Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)
20/08/2026
ARTIGO DEFUNTO: Segundo o jornalismo de causas, os salários médios deveriam ser o que o governo quisesse
18/08/2026
ARTIGO DEFUNTO: A "inclinação ideológica e política" das ciências actuariais, da estatística matemática, da econometria, da demografia, da macroeconomia e das finanças públicas
[Este post é uma espécie de continuação de Comparar a beira da estrada com a Estrada da Beira]
Cinco dias antes de ser conhecido o relatório sobre a sustentabilidade do sistema de pensões, o semanário de reverência, no seu papel de órgão oficial do militante socialista anónimo, citava o PS que já classificava o relatório como «enviesado» e se declarava preocupado por o estudo ter sido coordenado por «duas pessoas que têm uma inclinação ideológica e política muito clara».
Fiquei confundido, sem perceber qual seria o papel da inclinação ideológica e política na avaliação da sustentabilidade financeira de um sistema público de pensões. Admiti que essa confusão se devesse a não estar iluminado pela ciência das jornalistas de causas que assinam o artigo (duas economistas portadoras de mestrados pelo ISEG e uma cientista da comunicação da equipa das Redes Sociais e Online). Vergado ao peso dessa ciência, resolvi pedir a um agente de IA para descrever um modelo teórico geral de repartição (Pay-As-You-Go ou PAYG), em que os trabalhadores activos financiam diretamente as pensões dos reformados do mesmo período.
Eis a descrição do modelo que, surpreendentemente, não contém a variável inclinação ideológica e política.
16/08/2026
ARTIGO DEFUNTO: Comparar a beira da estrada com a Estrada da Beira
| Semanário de reverência |
- Custo estimado da construção (em 2024) 7,9 a 8,9 mil milhões
- Custo estimado das grandes obras de acessibilidade 5,5 mil milhões
- Custo total estimado 13,4 a 14,4 mil milhões
- Coeficiente médio de derrapagem das grandes obras públicas em Portugal 1,3 a 1,35
- Custo total provável 17,4 a 19,4 mil milhões
- Dois exemplos de derrapagem:
- Centro Cultural de Belém, o custo final triplicou o orçamentado;
- Aeroporto de Berlim: os 5 anos planeados escorregaram para 14 anos; o custo triplicou.
- O meu palpite do custo total final do Aeroporto Luís de Camões: 20 a 30 mil milhões
09/08/2026
ARTIGO DEFUNTO: O título também poderia ser "Dois em cada três membros são funcionários públicos ou pessoas pouco dotados de iniciativa"
| Expresso |
17/07/2026
Mitos (355) - O contrário do dogma do aquecimento global (XXXIV) - O Paradoxo de Crutzen e a Lei de Morton
Em retrospectiva, que o debate sobre o aquecimento global, principalmente sobre o papel da intervenção humana, é muito mais um debate ideológico do que um debate científico é algo cada vez mais claro. Que nesse debate as posições tendam a extremar-se entre os defensores do aquecimento global como obra humana – normalmente gente de esquerda – e os outros – normalmente gente de direita – existindo muito pouco espaço para dúvida, ou seja, para uma abordagem científica, é apenas uma consequência da deslocação da discussão do campo científico, onde predomina a racionalidade, para o campo ideológico e inevitavelmente político, onde predomina a crença.
Nós aqui fazemos o possível para não ficar entalados entre o ruído da histeria climática que, levada às suas últimas consequências, conclui que o homo sapiens sapiens tem de ser erradicado para salvar o planeta, e o ruído das teorias da conspiração que consideram que o único problema sério com o ambiente é a histeria climática.
15/05/2026
ARTIGO DEFUNTO: A ecoansiedade e os delírios do jornalismo de causas
Para me poupar a citar excertos do artigo “Será que a zona onde vivemos continuará habitável?”: Quatro em cada 10 jovens hesitam ter filhos por causa das alterações climáticas, cito o resumo gerado por AI que segundo o Expresso reza assim:
«Estudo revela que quatro em cada dez jovens portugueses hesitam em ter filhos devido às alterações climáticas. A ecoansiedade, definida como medo crónico de catástrofe ambiental, surge como determinante nas decisões reprodutivas.
Investigação do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto mostra que jovens com motivos ambientais apresentam três vezes mais ecoansiedade.»
Quanto ao primeiro estudo «Young People's Voices on Climate Anxiety, Government Betrayal and Moral Injury: A Global Phenomenon», foi publicado em 2021 na revista Lancet Planetary Health, é da autoria de uma equipa cujos membros publicaram um único paper - o paper em causa - e foi financiado pela AVAAZ, uma ONG que se define como «the campaigning community bringing people-powered politics to decision-making worldwide» e tem como fundadores vários notórios ideólogos do áctivismo online.
