Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)
Mostrar mensagens com a etiqueta fassismo nunca mais. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta fassismo nunca mais. Mostrar todas as mensagens

25/04/2026

Mitos (354) - O dia em que o Estado Novo começou a ser substituído pelo Estado novo

Por falta de tempo e porque os 25 de Abril tendem a ser todos iguais, republico o post do ano passado que ainda me parece actual.

Tivemos os 48 anos de Estado Novo que, sendo uma ditadura sonsa e beata, não deixou de ser uma ditadura encalhada no tempo, tentando endoutrinar as crianças e os jovens com a Mocidade Portuguesa e organizar os adultos com a Legião Portuguesa, com uma polícia política que vigiava e punia uma oposição fraca quase resumida ao Partido Comunista e garantia que do simulacro de eleições saísse sempre o mesmo resultado. Um Estado Novo que nos manteve numa miséria pacata, onde para usar um isqueiro era preciso ter uma licença (as fábricas de fósforos eram propriedade de eminências do regime) e só nos anos 60 com a adesão à EFTA (European Free Trade Association) se iniciou um período de crescimento interrompido pelo golpe militar. Uma ditadura que tentou, contra as tendências da história, manter um império colonial que nunca chegou a ser império e consumiu as energias de uma geração numa guerra impossível de ser vencida.

Uma ditadura que não sobreviveu quase cinco décadas sem a adesão das elites, dos situacionistas e dos oportunistas (alguns deles viraram a casa) e com a passividade, mansidão e conformidade de um povo traumatizado pela incompetência, violência e instabilidade da 1.ª República. Uma ditadura que se desfez como um castelo de cartas com um simples golpe militar, cuja génese deve mais ao sindicalismo militar e menos à ideologia e aos grandes princípios, golpe militar cavalgado pela única força política organizada.

O Estado Novo e o Estado novo vistos por
João Abel Manta
Com o mesmo povo, gradualmente menos passivo e menos conformado, chegámos ao PREC de onde quase saiu uma ditadura pior do que a do Estado Novo, tivemos a reforma agrária e as nacionalizações que expropriaram o "capitalismo monopolista", desmantelou-se o sector financeiro, hoje quase totalmente controlado por capital estrangeiro, a indústria foi reduzida a microempresas e PME e a uma ou outra sobra das grandes empresas industriais. Foi construído um Estado sucial pletórico, que faliu três vezes nos últimos 50 anos, controlado pelos novos situacionistas e povoado  por um número de funcionários (780 mil) que é o dobro da soma dos "servidores do Estado" (200 mil) com os mobilizados para a guerra colonial (170 mil). As Forças Armadas foram reduzidas a uma tropa pelintra, desmoralizada, mal equipada e incapaz de defender o país. O ensino público foi gradualmente infectado por ideologias neo-marxistas a um grau que rivaliza com a endoutrinação no ensino do Estado Novo mas fica longe do seu grau de exigência técnica. A qualidade do pessoal político degradou-se e a maioria dos ministros do regime actual não teriam por incompetência técnica lugar num governo do Dr. Salazar ou do Dr. Marcelo. O resultado é um país ultrapassado pelos países saídos das ruínas do império soviético, com uma economia pouco competitiva de baixa produtividade, endividado e dependente dos dinheiros europeus.

No final ficámos com o arbítrio mais livre e, em consequência, com menos desculpas, o que só por si é positivo.

08/05/2025

Mitos (350) - A pesada herança da longa noite fascista (XII)

[Uma actualização de A pesada herança da longa noite fascista (IV)]

Foi há dias publicado o índice de desenvolvimento humano das Nações Unidas definido como «uma medida resumida do desempenho médio em dimensões-chave do desenvolvimento humano: uma vida longa e saudável, ter conhecimento e ter um padrão de vida decente. O IDH é a média geométrica dos índices normalizados para cada uma das três dimensões.»


Como seria de esperar, excepto pelos tontinhos que imaginam resultados maléficos da maléfica globalização para exaltarem o nativismo, houve melhoria progressiva da qualidade de vida a que Portugal não escapou. 

