco mais de um por mil dos mais de 3 mil milhões de impostos que o Dr. Costa e o Dr. Pedro Nuno injectaram no elefante branco. Que o comunicado do CEO classificasse como “sólidos” esses resultados microscópicos, talvez suficientes para pagar as indemnizações dos processos em tribunal, e o contexto como “desafiante”, dá uma boa ideia do ponto a que chegámos.

O especialista em aviação Pedro Castro faz uma boa síntese do processo de privatização em curso quando diz que o vencedor será o operador que «melhor ignorar no que se está a meter e que achar que ter um Estado disfuncional como parceiro maioritário, sem prazo para isso terminar.».

Re-forma dos transportes rodoviários, Montenegro way. A ave que nada e grasna deixa de se chamar pato

Se há uma empresa que se destaca para pior no universo das empresas públicas, a CP é uma das mais sérias candidatas ao título de elefante branco público. Admito que a sua “re-forma” pudesse assumir diversas formas, uma das poucas que não me ocorreria seria manter tudo na mesma e reclassificá-la como «entidade de mercado para efeitos estatísticos» com as principais consequências de que «as contas da CP deixam de ser consolidadas no Setor das Administrações Públicas, e deixa de contar diretamente para o défice público».

(Continua)

08/04/2026

Crónica da passagem de um governo (44b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 44a)

O Dr. Carneiro (sem dar por isso) renega o socialismo…


Já tínhamos tido a economista socialista e ex-administradora do BdP Dr. ª Elisa Ferreira a dizer-nos que «o dinheiro é do Estado é do PS», já tivemos o economista social-democrata, ex-primeiro-ministro e ex-PR Dr. Cavaco Silva a garantir-nos que «o dinheiro do Estado não cai do céu» e agora o líder do PS Dr. Carneiro diz-nos possivelmente distraído estar «o Estado (…) a ganhar dinheiro com o sacrifício dos portugueses», afirmação que Margareth Tatcher poderia ter dito em relação aos britânicos, embora com mais rigor e elegância.

… e Dr. Montenegro (dando por isso) abraça o socialismo

Na esteira do governo do Dr. Costa que quis tributar os “lucros excessivos do sector energético e da distribuição, o governo do Dr. Montenegro também pretende fazer o mesmo e propõe à CE que adopte a mesma receita mostrando que «está unida e é capaz de agir». Já se esqueceram de que a tributação dos lucros excessivos do Dr. Costa gerou 5 milhões de euros em 2023, ou seja, 10% da receita que o governo previa, um retorno ridículo de uma medida popularucha que mina a previsibilidade e estabilidade do sistema tributário e, em consequência, desacredita quem a toma.

A reforma da Lei do Trabalho que ficou no tinteiro

mais liberdade

No Portugal dos Pequeninos um trabalhador desempregado que recomeça a trabalhar recebe apenas mais 2% líquidos do que se continuasse desempregado, o segundo menor ganho da UE, e um desincentivo para procurar trabalho.

Canários na mina de carvão. Estava tudo a correr tão bem

Espevitados pela reacção dos aiatolas à cruzada BIG AND BEAUTIFUL BOMBING (BBB) do Irão da dupla Trump-Bibi, os canários estão todos a piar. O BdP reduziu a previsão de crescimento para 1,8% e a previsão aumenta a da inflação para 2,8%, o Estado, as empresas e as famílias continuaram a aumentar as suas dívidas, pelo que o endividamento total da economia voltou a subir em Janeiro para 860 mil milhões de euros. A taxa de poupança das famílias desceu para 12,1% no final de 2025. A taxa Euribor 12 meses subiu desde o início do BBB de 2,23% para 2,799%. E a galinha dos ovos de ouro do turismo dá sinais contraditórios.

07/04/2026

Crónica da passagem de um governo (44a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Take Another Plan. A notícia da privatização da TAP é um bocadinho exagerada. O segredo está no “N”

Anda por aí uma certa euforia por ainda haver dois putativos interessados (Lufthansa e Air France-KLM) na privatização da TAP, ou melhor na compra de 49,9% do capital, que apresentaram uma NBO (Non-Biding Offer).

