Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
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11/09/2026

As habilidades hermenêuticas do Dr. Centeno

Expresso

mais liberdade

Por que diabo o Dr. Centeno disse o que disse, aparentemente uma barbaridade imprópria de sair da boca de um sábio das finanças públicas, sem receio de ser incinerado na praça pública? Ora, porque o Dr. Centeno sabe que o Eurostat e a Comissão Europeia utilizam o conceito de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), usado no quadro acima, onde se enquadra a maioria dos fundos que Portugal recebe, conceito que é diferente dos critérios do ministério das Finanças e da contabilidade pública nacional, em que o "Investimento Público" abrange verbas classificadas como capital financiadas diretamente pelos impostos, tais como: 
  • Aquisição de equipamento militar, como fragatas, aeronaves ou sistemas de defesa;
  • Bens de equipamento comuns: veículos, computadores, sistemas informáticos ou equipamentos hospitalares;
  • Subsídios e entradas de capital a empresas públicas: transferências financeiras que o Estado faz para recapitalizar ou cobrir o plano de investimentos de empresas públicas.
E é assim que o Dr. Centeno, abusando das subtilezas da hermenêutica contabilística, obscurece os factos relevantes que (1) são a dependência maioritária dos dinheiros de Bruxelas do investimento do Estado em capital público criador de riqueza e (2) os expedientes que usou durante anos no OE e nas contas públicas para esconder o facto de estar a reduzir o investimento público por trás da aparência de o estar a aumentar (ver o post Investimento público, a autoestrada mexicana do PS).

29/08/2026

Pro memoria (150) - In war, truth is the first casualty. There is currently a war in West Bank

 «Few, if any, security forces are as ruthlessly effective as Israel’s. Its military and intelligence services strike against enemies even at extreme distances. In the past couple of years alone Israel has assassinated dozens of opponents inside Iran, plus proxy militia leaders in Lebanon and Yemen. Israel’s martial capabilities earn respect even from its bitterest enemies.

Yet this superiority seems to count for little closer to home. Those same forces are responsible for a dire failure in the occupied West Bank, where violent Israeli settlers have been attacking Palestinian residents with increasing brutality. Settlers want to force Palestinians from their land and claim it for themselves.

Israel’s failure in the West Bank can hardly be put down to a lack of resources. The Israel Defence Forces (IDF) deploy 25 combat battalions there. Shin Bet, the powerful security agency, has networks of agents and informers throughout. But these are used mostly to protect the 500,000 or so Israeli settlers, and against the threat of terrorist attacks, not to assist the more than 3m Palestinians who live in the territory. This has largely been the case since Israel replaced Jordan as occupier of the West Bank in 1967.

What has changed is the behaviour of many “outlaw” settlers. Never before have they acted as violently as today. Crucially, never before have they enjoyed the impunity the current government gives them. Since the Hamas attack in October 2023, which triggered the war in Gaza, over 1,100 Palestinians have been killed in the West Bank. Only rarely does the IDF intervene against settlers. In Qusra, for example, an entire battalion was recently deployed against those who were invading Palestinian homes. But the soldiers found themselves fruitlessly chasing youngsters over the hills. Troops from another unit joined the settlers in prayers. No arrests were made.

The ineffectual response can be explained by the stance of Israel’s government. The IDF knows that Binyamin Netanyahu, the prime minister, sides squarely with the most extreme settlers. It appears that the IDF was dispatched to Qusra only after American diplomatic pressure which arose because an American citizen owns a home there.»

Israel is flirting with the next intifada

28/08/2026

Pro memoria (149) - In war, truth is the first casualty. There is currently no famine in Gaza

«Almost exactly a year ago to the day, my colleagues and I uncovered in The Free Press that a dozen of the most viral images presented as evidence of famine in Gaza in fact showed children with unrelated medical issues, including cystic fibrosis and autoimmune conditions.

The investigation earned me death threats, calls for me to be tried at The Hague, and jabs by a high-profile comedian on national TV—despite the fact that we’ve had to issue exactly zero corrections on our story. That wasn’t the case for three of the news organizations that had run the images, which either updated or corrected their work because of what we reported.

Our point was simply to tell readers that if there was a famine in Gaza, photographs of these children were not evidence of it.

