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20/08/2026

ARTIGO DEFUNTO: Segundo o jornalismo de causas, os salários médios deveriam ser o que o governo quisesse


Numa peça com o título estilo agitprop «Inflação devorou grande parte do aumento dos salários médios em 2026, a mesma jornalista do Expresso que escreveu as anteriores obtusidades usa o melhor da sua ciência para demonstrar o óbvio ululante de que o aumento nominal de 5,1% inclui uma inflação de 3,3% e, portanto, o aumento real foi só de 1,8%.

Poderia apresentar como desculpa para as suas obtusidades o suposto nobre propósito de desmontar as patetices chico-espertas do Dr. Castro Almeida nas jornadas parlamentares do PSD e do Dr. Montenegro na missa do Pontal que atribuíram ao governo a subida de 5,1% em 12 meses do salário médio, subida que, diria M de La Palice, resultou da média dos salários que as empresas tiveram de pagar para ter a mão-de-obra que precisaram num mercado de trabalho que é actualmente um sellers' market, com a particularidade de que os salários, ao contrário dos outros preços, não podem descer.

Poderia apresentar essa desculpa e poderia também ter percebido: (1) o governo tem menos influência no salário médio do que na construção do aeroporto Luís de Camões (60 anos) ou na inauguração do novo hospital de Lisboa (23 anos) e (2) um aumento real de 1,8% do salário médio é ainda assim notável quando (a) a produtividade do trabalho se manteve e (b) o aumento da população activa se fez sobretudo nas profissões menos qualificadas e com menores salários.

18/08/2026

ARTIGO DEFUNTO: A "inclinação ideológica e política" das ciências actuariais, da estatística matemática, da econometria, da demografia, da macroeconomia e das finanças públicas

[Este post é uma espécie de continuação de Comparar a beira da estrada com a Estrada da Beira]

Cinco dias antes de ser conhecido o relatório sobre a sustentabilidade do sistema de pensões, o semanário de reverência, no seu papel de órgão oficial do militante socialista anónimo, citava o PS que já classificava o relatório como «enviesado» e se declarava preocupado por o estudo ter sido coordenado por «duas pessoas que têm uma inclinação ideológica e política muito clara».

Fiquei confundido, sem perceber qual seria o papel da inclinação ideológica e política na avaliação da sustentabilidade financeira de um sistema público de pensões. Admiti que essa confusão se devesse a não estar iluminado pela ciência das jornalistas de causas que assinam o artigo (duas economistas portadoras de mestrados pelo ISEG e uma cientista da comunicação da equipa das Redes Sociais e Online). Vergado ao peso dessa ciência, resolvi pedir a um agente de IA para descrever um modelo teórico geral de repartição (Pay-As-You-Go ou PAYG), em que os trabalhadores activos financiam diretamente as pensões dos reformados do mesmo período. 

Eis a descrição do modelo que, surpreendentemente, não contém a variável inclinação ideológica e política.

16/08/2026

ARTIGO DEFUNTO: Comparar a beira da estrada com a Estrada da Beira

Semanário de reverência

É difícil superar a falta de senso de comparar o valor actual do FERSS, que se estima possa pagar dois anos de pensões, no segundo país mais envelhecido da UE, cujos fundos privados de pensões representam apenas cerca de 20 mil milhões e abrangem cerca de 1,2 milhões de pessoas, com cinco vezes o custo estimado do novo aeroporto Luís de Camões.

É assim parecido com comparar o custo do aeroporto de Schiphol, cujo custo de substituição se estima em cerca de 30 mil milhões de euros, com as reservas totais dos fundos de pensões dos Países Baixos, um país com uma população 1,6 vezes a portuguesa, mais jovem (menos 5 anos de idade mediana e menos 5 pontos percentuais de idosos), fundos que são suficientes para 30 anos de pensões e cujo valor atinge um total superior a 900 mil milhões ou 13 vezes o total os fundos portugueses. 