Take Another Plan. SATA, uma TAP das Ilhas

Recordemos que a SATA, a companhia regional de aviação dos Açores, assinou em 2016 um contrato de leasing de um avião Airbus A330 que custou até 2023 mais de 40 milhões de euros, com o avião estacionado desde 2019 no aeroporto Sá Carneiro, por custar mais caro mantê-lo a operar. Entretanto, a SATA recebeu ajudas de 453 milhões de euros e só em 2023 a comissão de inquérito do parlamento açoriano se deu conta. Descobriu-se mais tarde que a SATA estava tecnicamente falida, ninguém parece saber qual o montante exacto do passivo e procura-se um candidato privado para comprar o mono, querendo dizer um benemérito que, como é sabido, fora do Estado sucial é coisa que não existe.

De volta à actualidade, a privatização da SATA que já estava comprometida com anulação do concurso de privatização ficou agora ainda mais comprometida com o aumento do preço do jet fuel, risco que inexplicavelmente a SATA não tinha coberto, com um contrato hedge, por exemplo.

Para o Estado sucial todo o empresário é suspeito

Deve ser este princípio que inspira a Entidade para a Transparência a investigar «os titulares de cargos políticos e de altos cargos públicos que sejam donos de sociedades em pelo menos 50%» e a pedir-lhes a lista de clientes.

O governo devia aprender com os erros dos outros…

… e em vez de anunciar dia sim, dia não novos subsídios para compensar o aumento dos preços (como fez o governo do Eng. Sócrates e outros, com os resultados que se conhecem) ou a redução indiscriminada do IVA, deveria apoiar quem realmente precisa.

Oremos para que o choque fiscal estimule a oferta de habitação (3)

E se, como sugere o economista Luís Cabral, o IMT, que incide sobre as transações imobiliárias e ao torná-las mais onerosas torna-se um travão à fluidez do mercado de habitação, fosse eliminado ou drasticamente reduzido e o IMI fosse tornado progressivo?

O mistério da bitola ibérica. «Quem tem a bitola certa nunca se perde nos trilhos da vida»

Não vou elaborar sobre a bitola ibérica porque já o fiz inúmeras vezes (por exemplo, aqui bitola e ali), vou apenas registar que, mais uma vez a Infraestruturas de Portugal (IP) pela boca do seu presidente que disse «temos de continuar a construir em bitola ibérica e no fim, até 2040, reavaliamos».

Se o governo excluir os ignorantes as universidades podem fechar. Depois dos estudantes, os professores manifestam-se

A semana passada parabenizei os estudantes por se oporem à exigência de níveis mínimos de literacia, numeracia e inglês no acesso à universidade, o que conduziria à exclusão, impedindo que os iletrados excluídos recebessem o prémio salarial por ser diplomado a que têm direito.

mais liberdade

Acrescento agora a parabenização dos seus professores, cujo Conselho de Reitores também se opõe porque o projecto do governo tem «critérios generalizantes, requisitos e padronizações que violam o princípio da proporcionalidade». Com tais alunos e professores podemos dormir descansados que as universidades estão protegidas da exclusão dos ignorantes e continuarão a ter a sua devida proporção.

(Continua)


31/03/2026

Crónica da passagem de um governo (43b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 43a)

A reforma do século. O governo reconhece que o Estado sucial é uma máquina kafkiana

A semana passada vários secretários de Estado produziram um despacho que dispensa os «cidadãos e agentes económicos» de apresentarem à Administração Pública documentos que já tenham sido apresentados. É uma reforma extraordinária, à altura de um país que virá ser «um líder mundial na IA», como nos garante o ministro da Reforma do Estado. Suspeito que ocorra um pequeno quid - o “organismo” a quem deveriam ser apresentados os documentos não os obtenha e o cidadão ou o agente económico conclua que é mais simples e rápido apresentá-los de novo.

Então não estamos a crescer mais do que a Óropa?

Estamos a crescer mais do que a Europa foi durante anos o mantra do Dr. Costa, como se não fosse normal um país relativamente pobre crescer mais do que os países relativamente ricos para não perder a esperança de um dia os alcançar.