What is indisputable today is that there is currently no famine in Gaza. That is the major finding from a UNICEF-led team that recently produced the most comprehensive and robust nutrition survey of Gaza since the war began. It found that, less than a year after a famine was declared in Gaza, the territory has one of the lowest malnutrition rates in the region. A recovery that swift is not just “miraculous,” in the words of a malnutrition researcher I spoke with—it raises questions in and of itself. Questions like: How can a war-torn territory go from famine to showing some of the lowest rates of child malnutrition in the region in less than a year?»

Olivia Reingold, The Free Press

24/07/2026

Cada macaco no seu galho

Enviaram-me o meme aqui ao lado, ironizando as dificuldades de expressão de Jorge Jesus, novo seleccionador nacional e contrastando o seu conhecido défice de verbo com um salário várias vezes superior ao do Dr. Montenegro, a quem sobeja o verbo.

Achei o meme irritante por a piada se fundar em vários equívocos e preconceitos muito frequentes entre a intelectualidade merdosa do nosso Portugal dos Pequeninos que considera o futebol uma actividade imprópria de gente com status e vê os seus profissionais, geralmente gente pouco ilustrada, provenientes de uma casta inferior, ignorando serem os poucos profissionais cujo desempenho se faz em muitos casos num mercado internacional aberto e competitivo, com muito maior frequência do que qualquer outra profissão.

A piada só teria graça se Jorge Jesus fosse pago para fazer discursos, como muitos políticos cuja actividade se reduz a isso. Por exemplo, como o Dr. António Costa que disse de uma só vez uma pletora de alarvidades, como  “poder-lhe-dizia” (“podia dizer-lhe”), “competividade” (“competitividade”), “era o que eu estou” (“era o que eu estava”), “pulação” (“população”),  “protividade” (“produtividade”), “mobilição” (“mobilização”), “precalidade” (“precaridade”) (Cfr aqui). 

Diferentemente, Jorge Jesus é pago para conseguir resultados como os alcançados em vários clubes de Portugal, Brasil, Turquia e Arábia Saudita: Benfica (10 títulos), Al-Hilal (6 títulos), Flamengo (5 títulos), Sporting CP (2 títulos), Al-Nassr (1 título), Fenerbahçe (1 título).

10/07/2026

De volta ao patriotismo tudológico a cavalo da ignorância pesporrente

Faz um tempo zurzi o patriotismo tudológico a cavalo da ignorância pesporrente do Dr. Tavares, que então investiu contra «os holandeses, os novos-ricos da Europa, actuando como gauleiters da Alemanha» tentando diminuir a Holanda para enaltecer o Portugal dos Pequeninos. Lembrei-me desse episódio ao cruzar-me com mais um exemplo de realizações notáveis dos holandeses, a acrescentar aos vários que então citei. 


Trata-se da ASML, o único fabricante mundial de máquinas de fotolitografia por ultravioleta extremo (EUV) cujos sistemas de precisão permitem produzir em massa os chips mais avançados, indispensáveis para a inteligência artificial, smartphones e data centers. As máquinas da ASML permitem imprimir circuitos com menos de 2 nanómetros (*) de largura para aplicações de IA da próxima geração.


É uma empresa espantosamente bem-sucedida, que em 2025 facturou mais de € 30 mil milhões e prevê facturar € 40 mil milhões este ano com cerca de 42 mil empregados de 140 nacionalidades. É a empresa europeia com maior valor de mercado - quase 700 mil milhões de euros ou mais do dobro do PIB português. É tão inovadora que a administração americana exigiu que, para continuar a operar nos EUA, a ASML não exportasse as suas máquinas para a China porque isso comprometeria a vantagem tecnológica americana, cada vez menor.

__________
(*) Equivalente a um milionésimo de milímetro; as células humanas têm, em média, um diâmetro entre 10 mil e 30 mil nanómetros, pelo que na largura de um circuito impresso da ASML caberiam de 5 mil a 10 mil células humanas. 

02/07/2026

Continuamos muito "competivos", como dizia o Dr. Costa, e pouco competitivos

Continuação daqui e dali.

No último ranking de Competitividade do IMD, o Portugal dos Pequeninos volta a cair, desta vez para o 40.º lugar.


A queda resulta sobretudo de um score medíocre da eficiência empresarial, o que não deveria ser surpresa para ninguém que tenha um módico de conhecimento da estrutura empresarial e do funcionamento das empresas. 


