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11/04/2026

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (81) - Adamastor, o supercarro português (II)

Outros portugueses no topo do mundo. Continuação de Adamastor, o supercarro português

O Adamastor, o supercarro português petit nom Furia, pretende circular na estrada e «acelerar a 300 km/h para as Arábias e correr nas 24h de Le Mans». Duvidando por regra da megalomania lusitana compensatória do complexo de Eduardo Lourenço e da viabilidade de produzir o protótipo com €17 milhões, questionei há dois anos o ChatGPT e a resposta confirmou o meu cepticismo

Como agora foi anunciada a fase de testes na estrada, voltei a questionar desta vez o Use.AI que apresentou as seguintes estimativas que não dissiparam o meu cepticismo: 
  • Le Mans-level homologation: realistically $25–30M+ total.
  • Chances of full recovery: modest (~20–40%) unless you achieve strong branding or external investment.
_______________
A sort of Disclaimer:
Por causa da minha obsessão, digamos assim, de desfazer estes equívocos das supostas realizações grandiosas dos nacionais, já fui aconselhado a consultar um psiquiatra e até me insultaram. No entanto, ninguém me deu a oportunidade de explicar que o meu propósito não é denegrir a alma lusitana, o meu propósito quixotesto, concedo, é contribuir modestamente para os naturais do Portugal dos Pequeninos se livraram da megalomania envergonhada do complexo de Eduardo Lourenço, trocando as fantasias irrrealistas e o pensamento milagroso pelos propósitos ambiciosos, mas realizáveis. Propósito que, admito, pode ser uma manifestação de megalomania envergonhada.

09/01/2026

Lost in translation Found in translation – Unbabel, uma startup portuguesa, e uma Amália que é um karaokê alucinado

Há mais de 10 anos, a Unbabel, uma startup portuguesa dedicada à tradução automática, passou pela primeira vez no radar do (Im)pertinências. Registei então, com surpresa e alívio, o relativo desinteresse do jornalismo de causas doméstico, normalmente muito excitado pelos feitos dos patrícios (feitos frequentemente mais imaginados do que reais), esperançado de que a Unbabel escaparia à maldição do jornalismo promocional.

Da segunda vez, o ano passado, a Unbabel voltou a passar, desta vez pela mão do Dr. Montenegro que anunciou com pompa e circunstância durante a Web Summit o LLM português "Amália" que «partiria de uma base em open source já existente, o Tower LLM, da Unbabel». 

Dois meses depois desse anúncio, já a Unbabel parecia estar com «os dias contados» e tentava ser comprada, agarrando-se ao Amália como a uma tábua de salvação. Os vários adiamentos do projecto e a situação da Unbabel levaram-me a duvidar que alguma vez o "Amália" chegasse a cantar. 

A dúvida foi crescendo ao ser anunciada dois meses depois a venda da Unbabel à TransPerfect, por um valor simbólico depois de uma queda de 50% do volume de negócios (fonte), e há poucos dias soube-se que o fundo espanhol Buenavista, um dos accionistas, propôs uma “acção pauliana” para suspender todos os contratos, alegando as enormes perdas que os accionistas já tinham suportado. 

Fiz agora uma visita ao Chat "Amália" e perguntei qual a situação do "Amália" e recebi a seguinte intrigante resposta:
«sou um projeto independente e não estou relacionada com o modelo de linguagem "Amália" que está a ser desenvolvido com financiamento do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência).»
O que me levou a perguntar «qual é o papel da Unbabel no desenvolvimento do “Amália”?» que teve a seguinte surpreendente resposta:
«A Unbabel desempenha um papel crucial no desenvolvimento do projeto "Amália", que é uma iniciativa financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) em Portugal.» 

Antes de desistir por estar a ficar alucinado com o resultado da hallucination do "Amália", ainda percebi, pela descrição da arquitectura técnica, que, na verdade, não se trata de um modelo LLM, mas de uma aplicação para converter em português de Portugal o português do Brasil dos outputs dos modelos LLaMA (da Meta) e Mistral (da Mistral AI). Ou seja, o Amália, que não está relacionado com o modelo "Amália" financiado pelo PRR e é uma iniciativa financiada pelo PRR, não é o LLM Amália. É um karaokê do Amália.