Fonte

Ainda que se saiba, como lembra Borges de Assunção, que o PIB per capita de 2000 (85%) estava "inchado" pelo endividamento público e privado dessa época e não era sustentável, a verdade é que o PIB per capita de 2025 está ainda mais "inchado" pelo endividamento público

O saque fiscal. Dois exemplos

mais liberdade


Desta vez vai ser diferente?

Fonte

O valor actual da dívida pública total de 69,2 mil milhões em 2000 seria em 2025 a preços actuais de 116 mil milhões. A dívida efectiva em 2025 é 275 mil milhões, ou seja 2,4 vezes mais elevada. O valor actual da dívida pública a não residentes em 2000 seria em 2025 de 57 mil milhões. A dívida efectiva não residentes em 2025 (incluindo BCE) é 190 mil milhões, ou seja 3,3 vezes mais elevada. Devemos mais em termos absolutos e em termos relativos e sobretudo devemos mais a não residentes. Se tudo correr bem, não haverá problemas, porém, como a História mostra abundantemente, nem sempre tudo corre bem.
 
(Continua)

30/03/2026

Crónica da passagem de um governo (43a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Boa Nova

Em 2025 o governo gastou na Defesa mais 1,6 mil milhões do que em 2024 e atingiu o objectivo da NATO de 2% do PIB. Dr. Trump tome nota e Dr. Putin cuide-se.

Choque da realidade com a Boa Nova

E como foi alcançado o milagre? O semanário de reverência explica com grande ingenuidade que «o Governo foi buscar €2 mil milhões de euros a outros ministérios (e às) pensões dos militares, que alguns Estados-membros têm dentro dos seus ministérios da Defesa, representam cerca de 1.200 milhões de euros em Portugal». Imagino que se o governo aposentasse os 21.500 tropas que ainda estão no activo somaria um ponto percentual e ficaria mais próximo da meta.

O dinheiro do Estado, segundo o Dr. Cavaco

O Dr. Cavaco, que reivindica para si ter chefiado o governo mais reformador de Portugal (não sem razão, pela falta de reformas dos outros governos), escreve um artigo no Expresso exortando o governo a introduzir mais reformas com o título «O dinheiro do Estado não cai do céu».

Dame Tatcher, que um dia disse numa conferência do partido Conservador «there is no such thing as public money. There is only taxpayers’ money», diria hoje ao ler o Expresso «There is no salvation for a country where the self-proclaimed most reformist prime minister assures that the money belongs to the State».

Por falar em dinheiro do Estado…

Jornal de Negócios

A receita total do Estado, isto é, o dinheiro extorquido aos contribuintes, voltou a aumentar 0,2 pontos percentuais o ano passado, o que permitiu ao Dr. Miranda Sarmento – o Professor Pardal, como lhe chamou carinhosamente o Dr. Centeno -, anunciar o “brilharete” de um excedente orçamental de 0,7% do PIB.

Se o governo excluir os ignorantes as universidades podem fechar

O governo pretende exigir níveis mínimos de literacia, numeracia e inglês no acesso à universidade, o que acarreta o risco de exclusão, lembram avisadamente os estudantes e, digo eu, dependendo desses mínimos, pode levar ao fecho das universidades.

Take Another Plan. A arte de adiar até a coisa passar de inadiável a virtualmente impossível

No passado, foram vários os anúncios de que a TAP seria privatizada, o que na cabeça dos anunciantes seria vender uma quota minoritária a um benfeitor distraído. O primeiro anúncio foi, salvo erro, do falecido Dr. Jorge Coelho que só não vendeu a TAP à Swissair porque esta, entretanto, faliu. Um dos mais recentes foi o anúncio do Dr. Costa que admitiu em 2023 privatizar a TAP «na totalidade» depois de a ter renacionalizado oito anos antes.
 
Já com viagem marcada para Bruxelas, o Dr. Costa não teve tempo e deixou a missão para o Dr. Montenegro que a foi cozinhando em fogo lento até que o Dr. Bibi convenceu o Dr. Trump que ele poderia ganhar o Nobel da Paz se levasse a cabo um BIG AND BEAUTIFUL BOMBING do Irão. Bombing que ambos sabem quando começaram, não fazendo ideia de quando terminam, e está a ter uma série de consequências previsíveis, mas imprevistas, das quais poderá resultar o adiamento sine die da venda de uma quota minoritária.