Esquecendo a óbvia falta de credibilidade dos "investigadores" e da entidade financiadora (é assim como militantes da CDU fazerem um estudo financiado pela CDU sobre a falência do capitalismo), o certo é que o estudo não revela uma especial preocupação dos jovens portugueses pelos supostos impactos das mudanças climáticas já que em relação à "ameaça à segurança familiar" se preocupam tanto quanto a média dos jovens dos 10 países considerados, e quanto "hesitação sobre ter filhos" preocupam-se menos.
Quanto ao segundo estudo, a conclusão é perfeitamente tautológica e não careceria de estudos: é claro que «jovens com motivos ambientais» teriam forçosamente de ser mais ecoansiosos, seja lá o que isso for.
| Pordata |
22/03/2026
De volta à Mota-Engil e aos "fundos-abutre"
Algum tempo depois, à mesma conclusão chegou o artigo «Mota-Engil foi a “vítima perfeita para um fundo abutre”, diz administrador financeiro». Já agora, recorde-se que a Mota-Engil teve como presidente executivo durante vários anos o Dr. Jorge Coelho, ministro de vários governos socialistas e eminência parda do PS e do regime. Desta vez, o abutre foi identificado como o Muddy Waters Capital Domino Master Fund que, apenas com uma posição curta de 0,65% que reduziu para 0,57%, teria segundo o artigo alcançado o milagre de afundar as cotações da Mota-Engil em quase 40%.
31/08/2025
ARTIGO DEFUNTO: A distribuição de dividendos do BCP vista pelo Avante! da Sonae
A peça acima é do Público, um jornal sustentado pela família Azevedo, eventualmente porque é o preço que paga à esquerdalhada (em particular os comunistas e, por isso, também é conhecido por Avante! da Sonae) para não os chatearem demasiado. Aparentemente parece uma coisa factual e inócua mas é tudo menos objectivo e está cheio de mensagens subliminares.
Em primeiro lugar, o título tem implícito que os accionistas não têm direito à proporção do lucro da empresa de que são proprietários e que, em consequência, se estão a apropriar ilegitimamente de dois terços. Em segundo lugar, tem igualmente subentendido que se a Fosun e a Sonangol «são as principais beneficiadas» por terem usurpado 40% dos lucros, apesar de terem 40% do capital do BCP, que lhes dá o direito a disporem de 40% do dividendo distribuído a todos os accionistas. Em terceiro lugar, que os outros 120 mil pequenos accionistas deveriam ter uma proporção maior dos dividendos do que a correspondente à sua participação no capital, como se não fosse inevitável que um accionista que tem 10% do capital tenha um dividendo 10 vezes maior do que outro que só dispõe de 1% do capital. Em quarto lugar, insinua que os accionistas «chamuscados pela guerra de poder de 2007» o foram por algum desígnio oculto e não por simplesmente serem então accionistas.
Curiosamente, mas não surpreendentemente, a peça não faz qualquer alusão ao desígnio oculto, ou seja, à génese da guerra de poder de que resultou a venda de participações à Fosun e à Sonangol depois de lá terem sido torrado 8,3 mil milhões (5,3 em aumentos de capital e 3,0 mil milhões em "ajudas") de dinheiro dos contribuintes (*).
______________
(*) Ver mais de uma centena de posts que se publicaram sobre o assalto ao Millenium bcp e, em particular o resumo «sequelas do assalto ao Millenium bcp.
31/07/2025
15/07/2025
Mitos (352) - Criminalidade, os "factos alternativos", as percepções e a realidade
Se o "Relatório do observatório da segurança e defesa" há dias divulgado pela SEDES for credível como parece (pelo que conheço da SEDES, uma instituição independente com 55 anos, vou tomá-lo como tal), há uma acentuada dicotomia entre a percepção da criminalidade tal como os mídia a apresentam e a realidade que as estatísticas sugerem. Citando o sumário executivo do anexo B "Segurança e Insegurança: um paradoxo nacional" do relatório:
«Este estudo foca a perceção da insegurança e a relação desta com a criminalidade existente em Portugal, apresentando contributos para abordar os problemas identificados. É analisado o paradoxo existente entre a diminuição da criminalidade participada em Portugal (-1,3% entre 2000-2024) e um crescimento de 130% nas menções a crimes nas primeiras páginas dos jornais, sendo identificados quatro fatores determinantes para esta realidade. São também identificados quatro problemas que concorrem para este paradoxo, sendo apresentados quatro contributos estruturais que permitem debelar a questão numa abordagem holística, visando alinhar a perceção pública com a realidade criminal, melhorar a confiança nas instituições bem como desenvolver melhores políticas públicas.»