O quid é que sendo indiscutíveis as melhorias do Portugal dos Pequeninos que ocupa o 40.º lugar no ranking mundial e o 28.º na Europa, à frente apenas de algumas das países vítimas do socialismo soviético, é igualmente indiscutível que quase todos os outros países melhoraram a qualidade de vida, nalguns casos mais do que o Portugal dos Pequeninos 

Se recuarmos cinco décadas, em 1975, após a queda do Estado Novo, Portugal era o 23.º país com melhor índice. Trinta anos de Estado sucial depois, em 2005, era o 29.º. Trinta e cinco anos de Estado sucial depois, em 2010, era o 40.º, onde continua.

07/05/2025

ESTÓRIA E MORAL: «Às ordens do movimento»

Estória

No dia 25 de Abril de 1974 o que restava do Estado Novo ruiu de mansinho empurrado pelo golpe militar. Num outro país provavelmente haveria centenas ou milhares de mortos, como aqui ao lado a guerra civil espanhola causou meio milhão de mortos. No Portugal dos Pequeninos houve quatro mortos e umas dezenas de feridos quando o pessoal da política política encurralado na sede da PIDE, que durante o marcelismo tinha mudado de nome para DGS, atirou sobre os manifestantes, possivelmente mais por medo do que outra coisa.

O major Silva Pais, num depoimento só agora tornado público, descreveu assim a rendição da PIDE de que tinha sido director.    
João Abel Manta
Mais extraordinário do que a queda quase pacífica do Estado Novo é este depoimento do director da polícia política que os delírios anti-fascistas domésticos comparam com a Gestapo - Geheime Staatspolizei - (mas não comparam com o KGB - Комитет Государственной Безопасности, et pour cause), declarando que «aguardava ordens do Movimento», estava às suas «ordens» e recebeu o seu representante «com todas as atenções».

Moral

O Portugal dos Pequeninos é um país de «brandos costumes» como disse António Oliveira Salazar, em entrevista a António Ferro, intelectual republicano admirador de O Botas e uma espécie de ideólogo do salazarismo.

25/04/2025

Mitos (349) - O Estado Novo foi um paraíso perdido com o golpe militar de 25 de Abril que nos trouxe o inferno

O ano passado nesta data tratei do mito do 25 de Abril partilhado pela esquerdalhada. Este ano trato também da outra face do mito partilhada pelos viúvos do Estado Novo.

Tivemos os 48 anos de Estado Novo que, sendo uma ditadura sonsa e beata, não deixou de ser uma ditadura encalhada no tempo, tentando endoutrinar as crianças e os jovens com a Mocidade Portuguesa e organizar os adultos com a Legião Portuguesa, com uma polícia política que vigiava e punia uma oposição fraca quase resumida ao Partido Comunista e garantia que do simulacro de eleições saísse sempre o mesmo resultado. Um Estado Novo que nos manteve numa miséria pacata, onde para usar um isqueiro era preciso ter uma licença (as fábricas de fósforos eram propriedade de eminências do regime) e só nos anos 60 com a adesão à EFTA (European Free Trade Association) se iniciou um período de crescimento interrompido pelo golpe militar. Uma ditadura que tentou, contra as tendências da história, manter um império colonial que nunca chegou a ser império e consumiu as energias de uma geração numa guerra impossível de ser vencida.

Uma ditadura que não sobreviveu quase cinco décadas sem a adesão das elites, dos situacionistas e dos oportunistas (alguns deles viraram a casa) e com a passividade, mansidão e conformidade de um povo traumatizado pela incompetência, violência e instabilidade da 1.ª República. Uma ditadura que se desfez como um castelo de cartas com um simples golpe militar, cuja génese deve mais ao sindicalismo militar e menos à ideologia e aos grandes princípios, golpe militar cavalgado pela única força política organizada.

