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30/08/2026

Os equívocos do Programa "Mais Habitação", ou como tentar administrar uma medicação sem saber qual é a doença (15)

Continuação de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10), (11), (12), (13), (14)

Segundo o presidente do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) terá financiado 31 mil casas até ao fim de Agosto.

mais liberdade

À primeira vista, parece um grande feito. À segunda vista, nem por isso. Desde logo, porque o PRR durou 5 anos e o contributo do maior programa de sempre que inundou o país com 22 mil milhões de euros (16,3 mil milhões de euros em subvenções e 5,6 mil milhões de euros de empréstimos) foi de pouco mais de 6 mil habitações por ano, o equivalente a menos de 40% da média anual de novas habitações na primeira década deste século. Depois, porque só metade das 31 mil habitações são novas, as restantes são reabilitação ou transformação de edifícios de serviços e industriais.

Se considerássemos o contributo do PRR para mitigar a carência de habitação uma notável realização em Portugal, como classificaríamos a realização de Auckland, a maior cidade da Nova Zelândia (menos de metade da população portuguesa) que cresceu de 1,3 milhões para 1,8 milhões em 2025 (cerca do triplo da população da cidade de Lisboa e mais de metade da população da área metropolitana de Lisboa) que há 10 anos enfrentava uma crise habitacional ? Talvez como um milagre.

O milagre consistiu em várias medidas, nomeadamente duas: foram fundidos oito órgãos locais e a cidade, entalada entre dois portos, começou a crescer em altura. Os resultados foram mais 100 mil habitações e uma queda de 25% dos preços

16/05/2026

Javier Milei ganhou uma batalha. Ganhar a guerra é outra coisa e, a ser possível, levará algum tempo (3)

Continuação de (1), (2)

Já o escrevi e repito: uma criatura com instintos liberais vê com natural simpatia os esforços de Javier Milei para pôr em prática políticas visando emagrecer o Estado dinossáurico argentino e dar aos argentinos liberdade para viverem as suas vidas sem o jugo de uma "casta" extractiva. Também escrevi que a política é a arte do possível e acrescento que o possível para um governo democrático é um possível mais limitado do que o possível numa autocracia. 

E o possível na Argentina está chocar de frente com uma economia a tropeçar (o PIB caiu 2,6% em Fevereiro, a inflação subiu 3,4% em Março e o desemprego continua a aumentar) e os escândalos a crescerem, como o da criptomoeda $LIBRA promovida por Milei que se suspeita ter recebido pagamentos como consultor dos promotores, uma criptomoeda que um desastre para a maioria dos seus detentores (uma minoria "bem informada" vendeu antes do descalabro), ou o escândalo do chefe de gabinete Adorni a ser investigado por corrupção.

Fonte

Por tudo isto, a queda abissal da taxa de aprovação de Milei não é surpreendente. O que é uma surpresa para quem o imaginava com fortes convicções liberais é estar a fazer o que fazem os regimes autocráticos: inventar um inimigo.


É possível que a imprensa argentina esteja infestada pelo jornalismo de causas, acontece um pouco por todo o lado, mas os factos são os factos e as mentiras combatem-se com factos. A invenção de um inimigo por Milei não é original; quase todos os governos, com pouca consideração, to say the least, pela liberdade de expressão e pela democracia, a usam.

29/01/2026

CASE STUDY: O resultado das políticas de rendas acessíveis são rendas inacessíveis

Rendas mais recentes de um T1 compilados pelo Eurostat
Salário médio em cada cidade estimado pelo ERI (Créditos)

Não será por acaso que, também neste domínio, o Portugal dos Pequeninos tem como companhia sobreviventes do colapso do "socialismo real".