(Continua)

25/03/2026

Crónica da passagem de um governo (42b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 42a)

A conversa da treta é irresistível

O ministro das Infraestruturas e Habitação, Dr. Pinto Luz, fez no parlamento um vibrante discurso patriótico criticando quem «dá a carne aos privados e fica com o osso», discurso que deve ter provocado ao líder do PCP Dr. Paulo Raimundo um orgasmo, ali mesmo na bancada. O Dr. Pinto Luz garantiu que a CP não será desmantelada o que poderia ser uma boa ou má notícia dependendo do que se faria a seguir. Disse ainda que a CP «não vai dar um, nem dois, nem três, nem quatro milhões de euros [de lucro]. Vai dar mais.» Por engano o Dr. Pinto Luz disse lucro querendo dizer que é o saldo entre os prejuízos operacionais de dezenas de milhões de euros e os mais de 100 milhões de compensações que a CP recebe do dinheiro dos contribuintes, incluindo os que não usam o comboio.

E por que não mudar a escala dos termómetros?

Subsidiar os preços dos combustíveis já é um disparate, fixar os preços da electricidade como o governo promete no caso de crise energética é assim como para fazer face a uma epidemia de gripe com febres elevadas o governo decretar a mudança de escala dos termómetros.

No fundo, a aspiração dos portugueses é serem funcionários públicos

mais liberdade

Emprego vitalício, “progressões” automáticas, antiguidades, etc. dão em “precariedades” e no resto.

Take Another Plan. O governo tem dúvidas se privatiza

O Dr. Montenegro disse, traduzido em português corrente, que o governo só privatiza a TAP se o comprador garantir o aproveitamento de toda a capacidade aeroportuária, o que levanta, desde logo, a dúvida se o Dr. Montenegro inclui nesse aproveitamento o aeroporto de Beja (para quem não fizer ideia do que está em causa, sugiro a leitura da série de posts que dediquei ao assunto). É claro que aos potenciais interessados também convirá saber o que pensa o governo que pretende que um operador privado com uma minoria (44,9%), sujeito a decisões potencialmente delirantes, vá torrar dinheiro para comprar e ainda tenha de garantir o aproveitamento de toda a capacidade aeroportuária. Talvez por isso, um dos interessados, o grupo IAG (BA e Iberia), já fez saber que também tem dúvidas.

24/03/2026

Crónica da passagem de um governo (42a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Derrapagem é o outro nome para a gestão das obras do Estado sucial

Em 2003 a construção do Hospital Oriental de Lisboa ou Hospital de Todos os Santos foi considerada prioritária (ver aqui a estória resumida). Desde então o projecto andou de Herodes para Pilatos e, por último, 100 milhões dos contribuintes europeus via PRR que iriam financiar uma das alas ficaram comprometidos por atraso na construção.

O Estado sucial é lerdo até a gastar o dinheiro dos outros

Dos 21,9 mil milhões do PRR, cerca de 70% (13,7 mil milhões) já foram torrados numa multidão de projectos, muitos deles sem retorno que justificasse o dinheiro neles torrado. Dos restantes 30% uma parte irá provavelmente perder-se porque os projectos não serão aprovados até 31 de Agosto. Irá perder-se? Depende da perspectiva. Do lado de lá é uma poupança, do lado cá são uns dinheiros que dariam jeito para disfarçar o marasmo.

Quereis reformas? Ora tomai lá disto

No caso de incumprimento do dever de diligência, um gestor privado é civilmente responsável pelas perdas sofridas pela empresa, pelos seus sócios e terceiros, pelos credores sociais e ainda por incumprimento fiscal, podendo (e nalguns casos devendo) dispor de uma garantia financeira. 

A ninguém passaria pela cabeça exonerar os gestores das suas responsabilidades. Salvo se as cabeças forem as de um governo que quer acabar com a «ameaça que paralisa a administração pública» pelo receio de decidir, limitando as responsabilidades dos gestores públicos à negligência grosseira e ao dolo, isto é, aos casos de incompetência terminal e crime. E foi assim que o ministro da Reforma do Estado, Dr. Matias, anunciou a sua primeira grande reforma.