Com o mesmo povo, gradualmente menos passivo e menos conformado, chegámos ao PREC de onde quase saiu uma ditadura pior do que a do Estado Novo, tivemos a reforma agrária e as nacionalizações que expropriaram o "capitalismo monopolista", desmantelou-se o sector financeiro, hoje quase totalmente controlado por capital estrangeiro, a indústria foi reduzida a microempresas e PME e a uma ou outra sobra das grandes empresas industriais. Foi construído um Estado sucial pletórico, que faliu três vezes nos últimos 50 anos, controlado pelos novos situacionistas e povoado  por um número de funcionários (750 mil) que é o dobro da soma dos "servidores do Estado" (200 mil) com os mobilizados para a guerra colonial (170 mil). As Forças Armadas foram reduzidas a uma tropa pelintra, desmoralizada, mal equipada e incapaz de defender o país. O ensino público foi gradualmente infectado por ideologias neo-marxistas a um grau que rivaliza com a endoutrinação no ensino do Estado Novo mas fica longe do seu grau de exigência técnica. A qualidade do pessoal político degradou-se e a maioria dos ministros do regime actual não teriam por incompetência técnica lugar num governo do Dr. Salazar ou do Dr. Marcelo. O resultado é um país ultrapassado pelos países saídos das ruínas do império soviético, com uma economia pouco competitiva de baixa produtividade, endividado e dependente dos dinheiros europeus.

No final ficámos com o arbítrio mais livre e, em consequência, com menos desculpas, o que só por si é positivo.

13/12/2024

Mitos (345) - As gerações "mais educadas de sempre" são das mais incompetentes da OCDE. Um atestado de fracasso do ensino facilitista e endoutrinador

A OCDE publicou há dias o seu Survey of Adult Skills – Reader's Companion que revela um panorama desastroso das competências dos adultos portugueses (16-65 anos) nas três áreas consideradas: literacia, numeracia e capacidade de resolver problemas. Os três diagramas seguintes mostram a pontuação nas três áreas e apresentam os adultos portugueses no penúltimo lugar dos 38 países da OCDE nas duas primeiras competências e no quinto lugar a contar do último na terceira competência.


Uma vez que uma grande parte da amostra de inquiridos não frequentou ou frequentou apenas um pequeno número de anos no sistema de ensino não universitário do Estado Novo, desta vez não se pode culpar, como é costume, o fascismo por este enorme falhanço.

Estranhamente, os resultados do relatório foram amplamente citados pelos mídia portugueses e até os títulos reflectem uma apreciação muito negativa. Vejam-se como exemplo os seguintes:

  • 40% dos adultos em Portugal só compreende textos simples e matemática básica, indica OCDE (Negócios)
  • Adultos portugueses são dos que têm menos competências na OCDE (Diário de Notícias)
  • Quase metade dos portugueses entende apenas frases curtas e faz cálculos básicos. Na comparação internacional, país atrás da média da OCDE (Observador)
  • Em Portugal 40% dos adultos só compreendem textos simples e matemática básica (Público)
  • Adultos portugueses são dos que têm mais baixa capacidade de compreender textos e números (Expresso)

Suspeito que a explicação para esta exposição do fracasso escolar do sistema "democrático" de ensino  está menos na abertura, integridade ou independência inabituais nos mídia do regime e mais por não terem pensado no assunto e não terem concluído que esse fracasso se deve em grande parte ao facilitismo e à transformação das escolas em locais de endoutrinação e inculcação do áctivismo, transformação que a maioria dos jornalistas de causas que povoam as redacções se têm empenhado a promover.

03/11/2024

Não são fascistas, são matarruanos (ou grunhos)

A esquerdalhada em geral, com a possível e ocasional excepção da esquerda inteligente, quando ouvem falar do Dr. Ventura ou do Chega fazem como a personagem do dramaturgo e poeta nazi Hanns Johst  que na peça Schlageter diz «quando ouço falar de cultura saco logo a minha arma», uma frase que com frequência é erradamente atribuída a Hermann Goering, Joseph Goebbels ou Heinrich Himmler.

No caso do Dr. Ventura ou do Chega, a esquerdalhada saca logo do insulto "fascista" ou "fascismo" e passa adiante. Este não é o caso da Dr.ª Clara Ferreira Alves que sua coluna da revista do semanário de reverência escreve esta semana um artigo (Ventura, nu e cru) onde depois de constatar que «para pertencer doutrinariamente a este clube (o clube da direita de Marine Le Pen ou Bardella, Giorgia Meloni, Viktor Orbán ou Geert Wilders) (...) Ventura e o Chega teriam de estudar história da Europa e história política», o que manifestamente não fizeram, e conclui (e eu com ela): 
«A resposta às democracias liberais terá muitas formas, mas nenhuma com as características de brutalidade verbal e ignorância histórica dos deputados do Chega, inebriados pelo resultado eleitoral que lhes deu um assento no Parlamento. Arruaceiros promovidos, sem ideologia, sem cultura, sem conhecimento, sem doutrina. Sem educação. Se Pacheco de Amorim, o ideólogo culto, pensa que os vai treinar e educar para reinar, pense outra vez. É refém de um grupo de matarruanos, e não foi isto que a extrema-direita portuguesa, com as filiações imperiais e salazaristas contra os desmandos da Primeira República, sonhou.»
Matarruanos ou grunhos, como o outro contribuinte escreveu. E não estou a falar dos eleitores que desses a maioria não são matarruanos, são ressabiados, desiludidos, desapontados, discriminados ou simplesmente desperdiçados, vulneráveis à banha-da-cobra que lhes é impingida. 