É interessante verificar que os dados disponíveis sugerem um enviesamento dos mídia que empolam a criminalidade e ao fazê-lo suscitam em certos sectores da opinião pública sentimentos de insegurança e de hostilidade aos imigrantes, a quem é atribuído o suposto aumento da criminalidade, hostilidade que os mídia, onde predominam jornalistas de esquerda, vêm de seguida lamentar e contraditar. Se assim for, é mais uma consequência indesejada de acções do jornalismo de causas que faria as delícias de Robert Merton ou, em português corrente, mais um tiro no pé direito da esquerda.03/07/2025
O título do Jornal Eco parece mais um título de um jornaleco, que é como quem diz de um pasquim, e o governo do Dr. Montenegro parece o do Dr. Costa
| Jornal Eco |
Comentando a chusma de notícias nos jornais de ontem com títulos semelhantes ao acima, precisamente como aconteceu há dois anos nesta altura, reproduzo o post que então dediquei a esta demonstração de ignorância e má fé:
É uma espécie de mimetismo. Às 23.30 de quinta-feira o jornal Negócios dá a "notícia" de que a «portaria de condições do trabalho para trabalhadores administrativos, é assinada por oito ministros, e decide de forma administrativa os salários mínimos que se aplicam potencialmente a 94 mil trabalhadores que não estão cobertos por negociação» e quase todos os outros a repetem com títulos praticamente iguais que induzem nas meninges dos leitores que o governo irá pagar do bolso dos seus ministros a quase 100 mil trabalhadores do "privado", como eles dizem.Ninguém explica e contextualiza a "notícia", esclarecendo que estamos perante um expediente chamado "portarias de extensão", pelo qual os contratos colectivos negociados pelos sindicatos (controlados pelo PCP) que representam 10% dos trabalhadores têm influenciado 90% dos contratos de trabalho, em empresas e sectores sem condições para pagarem a bitola das maiores empresas e continuarem competitivas. Por esta via, a concertação social tem tido principalmente o papel de defender os «direitos adquiridos» das corporações empresariais e sindicais, aumentar o desemprego e assim manter o statu quo.Em Outubro de 2012, por pressão da troika, as portarias de extensões passaram a ter um alcance mais limitado que foi resposto em Abril de 2014.
24/06/2025
Mitos (351) - O contrário do dogma do aquecimento global (XXXIII) - Pero que las hay, las hay
27/04/2025
ARTIGO DEFUNTO: As receitas do marxismo tele-evangélico promovidas pelo jornalismo de causas
«265 fundos imobiliários obtiveram 1700 milhões de euros de lucro, contribuíram para o aumento do preço das rendas, mas não pagaram um cêntimo de impostos! Taxação justa e tectos máximos nas rendas é uma questão de elementar sensatez.»
Disse num vídeo, com aquele seu ar sisudo e acusador, o Prof. Francisco Anacleto Louçã, fundador da Liga Comunista Internacionalista (LCI) representante em Portugal da IV Internacional, uma dissidência de inspiração trotskista da Internacional Comunista, fundador do Bloco de Esquerda, uma fusão de trotskistas com os maoístas e outros grupelhos, ex-membro do Conselho Consultivo do Banco de Portugal nomeado pelo Ronaldo das Finanças e ex-membro do Conselho de Estado.
Talvez receando que o vídeo publicado no X fosse submergido pelo ruído ambiental da rede social do tecnogarca Elon Musk, o jornal Público apressou a promovê-lo submetendo-o ao seu fact checking, submissão completamente inútil porque o Prof. Louçã não é tolo e na primeira parte da sua sentença misturou um facto verdadeiro («265 fundos imobiliários obtiveram 1700 milhões de euros de lucro, (...) mas não pagaram um cêntimo de impostos) com outro infundado («contribuíram para o aumento do preço das rendas», e o resto não são factos são opiniões que obviamente reflectem o pensamento do camarada Anacleto, isto é receitas do marxismo tele-evangélico.
Na verdade, os fundos imobiliários não contribuíram para o aumento do preço das rendas porque, em primeiro lugar, representam apenas uma fracção diminuta dos arrendamentos sem influência significativa nas rendas e, de resto, foram estas rendas, supostamente elevadas, que contribuíram para os 1700 milhões de euros de lucro e não o contrário.