No Estado sucial importa apenas a ignorância. A especialidade é irrelevante

O mês passado foi nomeado um enfermeiro para a coordenação da EMER 2030, um zingarelho para acelerar o licenciamento de projetos de energias renováveis. Dado o escândalo, umas semanas depois foi nomeado em substituição do enfermeiro um advogado, actual vogal da junta de freguesia de Alvalade.

O Estado sucial é um caloteiro

Pódio dos caloteiros (Fonte)

Que o Estado é mau pagador não é novidade, mas, que diabo, levar em média 6,5 anos para pagar as facturas é um bocadinho exagerado. A não ser por se tratar de financiar a inovação…

E, no entanto, o eleitorado não parece preocupado com a governação

Como mostra a sondagem ICS/ISCTE para o Expresso, as maiores insatisfações dos eleitores são com aquilo pelo qual o governo não pode fazer muito: custo da habitação (74% de insatisfeitos), custo de vida (64%) e corrupção (63%).

(Continua)

17/03/2026

Crónica da passagem de um governo (41b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 41a)

Será mais uma manifestação de reverência pelo semanário de referência?

Concedo que, à parte considerações ideológicas, o jornalismo do Expresso é provavelmente o de melhor qualidade do Portugal dos Pequeninos com um grau de independência não muito vulgar, o que não é dizer muito porque o jornalismo de Portugal dos Pequeninos é de fraca qualidade e está muitas vezes ao serviço de alguém. Em consequência, as “notícias” do Expresso, por vezes opinião travestida, são importantes para credibilizar qualquer governo, de onde os governos PS terem movido as suas melhores influências para retribuírem a boa-vontade, como nestas manobras de lease-back com o Novo Banco. Menos do que os governos PS e com menos sucesso (veja-se o escarafunchar da moradia e da Spinumviva do Dr. Montenegro), também os governos PSD tentaram aliciar as boas-vontades. É neste contexto que pode ser vista a decisão da CMVM de dispensar de uma OPA a compra de uma participação na Impresa pelos herdeiros do falecido Sr. Burlesconi, sem dar opção aos accionistas minoritários, como aqui explica o jornal Eco.

A gigafábrica de IA, mal não fará (Marcos 16:18)

À míngua de reformas, o Dr. Matias, ministro da Reforma do Estado, gasta o seu talento a anunciar gigafábricas de IA e, mostrando o que está a fazer no governo, arregimentou spin doctors que enchem as páginas dos jornais com gigabytes de conversa fiada sobre o tema. Não se trata só da Gigafábrica de IA em Sines (por agora só uma candidatura aos dinheiros de Bruxelas), as gigafábricas irão multiplicar-se por todo o país (por agora só Abrantes).

Afinal, o que são gigafábricas? Para quem pense que albergarão batalhões de cientistas e técnicos altamente especializados, contribuindo assim para a retenção de talentos, pense outra vez. Por exemplo em Sines, prevê-se um investimento pantagruélico de 18 mil milhões de euros que serão gastos principalmente em hardware made in Taiwan, sistemas de refrigeração made in Germany, kms de fibra óptica, tudo para consumir e equivalente a mais de metade do consumo total do país, energia que será produzida em resmas de painéis solares fabricados na China e espalhadas pelo Alentejo e outros lugares pitorescos. Não serão batalhões de técnicos, serão umas poucas centenas, nem serão altamente especializados - esses estarão noutros países -, serão engenheiros electrotécnicos, programadores, administrativos, etc., indispensáveis para manter a funcionar um supercomputador com milhares de GPU da Nvidia.

E isto é mau? Claro que não, mas não nos façam de atrasados mentais. É muito bom para um país que tem milhares de Km2 vazios, centenas de dias por ano de sol e um clima agradável para os técnicos estrangeiros e não consegue fazer melhor.