Já agora, a jornalista, com um mestrado em economia pelo ISEG, situou a estimativa do custo do novo aeroporto em menos de 10 mil milhões. No lugar dela, teria feito outras estimativas, por exemplo: 
  • Custo estimado da construção (em 2024) 7,9 a 8,9 mil milhões
  • Custo estimado das grandes obras de acessibilidade 5,5 mil milhões
  • Custo total estimado 13,4 a 14,4 mil milhões
  • Coeficiente médio de derrapagem das grandes obras públicas em Portugal 1,3 a 1,35
  • Custo total provável 17,4 a 19,4 mil milhões
  • Dois exemplos de derrapagem:
    • Centro Cultural de Belém, o custo final triplicou o orçamentado;
    • Aeroporto de Berlim: os 5 anos planeados escorregaram para 14 anos; o custo triplicou.
  • O meu palpite do custo total final do Aeroporto Luís de Camões: 20 a 30 mil milhões

09/08/2026

ARTIGO DEFUNTO: O título também poderia ser "Dois em cada três membros são funcionários públicos ou pessoas pouco dotados de iniciativa"

Expresso

Diz a anedota: notícia é um jornalista morder um cão e não o contrário. 

O facto do título do semanário de reverência, mas podia ser outro qualquer jornal, salientar os membros com pendor empresarial significa que os jornalistas de causas que o habitam acham esse facto singular e, ao contrário, achariam trivial que, por exemplo, todos os membros do governo dependessem do Estado sucial do Portugal dos Pequeninos. 

É todo um programa de vida.

17/07/2026

Mitos (355) - O contrário do dogma do aquecimento global (XXXIV) - O Paradoxo de Crutzen e a Lei de Morton

Outros posts desta série

Em retrospectiva, que o debate sobre o aquecimento global, principalmente sobre o papel da intervenção humana, é muito mais um debate ideológico do que um debate científico é algo cada vez mais claro. Que nesse debate as posições tendam a extremar-se entre os defensores do aquecimento global como obra humana – normalmente gente de esquerda – e os outros – normalmente gente de direita – existindo muito pouco espaço para dúvida, ou seja, para uma abordagem científica, é apenas uma consequência da deslocação da discussão do campo científico, onde predomina a racionalidade, para o campo ideológico e inevitavelmente político, onde predomina a crença.

Nós aqui fazemos o possível para não ficar entalados entre o ruído da histeria climática que, levada às suas últimas consequências, conclui que o homo sapiens sapiens tem de ser erradicado para salvar o planeta, e o ruído das teorias da conspiração que consideram que o único problema sério com o ambiente é a histeria climática.

Negar os factos do progressivo aquecimento global exige cada vez mais uma fé quase religiosa (ver, por exemplo, os gráficos do post anterior desta série), fé que tem vindo a ser substituída pela fé contrária nos efeitos miraculosos das medidas defendidas pelo áctivismo ambiental, apesar dos avisos de há vinte anos do Prémio Nobel da Química Paul Crutzen que no seu ensaio «Albedo enhancements by stratospheric sulfur injections: a contribution to resolve a policy dilemma?» chamava a atenção para o paradoxo do ar limpo em que a redução da poluição atmosférica poderia aumentar o aquecimento global por via da redução do albedo (capacidade de reflexão da radiação solar pela superfície terrestre).

Pois bem, parece que é isso que está a acontecer: a redução dos poluentes atmosféricos, como o dióxido de enxofre (SO₂) e a fuligem, que, por um lado, reduzem a chuva ácida que mata milhões de pessoas anualmente e, por outro, têm o efeito de reflectir a luz solar e, assim, reduzir o aquecimento global.

Voltarei a este assunto e, entretanto, alinhavo, por agora, duas conclusões não sobre o clima, mas sobre a mente humana. A primeira, é que estamos, mais uma vez, perante um exemplo da Lei das «consequências imprevistas da acção social intencional» enunciada por Robert K. Merton em 1936.  A segunda é que estamos perante outro exemplo da difícil convivência do mundo real em geral, e da ciência em particular, com cérebros ideológicos (Leor Zmigrod, "The Ideological Brain") saturados com doses maciças de convicções inabaláveis alimentadas nas últimas décadas pelas redes sociais e há séculos pelo jornalismo de causas. E acrescento uma previsão: os que têm negado o aquecimento global vão passar a atribuir o inexistente aquecimento global às medidas para o mitigar. 