À ineficiência empresarial não é alheio o facto de, num país com 11,4 milhões de residentes, existirem 1,5 milhões de empresas não financeiras, das quais 96% são microempresas (em muitos casos, meros expedientes de profissionais isolados para diminuir a punção fiscal), 3,9% são PME e os 0,1% residuais são as grandes empresas que representam 36,4% do VAB total. É isto que temos, empresas pequeninas num país pequenino, com mentes pequeninas e egos inchados, sofrendo do complexo de Eduardo Lourenço.

14/06/2026

Lost in translation (375) - Greve geral significa uma greve parcial dos funcionários públicos (II)

Continuação de Lost in translation (374).

BdP

Quem tenha consultado a lista de 66 páginas com 990 entidades afectadas pela greve, publicada pela CGTP, spin-off do Partido Comunista para as greves dos funcionários públicos, já teria concluído que impacto da greve geral foi ridiculamente insignificante e não terá razões para ficar surpreendido com a divulgação pelo BdP do Indicador diário da atividade económica (DEI) do Banco de Portugal dessa semana, de onde se conclui que ocorreu uma redução da actividade económica ao redor dos 5%.

12/06/2026

A defesa dos centros de decisão nacional (36) - Os seguros inseguros

Outras defesas dos centros de decisão nacional.

Recordemos, uma vez mais, os inúmeros manifestos pela defesa dos centros de decisão nacional, alguns deles assinados por empresários que, passado algum tempo, venderam a estrangeiros as suas empresas e as inúmeras declarações no mesmo sentido da esquerdalhada em geral. Recordemos também que esta necessidade de vender o país aos retalhos resulta do endividamento de públicos e privados e da descapitalização da economia portuguesa, consequência de décadas a viver acima das posses.


Os diagramas anteriores mostram as fases mais relevantes da evolução da repartição do mercado entre seguradores portugueses e estrangeiros, medida pelos Prémios Brutos Emitidos, ou seja, pelo Volume de Negócio dos seguradores.

Decorridas cinco décadas do mantra do "nacionalizado, nosso" do PREC, a estrutura do mercado inverteu-se completamente, com os seguradores controlados por grupos estrangeiros detendo mais de 90% do mercado.

A Caravela, detida pelo empresário Mário Ferreira do grupo Mystic Invest e da Pluris Investments, maior acionista da Media Capital, e pelas famílias Violas e Quintas, é ainda um dos seguradores sobrantes. Por pouco tempo, porque está a ser negociada a sua venda à Allianz, o maior grupo segurador europeu em capitalização bolsista e activos. Diz-se que a Lusitânia, do Montepio, é outro sobrevivente que pode ser vendido em breve.

04/06/2026

Lost in translation (374) - Greve geral significa uma greve parcial dos funcionários públicos


Ontem, tivemos mais outra greve dita geral envolvendo pouco mais do que os ocupantes da vaca marsupial pública, alguns dos quais também se manifestaram contra o que chamaram pacote laboral, pacote cuja putativa adopção não teria quaisquer efeitos relevantes sobre esses ocupantes com empregos vitalícios protegidos do stress da concorrência. A esmagadora maioria das "vítimas" do pacote, os trabalhadores do sector privado, dos quais só em cada quinze está sindicalizado, continuaram a trabalhar nas empresas ou em teletrabalho suportando o desconforto da escassez de transportes públicos paralisados pelos ocupantes das referida vaca e a indisponibilidade dos serviços públicos nomeadamente das escolas e dos hospitais públicos.

O impacto da greve geral foi tão ridiculamente insignificante que a CGTP, spin-off do Partido Comunista para as greves dos funcionários públicos, publicou no seu site uma lista de 66 páginas com 990 entidades afectadas pela greve, a saber:
  • 24 Empresas privadas com "produção parada" do milhão e meio de Micro e PME que existem em Portugal;
  • 215 organismos públicos encerrados dos cerca de 4.200 organismos públicos existentes;  
  • 15 organismos públicos com serviços mínimos;
  • A restante miscelânia de entidades, com taxas de adesão à greve de 45% a 100%, dos quais quase todas são organismos públicos, entre eles:
    • Cerca de 200 organismos ligados a câmaras municipais;
    • Cerca de 270 escolas e creches;
  • Com dificuldade, lá se conseguem encontrar algumas micro e PME, lista que inclui alguns  departamentos de empresas privadas (por exemplo a loja de Eiras da Auchan, um posto de abastecimento da BP, Lidl de Alcochete e de Tondela, o Posto logístico da Sonae na Azambuja e outra miudezas). 
A única novidade nas manifs com layout e slogans do século XIX, onde se viam cartazes a reclamar "pão" e a protestar porque o "custo de vida aumenta", foi a sua parasitagem por áctivistas (provavelmente os mesmos áctivistas das mudanças climáticas) que usaram a violência e provocaram a resposta, por vezes violenta, da polícia.