Canários na mina de carvão

Não vou escrever sobre os factores exógenos, pelos quais pouco se pode fazer além de rezar para que os Srs. Bibi & e o seu ajudante Donaldo se cansem ou os aiatolas se rendam, o estreito de Ormuz não fique fechado por muito mais tempo e o barril de petróleo não chegue aos USD200, enquanto os tugas compram mais uns popós, sem esquecer os Porsches que se vendem como pãezinhos quentes.

Por agora, já tivemos o comboio de tempestades do qual pode resultar um défice de 0,8% do PIB e, ainda antes do tsunami petrolífero, a semana passada as emissões de OT a 7 anos e a 9 anos fizeram-se com yields mais elevadas 29 e 12 pontos-base, respectivamente, do que as yields das últimas emissões dos mesmos prazos.

16/03/2026

Crónica da passagem de um governo (41a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Subsidiar os preços em vez de apoiar as famílias

Face aos aumentos dos preços do petróleo resultantes do fecho do estreito de Ormuz (onde a frota de Albuquerque chegou no princípio do século XVI e os portugueses lá construíram o Forte de Nossa Senhora da Conceição) em resposta à cruzada dos Srs. Bibi & Trump, o governo decidiu uma vez mais subsidiar os combustíveis através de uma dedução no ISP. Dito de outro modo, em vez de subsidiar as famílias mais vulneráveis (como fez o governo trabalhista inglês), o governo decidiu que a redução de receita fiscal devida à dedução no ISP seria compensada por todos os contribuintes, mesmo os que não precisam e em média gastam mais combustíveis.

Aversão ao risco

A aversão ao risco é uma das características da cultura do Portugal dos Pequeninos como este blogue vem há décadas lembrando (por exemplo no post DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: aversão ao risco é o que nos sobeja).

mais liberdade

A coisa é tão doentemente acentuada que as sociedades de capital de risco, criadas no princípio da década de 90, que pretendiam imitar o venture capital, se dedicaram na maioria do casos a fazer exactamente o contrário financiando empresas quase falidas. Não admira que, como o diagrama mostra o capital de risco tenha um peso muito menos significativo do que na média das UE, que já de si não é um bom exemplo.

Pensamento milagroso, desta vez vai ser diferente?

Incentivando a fatal aversão ao risco dos portugueses em geral e dos empresários em especial, o governo anunciou que vai despejar a fundo perdido quase mil milhões generosamente oferecidos pelos contribuintes europeus para financiar a inovação. Naturalmente, as “ajudas à inovação” vão ser dadas a projectos aprovados pelos nossos venture capitalists que são os apparatchiks do Banco Português de Fomento que geriu um sistema de garantia mútua que até ao final de 2020 registou perdas por pagamento de garantias de 881,08 milhões e desde 2012 até 2024 registou perdas de 124 milhões nas cerca de 300 startups em que participou.

Boa Nova. Uma reformazita

Arriscando estar a deitar foguetes antes da festa, festejo a iniciativa do governo de podar o Instituto de Emprego e Formação Profissional de ramos inúteis eliminando estruturas e chefias infectadas pelo parkinsonismo (o de C. Northcote Parkinson e não o de James Parkinson).

(Continua)

11/03/2026

Crónica da passagem de um governo (40b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

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(Continuação de 40a)

«Lay-off a 100% avança com aliança de PS, Chega e restante esquerda»

A expressão «Chega e restante esquerda» é um pouco simplista, ao meter o Chega na esquerda quando, na verdade, é mais um híbrido que em matéria social é socialista, como neste caso em que vota uma proposta que obrigará as empresas a pagar durante o lay-off extraordinário (uma emergência em que arriscam a falência) o mesmo salário, do qual resultará um rendimento líquido maior do que se estivessem a trabalhar.

Está tudo explicado. O governo não tem "fetiche sobre o crescimento

Quem o disse foi o ministro da Economia que, por isso, deveria mudar o título para ministro da Ecoanomia. Percebe-se agora que o governo, não se preocupando com o aumento da produtividade, não faz as reformas indispensáveis para aumentá-la e assim criar mais riqueza. Fica por esclarecer por que diabo o ministro se queixa da «excessiva retração» dos bancos e do «excesso de prudência (que) atrasa o crescimento económico».