15/05/2026

ARTIGO DEFUNTO: A ecoansiedade e os delírios do jornalismo de causas

Para me poupar a citar excertos do artigo “Será que a zona onde vivemos continuará habitável?”: Quatro em cada 10 jovens hesitam ter filhos por causa das alterações climáticas, cito o resumo gerado por AI que segundo o Expresso reza assim:

«Estudo revela que quatro em cada dez jovens portugueses hesitam em ter filhos devido às alterações climáticas. A ecoansiedade, definida como medo crónico de catástrofe ambiental, surge como determinante nas decisões reprodutivas. 

Investigação do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto mostra que jovens com motivos ambientais apresentam três vezes mais ecoansiedade.»

Quanto ao primeiro estudo «Young People's Voices on Climate Anxiety, Government Betrayal and Moral Injury: A Global Phenomenon», foi publicado em 2021 na revista Lancet Planetary Health, é da autoria de uma equipa cujos membros publicaram um único paper - o paper em causa - e foi financiado pela AVAAZ, uma ONG que se define como «the campaigning community bringing people-powered politics to decision-making worldwide» e tem como fundadores vários notórios ideólogos do áctivismo online.

Esquecendo a óbvia falta de credibilidade dos "investigadores" e da entidade financiadora (é assim como militantes da CDU fazerem um estudo financiado pela CDU sobre a falência do capitalismo), o certo é que o estudo não revela uma especial preocupação dos jovens portugueses pelos supostos impactos das mudanças climáticas já que em relação à "ameaça à segurança familiar" se preocupam tanto quanto a média dos jovens dos 10 países considerados, e quanto "hesitação sobre ter filhos" preocupam-se menos.

Quanto ao segundo estudo, a conclusão é perfeitamente tautológica e não careceria de estudos: é claro que «jovens com motivos ambientais» teriam forçosamente de ser mais ecoansiosos, seja lá o que isso for. 

Pordata
Daí concluir, como o faz uma "investigadora" citada no artigo, que a baixa de fertilidade é consequência da ecoansiedade é uma conclusão audaciosa. Pela razão simples de que, como o diagrama mostra para Portugal (em outros países ocidentais a evolução é semelhante) a baixa da fertilidade precedeu em décadas as preocupações ambientais, baixa que toda a gente com juízo sabe ter resultado da "igualização" das mulheres e foi tornada possível pela acessibilidade dos anticoncepcionais e tornada inevitável pela entrada maciça das mulheres no mercado de trabalho.

22/03/2026

De volta à Mota-Engil e aos "fundos-abutre"

Faz um tempo, comentei aqui a ridícula conclusão de uma peça do Expresso com o título "Quem são os 'fundos abutres' que investem quase €300 milhões para a bolsa nacional se afundar?" (*) de que existe um enorme risco de uns fundos afundarem uma bolsa na qual controlam menos de 0,5% da capitalização bolsista de 11 empresas portuguesas.

Algum tempo depois, à mesma conclusão chegou o artigo «Mota-Engil foi a “vítima perfeita para um fundo abutre”, diz administrador financeiro». Já agora, recorde-se que a Mota-Engil teve como presidente executivo durante vários anos o Dr. Jorge Coelho, ministro de vários governos socialistas e eminência parda do PS e do regime. Desta vez, o abutre foi identificado como o Muddy Waters Capital Domino Master Fund que, apenas com uma posição curta de 0,65% que reduziu para 0,57%, teria segundo o artigo alcançado o milagre de afundar as cotações da Mota-Engil em quase 40%.

O passo seguinte foi uma entrevista ao Expresso do presidente da Mota-Engil em que este acusou o Muddy Waters de "manipulação do mercado" por deter posições a descoberto de 0,65% do capital, no qual a família Mota perdeu em 2021 a maioria por ter vendido aos chineses da CCCC (+)  China Communications Construction Company -, venda determinada pelas dificuldades da Mota-Engil de pagar a dívida pantagruélica ao Novo Banco, herdada por este do BES. 

Desta vez, o tiro saiu pela culatra porque um ano depois dessa entrevista a Muddy Waters «moveu um processo de difamação no tribunal federal do Texas contra Carlos Mota dos Santos». É um exagero. Não havia necessidade - se o ridículo fosse mortal, a "difamação" teria morto a Mota-Engil.
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(*) Os "fundos abutres" praticam o short selling ou venda a descoberto que consiste em vender um activo esperando comprá-lo mais tarde a uma cotação menor, o que só faz sentido para o fundo se tiver expectativas que o activo em causa está sobreavaliado. Em mercados evoluídos, considera-se que esta prática reduz o risco para os investidores e aumenta a liquidez e a estabilidade dos mercados.