Estou já a escutar os protestos de uma direita que se considera inteligente e acredita que vale a pena seduzir uns matarruanos liderados por chico-espertos com muita lábia e poucos princípios, num expediente que em linguagem popular se costuma descrever como "se não se tem cão caça-se com gato". Voltarei um dia a este tema e por agora apenas recordo que um gato só caça ratos, passaritos, lagartixas e similares.

24/10/2024

As I said, General Mark Miller was wrong. Mr. Trump is not a "fascist to the core", or even a fascist at all

Last week I posted that I strongly desagreed with General Mark Milley who considers Mr. Trump a «fascist to the core», because from my point of view Mr. Trump is not a fascist, much less fascist to the core, the core he doesn't have. To be a fascist to the core, he would have to believe deeply in something and be interested in something that goes beyond Mr. Trump himself.

It was a bold statement because I haven't been introduced to Mr. Trump yet. Fortunately, John Bolt, a former diplomat and former National Security Advisor to President Donald Trump, came to my rescue and  stated on CNN's The Source:

«I think it’s a mistake to get into a controversy over whether Trump meets the definition of fascist or not. I think his behavior alone is troubling enough. To be a fascist, you have to have a philosophy. Trump’s not capable of that. You know, Adolf Hitler wrote a profoundly troubling book called Mein Kampf – “My Struggle.” Donald Trump couldn’t even read his way all the way through that book, let alone write something like it.»

That's it. 

18/10/2024

Questions (343) - Is Mr. Trump a "fascist to the core", as General Mark Miller says?

 «In March 2023, when Mark Milley was six months away from retirement as a four-star general and the chairman of the Joint Chiefs of Staff, he met Bob Woodward at a reception and said, “We gotta talk.”

Milley went on to describe the grave degree to which former President Donald Trump, under whom Milley had served, was a danger to the nation. Woodward recounts the episode with Milley—who almost certainly believed that he was speaking to Woodward off the record—in his new book, War:

“We have got to stop him!” Milley said. “You have got to stop him!” By “you” he meant the press broadly. “He is the most dangerous person ever. I had suspicions when I talked to you about his mental decline and so forth, but now I realize he’s a total fascist. He is the most dangerous person to this country.” His eyes darted around the room filled with 200 guests of the Cohen Group, a global business consulting firm headed by former defense secretary William Cohen. Cohen and former defense secretary James Mattis spoke at the reception.

“A fascist to the core!” Milley repeated to me.

I will never forget the intensity of his worry."»

 The General’s Warning, The Atlantic

I strongly desagree with General Mark Milley. Mr. Trump is not a fascist, and even less so to the core he does not have one. To be a fascist to the core, he would have to believe deeply in something and be interested in something that goes beyond Mr. Trump himself.

08/05/2024

ESTÓRIA E MORAL: Pode-se servir a dois senhores, mas não ao mesmo tempo (salvo no caso dos espiões duplos)

Estória
 
João Abel Manta

Nas últimas duas semanas, a Revista do Expresso publicou duas peças (*) sobre Lima de Carvalho uma personagem relativamente conhecida, pelo menos de quem tivesse visitado a Galeria de Arte do Casino Estoril, mas com uma vida durante o Estado Novo desconhecida de quase todos - a de funcionário discreto do  Serviço de Leitura Especializada da Direção dos Serviços de Censura encarregado das publicações não periódicas em acumulação com redactor anónimo do jornal "A Voz", uma das vozes do regime. Desconhecida de quase todos, mas não de todos. A célula local do PCP no Casino Estoril sabia do seu passado e manteve-se um prudente silêncio tirando vantagem dessa informação, como fazia habitualmente com "arrependidos" do regime.