30/11/2025

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (76) - Líder mundial na IA? No desperdício alimentar ninguém nos bate

Outros portugueses no topo do mundo.

O nosso Portugal dos Pequeninos não terá «as condições para se tornar um líder mundial na IA», como garantiu o Dr. Matias, ministro da Reforma do Estado, excitado pela numerosa plateia internacional que o escutava na Web Summit, mas ninguém lhe tira o lugar no topo do despercício alimentar, segundo os dados do Eurostat citados pelo Expresso.


É extraordinário que os cidadãos de um país onde ainda hoje há quem tenha fome e ainda estão vivos os que há não muitas décadas conviviam com uma frugalidade a que hoje se chamaria fome, deitem para o lixo em média quase 300 gramas de comida por dia.

25/07/2025

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (75) - Duvido que algum dia o "Amália" cante. É o nosso fado

Outros portugueses no topo do mundo.

aqui tinha feito uma referência ao "Amália", um «LLM português», à época ainda por baptizar, que o Dr. Luís Montenegro anunciou com pompa e circunstância durante a Web Summit com o propósito de «inovarmos em português, preservando o nosso idioma e utilizando a nossa cultura ao serviço da inovação». Para além do facto de provavelmente não dever ser classificado como um LLM, e ser um ou vários domain-specific models dos quais já existem milhares, duvidei desde logo se algum dia veríamos tal modelo.

O LLM português que chegou a estar previsto para estar pronto no primeiro trimestre de 2025 «partiria de uma base em open source já existente, o Tower LLM, da Unbabel». Três meses depois a task force que estava a desenvolver o Amália anunciou que o seu mandato seria até ao final de 2028.

Ora acontece que a Unbabel, uma start-up portuguesa dedicada à tradução, que já então estava em dificuldades, provavelmente viu no "Amália" uma tábua de salvação e através dos lóbis do costume chegou até ao ouvido do Dr. Montenegro, tem nesta altura «os dias contados» e está a tentar ser comprada. Daí que sem nenhuma surpresa ter sido agora anunciado que o «projecto tem respeitado o calendário do Governo, mas só deverá ser público em 2026, contrariando expectativas». Calendário? Qual calendário? Expectativas? Quais expectativas? Não certamente as minhas que não sou dado ao wishful thinking e tenho agora reforçada a mesma dúvida que tinha quando tudo começou: algum dia veremos tal modelo?

15/11/2024

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Web Summit - as 200 mil dormidas já ninguém nos tira (11) - Talvez chegue para pagar o LLM português

Uma sequela de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9) e (10)

Desde 2016 pela mão do Dr. Costa primeiro e, depois, do Dr. Medina, e actualmente do Dr. Moedas, a Web Summit da iniciativa do Paddy em Dublin de 2009 a 2015 foi movida para Lisboa graças a um generoso subsídio de 11 milhões por ano, reduzido mais tarde para 7 milhões, que a câmara de Lisboa paga ao Paddy (a que acrescem a venda de entradas e o trabalho voluntário) para os alfacinhas terem o privilégio de receber umas dezenas de milhares de participantes estrangeiros.

A fantasia das startups está cada vez mais distante. Apesar de tudo, este ano disse a organização ainda estiveram umas 3 mil de 90 países. Segundo um estudo da Crunchbase as startups que cá vêm captam, em média, 5,5 milhões de dólares de novos investimentos por ano o que são peanuts neste negócio e são a consequência do pouco interesse que os investidores e venture capitalists manifestam por esta «Exponoivos para startups» como lhe chamou o fundador da Remote. Esse pouco interesse reflecte-se na queda de 3 lugares de Portugal no ranking da “Global Startup Ecosystem Index 2024”, da StartupBlink e na felicidade com que 400 startups brasileiras declaram esperar pelo menos 22 milhões de dólares em investimentos, o que seria até um montante modesto para meia dúzia. 