(+) A Mota-Engil foi mais um dos "centros de decisão nacional" vendidos a estrangeiros devido ao endividamento de públicos e privados e à descapitalização da economia portuguesa.

31/08/2025

ARTIGO DEFUNTO: A distribuição de dividendos do BCP vista pelo Avante! da Sonae


A peça acima é do Público, um jornal sustentado pela família Azevedo, eventualmente porque é o preço que paga à esquerdalhada (em particular os comunistas e, por isso, também é conhecido por Avante! da Sonae) para não os chatearem demasiado. Aparentemente parece uma coisa factual e inócua mas é tudo menos objectivo e está cheio de mensagens subliminares.  

Em primeiro lugar, o título tem implícito que os accionistas não têm direito à proporção do lucro da empresa de que são proprietários e que, em consequência, se estão a apropriar ilegitimamente de dois terços. Em segundo lugar, tem igualmente subentendido que se a Fosun e a Sonangol «são as principais beneficiadas» por terem usurpado 40% dos lucros, apesar de terem 40% do capital do BCP, que lhes dá o direito a disporem de 40% do dividendo distribuído a todos os accionistas. Em terceiro lugar, que os outros 120 mil pequenos accionistas deveriam ter uma proporção maior dos dividendos do que a correspondente à sua participação no capital, como se não fosse inevitável que um accionista que tem 10% do capital tenha um dividendo 10 vezes maior do que outro que só dispõe de 1% do capital. Em quarto lugar, insinua que os accionistas «chamuscados pela guerra de poder de 2007» o foram por algum desígnio oculto e não por simplesmente serem então accionistas. 

Curiosamente, mas não surpreendentemente, a peça não faz qualquer alusão ao desígnio oculto, ou seja, à génese da guerra de poder de que resultou a venda de participações à Fosun e à Sonangol depois de lá terem sido torrado 8,3 mil milhões  (5,3 em aumentos de capital e  3,0 mil milhões em "ajudas") de dinheiro dos contribuintes (*).

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(*) Ver mais de uma centena de posts que se publicaram sobre o assalto ao Millenium bcp e, em particular o resumo «sequelas do assalto ao Millenium bcp.

15/07/2025

Mitos (352) - Criminalidade, os "factos alternativos", as percepções e a realidade

Se o "Relatório do observatório da segurança e defesa" há dias divulgado pela SEDES for credível como parece (pelo que conheço da SEDES, uma instituição independente com 55 anos, vou tomá-lo como tal), há uma acentuada dicotomia entre a percepção da criminalidade tal como os mídia a apresentam e a realidade que as estatísticas sugerem. Citando o sumário executivo do anexo B "Segurança e Insegurança: um paradoxo nacional" do relatório:

«Este estudo foca a perceção da insegurança e a relação desta com a criminalidade existente em Portugal, apresentando contributos para abordar os problemas identificados. É analisado o paradoxo existente entre a diminuição da criminalidade participada em Portugal (-1,3% entre 2000-2024) e um crescimento de 130% nas menções a crimes nas primeiras páginas dos jornais, sendo identificados quatro fatores determinantes para esta realidade. São também identificados quatro problemas que concorrem para este paradoxo, sendo apresentados quatro contributos estruturais que permitem debelar a questão numa abordagem holística, visando alinhar a perceção pública com a realidade criminal, melhorar a confiança nas instituições bem como desenvolver melhores políticas públicas.» 

É interessante verificar que os dados disponíveis sugerem um enviesamento dos mídia que empolam a criminalidade e ao fazê-lo suscitam em certos sectores da opinião pública sentimentos de insegurança e de hostilidade aos imigrantes, a quem é atribuído o suposto aumento da criminalidade, hostilidade que os mídia, onde predominam jornalistas de esquerda, vêm de seguida lamentar e contraditar. Se assim for, é mais uma consequência indesejada de acções do jornalismo de causas que faria as delícias de Robert Merton ou, em português corrente, mais um tiro no pé direito da esquerda.