O interessante desta estória é que Lima de Carvalho serviu com igual zelo, ou mesmo melhor, a democracia, que o condecorou com o grau de oficial da Ordem do Infante D. Henrique, e a ditadura que os jornalistas do Expresso, talvez para exorcizar os seus fantasmas, chamam "fascismo",  o que o antigo regime nunca foi, como qualquer alma que conheça história saberá.  

Moral

Quando Jesus disse (Mateus 6:24)  «Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro», referia-se, obviamente, a servi-los ao mesmo tempo. 

Como o pintor e cartunista Abel Manta, muito bem retratou, os tempos que se seguiram à queda do Estado Novo foram pródigos em conversões maciças. Eu próprio já recordei várias vezes ter então descoberto que o país estava coalhado de democratas, socialistas e comunistas. Em cada empregado servil, venerador, de espinha dobrada e mão estendida, havia um heróico sindicalista pronto a lutar pelos direitos dos trabalhadores e pelo «saneamento» do patrão.

______________

(*) ‘Frei’ Lima de Carvalho e os seus dois regimes: a história secreta do censor que se tornou patrono das artes após o 25 de Abril e O camaleão: como o PCP ajudou a reabilitar um antigo censor do Estado Novo.

25/04/2024

Mitos (335) - O Estado Novo foi uma ditadura feroz e Portugal viveu uma longa noite escura que terminou com a alvorada de 25 de Abril e os amanhãs que cantam

Por razões que possivelmente radicam na consciência difusa e não assumida das fraquezas e contradições do regime actual saído da queda do Estado Novo, a esquerda, e com ela a legião de jornalistas e comentadores afectos, em vez de contribuir para reduzir essas fraquezas, desperdiça o seu talento a incensar o actual regime, ao mesmo tempo que distorce a história vilipendiando o Estado Novo.
A realidade, como habitualmente, é mais complexa do que o retrato resultante das simplificações ideológicas. Sem elaborar muito sobre este tema, remeto para «As causas do atraso português», o livro de Nuno Palma, a respeito do qual publiquei a série de oito posts Uma obra de demolição de alguns dos mitos mais populares no Portugal dos Pequeninos e acrescento agora meia dúzia de factos e considerações. 

Tivemos o PREC do qual quase saiu uma ditadura pior do que a do Estado Novo, tivemos a reforma agrária e as nacionalizações que expropriaram o "capitalismo monopolista", desmantelou-se o sector financeiro, hoje quase totalmente controlado por capital estrangeiro, a indústria foi reduzida a microempresas e PME e a uma ou outra sobra das grandes empresas industriais. Foi construído um Estado sucial pletórico que faliu três vezes nos últimos 50 anos, povoado por um número de funcionários (750 mil) que é o dobro da soma dos "servidores do Estado" (200 mil) com os mobilizados para a guerra colonial (170 mil). As Forças Armadas foram reduzidas a uma tropa pelintra, desmoralizada, mal equipada e incapaz de defender o país. O ensino público foi gradualmente infectado por ideologias neo-marxistas a um grau que rivaliza com a endoutrinação no ensino do Estado Novo mas fica longe do seu grau de exigência técnica. A qualidade do pessoal político degradou-se e a maioria dos ministros do regime actual não teriam por incompetência técnica lugar num governo do Dr. Salazar ou do Dr. Marcelo. O resultado é um país ultrapassado pelos países saídos das ruínas do império soviético, com uma economia pouco competitiva de baixa produtividade, endividado e dependente dos dinheiros europeus.

Por coincidência, li ontem uma carta de Francisco Pereira de Moura (FPM), antigo professor de Economia do ISCEF (actualmente ISEG), escrita em 1965 aos membros do colégio eleitoral que haveria de reeleger o factótum almirante Américo Tomás. Nessa carta, cuja leitura proporciona uma visão matizada e realista do que era o Estado Novo, FPM, então considerado um homem da "Situação", critica frontalmente a designação do presidente da República por um colégio eleitoral, de que ele próprio fazia parte como procurador da Câmara Corporativa, colégio que substituiu o sufrágio universal directo em resposta aos «acontecimentos que rodearam a eleição presidencial de 1958» (em que participou o general Humberto Delgado).