08/01/2026

Javier Milei ganhou uma batalha. Ganhar a guerra é outra coisa e, a ser possível, levará algum tempo (2)

mais liberdade

Já algumas vezes coloquei reservas à governação de Milei na convicção de que os fins prosseguidos são inseparáveis dos meios adoptados, como a História mostra abundantemente. Apesar dessas reservas, não se pode deixar de salientar os resultados alcançados, pelo que, sendo a política a arte do possível, como escrevi, Milei merece o apoio dos democratas liberais, pelos resultados e para evitar a apropriação indevida e equívoca de Javier Milei pela direita populista.

18/11/2025

Os equívocos do Programa "Mais Habitação", ou como tentar administrar uma medicação sem saber qual é a doença (14) - Adam Smith de 1776 em vez da verborreia ideológica

Continuação de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10), (11), (12) e (13)

mais liberdade

«Quando a quantidade de qualquer mercadoria que chega ao mercado é inferior à procura efectiva, todos aqueles que estão dispostos a pagar o valor total da renda, dos salários e do lucro necessários para que ela chegue ao mercado, não podem obter a quantidade desejada. Em vez de ficarem sem nada, alguns estarão dispostos a pagar mais. Imediatamente, começará uma competição entre eles, e o preço de mercado subirá mais ou menos acima do preço natural, conforme a magnitude da escassez ou a riqueza e o luxo desenfreado dos concorrentes estimulem, em maior ou menor grau, o fervor da competição. Entre concorrentes de igual riqueza e luxo, a mesma escassez geralmente ocasionará uma competição mais ou menos acirrada, conforme a aquisição da mercadoria seja mais ou menos importante para eles. Daí o preço exorbitante dos bens de primeira necessidade durante o bloqueio de uma cidade ou em tempos de fome.»

Adam Smith, An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations - The Wealth of Nations - Book I - Chapter VII

27/10/2025

Javier Milei ganhou uma batalha. Ganhar a guerra é outra coisa e, a ser possível, levará algum tempo

Para uma criatura com instintos liberais, como este vosso escriba, é natural ver com simpatia os esforços de Javier Milei para pôr em prática políticas visando emagrecer o Estado dinossáurico argentino e dar aos argentinos liberdade para viverem as suas vidas sem o jugo de uma "casta" extractiva.

Como sempre, os problemas na política não são só, nem principalmente, os fins, são também os meios e os estilos. Qualquer um poderia concordar com o essencial dos propósitos declarados da maioria das organizações políticas, já quanto aos caminhos para os atingir, a coisa fia mais fino.

Esquecendo o estilo que apela perigosamente ao simplismo e à irracionalidade, esses caminhos também no caso do actual presidente argentino estão longe de ser inquestionáveis, como mostram os exemplos aqui citados: a promoção de uma criptomoeda duvidosa que foi um fiasco, as suspeitas de corrupção da sua irmã e do principal candidato que veio a renunciar. Podia acrescentar, com grande ira dos devotos do Sr. Trump, deixar-se apropriar pela direita populista iliberal e em particular pelo trumpismo, com quem tem pouco em comum e a quem foi esmolar um swap cambial de 20 mil milhões para apoiar o peso.

Ainda assim, sendo a política a arte do possível, Milei merece o apoio dos democratas liberais.

26/10/2025

Javier Milei's troubles. Do as I say, not as I do

«Mr Milei’s economic team is in Washington, trying to hash out the details of the bail-out and buy some calm. Yet even if they can navigate American politics, the Argentine variety may swamp them. A serious loss in the midterms would all but end Mr Milei’s radical economic reform programme.

The coming weeks will be tough. Voters consider Mr Milei’s success in pulling down inflation to be old news. Corruption allegations and the gyrations of the peso dominate the headlines. It is still—just—possible that Mr Milei could emerge after the elections with markets calmed and his political hand strengthened. But he needs to make it to October 26th without more exchange-rate chaos, and then win enough seats in Congress to convince markets that his reform project is still alive. (...)