03/07/2025

O título do Jornal Eco parece mais um título de um jornaleco, que é como quem diz de um pasquim, e o governo do Dr. Montenegro parece o do Dr. Costa

Jornal Eco

Comentando a chusma de notícias nos jornais de ontem com títulos semelhantes ao acima, precisamente como aconteceu há dois anos nesta altura, reproduzo o post que então dediquei a esta demonstração de ignorância e má fé:
É uma espécie de mimetismo. Às 23.30 de quinta-feira o jornal Negócios dá a "notícia" de que a «portaria de condições do trabalho para trabalhadores administrativos, é assinada por oito ministros, e decide de forma administrativa os salários mínimos que se aplicam potencialmente a 94 mil trabalhadores que não estão cobertos por negociação» e quase todos os outros a repetem com títulos praticamente iguais que induzem nas meninges dos leitores que o governo irá pagar do bolso dos seus ministros a quase 100 mil trabalhadores do "privado", como eles dizem.

Ninguém explica e contextualiza a "notícia", esclarecendo que estamos perante um expediente chamado "portarias de extensão", pelo qual os contratos colectivos negociados pelos sindicatos (controlados pelo PCP) que representam 10% dos trabalhadores têm influenciado 90% dos contratos de trabalho, em empresas e sectores sem condições para pagarem a bitola das maiores empresas e continuarem competitivas. Por esta via, a concertação social tem tido principalmente o papel de defender os «direitos adquiridos» das corporações empresariais e sindicais, aumentar o desemprego e assim manter o statu quo.

Em Outubro de 2012, por pressão da troika, as portarias de extensões passaram a ter um alcance mais limitado que foi resposto em Abril de 2014.

24/06/2025

Mitos (351) - O contrário do dogma do aquecimento global (XXXIII) - Pero que las hay, las hay

Outros posts desta série

Em retrospectiva: que o debate sobre o aquecimento global, principalmente sobre o papel da intervenção humana, é muito mais um debate ideológico do que um debate científico é algo cada vez mais claro. Que nesse debate as posições tendam a extremar-se entre os defensores do aquecimento global como obra humana – normalmente gente de esquerda – e os outros – normalmente gente de direita – existindo muito pouco espaço para dúvida, ou seja para uma abordagem científica, é apenas uma consequência da deslocação da discussão do campo científico, onde predomina a racionalidade, para o campo ideológico e inevitavelmente político, onde predomina a crença.

Nós aqui fazemos o possível para não ficar entalados entre o ruído da histeria climática que levada às suas últimas consequências conclui que o homo sapiens sapiens tem de ser erradicado para salvar o planeta, e o ruído das teorias da conspiração que consideram que o único problema sério com o ambiente é a histeria climática.

Os gráficos seguintes que foram produzidos pela Economist no princípio do ano mostram que dos dados disponíveis temos de concluir que com toda a probabilidade está em curso um processo de aquecimento global. 


Quais as causas e quais os remédios, se isso é um problema e quais as soluções, é uma outra estória. Não vamos entrar por aí para não acrescentar ruído à discussão.

27/04/2025

ARTIGO DEFUNTO: As receitas do marxismo tele-evangélico promovidas pelo jornalismo de causas

«265 fundos imobiliários obtiveram 1700 milhões de euros de lucro, contribuíram para o aumento do preço das rendas, mas não pagaram um cêntimo de impostos! Taxação justa e tectos máximos nas rendas é uma questão de elementar sensatez.»

Disse num vídeo, com aquele seu ar sisudo e acusador, o Prof. Francisco Anacleto Louçã, fundador da Liga Comunista Internacionalista (LCI) representante em Portugal da IV Internacional, uma dissidência de inspiração trotskista da Internacional Comunista, fundador do Bloco de Esquerda, uma fusão de trotskistas com os maoístas e outros grupelhos, ex-membro do Conselho Consultivo do Banco de Portugal nomeado pelo Ronaldo das Finanças e ex-membro do Conselho de Estado.

Talvez receando que o vídeo publicado no X fosse submergido pelo ruído ambiental da rede social do tecnogarca Elon Musk, o jornal Público apressou a promovê-lo submetendo-o ao seu fact checking, submissão completamente inútil porque o Prof. Louçã não é tolo e na primeira parte da sua sentença misturou um facto verdadeiro («265 fundos imobiliários obtiveram 1700 milhões de euros de lucro, (...) mas não pagaram um cêntimo de impostos) com outro infundado («contribuíram para o aumento do preço das rendas», e o resto não são factos são opiniões que obviamente reflectem o pensamento do camarada Anacleto, isto é receitas do marxismo tele-evangélico.