____________

Alteração do entrada do Glossário das Impertinências:

Greve geral (sindicalês)

Uma greve de muitos empregados do Estado, devidamente protegidos das agruras do mundo real, cujos "direitos" não são afectados, e de alguns trabalhadores de empresas privadas; greve convocada quando o governo não é de esquerda, por sindicatos que representam menos de um sexto dos trabalhadores, que reclamam ter mobilizado a maioria dos trabalhadores, greve geralmente com impacto limitado que é convocada para a véspera de um feriado, sexta-feira ou segunda-feira, acompanhada de manifs com cartazes do século XIX e parasitada por áctivistas violentos.

25/04/2026

Mitos (354) - O dia em que o Estado Novo começou a ser substituído pelo Estado novo

Por falta de tempo e porque os 25 de Abril tendem a ser todos iguais, republico o post do ano passado que ainda me parece actual.

Tivemos os 48 anos de Estado Novo que, sendo uma ditadura sonsa e beata, não deixou de ser uma ditadura encalhada no tempo, tentando endoutrinar as crianças e os jovens com a Mocidade Portuguesa e organizar os adultos com a Legião Portuguesa, com uma polícia política que vigiava e punia uma oposição fraca quase resumida ao Partido Comunista e garantia que do simulacro de eleições saísse sempre o mesmo resultado. Um Estado Novo que nos manteve numa miséria pacata, onde para usar um isqueiro era preciso ter uma licença (as fábricas de fósforos eram propriedade de eminências do regime) e só nos anos 60 com a adesão à EFTA (European Free Trade Association) se iniciou um período de crescimento interrompido pelo golpe militar. Uma ditadura que tentou, contra as tendências da história, manter um império colonial que nunca chegou a ser império e consumiu as energias de uma geração numa guerra impossível de ser vencida.

Uma ditadura que não sobreviveu quase cinco décadas sem a adesão das elites, dos situacionistas e dos oportunistas (alguns deles viraram a casa) e com a passividade, mansidão e conformidade de um povo traumatizado pela incompetência, violência e instabilidade da 1.ª República. Uma ditadura que se desfez como um castelo de cartas com um simples golpe militar, cuja génese deve mais ao sindicalismo militar e menos à ideologia e aos grandes princípios, golpe militar cavalgado pela única força política organizada.

O Estado Novo e o Estado novo vistos por
João Abel Manta
Com o mesmo povo, gradualmente menos passivo e menos conformado, chegámos ao PREC de onde quase saiu uma ditadura pior do que a do Estado Novo, tivemos a reforma agrária e as nacionalizações que expropriaram o "capitalismo monopolista", desmantelou-se o sector financeiro, hoje quase totalmente controlado por capital estrangeiro, a indústria foi reduzida a microempresas e PME e a uma ou outra sobra das grandes empresas industriais. Foi construído um Estado sucial pletórico, que faliu três vezes nos últimos 50 anos, controlado pelos novos situacionistas e povoado  por um número de funcionários (780 mil) que é o dobro da soma dos "servidores do Estado" (200 mil) com os mobilizados para a guerra colonial (170 mil). As Forças Armadas foram reduzidas a uma tropa pelintra, desmoralizada, mal equipada e incapaz de defender o país. O ensino público foi gradualmente infectado por ideologias neo-marxistas a um grau que rivaliza com a endoutrinação no ensino do Estado Novo mas fica longe do seu grau de exigência técnica. A qualidade do pessoal político degradou-se e a maioria dos ministros do regime actual não teriam por incompetência técnica lugar num governo do Dr. Salazar ou do Dr. Marcelo. O resultado é um país ultrapassado pelos países saídos das ruínas do império soviético, com uma economia pouco competitiva de baixa produtividade, endividado e dependente dos dinheiros europeus.

No final ficámos com o arbítrio mais livre e, em consequência, com menos desculpas, o que só por si é positivo.