Then Mr Milei needs to win, or at least take enough seats to allow him to defend his presidential veto. But his electoral strategy is in trouble. His dogmatism has alienated powerful provincial governors. He came to power in 2023 raging against “la casta”, the corrupt political elite. “I’m hungry for the whole caste,” he roared again during his concert. And yet he has been hit by three big corruption scandals this year.

The first was over his promotion of a dodgy cryptocurrency that soon collapsed in value. Then, in August, leaked audio messages led to allegations that his sister was taking kickbacks from purchases of medicine by the state disability agency. The latest blow was on October 5th, when José Luis Espert, the leading candidate of Mr Milei’s party in Buenos Aires, whose face is already on the ballot papers, stood down. He admitted to receiving $200,000 from a man indicted in the United States for drug-trafficking, but says it was for legitimate consulting work. In all three cases those involved deny wrongdoing.

Curbing rampant inflation is the other pillar of Mr Milei’s pitch. Fast-rising prices used to be voters’ biggest worry, but unfortunately for him they have moved on, and now corruption tops the list. That inflation concerns have ebbed is a testimony to Mr Milei’s success, but he has failed to pivot to other issues. An overvalued peso helped to curb price growth, but propping it up has both hurt employment and exacerbated the exchange-rate crisis. Now more voters worry about jobs than inflation.

Polling suggests Mr Milei’s party still has a chance. But momentum is against it. He will need more than rock concerts to turn things around.»

The Argentine peso, and Javier Milei, are in trouble

19/10/2025

PUBLIC SERVICE: Trump Is Making Socialism Great Again. Capitalism needs better advocates.

«In 2002, toward the end of her public career, Thatcher was asked to name her greatest achievement. “Tony Blair and New Labour,” she replied. “We forced our opponents to change their minds.”

Sanders might say the same about Trump and his Republican Party. Goodbye to Reagan-era enthusiasm for markets and trade: Trump vowed much more aggressive and intrusive government action to protect American businesses and workers from global competition. He also offered a bleak diagnosis of America’s condition, for which the only way forward was to return to the past.

At the same time, Trump’s persona vindicated every critique Sanders might advance about the decadence of late capitalism. Here was a putative billionaire whose business methods involved cheating customers and bilking suppliers. His private life was one scandal after another, and he spent his money on garish and gimcrack displays. He staffed his administration with plutocrats flagrantly disdainful of the travails of ordinary people, and with grifters who liked to live high on public expense. (...)

11/09/2025

CASE STUDY: EU-MERCOSUR Partnership Agreement. Uma no cravo, outra na ferradura

Por um lado, a Comissão Europeia promove um acordo de parceria com a Mercosur contrariando a tendência inaugurada pela administração Trump de restrições ao comércio internacional, por outro sucumbe às pressões dos agricultores, nomeadamente dos agricultores franceses, sempre prontos à tomada da Bastilha com as suas marchas de tractores, no sentido de adoptar medidas proteccionistas que retiram uma boa parte do potencial do acordo. 

Leia-se o anúncio do acordo com o sugestivo título OPENING OPPORTUNITIES FOR EUROPEAN FARMERS que a CE publicou há dias, de onde extraio os seguintes excertos que apresentam o acordo com um propósito imaginário do título, acordo cujo interesse é sobretudo da abertura dos mercados sul-americanos aos produtos europeus em troca da abertura dos mercados europeus aos produtos agrícolas sul-americanos, aproveitando as vantagens competitivas de cada uma das zonas económicas. 

«The EU-Mercosur agreement will open unprecedented access to the countries of Mercosur for European farmers and food producers. Mercosur countries are growing and dynamic markets, with high barriers to entry. Providing EU farmers and agri-food producers with greater access to these markets will give them a first-mover advantage and a more secure position in years to come. At the same time, the agreement will shield Europe’s farmers from undue market pressure. (...)