Para fechar o capítulo das fantasias e do pensamento milagroso, evoco o Dr. Luís Montenegro, primeiro-ministro em exercício do Portugal dos Pequeninos, que foi à Web Summit anunciar urbi et orbi o lançamento de «um LLM português - Large Language Model - para inovarmos em português, preservando o nosso idioma e utilizando a nossa cultura ao serviço da inovação». Esquecendo o facto que dada a língua portuguesa e dados os exemplos citados (um "tutor educativo" e "acesso aos serviços da administração pública de forma mais simples»), possivelmente não estamos a falar de um LLM, dos quais em todo o caso já existem por aí umas cinco dezenas, mas de um ou vários domain-specific models dos quais já existem milhares, permito-me manter dúvidas sobre se algum dia veremos tal modelo.

Dúvidas que, para ser curto, se fundam no investimento necessário que para um mid-scale LLM  pode atingir 50 milhões e para um Large-Scale LLM pode ir até mil milhões e no seu desenvolvimento sair da iniciativa de quatro instituições públicas, a saber Faculdade de Ciências e Tecnologia da Nova e Instituto Superior Técnico em articulação com a Fundação para a Ciência e a Tecnologia e o Centro para a IA Responsável (sublinho a palavra-chave "articulação"). 

Contudo, não me interpretem mal imaginando que considero a Web Summit uma inutilidade. Longe disso, considero uma excelente iniciativa para promover o turismo alfacinha, o que já é não nada mau, dada a carência de grana para pagar as importações de bens de consumo duradouro e popós e a partir de  agora um LLM português.
_____________________
Post scriptum:
Já depois de ter escrito este post, tomei conhecimento que afinal o LLM português previsto para estar pronto no primeiro trimestre de 2025 «parte de uma base em open source já existente, o Tower LLM, da Unbabel». A Unbabel foi uma startup portuguesa e é hoje uma empresa madura dedicada à tradução sobre a qual escrevi em 2015. Estranhamento nunca excitou os mídia portugueses, sempre muito dados ao wishful thinking. O investimento previsto é de 20 a 30 milhões e aplicando o coeficiente nacional de derrapagem a coisa vai parar a uns 7 ou 8 anos de royalties pagos pelo Paddy. Ou seja, estamos perante não de um desenvolvimento de raiz mas de uma adaptação de um modelo existente, adaptação que com as competências da Unbabel pode ser que algum dia fique concluída.

06/07/2024

A metalúrgica do regime afunda-se com ele (11) - A Martifer, um case study do empreendedorismo do Estado sucial

Actualização de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8), (9) e (10)

Recordando: a Martifer, dos irmãos Martins, foi em tempos um dos exemplos de sucesso de José Sócrates e uma das meninas dos olhos do jornalismo promocional (uma variante do jornalismo de causas). Quando começou a afundar-se foi acolhida em 2007 pela Mota-Engil, a construtora mais emblemática do regime, de que foi presidente executivo Jorge Coelho. A Martifer teve mais 137 milhões de euros de prejuízos em 2014 e esteve desde Abril de 2015 a tentar vender 55% da Martifer Solar que contribuiu com metade dos prejuízos do grupo. Em Agosto de 2016, uma participação de 55% da Martifer Solar foi finalmente vendida à francesa Voltaliad. Nessa altura a Martifer Solar foi avaliada em de nove milhões de euros, uma fracção do que lá foi torrado.

Sem surpresa para ninguém, o principal financiador da Martifer foi o BES, à época o banco privado do regime, créditos que foram herdados pelo Novo Banco que entretanto já havia perdoado 26 milhões à Estia, uma imobiliária dos Martins. Entalado com os restantes muitos mais milhões, o Novo Banco pressionou a Mota-Engil (outro dos grandes devedores do Novo Banco) a tomar conta da gestão afastando os irmãos Martins.

Outro dos financiadores, igualmente sem surpresa para ninguém, foi a CGD, o banco público do regime, que entre outros financiou em 2007 o investimento pela Martifer do centro comercial Porto Gran-Plaza. Era para criar 700 postos de trabalhos e acabou a criar zero, transformado em mais um elefante branco. Foi agora vendido pela CGD que lá enterrou 65 milhões a uma private equity francesa por 20 milhões.

23/05/2024

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (63) - Adamastor, o supercarro português

Outros portugueses no topo do mundo.

Nos últimos dias foram publicadas nos jornais dezenas de referências ao Adamastor, o supercarro português, semelhantes à acima reproduzida. Uma vez mais, saltam a vista os tiques do costume: por um lado a obsessão nacionalista-freudiana de glorificar os supostos feitos dos portugueses e por outro a disponibilidade do jornalismo promocional para esse propósito.