Quanto às opiniões do camarada Anacleto, a taxação justa apenas contribuiria para aumentar as rendas e, por outro lado, os detentores de unidades de participação dos fundos estão já sujeitos a IRS ou IRC pelas mais-valias resultantes da transmissão ou resgate das unidades de participação. Os tectos máximos nas rendas é uma medida que em todo o lado em que foi adoptada diminuiu a oferta de arrendamento, primeiro, e aumentou as rendas, depois.
06/04/2025
ARTIGO DEFUNTO: O jornalismo de causas tem dificuldade de lidar com a causalidade
04/04/2025
Lost in translation (371) – "Megadívida de Passos Coelho" significa a dívida que o governo socialista do Eng. Sócrates deixou a Passos Coelho enquanto fazia um período sabático em Paris
| Diário de Notícias |
Inspirado pela imprensa amiga do governo socialista criei há uns anos no Glossário das Impertinências a entrada Diário da manhã, classificação que o DN e outros jornais continuam a justificar, pelo menos por algumas "notícias", como a que cito. Comecemos por recordar em que consistiu a «megadívida de Passos Coelho».
Para quem não tenha tido ou já não tenha memória do que foi resgate que o governo de Passos Coelho teve de enfrentar, republico o gráfico acima e recordo que o governo de José Sócrates levou o Estado sucial à falência com a tesouraria à beira da ruptura no final do 1.º trimestre de 2011. Foi essa iminência que retirou a margem a Teixeira dos Santos para enfiar outra vez o problema para debaixo do tapete, como andava a fazer há muitos meses, e o forçou a encostar José Sócrates às cordas e obrigou este a lançar a toalha ao chão pedindo a intervenção da troika. O Memorandum of Understanding foi negociado em Abril e é assinado a 17-05-2011. O governo «neoliberal» toma posse a 5 de Junho e a primeira tranche do empréstimo chega nesse mês, escassamente a tempo de cobrir mais de meia dúzia de mil milhões de euros de pagamentos previstos para os quais não havia dinheiro. É a entrada dessa 1.ª tranche, a primeira de várias que engrossaram a "megadívida", que explica o salto no saldo de caixa no final do 2.º trimestre de 2011.
27/03/2025
ARTIGO DEFUNTO: Jornalismo de causas artísticas, um exemplo
Steve Reich é um velhote com quase 90 anos compositor de inspiração minimalista, rótulo que ele questiona. Ganhou um Grammy em 1990 e o Pullitzer da Música em 2009 e a sua peça mais conhecida é provavelmente "Música para 18 Músicos". A pretexto do lançamento de uma edição da sua obra completa (até agora), foi entrevistado pela Blitz e a entrevista foi também publicada pela Revista do Expresso.
A certa altura, o entrevistador vai à sua agenda de jornalismo de causas artísticas e saca de várias perguntas absolutamente previsíveis na sua tentativa tosca de politizar a música no pressuposto que os músicos são ou devem ser militantes ideológicos. As respostas de Reich, de que cito a seguir alguns excertos, são desarmantes.
«Não, a ideia de mudar o mundo é... é uma ambição tola para um artista. (...) Por isso não acho que a arte consiga mudar o mundo, acho, sim, que imaginamos ou esperamos que os artistas tenham um efeito transformador no mundo. (...)
Porquê começar por Gaza? Comecemos muito antes, há 2000 anos, por exemplo. Ou talvez ainda mais, há 3400 anos. A questão é que a terra de Israel tem sido um ponto fulcral na civilização ocidental e na civilização oriental há quase 4000 anos, por um motivo ou por outro. (...)Bem, ser remunerado é importante. Qualquer outro ser humano que trabalhe poderá concordar com isso. Um dos meus modelos, claro, foi Igor Stravinsky, que era famoso por sempre encontrar uma forma de ser recompensado pelo seu trabalho. Ele pensava numa peça e depois tentava encontrar quem a quisesse e pudesse pagar por ela. Sempre trabalhei com agentes, na Europa, aqui nos Estados Unidos, é basicamente a mesma coisa. É um princípio muito simples: se conseguirmos que muitas pessoas paguem por uma só coisa, fica mais barato para cada uma. (...)
Como é que as condições políticas atuais me afetam a mim ou a outras pessoas enquanto compositores? Não tenho a certeza que afetem, na verdade. Quero dizer, não sei quantos Presidentes diferentes em partidos políticos diferentes estiveram no poder durante todas estas décadas em que tenho trabalhado. Claro que isso faz diferença no mundo, mas em termos da minha própria perceção do trabalho, sigo aquilo que me interessa.»