O Dr. Matias e a atracção de talento

Enquanto prepara Portugal para vir a ser «um líder mundial na IA», o ministro da Reforma do Estado, Dr. Gonçalo Matias, anuncia um projeto estratégico para criar uma gigafábrica de Inteligência Artificial (IA) de escala europeia, para posicionar o país como um dos principais polos de computação avançada da Europa e «atrair investimento e talento» (fonte). O Dr. Matias devia limitar a ambição à venda de electricidade. Atrair talento é muita ambição. Já ficaríamos gratos se o Dr. Matias se ficasse pela retenção do talento que todos os anos abandona o Portugal dos Pequeninos, enquanto se criam “vias verdes” para atrair trabalhadores para a construção para fazerem o trabalho que o nosso talento que ficou retido não está disponível para fazer.

Os canários na mina de carvão estão em risco de vida

E não estão em risco de vida porque em Janeiro o Índice de Volume de Negócios na Indústria, que tinha crescido 2,3% em Dezembro, teve redução homóloga nominal de 1,5% (fonte INE), após o crescimento de 2,3% observado no mês anterior. Isso são miudezas face aos possíveis impactos da «operação militar especial» Trump-Bibi em curso. 

Enquanto isso fazem-se jogos florais…

… e o Dr. Passos Coelho aponta o dedo ao Dr. Montenegro que não faz reformas (que, por boas razões, se suspeita que os eleitores podem não querer) e o Dr. Montenegro desafia o Dr. Passos Coelho para um duelo nas directas do partido de ambos.

10/03/2026

Crónica da passagem de um governo (40a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

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Oremos para que o choque fiscal estimule a oferta de habitação (2)

Que a oferta de habitação é insuficiente, ninguém parece ter dúvidas. Também parece claro que a procura aumentou e a crise da habitação se agravou com o Programa Crédito Habitação Jovem que levou os empréstimos para compra de habitação pelo escalão etário 18-35 anos a representarem no ano passado 60% dos 39,3 mil milhões de novos empréstimos e ainda com o investimento estrangeiro em imobiliário que no ano passado atingiu 3,9 mil milhões e representou 46% do investimento directo estrangeiro.

Pelo lado da oferta e dos sucessivos programas para a aumentar, as notícias não são melhores. Nos dois últimos anos, dos 114 mil fogos projectados apenas 72,7 mil foram licenciados, confirmando a minha dúvida de que as medidas fiscais sejam suficientes para estimular a oferta sem a simplificação da burocracia municipal.

A transformação digital no Estado sucial dos Pequeninos não é em vez de, é em cima de

Por falar em burocracia municipal, relato a minha experiência recente numa visita a uma das câmaras municipais com maior orçamento, considerada um modelo autárquico, para tentar agendar uma reunião com um arquitecto. Fiquei a perceber que, na verdade, a transformação digital (geralmente definida como a integração das tecnologias digitais nas operações de empresas e serviços públicos, com vista a simplificar ou, como se diz no patuá pós-moderno, agilizar os processos) consiste em montar em cima de um processo por natureza simples uma série procedimentos que envolvem criar registos com uma pletora de dados, confirmar e reconfirmar esses a dados com a chave móvel digital e vários códigos de acesso enviados por SMS, etc. e no final a simpática funcionária informa o munícipe que um dia vai receber uma telefonema para agendar a reunião.

Boa Nova
Choque da realidade com a Boa Nova

As más novas são várias. Em valor, o endividamento da economia (o total da dívida do Estado, das empresas não financeiras e das famílias) aumentou o ano passado em 28,9 mil milhões. A dívida pública na ótica de Maastricht aumentou em Janeiro 6,1 mil milhões ultrapassando os 280 mil milhões. E o Estado português foi um dos três países da OCDE que mais recorreu a novas emissões para amortizar dívida.

Isto são apenas os preliminares. Com as tempestade e as prováveis sequelas da «operação militar especial» Trump-Bibi no Irão as coisas vão mais difíceis, o que levou o ministro das Finanças, habitualmente tão optimista, a não excluir (uma maneira simpática de dizer que é quase inevitável) voltar aos défices.

(Continua)