Desejo as maiores felicidades ao Adamastor e aos seus promotores, mas tenho algumas dúvidas sobre a viabilidade do projecto e do seu sucesso, a começar pela suficiência dos 17 milhões disponíveis para investir. Pelo menos é o que o especialista escondido dentro dos servidores da OpenAI que explica todos os itens de investimento e estima um investimento inicial total bem mais elevado e ainda dá uns conselhos:

Total Estimated Initial Investment:

Minimum: Approximately $25 million.

Maximum: Could exceed $50 million depending on scale, technology, and market ambitions.

Key Considerations:

Economies of Scale: Producing a small series (e.g., 20-50 units) might help amortize some of the development and production costs.

Investor Relations: Securing investment from venture capital, automotive enthusiasts, or strategic partnerships with established manufacturers can offset initial costs.

Licensing and Partnerships: Collaborating with existing automotive manufacturers for technology and component sharing can reduce expenses.

Em conclusão, ter amigos nos jornais ou um PR com bons contactos nas redacções, pode ajudar mas não garante o sucesso de um produto.

05/10/2023

SERVIÇO PÚBLICO: Sobre a chamada "maior crise da habitação" e o papel agitprop do jornalismo de causas

«Resumindo, não é verdade que esta seja a maior crise da habitação que houve em Portugal, não é verdade que este seja um problema que afecta, de forma generalizada a população, e não é verdade que desequilibrando ainda mais as garantias para o lado dos inquilinos, deixando desprotegido o direito constitucional (e, já agora, direito consagrado na carta dos direitos humanos) à propriedade e seu usufruto, se contribua para um maior acesso à habitação por parte de quem procura casa agora.

Se percebo a irracionalidade de actuação de muitos dos que se sentem encurralados com a situação actual no sector da habitação (e há, e são muitos), não entendo de todo como é possível que o jornalismo esteja militantemente a evitar que os factos influenciem as ideias que todos os dias vendem sobre esta matéria.»

Estes são apenas os dois últimos parágrafos, à laia de teaser, que cito do post de ontem do Corta-Fitas, cuja leitura recomendo vivamente, onde Henrique Pereira dos Santos relata a sua experiência pessoal partilhada, aliás, por muitos de gerações próximas das dele.

É claro que existe um problema da habitação que consiste numa oferta insuficiente para a procura existente. O que não é claro que esse problema tenha as dimensões que lhe pretendem atribuir e que tenha as soluções que lhe pretendem aplicar.

11/05/2023

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Web Summit - as 200 mil dormidas já ninguém nos tira (10) - O Paddy já exportou a "Exponoivos" para o Rio, Qatar and beyond

Uma sequela de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7), (8) e (9)

Desde 2016 pela mão do Dr. Costa primeiro e, depois, do Dr. Medina, seu sucessor na câmara e, espera-se, na liderança do PS, a Web Summit da iniciativa do Paddy em Dublin de 2009 a 2016 têm sido realizada em Lisboa graças a um generoso subsídio de 11 milhões por ano até 2028, que o Dr. Costa paga ao Paddy para os alfacinhas terem o privilégio de receber umas dezenas de milhares de participantes estrangeiros.

Ora acontece que ainda o ano passado o Paddy disse esperar em 2025 ou 2026 começar a realizar 
Web Summits em África, há dias confirmou que em 2024 será realizada no Qatar e a semana passada teve lugar a Web Summit Rio que teve apenas uns 21 mil participantes, menos de um terço dos 70 mil em 2019 e menos de metade dos 43 mil do ano passado em Lisboa. 

De onde, o principal input da Web Summit para Lisboa que são as dezenas de milhares de participantes estrangeiro que sempre ajudam a compor o orçamento tenderão a reduzir-se, uma vez que o público para este género de eventos é limitado e a concorrência irá aumentar. 