19/04/2026

CASE STUDY: Democracias defeituosas (7) - O contributo do PS para a democracia em Portugal é quando deixa de governar

Outras democracias defeituosas.

O Portugal do governo PS, classificado como “flawed democracy” em 2023, melhorou em 2024 com o governo AD para “full democracy”, alcançando a 23ª posição. A pontuação de Portugal melhorou de 7,75 em 2023 para 8,08 em 2024 e voltou a subir para o 20.º lugar com 8,28 em 2025. 

Fonte

O governo do Dr. Montenegro é melhor a promover a democracia do que a reformar, talvez (um simples talvez) porque a maioria dos portugueses não gosta de reformas que cheiram a "sacrifícios" e, sobretudo, odeiam a incerteza, sendo que se há coisa em que os portugueses são notáveis é na aversão ao risco, talvez (um simples talvez) porque durante cinco séculos se deu uma espécie de anti-selecção, em que foram saíndo os afoitos e ficando os acomodados.


Já o governo do Dr. Trump faz o seu melhor para piorar a democracia e seu melhor para empatar guerras que não fazia ideia de qual o propósito com inimigos da terceira divisão, descendo mais uma vez para o 34.º lugar com 7,65 pontos.

16/04/2026

Dúvidas (366) - Qual o efeito na natalidade das políticas de promoção da natalidade? (II)

Continuação de (1)

Em retrospectiva: uma das bandeiras do nativismo é o aumento da natalidade para combater a "Grande Substituição", uma modalidade das míticas ameaças externas a que todos os ideários autocráticos recorrem. O governo húngaro de Viktor Orbán foi um dos que mais apostaram na engenharia demográfica e gastou 6% do PIB da Hungria com vários incentivos, incluindo uma isenção vitalícia do imposto sobre o rendimento das mães com mais de um filho.

Fonte

Confirmando que a engenharia social da direita é tão inútil como a de esquerda (e às vezes mais nociva), os resultados das políticas de promoção da natalidade da Hungria (e da Polónia até há dois anos) para evitar o que a extrema-direita magiar chamou nemzethalal (extinção nacional) - o equivalente à "Grande Substituição" (Grand Remplacement, Great Replacement) - não estão à altura das expectativas do pensamento milagroso nativista.

________________

Post scriptum (ou post mortem)

Este post era para ser publicado durante a vigência do governo de Viktor Orbán. Provavelmente continuará a ter actualidade, uma vez que o novo governo húngaro de Péter Magyar parece adoptar as mesmas políticas. Mesmo assim, não me digam que é mais do mesmo (ainda que possa ser). Ao menos é uma questão de higiene porque, como escreveu Eça, ainda que um governo não tenha de cair - porque não é um edifício, tem de sair com benzina - porque é uma nódoa!

23/01/2026

A courageous speech by Mark Carney in Davos: Enough of "living a lie." "Nostalgia is not a strategy."

«In 1978, the Czech dissident Václav Havel, later president, wrote an essay called The Power of the Powerless, and in it, he asked a simple question: how did the communist system sustain itself?

And his answer began with a greengrocer.

Every morning, this shopkeeper places a sign in his window: ‘Workers of the world unite’. He doesn't believe it, no-one does, but he places a sign anyway to avoid trouble, to signal compliance, to get along. And because every shopkeeper on every street does the same, the system persist – not through violence alone, but through the participation of ordinary people in rituals they privately know to be false.

Havel called this “living within a lie”.

The system's power comes not from its truth, but from everyone's willingness to perform as if it were true, and its fragility comes from the same source. When even one person stops performing, when the greengrocer removes his sign, the illusion begins to crack. Friends, it is time for companies and countries to take their signs down.

In 1978, the Czech dissident Václav Havel, later president, wrote an essay called The Power of the Powerless, and in it, he asked a simple question: how did the communist system sustain itself?

And his answer began with a greengrocer.

Every morning, this shopkeeper places a sign in his window: ‘Workers of the world unite’. He doesn't believe it, no-one does, but he places a sign anyway to avoid trouble, to signal compliance, to get along. And because every shopkeeper on every street does the same, the system persist – not through violence alone, but through the participation of ordinary people in rituals they privately know to be false.

Havel called this “living within a lie”.

The system's power comes not from its truth, but from everyone's willingness to perform as if it were true, and its fragility comes from the same source. When even one person stops performing, when the greengrocer removes his sign, the illusion begins to crack. Friends, it is time for companies and countries to take their signs down.