Na verdade, os fundos imobiliários não contribuíram para o aumento do preço das rendas porque, em primeiro lugar, representam apenas uma fracção diminuta dos arrendamentos sem influência significativa nas rendas e, de resto, foram estas rendas, supostamente elevadas, que contribuíram para os 1700 milhões de euros de lucro e não o contrário.

Quanto às opiniões do camarada Anacleto, a taxação justa apenas contribuiria para aumentar as rendas e, por outro lado, os detentores de unidades de participação dos fundos estão já sujeitos a IRS ou IRC pelas mais-valias resultantes da transmissão ou resgate das unidades de participação. Os tectos máximos nas rendas é uma medida que em todo o lado em que foi adoptada diminuiu a oferta de arrendamento, primeiro, e aumentou as rendas, depois.

06/04/2025

ARTIGO DEFUNTO: O jornalismo de causas tem dificuldade de lidar com a causalidade

O outro contribuinte escreveu há dias sobre a dívida que o governo socialista do Eng. Sócrates deixou a Passos Coelho, dívida que o Diário de Notícias classificou como a «megadívida de Passos Coelho».

Ora a causa dessa megadívida foram os empréstimos da troika, a causa dos empréstimos foi a bancarrota do Estado sucial cuja causa foi a governação corrupta, irresponsável e ruinosa do Eng. Sócrates e da sua trupe, alguma da qual ainda por aí anda. O que é de Passos Coelho não é, portanto, a megadívida, em vez disso, é o resgate limpo que deixou o país a crescer, a balança comercial superavitária pela primeira vez em décadas e as "contas certas" que o Dr. Costa se auto-atribuiu. 

Algumas das medidas do resgate obrigaram à venda de várias empresas públicas, inevitavelmente a interesses estrangeiros porque Portugal estava descapitalizado e os empresários portugueses não tinham dinheiro nem para mandar cantar um cego. Também inevitavelmente, os dividendos dessas empresas são pagos a accionistas estrangeiros que, outra vez inevitavelmente, estão no estrangeiro.

E assim chegamos a um exemplo de jornalismo de causas mais subtil do que o tosco do DN com uma peça do semanário de reverência. Peça confusa, com vários erros e o título pesaroso «Quase três quartos dos dividendos da Bolsa vão para o estrangeiro», isto é, vão para «as gigantes que entraram em Portugal durante a crise financeira», como se este facto não fosse causado pela bancarrota que o governo socialista deixou, mas tivesse resultado de uma qualquer fatalidade, um cataclismo da natureza ou da maldade do "neoliberalismo". 

04/04/2025

Lost in translation (371) – "Megadívida de Passos Coelho" significa a dívida que o governo socialista do Eng. Sócrates deixou a Passos Coelho enquanto fazia um período sabático em Paris

Diário de Notícias

Inspirado pela imprensa amiga do governo socialista criei há uns anos no Glossário das Impertinências a entrada Diário da manhã, classificação que o DN e outros jornais continuam a justificar, pelo menos por algumas "notícias", como a que cito. Comecemos por recordar em que consistiu a «megadívida de Passos Coelho».

Para quem não tenha tido ou já não tenha memória do que foi resgate que o governo de Passos Coelho teve de enfrentar, republico o gráfico acima e recordo que o governo de José Sócrates levou o Estado sucial à falência com a tesouraria à beira da ruptura no final do 1.º trimestre de 2011. Foi essa iminência que retirou a margem a Teixeira dos Santos para enfiar outra vez o problema para debaixo do tapete, como andava a fazer há muitos meses, e o forçou a encostar José Sócrates às cordas e obrigou este a lançar a toalha ao chão pedindo a intervenção da troika. O Memorandum of Understanding foi negociado em Abril e é assinado a 17-05-2011. O governo «neoliberal» toma posse a 5 de Junho e a primeira tranche do empréstimo chega nesse mês, escassamente a tempo de cobrir mais de meia dúzia de mil milhões de euros de pagamentos previstos para os quais não havia dinheiro. É a entrada dessa 1.ª tranche, a primeira de várias que engrossaram a "megadívida", que explica o salto no saldo de caixa no final do 2.º trimestre de 2011.