Há quem acredite (por exemplo, Carlos Moedas sonha com uma fábrica de unicórnios) que o principal input da Web Summit é o incentivo à criação de startups lusitanas, mas isso é um delírio sobre o qual já escrevi nos anteriores posts desta série, até porque, como explicou o fundador da Remote, uma das poucas startups portuguesas que vingou, que não costuma dar-se ao trabalho de comparecer na Web Summit, um unicórnio «faz-se com negócio real (...) a Web Summit é uma Exponoivos para startups.»

12/04/2023

Nem só o Estado é amigo do empreendedor (17) - A maldição do jornalismo promocional. Depois do "primeiro avião 100% português" tripulado, "um dos maiores aviões não tripulados""

Outras maldições do jornalismo promocional.

O ano passado foi o «primeiro avião 100% português», este ano vai ser «um dos maiores aviões não tripulados do mundo», ou seja, um drone, mas "drone" desvaloriza o feito que o jornalismo promocional pretende inculcar no bestunto dos leitores, porque até a empresa do genro do Paxá Erdogan fabrica na Turquia milhares desses zingarelhos.
 
Perdoe-se-me a falta de fé nestas promoções jornalísticas que ao longo dos anos têm "beneficiado" inúmeros projectos e empresas que depois de alguns anos ao colo do governo de serviço vêm a revelar-se fracassos. Alguns desses casos têm sido citados e acompanhados pelo (Im)pertinências, particularmente na série das maldições do jornalismo promocional

Neste caso é a Tekever cujo responsável vai avisando «o país, através do PRR, está a ajudar a financiá-lo. Queremos que, tal como fazem todos os outros países, Portugal, depois, ajude a levá-lo para o mercado, tornando-se também um cliente de referência. Mais do que comprá-lo, é preciso usá-lo.»

09/10/2022

Nem só o Estado é amigo do empreendedor (16) - A maldição do jornalismo promocional. Depois da Web Summit a Air Summit e o primeiro avião 100% português

Outras maldições do jornalismo promocional.

Expresso

« (...) a maior cimeira de aeronáutica, espaço e defesa da Península Ibérica (...) 14 empresas da indústria de ponta da aviação, (...) 300 empregos qualificados, (...).

Será apresentado no Air Summit o avião português, uma aeronave tripulada regional ligeira com capacidade para 19 passageiros, 2000 quilos de carga e 2000 quilómetros de alcance (...)

A fábrica onde será construída parte da aeronave, com 18 metros quadrados (...) 

(...) a empresa está a equacionar avançar para manutenção de aviões de carga, e que está seria bem-vinda uma parceria com a TAP.  Adiantou ainda que será investido dois milhões de euros no equipamento da fábrica. (...)

Já foram investidos no cluster de Ponte de Sor 37 milhões de euros (...)»

A maior cimeira de aeronáutica, 14 empresas de ponta, 300 empregos, 18 metros quadrados (deve ser engano devido a inumeracia), 2 milhões de equipamento, 37 milhões de investimento. Terá esta gente noção do que é a indústria aeronáutica no mundo real?  

É um bom exemplo de uma espécie de jornalismo hiperbólico que vive em simbiose com o complexo de Eduardo Lourenço que assola a maioria dos habitantes do Portugal dos Pequeninos. Como nos outros casos de promoção tem uma elevada probabilidade de ser mais um flop.

06/11/2021

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Web Summit - as 200 mil dormidas já ninguém nos tira (9) - Uma Exponoivos no "país unicórnio"

Uma sequela de (1), (2), (3), (4), (5), (6), (7) e (8)

Recapitulando: o número estimado de participantes estrangeiros entre 2016 e 2019 foi 50, 59, 60 e 77 mil, respectivamente, e em 2021 não atingiu 43 mil. Apesar disso, já concedi que umas dezenas de milhar de visitantes que por cá apareçam para ver o show de várias luminárias, incluindo o extra-programa do presidente Marcelo a agitar-se no palco, gastem umas dezenas de milhões de euros, vá lá uns cento e tantos milhões (as estimativas para 2019 apontam para um VAB entre 58 a 96 milhões), justificando assim os 11 milhões que o governo paga com o nosso dinheiro ao Paddy. Quanto aos intangíveis, que por serem intangíveis nunca ninguém os vai tanger, esses, como já aqui escrevi, são insultos à inteligência.