A crítica de FPM foi muito para além da alteração do processo eleitoral, ditada pela necessidade do governo controlar os seus resultados, e pôs em causa de forma claríssima os fundamentos do próprio regime. É certo que nesse mesmo ano FPM terminou o mandato na Câmara Corporativa mas continuou a ser tolerado pelo salazarismo, não sofreu retaliações, veio a ser um dos fundadores da Comissão Democrática Eleitoral (CDE), daria origem ao MDP/CDE, e só em 1973 foi demitido da função pública pelo governo de Marcelo Caetano por ter participado na vigília anticolonial na Capela do Rato. 

O que mostra esta carta? A falsidade de dois mitos em contraponto: o mito da ditadura despótica do salazarismo cultivado pelos "anti-fascistas" (a propósito, o Estado Novo nunca foi fascista) e o mito do Estado Novo como um quase paraíso cultivado pelos situacionistas retardados.

13/12/2023

Mitos (333) - Lisboa no Estado Novo não era um deserto cultural

Para quem tenha sido infectado por uma década ou mais de ensino "progressista" e de formatação esquerdista da História, é difícil de imaginar que se passassem na Lisboa dos anos 50 coisas como esta descrita por Jorge Calado, cientista e melómano.  

«Hoje é inimaginável, mas o Teatro Nacional de São Carlos (TNSC) era, então, um dos melhores e mais prestigiados teatros de ópera da Europa. Certamente melhor que Madrid (praticamente sem ópera), e com melhores elencos que Paris. Apresentava, em média, 15 títulos por temporada! Wagner era cantado pelos solistas de Bayreuth, e Mozart pela elite dos cantores da Ópera Estatal de Viena. Em 1949 e 50, Tebaldi cantara cá sete papéis (Mozart, Rossini, Verdi, Gounod, Giordano). Em 1958 — o ano da Callas — tivemos a Elektra, de Christel Goltz, e a Brünnhilde (“Die Walküre”), de Birgit Nilsson, a estreia (!) do “Così fan tutte”, de Mozart, com o superlativo elenco da Ópera de Viena, “Falstaff” com Tito Gobbi e Renata Scotto (aos 24 anos), Giulietta Simionato e Luigi Alva na “Italiana in Algeri”, “Dialogues des Carmélites”, de Francis Poulenc, um ano após a estreia mundial no Scala de Milão e com a mesma encenadora (a célebre Margherita Wallmann), “Príncipe Igor” (estreia portuguesa), do químico Borodine, etc. Quanto ao parceiro da divina Callas, o desconhecido Alfredo Kraus, afirmar-se-ia como o tenor predileto da casa! (Em 1958 cantou também o Duque de Mântua e o Chevalier de la Force nos “Dialogues”.)

Excetuando Itália, Londres e Nova Iorque — onde cantou regularmente — e Grécia, México, Brasil e Argentina no início da carreira, Callas apresentou-se em óperas completas em muito poucas cidades do continente europeu. A Companhia do Scala de Milão levou-a a Berlim e Viena (com a “Lucia di Lammermoor”, dirigida por Karajan) e a Colónia (com “La sonnambula”); Paris só a viu em cena pela primeira vez, em 1964 (“Norma”), no final da carreira. A vinda a Lisboa foi um golpe de génio e sorte de José Duarte de Figueiredo, o diretor vitalício do São Carlos (por alcunha, “O Figueirinhas”).»

Excerto de «A mulher que morreu três vezes», Jorge Calado na Revista do Expresso

07/01/2023

Encalhados numa ruga do contínuo espaço-tempo (101) - Uma impostura a pretexto de "O Impostor"

Que Paula Rego tenha intitulado «O Impostor» um quadro de 1964 onde, diz o ministro da Cultura, Salazar é retratado «satiricamente como um polvo», isso é lá com ela. É uma opção "artística" que para o caso é igual ao litro porque os artistas devem poder fazer o que lhes dá na realíssima gana.