The EU will grant very limited access to its market to imports of agri-food products. For sensitive products like beef, poultry or sugar, in particular, access to the EU market will be permanently limited through gradually implemented quotas. Moreover, a bilateral safeguard clause can be applied in case increased imports from Mercosur cause - or even only threaten to cause - serious injury to the relevant EU sectors. For the first time, this safeguard clause also covers imports under tariff rate quotas.

The deal will have limited impact on the EU beef market and will not generate further deforestation in Mercosur. The agreement does not give duty-free access to Mercosur beef. It will allow 99,000 tonnes of Mercosur beef to enter the EU market with a 7.5% duty. 55% of the quota will consist of fresh or chilled meat and 45% of lower-value frozen meat.»

30/08/2025

Não há a certeza que o publicitário e o público-alvo tenham sentido de humor...

Caderno de Economia do Expresso

... o que, se assim for, nos leva à conclusão que um anúncio pode dar-nos um retrato mais rigoroso do empresariado do Portugal dos Pequeninos do que uma centena de estudos.

23/08/2025

Os caminhos de ferro indianos como inspiração para resolver alguns problemas da CP

Em meados do século XIX, a Inglaterra introduziu na Índia, à época sua colónia, exames mais difíceis para a selecção de funcionários públicos, incluindo os locais, que até então eram frequentemente escolhidos por "cunha". Esperava, assim, seleccionar os melhores candidatos e afastar os incompetentes bem relacionados. De passagem, é razoável suspeitar que parte dos problemas das ex-colónias portuguesas podem ter resultado de a administração colonial portuguesa não ter seguido o exemplo da pérfida Albion.

Ainda hoje, os exames para a selecção de funcionários dos caminhos de ferro indianos respeitam essa tradição e o exame do concurso para ajudantes de condutores de comboio tem perguntas de resposta múltipla como a seguinte:

Fonte: 1843 magazine

Pensando nos problemas da nossa CP, entre os quais se encontra inevitavelmente a falta de competência (e de diligência) do seu pessoal, imaginei sugerir ao ministro Dr. Matias incluir entre as reformas que o governo do Dr. Montenegro vai executar a introdução de exames deste tipo para a selecção de pessoal do nosso elefante branco ferroviário. É claro, que não querendo ser lunático, não estou evidentemente a pensar na selecção dos ajudantes de condutor, nem mesmo dos quadros da CP, estou apenas a pensar nas nomeações para a administração.

30/07/2025

SERVIÇO PÚBLICO: A irracionalidade do Sistema Eléctrico Nacional

Alguns dias depois do último apagão no dia 28 de Abril, o Dr. Pedro Amaral Jorge, presidente da APREN – Associação Portuguesa de Energias Renováveis, veio dizer urbi et orbi que «atribuir a culpa do apagão às renováveis é absurdo», o que, podendo ser exagerado ou não ser toda a verdade, não é absurdo dada a natureza intermitente das energias renováveis (ver a título de exemplo imagem aqui ao lado e atente-se que no caso português não há baterias) e a consequente complexidade de gerir os sistemas eléctricos que delas dependem fortemente. Estamos perante aquele tipo de problemas que se enquadram no adágio "too much of a good thing can be a bad thing", sendo certo que a medida do excesso e o limite a partir do qual temos um problema é eminentemente mutável e dependente do contexto físico e dos sistemas de gestão da energia existente.

A agravar estes problemas temos no caso português os incentivos errados para investir nas energias renováveis que atingiram o auge com os governos socialistas e foi a este respeito que recordei ter lido recentemente um artigo do Eng. Clemente Pedro Nunes, que vou citar integralmente para não se perder na espuma dos dias, como dizia o Boris, em intenção de quem preferir conhecer a natureza das coisas em vez de debitar slogans. Aqui vai ele.  

«A competitividade da economia portuguesa exige um Sistema Elétrico otimizado.
             
A eletricidade, entendida como ‘fluxo eletrónico’, não se armazena diretamente, o que torna o Sistema Elétrico muito exigente em termos do fornecimento estável aos consumidores.