Volto agora aos impactos intangíveis a propósito das declarações exuberante do director executivo da Startup Portugal que na sua comunicação da Web Summit anunciou o 5.º unicórnio [a Remote] e concluiu que «temos mais do que Espanha, Grécia e Itália juntos. Estamos a ficar conhecidos como um país unicórnio, mas isso é uma forma de cativar a atenção.» 

Como escrevi num outro post sobre a fábrica de unicórnios do Dr. Moedas, a nacionalidade dos fundadores só é considerada na Complete List Of Unicorn Companies da CBInsights quando a sede da startup se situa fora dos Estado Unidos. Por isso se, como suspeito, espanhóis, gregos e italianos não sofrem tão intensamente de «uma vontade de exibição que toca as raias da paranoia» nas palavras sábias de Eduardo Lourenço, não se preocuparam a catar na lista as startups fundadas por nacionais dos respectivos países.

Como que a repor as coisas no seu lugar, o fundador da Remote, o 5.º unicórnio anunciado pelo excitado director executivo da Startup Portugal, não se deu ao cuidado de comparecer na Web Summit e explicou que um unicórnio «faz-se com negócio real (...) a Web Summit é uma Exponoivos para startups. É uma feira, ponto (...) e não é uma feira que vai levar a que se chegue lá». Estamos conversados, ponto.

04/11/2021

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Web Summit - as 200 mil dormidas já ninguém nos tira (8) - Os efeitos deletérios do tempo nos delírios

Uma sequela de (1), (2), (3), (4), (5), (6) e (7)

Retomo esta série recapitulando: já concedi que umas dezenas de milhar de visitantes (o número estimado de participantes estrangeiros entre 2016 e 2019 foi 50, 59, 60 e 77 mil, respectivamente) que por cá apareçam para ver o show de várias luminárias, incluindo o extra-programa do presidente Marcelo a agitar-se no palco, gastem umas dezenas de milhões de euros, vá lá uns cento e tantos milhões, justificando assim os 11 milhões que o governo paga com o nosso dinheiro ao Paddy. Quanto aos intangíveis, que por serem intangíveis nunca ninguém os vai tanger, esses, como já aqui escrevi, são insultos à inteligência.

Para de seguida corrigir: os cento e tantos mil participantes e as 200 mil dormidas este ano são bastante menos porque o número de participantes foi inferior ou mesmo muito inferior ao dos anos anteriores e não atingiu 43 mil.

E acrescentar que, confirmando as reservas que desde 2016 venho apresentando aos impactos anunciados pelo jornalismo de causas e louvaminhados pelo comentariado do regime, o estudo «Avaliação do Impacto da Web Summit» da Universidade do Minho concluiu que da Web Summit resultaram os seguintes Valores Acrescentados Brutos (arredondados para milhões de euros) para os cenários menos e mais optimista:

  • 2016..... 44 a 73
  • 2017..... 50 a 82
  • 2018..... 58 a 95
  • 2019..... 58 a 96

Repare-se na amplitude dos intervalos entre os cenários sugerindo que estamos no domínio da realidade virtual, ou pelo menos da realidade aumentada.

Curiosamente, o estudo de 2021 da Universidade do Minho chegou a números muitíssimo inferiores (menos de metade) aos do cenário mais pessimista do estudo de 2018 «Impacto Económico da Web Summit 2016-2028» do Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia que em devido tempo aqui citei, cenário que na altura considerei o mais realista, mas afinal nem por isso. Aposto singelo contra dobrado que se em 2024 vierem a ser realizadas novas estimativas estas serão muito inferiores ao do estudo de 2021.

Confrontado com estas conclusões, o Paddy começou por dizer que não comentava para de seguida fazer o comentário mais desonesto que lhe ocorreu: «o relatório, a meu ver, tem a ver com as eleições».

20/01/2021

Nem só o Estado é amigo do empreendedor (15) - A maldição do jornalismo promocional, o epílogo e a moral da estória (parte II)

Outras maldições do jornalismo promocional.