Já o ministro ter decidido comprar o quadro por 400 mil euros porque, explicou ele, «esta peça é muito maior, e tem outro significado e relevância para estar exposta num museu de arte contemporânea com um perfil internacional» e é «muito emblemática por várias razões», isso já não é só com ele. É também com quem pensa, como este vosso escriba, que esta peça não é «muito maior», que usá-la para pagar com dinheiro dos contribuintes o tributo da esquerdalhada ao antifascismo é abusivo e que o título é simplesmente inadequado porque Salazar poderia ser, e foi, muita coisa, mas não foi certamente um "impostor", adjectivo que com toda a propriedade poderia ser aplicado à maioria dos que lhe sucederam depois da queda da cadeira, segundo uns, ou da banheira, segundo outros. 

De resto, é um bocado estúpido estar a usar «O Impostor» para colar a martelo um rótulo de vítima do "fascismo" a Paula Rego por várias razões, como seja o facto desse quadro um ano depois de ter sido pintado ter sido pacificamente exposto na Sociedade Nacional de Belas Artes ainda em vida de Salazar.

04/11/2022

Ser de esquerda é... (17) ... entender que há um totalitarismo mau e um totalitarismo bom

Outros "Ser de esquerda é..."

«A exposição “Totalitarismos na Europa”, dedicada aos crimes cometidos por regimes fascistas e comunistas em diversos países europeus, foi recusada pela Assembleia da República quase cinco meses após ser enviado um pedido, a 1 de Maio, para que estivesse patente no Palácio de São Bento. Para a decisão de Augusto Santos Silva contribuíram as objecções dos representantes dos partidos de esquerda no Grupo de Trabalho para as Actividades Culturais (GTAC), órgão consultivo do presidente da Assembleia República.» (Novo Semanário)

05/10/2022

TIROU-ME AS PALAVRAS DE BOCA: Marx morreu e todos queremos ser ricos

«Não apenas queremos todos ser ricos, como relegámos para o caixote do lixo da história os mais elementares deveres de compaixão e solidariedade. Veja-se a crise dos refugiados, que convém não confundir com imigrantes, embora também estes devessem ter um acolhimento fraterno. Pois bem, refugiados e imigrantes são um dos principais ingredientes de que se alimentam as novas direitas radicais que se estão a impor na Europa.

Não subscrevo a tese da xenofobia: o que move a animosidade dos novos cidadãos-consumidores é a concorrência no mercado de trabalho, e não o facto de os arribados à Europa serem estrangeiros, pese embora o facto de que a integração socio-cultural destes novos hóspedes possa suscitar conflitos sociais e coloque aos Estados problemas muito difíceis de resolver. 

A social-democracia, por mais subsídios que invente, não resolve estes problemas: os imigrantes e refugiados são mal vindos, e o dinheiro que distribui nunca é suficiente. Não há nada em Marx que nos ajude a pensar este tipo de questões, como o fascínio do consumismo e o desejo de riqueza.

Porquê? Porque não há nada em Marx que leve em conta a natureza humana. Mas, muito precisamente, o que fazem os partidos de direita radical, ditos populistas, é levar em conta a natureza humana e ir ao encontro do que nela existe de menos nobre, mas que é o que é e, pelos vistos, o que dá votos.

Marx morreu.»

Maria de Fátima Bonifácio no Nascer do Sol

17/07/2022

ACREDITE SE QUISER: Mudam-se os tempos, não se muda a CP

«Há uns anos, um meu conhecido saiu-se com uma frase. Sabes, ele tinha uma loja de decoração, faliu e ficou sem nada. O que vale é que lhe arranjaram um lugar na administração da CP.

Sabe o que é isto? ASCEF. FENTCOP. SERS. SIFA. SINAFE. SINDEFER. SINFA. SINFB. SIOFA. SMAQ. SNAQ ESTMEFE. SNTSF. FECTRANS. SFRSI. ASSIFECO.

Numa viagem no Alfa Pendular de Lisboa para o Porto, atrasado meia hora, ar condicionado rebentado, comida e bebidas esgotadas e comboio apinhado de gente e bagagens, resolvi ir ao portal da CP para perceber o que se faz no Conselho de Administração. Parece que tudo o que o CA faz é negociar com sindicatos e emitir comunicados sobre as negociações com sindicatos, quando há anúncios de greve. E há anúncios de greve quase todas as semanas.»