15/01/2025
DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (70) - A fatalidade da decadência bolsista e a fatalidade dos cabos submarinos
O que se pode dizer de uma bolsa como a de Lisboa cujo índice PSI 20 está hoje limitado a 15 (ALTRI, BCP, Corticeira Amorim, CTT, EDP, EDP Renováveis, Galp Energia, Ibersol, Jerónimo Martins, Mota-Engil. NOS, REN, SEMAPA, SONAE e Navigator), com um número total de empresas cotadas ao longo dos anos que de 150 caiu para 48 e com uma evolução compararativa nos últimos 25 anos como a mostrada no gráfico seguinte (CAC40 Paris ; ISEQ All Share Dublin)?
| Euronext |
Pode dizer-se que é uma bolsa em decadência de um país periférico e dependente, ou algo semelhante. Já para fazer um título como «Lisboa tem potencial para bater outras bolsas em 2025» será preciso encontrar uma explicação como a de Eduardo Lourenço, que não me canso de citar: estamos perante um «sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou colectivo».
Já que estou com o Portugal dos Pequeninos no divã, cito mais um exemplo do mesmo sentimento expresso por um professor da UAL que considerou o nosso torrãozinho natal como «um importante player internacional na conectividade global» porque a fatalidade da geografia fez desaguar cabos submarinos na costa portuguesa.
08/01/2025
Bons exemplos (142) - Novo Banco, a função higiénica dos abutres
| Negócios |
Num Portugal dos Pequeninos que tem o passado bancário que tem, envolvendo trapalhadas, fraudes, burlas, aldrabices variadas, que vai do Banco Português de Negócios (BPN) ao Banco Espírito Santo (BES) passando pelo Banco Privado Português (BPP) e o BANIF, sem esquecer as tentativas de controlo do BCP a partir do banco público CGE, a decisão da administração de um banco, por coincidência criado a partir dos restos do BES, demitir um seu administrador e denunciá-lo à PGR por «operações suspeitas» é uma boa notícia e um bom exemplo.
Infelizmente a boa notícia e o bom exemplo não ficaram a dever-se a uma súbita conversão às boas práticas da cultura empresarial bancária doméstica e, em vez disso, ficaram a dever-se às práticas do fundo Lone Star que o jornalismo de causas doméstico classificou de fundo abutre no início do processo de compra dos restos do BES.
01/12/2024
ARTIGO DEFUNTO: O semanário de reverência a pagar tributo ao PS. Segundo capítulo - presunção de culpa
30/11/2024
Títulos inspirados (96) - Titilando mentes fracas com palavras fortes. Será a Mota-Engil um cadáver adiado?
Há um tempo atrás, assinalei aqui o exercício patético de uma peça do Expresso com o título "Quem são os 'fundos abutres' que investem quase €300 milhões para a bolsa nacional se afundar?" em que o jornalista concluiu que existe um enorme risco de uns fundos que controlam menos de 0,5% da capitalização bolsista das 11 empresas portuguesas onde detêm posições afundarem uma bolsa que está há muito afundada na sua própria irrelevância.
O mesmo exercício patético foi agora replicado por outro jornalista, provavelmente por encomenda da putativa vítima do abutre, com o título «Mota-Engil foi a “vítima perfeita para um fundo abutre”, diz administrador financeiro». Desta vez, o abutre é o Muddy Waters Capital Domino Master Fund com uma posição curta (*) de 0,65% que, segundo o roteiro, conseguiu afundar as cotações em quase 40% reduzindo a posição de 0,65% para 0,57%.
Em vez de "vulture" o jornalista de causas financeiras deveria classificar o fundo Muddy Waters (o nome de um famoso guitarrista fundador do Chicago blues - ouça aqui Mannish Boy) como fundo "sorcer" visto que, com apenas uns gramas de uma barra que pesa quilos, está a transformar em chumbo essa barra de suposto ouro. Nesse caso deveria acrescentar que o feitiço, supondo que é a causa da queda, só estará a resultar porque o free float da Mota-Engil são peanuts ou, dito em português corrente, é insignificante a percentagem das acções transacionáveis na bolsa porque os "donos" da Mota-Engil não confiam no mercado e olham para os outros accionistas como silent partners ou, em português corrente, uns parolos a quem permitem deter acções para manter a empresa cotada.
_________
(*) Por memória: os "fundos abutres" praticam o short selling ou venda a descoberto que consiste em vender um activo esperando comprá-lo mais tarde a uma cotação menor, o que só faz sentido para o fundo se tiver expectativas que o activo em causa está sobreavaliado. Em mercados evoluídos considera-se que esta prática reduz o risco dos investidores e aumenta a liquidez e a estabilidade dos mercados.