Em retrospectiva:

A Maló Clinic é um dos casos de sucesso mediático de empreendedores com amigos nos jornais, nomeadamente e não por acaso, no semanário de reverência que algum tempo antes da queda se referia, em tom encomiástico, a «Maló, o dentista global»:
«Não quis ser dentista, mas hoje orgulha-se do império criado. Aos 48 anos, Paulo Maló é dono do maior grupo dentário mundial, com clínicas nos quatros continentes»
Sete anos e quase 100 milhões de dívidas depois (mais de 3 vezes a facturação que não ultrapassa 30 milhões), o Grupo Maló Clinic foi adquirido pelo fundo Atena Equity Partners e está em Processo Especial de Revitalização a ver se lhe perdoam uma parte das dívidas.

Epílogo: «Contribuintes perdem trinta milhões com perdões à Malo Clinic»

Actualização: 

A Maló Esthetics foi mais um dos empreendimentos acarinhados pelo jornalismo promocional, neste caso abandonado à sua má sorte por Paulo Maló, o dentista global como o baptizou o Expresso no tempo em que tudo parecia correr bem. Depois de vários anos a perder dinheiro entrou agora em falência.

Moral da estória: 

O complexo político-empresarial socialista facilita com atalhos e subsidia com o dinheiro dos contribuintes, o jornalismo promocional promove e no final os sujeitos passivos voltam a financiar a «revitalização».

01/01/2021

ACREDITE SE QUISER: O foguetão português está a caminho do Espaço a partir da Ota. Musk e a Spacex que se cuidem

As Fases 1 e 2 já são uma realidade, a Fase 3 é uma antevisão do (Im)pertinências 

«A tensão paira no ar quando se chega à parte da pista que a Omnidea ocupa na Base Aérea da Ota. “Ver isto diretamente com os olhos nunca ninguém viu” (...)

Qualquer visitante menos versado terá de apelar à imaginação para perceber como é que do protótipo no hangar da Ota se chegará um dia a um foguetão de 16 a 18 metros de altura, 2 metros de diâmetro e 15 toneladas de peso. Perante a incredulidade alheia, a Omnidea esclarece: aquele é apenas um protótipo dos 10 motores que irão ser usados no futuro foguetão reutilizável.»

Expresso (Só um seminário de reverência estaria à altura de fazer este anúncio)

Se fossemos como os outros europeus sem ambição, inventaríamos um autoclismo ou uma fritadeira ou mesmo um ventilador. Porém, como S. Ex.ª não se cansa de nos lembrar, somos os melhores dos melhores, e preparamo-nos para uns novos Descobrimentos, agora no Espaço.

20/12/2019

ARTIGO DEFUNTO: Jornalismo de factos alternativos

«Alunos portugueses são caso de sucesso na OCDE» titula o Jornal Económico, explicando que «os resultados estão aí. No geral, mostram que os alunos portugueses estão ligeiramente melhor do que a média da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico) e continuam a ser dos que protagonizam maior evolução.»

Na verdade, os alunos portugueses de 2015 e 2018 decaíram em duas áreas e mantiveram a pontuação na terceira:

  • Leitura desceu de 498 para 492
  • Ciências de 501 para 492
  • Matemática manteve-se em 492

Sendo certo que os alunos portugueses estão ligeiramente melhor do que a média da OCDE essa melhoria não se deve a um desempenho melhor, é até ligeiramente pior, como se vê. Em termos de ranking em Leitura e Ciências, Portugal desceu três lugares entre os 78 países participantes e continua atrás de entre 12 e 15 países da UE28.

Então porque estamos ligeiramente melhor do que a média da OCDE? Porque as pontuações médias desceram com o aumento do número dos países participantes de 72 para 76 e os novos países (Kazakhstan, Baku (Azerbaijan), North Macedonia, Saudi Arabia, Bosnia and Herzegovina, Brunei Darussalam) tiveram todos pontuações muito abaixo da média. Voilà!

16/11/2019

ARTIGO DEFUNTO: Fact-check ao fact-checker mostra que fact-checking no Portugal dos Pequeninos pode não se distinguir da produção de alternative facts

«Jornalista do Polígrafo (*) recebeu do Santa Maria uma verba para fazer livros e pouco depois publicou naquele site uma notícia favorável ao hospital. Além disso, é acusado pelo MP de ter relações profissionais promíscuas com Lalanda e Castro, arguido no processo da Mafia do Sangue, omitindo também a responsabilidade do empresário no livro que escreveu sobre a Operação Marquês.»