27/03/2025

ARTIGO DEFUNTO: Jornalismo de causas artísticas, um exemplo

Steve Reich é um velhote com quase 90 anos compositor de inspiração minimalista, rótulo que ele questiona. Ganhou um Grammy em 1990 e o Pullitzer da Música em 2009 e a sua peça mais conhecida é provavelmente "Música para 18 Músicos". A pretexto do lançamento de uma edição da sua obra completa (até agora), foi entrevistado pela Blitz e a entrevista foi também publicada pela Revista do Expresso.

A certa altura, o entrevistador vai à sua agenda de jornalismo de causas artísticas e saca de várias perguntas absolutamente previsíveis na sua tentativa tosca de politizar a música no pressuposto que os músicos são ou devem ser militantes ideológicos. As respostas de Reich, de que cito a seguir alguns excertos, são desarmantes.

«Não, a ideia de mudar o mundo é... é uma ambição tola para um artista. (...) Por isso não acho que a arte consiga mudar o mundo, acho, sim, que imaginamos ou esperamos que os artistas tenham um efeito transformador no mundo. (...)

Porquê começar por Gaza? Comecemos muito antes, há 2000 anos, por exemplo. Ou talvez ainda mais, há 3400 anos. A questão é que a terra de Israel tem sido um ponto fulcral na civilização ocidental e na civilização oriental há quase 4000 anos, por um motivo ou por outro. (...)

Bem, ser remunerado é importante. Qualquer outro ser humano que trabalhe poderá concordar com isso. Um dos meus modelos, claro, foi Igor Stravinsky, que era famoso por sempre encontrar uma forma de ser recompensado pelo seu trabalho. Ele pensava numa peça e depois tentava encontrar quem a quisesse e pudesse pagar por ela. Sempre trabalhei com agentes, na Europa, aqui nos Estados Unidos, é basicamente a mesma coisa. É um princípio muito simples: se conseguirmos que muitas pessoas paguem por uma só coisa, fica mais barato para cada uma. (...)

Como é que as condições políticas atuais me afetam a mim ou a outras pessoas enquanto compositores? Não tenho a certeza que afetem, na verdade. Quero dizer, não sei quantos Presidentes diferentes em partidos políticos diferentes estiveram no poder durante todas estas décadas em que tenho trabalhado. Claro que isso faz diferença no mundo, mas em termos da minha própria perceção do trabalho, sigo aquilo que me interessa.»

15/01/2025

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (70) - A fatalidade da decadência bolsista e a fatalidade dos cabos submarinos

Outros portugueses no topo do mundo

O que se pode dizer de uma bolsa como a de Lisboa cujo índice PSI 20 está hoje limitado a 15 (ALTRI, BCP, Corticeira Amorim, CTT, EDP, EDP Renováveis, Galp Energia, Ibersol, Jerónimo Martins, Mota-Engil. NOS, REN, SEMAPA, SONAE e Navigator), com um número total de empresas cotadas ao longo dos anos que de 150 caiu para 48 e com uma evolução compararativa nos últimos 25 anos como a mostrada no gráfico seguinte (CAC40 Paris ; ISEQ All Share Dublin)?

Euronext

Pode dizer-se que é uma bolsa em decadência de um país periférico e dependente, ou algo semelhante. Já para fazer um título como «Lisboa tem potencial para bater outras bolsas em 2025» será preciso encontrar uma explicação como a de Eduardo Lourenço, que não me canso de citar: estamos perante um «sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou colectivo».

Já que estou com o Portugal dos Pequeninos no divã, cito mais um exemplo do mesmo sentimento expresso por um professor da UAL que considerou o nosso torrãozinho natal como «um importante player internacional na conectividade global» porque a fatalidade da geografia fez desaguar cabos submarinos na costa portuguesa.

08/01/2025

Bons exemplos (142) - Novo Banco, a função higiénica dos abutres

Negócios

Num Portugal dos Pequeninos que tem o passado bancário que tem, envolvendo trapalhadas, fraudes, burlas, aldrabices variadas, que vai do Banco Português de Negócios (BPN) ao Banco Espírito Santo (BES) passando pelo Banco Privado Português (BPP) e o BANIF, sem esquecer as tentativas de controlo do BCP a partir do banco público CGE, a decisão da administração de um banco, por coincidência criado a partir dos restos do BES, demitir um seu administrador e denunciá-lo à PGR por «operações suspeitas» é uma boa notícia e um bom exemplo.