A introdução, a partir de 2005, de milhares de MW de potências intermitentes, eólicas e solares, protegidas por FIT – Feed In Tariffs, provocou um ‘desastre económico’ no Sistema Elétrico Português.
As FIT são ‘mecanismos político-contratuais’ que conferem, aos investidores que deles beneficiam, uma ‘reserva de mercado’ com as seguintes vantagens:
1. A respetiva eletricidade tem acesso sempre garantido à Rede Pública, mesmo que o mercado dela não necessite;
2. O produtor tem sempre um preço de venda garantido, normalmente muito acima do preço do mercado livre nesse momento;
3. Todos os encargos com os backups para evitar os ‘apagões’ provocados pelas intermitências, são suportados pelos consumidores.

03/04/2025

O Portugal dos Pequeninos não é deste mundo (2)

 Continuação de (1)


Ao lítio, um metal essencial para a tão celebrada "transição energética" cuja exploração continua a ser empatada, ao petróleo cuja exploração foi proibida, e aos terrenos para construção cuja "lei dos solos" foi reduzida a quase nada, parlamento acrescentou uma moratória sobre a mineração em mar profundo até 2050 (Lei n.º 36/2025, de 31 de março). 

Para um país que importa anualmente mais de 20 milhões de toneladas de minerais e produz pouco mais de 1 milhão de toneladas, que tem uma Zona Económica Exclusiva com 1,7 milhões de kms ou quase 20 vezes a área do território, ZEE que é a 3. ª maior da UE e representa 11 % da ZEE da União Europeia, abdicar da mineração em mar profundo nos próximos 25 anos, em que estão em curso avanços tecnológicos importantes para reduzir o impacto ambiental dessa mineração, é uma mutilação suicidária.

20/03/2025

Dúvidas (346) - Não seria melhor despedir o Fed e nomear o pessoal do MAGA?

Fed Summary of Economic Projections, March 19, 2025

Na reunião de ontem, na semana seguinte ao POTUS ter anunciado que as tarifas tornarão os EUA "novamente ricos", o Fed reviu em baixa as suas projecções de crescimento em 2025 de 2,1% para 1,7%, reviu em alta as projecções do desemprego de 4,3% para 4,4% e de inflação de 2,5% para 2,8%. Anunciou também que manteria as taxas de juro e, talvez por isso, os mercados que receavam um aumento reagiram positivamente.

09/03/2025

O Portugal dos Pequeninos não é deste mundo


Portugal importa por ano uns 12 milhões de toneladas de petróleo bruto que aos preços correntes podem custar 6 ou 7 mil milhões de euros, ou seja algo ao redor de 2,5% do PIB. Por muita transição energética que se faça durante décadas, daria imenso jeito ter uma extracção local de petróleo. Há uns 7 anos um Tribunal travou prospecção de petróleo no Algarve.

O lítio é um dos metais mais importantes para a transição energética e Portugal parece ter as maiores reservas de lítio na Europa. Andamos a encanar a perna à rã há vários anos e até hoje a extracção de lítio é irrelevante.

Há uma década ou mais que os políticos, os mídia e o comentariado todos os dias falam ou escrevem sobre a falta de habitação "digna" e os governos apresentam esplêndidos programas, reconhecendo-se que a construção de novas habitações depara com a falta de terrenos. Há meses que se discute uma “lei dos solos” para disponibilizar solos para construção a preços acessíveis, e os políticos, os mídia e o comentariado gritam contra “especulação imobiliária” que tal lei desencadearia apesar da lei ser praticamente inaplicável por falta de terrenos rústicos nos municípios de Lisboa e Porto onde a carência de habitação é mais acentuada.

E estamos assim.

19/12/2024

Dúvidas (344) - O que podemos esperar das reacções ao acordo UE-Mercosur?