Foi assim, numa pausa no seu cosmopolitismo obsessivo-compulsivo, que a Drª Clara Ferreira Alves, aka Pluma Caprichosa, desceu à terra e se deu conta do estado de um dos engenhos mais eficazes a torrar o dinheiro dos contribuintes a pretexto de lhes proporcionar transporte público ferroviário.

É a continuidade por outros meios da CP fássista, a propósito da qual se contava umas décadas atrás a anedota de um funcionário que indignado por não contratarem o filho se queixava «não há nenhum filho da puta que não entre na CP, só o meu filho é que não.»

04/05/2022

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: O povo do Portugal dos Pequeninos é um bocadinho lerdo

«Celebram-se 48 anos sobre o 25 de Abril de 1974. 48 anos é o tempo que um português precisa para perceber que uma ditadura é uma ditadura. Foi assim com o Estado Novo e é assim com o PCP. Ao fim de 48 anos a declarar-se vítima de agressões mal era questionado, a reconhecer nazis e fascistas em qualquer um que lhe denunciava a táctica e a dizer-se provocado sempre que era criticado, o PCP passou a ser identificado como aquilo que é e sempre foi: um partido que retira todas as vantagens das democracias a que chama burguesas e capitalistas enquanto apoia as ditaduras mais sinistras que o mundo conhece e conheceu. Face ao tempo necessário para que em Portugal se constate o óbvio, pode com segurança concluir-se que, politicamente falando, os portugueses são de compreensão lenta. Tão lenta que provavelmente só daqui a meia dúzia de anos começarão a interrogar-se sobre os bastidores da geringonça. Mas mais vale tarde que nunca.»

Um país de compreensão lenta, Helena Matos no Observador

30/04/2022

Denazification and demilitarization according to Tsar Vlad's Grozny model (3)

Continuação de (1) e (2).

Economist

‎The map shows the estimated areas of Mariupol destroyed since the beginning of March. The share of the city that was severely damaged increased by an average of 0.8 percentage points per day and reached 45% by 17 April, representing about 20,000 buildings in the which more than 90% of the damaged buildings were residential. Since 17 April the attacks have intensified and the destruction has also increased significantly.

01/04/2022

Denazification and demilitarization according to Tsar Vlad's Grozny model (2)

Continuação deste post.

     

«In the besieged city of Mariupol, scene of the heaviest fighting in Russia’s three-week war in Ukraine, people are so hungry they are killing stray dogs for food.

Dmytro, a businessman who left the city on Tuesday, said friends told him they resorted to this desperate measure in the past few days after their supplies ran out.

“You hear the words but it’s impossible to really take them in, to believe this is happening,” he added. “It is hell on earth.”

Once one of Ukraine’s most important ports, Mariupol is now a charnel house, a city of ghosts. For more than two weeks it has been subjected to a Russian bombardment of such intensity that it has turned whole neighbourhoods into piles of smouldering rubble.

After days of punishing aerial and artillery assaults that broke Mariupol’s three lines of defensive fortifications, Russian troops have now entered the city centre, with heavy fighting reported on some of its main shopping streets and near Theatre Square, a key landmark.»

Excerpt from ‘Hell on earth’: survivors recount the assault on Mariupol | Free to read

13/03/2022

The demilitarization and denazification of Ukraine is a little overdue. The destruction of the country continues at a good pace. The Ukrainian people do not seem grateful and welcome the liberators with weapons in their hands

A view of a destroyed school in Kharkiv. [Sergey Bobok/AFP]

«In this context, in accordance with Article 51 (Chapter VII) of the UN Charter, with permission of Russia’s Federation Council, and in execution of the treaties of friendship and mutual assistance with the Donetsk People’s Republic and the Lugansk People’s Republic, ratified by the Federal Assembly on February 22, I made a decision to carry out a special military operation. 

The purpose of this operation is to protect people who, for eight years now, have been facing humiliation and genocide perpetrated by the Kiev regime. To this end, we will seek to demilitarise and denazify Ukraine, as well as bring to trial those who perpetrated numerous bloody crimes against civilians, including against citizens of the Russian Federation. 

It is not our plan to occupy the Ukrainian territory. We do not intend to impose anything on anyone by force.»

Vladimir Putin’s Televised Address on Ukraine, 24-02