Jornal SOL de 16-11 sem link disponível

(*) Fernando Esteves, fundador e responsável pelo sítio Polígrafo que «segundo os autos da Operação Marquês, avisou em 2014 um jornalista amigo de Sócrates, Afonso Camões, da iminência da detenção do antigo primeiro-ministro».

08/10/2019

Nem só o Estado é amigo do empreendedor (14) - A maldição do jornalismo promocional, o epílogo e a moral da estória

Outras maldições do jornalismo promocional.

Em retrospectiva:

A Maló Clinic é um dos casos de sucesso mediático de empreendedores com amigos nos jornais, nomeadamente e não por acaso, no semanário de reverência que algum tempo antes da queda se referia, em tom encomiástico, a «Maló, o dentista global»:
«Não quis ser dentista, mas hoje orgulha-se do império criado. Aos 48 anos, Paulo Maló é dono do maior grupo dentário mundial, com clínicas nos quatros continentes»
Sete anos e quase 100 milhões de dívidas depois (mais de 3 vezes a facturação que não ultrapassa 30 milhões), o Grupo Maló Clinic foi adquirido pelo fundo Atena Equity Partners e está em Processo Especial de Revitalização a ver se lhe perdoam uma parte das dívidas.

Epílogo: «Contribuintes perdem trinta milhões com perdões à Malo Clinic»

Moral da estória: 

O complexo político-empresarial socialista facilita com atalhos e subsidia com o dinheiro dos contribuintes, o jornalismo promocional promove e no final os sujeitos passivos voltam a financiar a «revitalização».

27/09/2019

Nem só o Estado é amigo do empreendedor (13) - A maldição do jornalismo promocional não falha

Outras maldições do jornalismo promocional.

Repetindo-me:

Como se poderá confirmar em outros posts desta série, o jornalismo promocional - uma variedade do jornalismo de causas - está frequentemente associado a uma maldição que leva as empresas promovidas a passar pelas maiores trapalhadas e no limite algumas delas a desaparecerem.

Espero que não seja o caso da Farfetch, uma plataforma de venda de artigos de luxo, o único unicórnio português - unicórnio segundo o jargão startápico é uma empresa tecnológica que foi avaliada em mais de mil milhões de dólares.

Mas receio que seja, porque desde 2007 até hoje, a Farfetch só perdeu dinheiro num total de quase 100 milhões de euros, dos quais 38 milhões só no ano passado, prejuízos que lhe comeram os capitais próprios negativos em quase 80 milhões de euros. É claro que existem a Amazon (desde a fundação), o Facebook (nos primeiros anos), a Tesla e várias outras empresas que perderam ou ainda perdem imenso dinheiro, crescem desalmadamente e estão cotadas em bolsa por dezenas ou centenas de vezes o seu valor contabilístico. Só que são todas elas empresas que criaram produtos ou serviços disruptivos o que não parece ser o caso da Farfetch. Pode ser que seja um unicórnio, mas até ver não apostaria neste cavalo.

Porém, a maior dúvida sobre o futuro radioso da Farfetch é a intensa paixão que está a provocar nos meios do jornalismo promocional, com destaque para o semanário de reverência que já tem um longo currículo de promoções falhadas.

Novos desenvolvimentos:

O texto acima foi escrito há quase dois anos e parece agora premonitório das últimas notícias que nos chegam:  

22/09/2019

Nem só o Estado é amigo do empreendedor (12) - A maldição do jornalismo promocional, sempre

Outras maldições do jornalismo promocional.

A Maló Clinic é um dos casos de sucesso mediático de empreendedores com amigos nos jornais, nomeadamente e não por acaso, no semanário de reverência que algum tempo antes da queda se referia, em tom encomiástico, a «Maló, o dentista global»:
«Não quis ser dentista, mas hoje orgulha-se do império criado. Aos 48 anos, Paulo Maló é dono do maior grupo dentário mundial, com clínicas nos quatros continentes»
Sete anos e quase 100 milhões de dívidas depois (mais de 3 vezes a facturação que não ultrapassa 30 milhões), o Grupo Maló Clinic foi adquirido pelo fundo Atena Equity Partners e está em Processo Especial de Revitalização a ver se lhe perdoam uma parte das dívidas.