Infelizmente a boa notícia e o bom exemplo não ficaram a dever-se a uma súbita conversão às boas práticas da cultura empresarial bancária doméstica e, em vez disso, ficaram a dever-se às práticas do fundo Lone Star que o jornalismo de causas doméstico classificou de fundo abutre no início do processo de compra dos restos do BES.

01/12/2024

ARTIGO DEFUNTO: O semanário de reverência a pagar tributo ao PS. Segundo capítulo - presunção de culpa

Continuação deste outro tributo.

O ano passado o Expresso publicou um artigo de duas páginas no caderno principal sobre uma moradia que o Dr. Montenegro construiu, uma peça com 2 mil palavras semeadas de insinuações, sem uma única acusação concreta para além de alegar que o valor da moradia não foi declarado ao Tribunal Constitucional (Montenegro explica não estar prevista a indicação do valor que, aliás, consta da caderneta predial).


Este fim de semana, o mesmo periódico publicou o artigo acima onde em escreve que «os inspetores não terão detetado qualquer suspeita de crime». Note-se que não se escreve «não detetaram» e se opta pela subtileza «não terão detetado». Continua com «o Ministério Público se prepara para encerrar o processo (... mas) pode decidir ainda fazer novas diligências. E pode até pedir ajuda à PJ novamente». O resto do artigo é uma devassa ridícula semelhante à do primeiro artigo onde se especula sobre os materiais e os seus preços e o financiamento da construção e no final não resta uma única acusação concreta, resta apenas a tentativa de levantar suspeições na mente do tuga invejoso de um político com uma «habitação de luxo com seis pisos (de) um milhão de euros (ou) mais».

Declaração de interesse: qualquer visitante deste blogue terá tido inúmeras oportunidades de confirmar que nenhum dos contribuintes tem em especial conta o Dr. Montenegro. Neste blogue têm-se em especial apreciação a independência do jornalismo e o apego aos factos, uma e outro raros.

30/11/2024

Títulos inspirados (96) - Titilando mentes fracas com palavras fortes. Será a Mota-Engil um cadáver adiado?

Há um tempo atrás, assinalei aqui o exercício patético de uma peça do Expresso com o título "Quem são os 'fundos abutres' que investem quase €300 milhões para a bolsa nacional se afundar?" em que o jornalista concluiu que existe um enorme risco de uns fundos que controlam menos de 0,5% da capitalização bolsista das 11 empresas portuguesas onde detêm posições afundarem uma bolsa que está há muito afundada na sua própria irrelevância.

O mesmo exercício patético foi agora replicado por outro jornalista, provavelmente por encomenda da putativa vítima do abutre, com o título «Mota-Engil foi a “vítima perfeita para um fundo abutre”, diz administrador financeiro». Desta vez, o abutre é o Muddy Waters Capital Domino Master Fund com uma posição curta (*) de 0,65% que, segundo o roteiro, conseguiu afundar as cotações em quase 40% reduzindo a posição de 0,65% para 0,57%. 

Em vez de "vulture" o jornalista de causas financeiras deveria classificar o fundo Muddy Waters (o nome de um famoso guitarrista fundador do Chicago blues - ouça aqui Mannish Boy) como fundo "sorcer" visto que, com apenas uns gramas de uma barra que pesa quilos, está a transformar em chumbo essa barra de suposto ouro. Nesse caso deveria acrescentar que o feitiço, supondo que é a causa da queda, só estará a resultar porque o free float da Mota-Engil são peanuts ou, dito em português corrente, é insignificante a percentagem das acções transacionáveis na bolsa porque os "donos" da Mota-Engil não confiam no mercado e olham para os outros accionistas como silent partners ou, em português corrente, uns parolos a quem permitem deter acções para manter a empresa cotada.

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(*) Por memória: os "fundos abutres" praticam o short selling ou venda a descoberto que consiste em vender um activo esperando comprá-lo mais tarde a uma cotação menor, o que só faz sentido para o fundo se tiver expectativas que o activo em causa está sobreavaliado. Em mercados evoluídos considera-se que esta prática reduz o risco dos investidores e aumenta a liquidez e a estabilidade dos mercados.