Há poucos dias a presidente da Comissão Europeia anunciou entusiasticamente a conclusão, depois de 25 anos de negociações, do Acordo de Parceria UE-Mercosur como «o mais abrangente de sempre no que respeita à proteção de produtos alimentares e bebidas da EU: mais de 350 produtos da UE estão protegidos por uma indicação geográfica. Além disso, as normas sanitárias e alimentares europeias continuam a ser intocáveis. Os exportadores do Mercosul terão de respeitar rigorosamente estas normas para aceder ao mercado da UE. Esta é a realidade de um acordo que permitirá às empresas da UE poupar 4 mil milhões de euros em direitos de exportação por ano.»  Palavras cuidadosamente estudadas para salientar umas consequências e omitir outras. 

Que este acordo seja um passo certo no caminho certo para aprofundar o comércio internacional no interesse dos países signatários é objectivamente pouco questionável, pelo menos desde Adam Smith, por muito que dentro de alguns países europeus os respectivos agricultores o vejam como uma ameaça que do ponto de vista dessas classes é também inquestionável. Como reagirão essas classes a este acordo?

O texto seguinte que foi escrito em Fevereiro, muito antes do anúncio da conclusão do acordo, prenunciava já realisticamente as prováveis reacções.  

«Em toda a Europa, uma revolta dos camponeses está se formando. Da Bélgica à Alemanha, Holanda, Polônia, Roménia e Espanha, os agricultores estão em pé de guerra. Um sector acostumado a privilégios exorbitantes - afinal, cerca de um terço do orçamento da UE vai para subsídios à política agrícola comum - os viu escapar. É, em muitos aspectos, uma história familiar, de uma casta privilegiada sentindo seu status em declínio. Pois o que é a Europa senão uma tentativa de manter as coisas como eram antes em um mundo em mudança? (....)

27/10/2024

Os equívocos do Programa "Mais Habitação", ou como tentar administrar uma medicação sem saber qual é a doença (13) - Muitas residências secundárias e muitos alojamentos vagos

Continuação de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9), (10), (11) e (12)

Um dia destes tropecei neste quadro e resolvi fazer umas contas simples. 

Economist

Com 10.640 mil residentes (Pordata, 2023)  e 5.971 mil alojamentos familiares clássicos (INE, 2021), o número de habitações por 1.000 habitantes atinge em Portugal a bonita cifra de 561 o que nos coloca no 3.º ou 4.º lugar dos países melhor dotados de alojamentos nos 15 países da OCDE listados no quadro e claramente acima da média. Como explicar a enorme falta de habitações quando em termos relativos estamos tão bem colocados? 

Desde logo porque dos 5.971 mil alojamentos apenas 4.143 mil (69,4%) eram de residência habitual e 723 mil (12,1%) estavam vagos (INE, 2021).

O parque habitacional: análise e evolução 2011-2021 (INE, 2024)

Embora, como o gráfico mostra e como seria de esperar, as maiores percentagens de alojamentos de residência habitual se concentrem nas regiões mais urbanizadas e, em consequência, as maiores percentagens de alojamentos de residência secundária se situem nas regiões menos urbanizadas do interior e no Algarve, as percentagens de alojamentos vagos variam num intervalo relativamente estreito e as regiões mais urbanizadas como Grande Lisboa (11,1%) e Área Metropolitana do Porto (10,0% ) apresentam taxas de alojamentos vagos próximas da média geral (12,1%). 

Apesar de comparativamente com outros países não termos poucas habitações, a sua falta relativa é agravada porque nas regiões de maior carência de habitação mais de um em cada dez alojamentos não estão ocupados e no total do país quase um em cada cinco alojamentos são residências secundárias, uma proporção praticamente dupla da média da UE.

09/10/2024

The single market for financial services seen from Berlin

«(...) using a bank account opened in one EU country while living in another is surprisingly troublesome, even if both use the euro. In theory Europeans, like their American cousins, live in one large single market, free to contract services from business based anywhere in the bloc. In practice payment systems sometimes accept only cards issued by local banks—and good luck getting your Finnish bank to fund a Spanish mortgage. Finance is where the European ideal of a seamless union often falls shortest.