22/01/2026

A defesa dos centros de decisão nacional (35) - Últimos episódios

Outras defesas dos centros de decisão nacional.

Recordemos, uma vez mais, os inúmeros manifestos pela defesa dos centros de decisão nacional, alguns deles assinados por empresários que, passado algum tempo, venderam a estrangeiros as suas empresas e as inúmeras declarações no mesmo sentido da esquerdalhada em geral. Recordemos também que esta necessidade de vender o país aos retalhos resulta do endividamento de públicos e privados e da descapitalização da economia portuguesa, consequência de décadas a viver acima das posses.

Nos últimos meses tiveram lugar as seguintes operações: 
  • Novo Banco, o que sobrou do BES, vendido ao Banque Populaire Caisse d’Épargne;
  • Edo, uma farmacêutica, vendida aos espanhóis da Faes Farma; 
  • Secil, cimenteira da Semapa, vendida à espanhola Molins;
  • Participação de 40% da Luz Saúde, participada a Fidelidade (maioritariamente detida pelos chineses da Fosun), vendida à australiana Macquarie;
  • PHC Business Software, empresa portuguesa de software de gestão, vendida ao grupo tecnológico francês Cegid:
  • Centro de Dados na Covilhã da Altice, vendido ao fundo espanhol Asterion;
  • Acordo da Galp com a espanhola Moeve do qual resultará que a Galp passará a controlar menos de 9% da capacidade de refinação na Península Ibérica.
Em si mesmas, todas estas operações são legais e constituem opções legítimas dos accionistas e também, e é este o ponto desta série de posts, constituem exemplos de um capitalismo periférico dependente e descapitalizado.

29/12/2025

Greve geral (sindicalês). Nunca tão poucos se fizeram passar por tantos

Um aditamento à NOVA ENTRADA PARA O GLOSSÁRIO DAS IMPERTINÊNCIAS: Greve geral

mais liberdade

Olhando para o gráfico, percebe-se que exista implícita nas centrais sindicais e nos sindicatos ou, mais exactamente, nos partidos que controlam o movimento sindical, uma certa nostalgia dos sindicatos "nacionais" do Estado Novo e da "unicidade sindical" do PREC.

22/11/2025

Dúvidas (362) - Qual o efeito na natalidade das políticas de promoção da natalidade? (I)

Uma das bandeiras do nativismo é o aumento da natalidade para combater a "Grande Substituição", uma modalidade das míticas ameaças externas a que todos os ideários autocráticos recorrem. Na UE há dois países que adoptaram políticas para aumentar a fecundidade: a Polónia e a Hungria. O governo de Viktor Orbán gasta 6% do PIB da Hungria com esse propósito, que inclui uma isenção vitalícia do imposto sobre o rendimento das mães com mais de um filho.

Os resultados não são encorajadores. Na Hungria o número de nascimentos (77.500) o ano passado foi o mais baixo de sempre e a taxa de natalidade de 1,38 foi a mais baixa desde 2014. Na Polónia, o ano passado a taxa de natalidade foi de 1,1, pouco mais de metade em relação a 1990 (1,9).

Fonte

Quando comparados com os restantes países da UE que não adoptaram activamente essas políticas, os resultados não são muito diferentes. Por exemplo, vários países vizinhos têm até taxas de fecundidade superiores: Chéquia (1,46), Croácia (1,47),  Eslováquia (1,49), Eslovénio (1,51), Roménia (1,54), Bulgária (1,81). 

(Continua)

25/10/2025

Em memória de Nuno Crato, um ministro da Educação que não sofreu de lunatismo doutrinário

Há poucos dias, num artigo do Observador, Isabel Hormigo, uma adjunta de Nuno Crato, ex-ministro da Educação do governo de Passos Coelho, citou Philippe Aghion, prémio Nobel da Economia, que num debate recente no BFM Business - o canal francês de economia e negócios com maior audiência -, fez uma entusiástica apreciação positiva das políticas adoptadas por Nuno Crato entre 2011 e 2015. 

Não fiquei surpreendido por essa apreciação e ainda menos pelos mídia portugueses não terem dado qualquer relevância às declarações de Philippe Aghion sobre Nuno Crato, ainda hoje, decorridos dez anos, uma bête noir nos meios académicos e educacionais infectados pelo politicamente correcto.

Aqui no (Im)pertinências não foi preciso um Nobel mostrar apreciação pelo trabalho de Nuno Crato para relevarmos a sua acção no governo "neoliberal" dedicando-lhe duas dezenas de posts entre os quais saliento este a propósito dos resultados dos testes de PISA e este outro propósito dos rankings das escolas secundárias.

08/10/2025

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: O governo de Netanyahu é o melhor aliado do Hamas (4) ou como manter os inimigos e alienar os amigos

Este post é o quarto de uma série iniciada há 14 anos: (1), (2) e (3).

Secção Tiros nos pés

Completaram-se ontem 2 anos da chacina a sangue-frio de mil e trezentos civis israelitas por um bando de bárbaros. A bandeira em nome da qual foi cometido o crime é ela própria criminosa. A resposta pelas IDF a este crime foi muito dura, mas legítima. Algures em 2023 ou 2024 essa legitimidade foi sendo perdida porque se perdeu o propósito de punir os criminosos e destruir a sua capacidade organizacional e logística para voltarem a cometer os mesmos crimes. Vem a propósito dizer que, apesar de Israel ser uma democracia (defeituosa, acrescente-se), não se deve confundir o Estado de Israel com o seu governo actual, nem, com mais razão, confundir o Hamas com o povo da Faixa de Gaza.

Dirá quem se considere amigo incondicional do Estado de Israel e, na verdade, é apenas adepto incondicional do governo de Netanyahu, pensando que o Hamas poderá recuperar e voltar a atacar Israel e, por isso, a transformação de Gaza num cemitério em ruínas se justifica. E eu respondo: o Hamas recuperará e voltará a atacar com maior probabilidade, violência e suporte popular quanto mais se eternizarem as acções de destruição desproporcionada e injustificada cujo propósito parece esgotar-se em manter o apoio ao governo pelos partidos religiosos extremistas.

Uma das consequências dessa destruição desproporcionada e injustificada é que Israel está a perder muitos dos seus amigos. Três quartos dos países membros da ONU, incluindo recentemente Canadá, Austrália e Reino Unido, três aliados tradicionais de Israel, já reconhecem o Estado Palestino. Sendo certo que é o reconhecimento de uma entidade inexistente e assim continuará com toda a probabilidade, é igualmente certo que tem um profundo significado político. 

A esta mudança internacional temos de somar as mudanças internas americanas, como, para dar um exemplo, a da congressista republicana Marjorie Taylor Greene que escreveu 

«If America was being bombed day and night because of something horrific our government did, and many innocent Americans and American children were being killed and traumatically injured, and we begged for mercy, but the rest of the world said, 

“Americans voted for their government so they deserve it, their government is bad so all Americans are bad, therefore this is what they get and must be done”.

(...)  This is what is happening to Gaza where in spite of what we have all been told, many innocent people and children are being killed and they are not Hamas.»

Poderia pensar-se que Marjorie Taylor Greene é uma voz isolada e o apoio do povo americano continua inabalável.

Créditos 

Não é verdade. Desde logo, o apoio do povo americano nunca foi inabalável e nos últimos anos a atitude em relação a Israel tem-se tornado menos positiva ou mesmo negativa, quer dos democratas quer dos republicanos.

Por isso, repito a avaliação que fiz nos posts anteriores: para Netanyahu e os seus correlegionários, cinco chateaubriands, por estarem convencidos de que o pior para os palestinos é o melhor para Israel, e cinco bourbons por aí continuarem encalhados, nada esquecendo nem aprendendo.

20/09/2025

Dúvidas (357) - Que interessam essas merdas que ocorrem nos EUA?

Assim de repente e se por misericórdia admitisse que não há perguntas idiotas e tivesse de responder a esta pergunta, diria que as merdas que ocorrem num país que representa mais de um quarto da economia mundial, tem o exército mais poderoso, é o terceiro país mais populoso e tem uma cultura com enorme influência no resto do mundo, devem interessar a qualquer criatura, até mesmo a uma criatura que viva a olhar para o umbigo num Portugal dos Pequeninos representado no diagrama seguinte por baixo da seta branca. 


E acrescentaria que, no caso particular deste blogue, as merdas que ocorrem nos EUA parecem também interessar aos habitantes dos países que aqui fizeram 540 mil visitas nos últimos 12 meses.

Blogspot 

Por isso, a resposta é: interessam imenso.