The limits of the European single market were sharply exposed this month as UniCredit, an Italian bank, has made moves to take over Commerzbank, a German rival. A proposed transaction that should have been of interest only to finance wonks—UniCredit and Commerzbank are the EU’s 10th- and 17th-biggest lenders, respectively—devolved into an ugly nationalist mêlée. Olaf Scholz, the German chancellor, took time out of his geopolitical agenda at United Nations meetings in New York to thunder against “hostile” Italian bankers on the prowl. Just two weeks ago the EU released a much-hyped report by Mario Draghi, a former Italian prime minister, proposing to juice economic growth in Europe by deepening its single market. A resounding nein has put paid to his plans before most people were done reading its 400 pages.

European chauvinism has long had a way of derailing businessmen’s best-laid takeover plans. In 2005 France fended off a bid for Danone, a yogurt-maker, on the grounds that it was strategically vital. But that would-be buyer was American. Surely takeovers by firms from other EU countries should be treated more sympathetically, the better to build European champions with the critical mass to compete globally? Apparently nicht. Because Commerzbank lends to Mittelstand firms and exporters, the German establishment has put it on an economic pedestal; some see it as a national treasure they would rather close down than hand over to grubby Italians. (This is rather amusing to finance aficionados—including your columnist, a former banking correspondent—who recall when the lender was dubbed “Comedybank”, thanks to its knack for losing money in a dazzling array of hare-brained lending decisions.) UniCredit’s stake was in part bought straight from the German authorities, who bailed out Commerzbank in 2008. In contrast UniCredit is well run and more profitable than its target, thanks in part to a German unit it already owns. (...)
»

19/09/2024

A política industrial nas economias de mercado é um sucedâneo dos planos quinquenais nas economias soviéticas (2)

Continuação de (1)

Um dos exemplos mais recentes de políticas industriais lançadas por Joe Biden é o CHIPS Act de 2022 que prevê torrar US $50 mil milhões nos cinco anos seguintes para relançar a indústria de semicondutores. O sucesso não está garantido e é no mínimo duvidoso.

«Os semicondutores são o caso de teste mais importante para o renascimento da manufatura nos Estados Unidos. Nas últimas duas décadas, a maioria dos fabricantes de chips de computador deixaram a América. O país ainda tem investigadores  e designers de semicondutores de classe mundial, mas perdeu a força de trabalho que transforma wafers de silício em circuitos electrónicos em escala. (…)

Uma estimativa básica da Semiconductor Industry Association, é que até 2030 o sector de chips dos Estados Unidos enfrentará um défice de 67.000 técnicos, cientistas da computação e engenheiros, e cerca de 1,4 milhão desses trabalhadores em toda a economia. Compare-se isso com o total de cerca de 70.000 alunos que anualmente concluem a graduação em engenharia nos Estados Unidos, e a escala do défice torna-se visível. Seja qual for a lacuna exacta, ela marca a diferença entre fábricas funcionando em plena capacidade com os custos de mão de obra sob controle ou acabando afundadas em altos custos e baixa produtividade. (…)

As empresas de chips da América já estão configuradas para uma força de trabalho pequena, mas qualificada. À medida que mudaram a fabricação para o exterior, especializaram-se mais em casa, colocando a América no comando da indústria global. Qualcomm, Nvidia e outras tornaram-se líderes mundiais no desenvolvimento e design de chips avançados. Era uma divisão de trabalho altamente lucrativa.

Agora os Estados Unidos estão tentando retomar aos níveis mais baixos da indústria, reaprendendo habilidades básicas, como cortar wafers em chips e embalá-los em invólucros de plástico rígido. O imperativo político é a protecção contra a dependência excessiva da China. Para as empresas, há também uma lógica em diversificar as cadeias de logísticas e aproximar a manufatura das operações de pesquisa.»