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20/11/2018

ACREDITE SE QUISER: O elevador social está a funcionar melhor na China do que nos Estados Unidos

«Imagine you have to make a bet.

There are two 18-year-olds, one in China, the other in the United States, both poor and short on prospects. You have to pick the one with the better chance at upward mobility.

Which would you choose?

Not long ago, the answer might have seemed simple. The “American Dream,” after all, had long promised a pathway to a better life for anyone who worked hard.

But the answer today is startling: China has risen so quickly that your chances of improving your station in life there vastly exceed those in the United States.»

14/11/2018

CASE STUDY: Voltando ao ponto de partida


Economist
Se considerarmos como centro de gravidade da economia mundial as coordenadas do globo terrestre correspondentes à média ponderada pelo peso económico medido pelo PIB das coordenadas das diferentes regiões ao longo da história, chegamos ao mapa construído pela Economist que nos mostra esse centro de gravidade a deslocar-se nos últimos 20 séculos uns 7 ou 8 mil km, o equivalente a cerca de um quinto do perímetro da terra. Curiosamente, voltando quase ao mesmo ponto onde se encontrava no início da revolução industrial.

Em 1989, por alturas do massacre da Praça Tiananmen, o PIB (PPP) da China representava 4% do PIB mundial e actualmente representa 19%, quase 5 vezes mais em termos relativos. Já agora, acrescente-se que, no seu conjunto, as economias emergentes aumentaram a sua quota na economia mundial de 36% para 59%, muito à custa da China, evidentemente. Quando ouvirdes a esquerdalhada (e uma parte da direita, para dizer a verdade) dos países ocidentais queixar-se do empobrecimento da humanidade pela globalização, lembrai-vos que para a esquerdalhada a humanidade reside toda nos países ocidentais, porque na Ásia e em outras regiões do mundo que saíram maciçamente da miséria vivem humanóides.

07/06/2018

CAMINHO PARA A SERVIDÃO: RoboCop ao serviço do Partido Comunista Chinês

Depois do crédito social, uma espécie de rating de conformidade dos cidadãos súbditos chineses com as directivas oficiais, o Partido Comunista Chinês, via governo chinês, lança o policiamento robótico.


«Em 2011, Person of Interest da CBS , o cientista da computação Harold Finch constrói um sistema de inteligência artificial chamado “The Machine”, que compila e analisa resmas de dados para prever assassinatos. Finch e o seu ajudante, John, perseguem o perpetrador e impedem o crime. As autoridades de segurança pública na região autónoma chinesa de Xinjiang estão a transformar essa ficção em realidade.

Um gigantesco programa usando dados extraídos de registos de saúde, finanças, operações stop e relatórios da polícia para identificar indivíduos com probabilidade de cometer crimes na região sensível do noroeste da China acaba de ser revelado. Lançado em 2016, a iniciativa de policiamento de “big data” em Xinjiang é uma das muitas iniciativas de aplicação da lei que o país está lançando, aproveitando suas capacidades crescentes nos campos de IA e robótica.

Na Praça da Paz Celestial, em Pequim, os robôs empunhando armas de fogo patrulham multidões de turistas. Os robôs escolhem seu próprio caminho ao longo das rotas designadas mas as armas de imobilização são activadas por um oficial que controla o bot remotamente. Em Zhengzhou, capital da província central de Henan, na China, robôs policiais semelhantes a Daleks sem braços percorrem a estação de comboios de alta velocidade. Eles usam um software de reconhecimento facial para ajudar os polícias a identificar suspeitos, interagir com os transeuntes e responder às suas perguntas. Os polícias da estação usam óculos de reconhecimento facial, desenvolvidos pela empresa de tecnologia LLVision, de Pequim, que identifica identidades falsas e criminosos procurados. E na metrópole central de Wuhan, o Ministério de Segurança Pública aliou-se à gigante de tecnologia Tencent para desenvolver uma esquadra de polícia totalmente automatizada usando a mais avançada tecnologia de IA.»

(Tradução semi-automática de um excerto do artigo CHINA TURNS TO ROBOTIC POLICING da OZI)

04/02/2018

ACREDITE SE QUISER: Coerência e convicções

A Fundação Gulbenkian foi criada pelo arménio Calouste, aka Mr. Five per Cent, que lhe deu o nome e lhe deixou como legado precisamente parte dos cinco por cento de participações em petrolíferas, cujos dividendos sustentaram a filantropia artística e científica da fundação que, principalmente no campo da música erudita e, até há uns anos, do bailado, foi nas últimas sete décadas o polo mais importante nessas áreas e por vezes quase o único neste Portugal dos Pequeninos.

Nos últimos dias a Fundação comunicou pela boca da sua presidente que «por uma questão de coerência com as nossas convicções» iria vender a Partex, a holding que agrupa as participações no petróleo. Com grande originalidade a Fundação decidiu vendê-la aos chineses da CEFC que também estão a negociar a compra da maioria do capital das seguradoras Lusitânia e Lusitânia Vida à Associação Mutualista accionista do Montepio Geral, compras que se seguem às participações na EDP, REN, BESI, Fidelidade, Hospitais Luz Saúde, etc., chineses que são quase os únicos que ainda compram as pratas desta nossa família arruinada.

As luminárias ecologistas que compõem a associação Futuro Limpo, de que faz parte o incontornável António Pedro Vasconcelos, celebraram efusivamente o acontecimento e aproveitaram a embalagem para pedir uma audiência ao sensibilizado ministro do Ambiente para o sensibilizarem ainda mais às energias renováveis, sensibilização que, quem sabe, pode passar por aumentar o preço de €74/MWh garantido às eólicas o qual, por agora, é apenas o triplo do garantido pela vizinha Espanha.

Terminada a entrevista ao semanário de reverência, a presidente de consciência regressou a casa no seu BMW Série 7 (CO2 159g/km) aliviada em coerência com as suas convicções.

17/12/2017

CAMINHO PARA A SERVIDÃO: Atrasado três décadas, "1984" está a chegar. Por agora à China

«Imagine a Amazon expandida para abranger os serviços e recursos de tratamento de dados da Apple News, eBay, Uber, Groupon, American Express, Citibank e YouTube. Agora, imagine que essa entidade usou essa informação - tudo o que você compra, para onde você vai, como você paga suas contas e quem são seus amigos - para lhe dar uma pontuação entre 350 e 950. E que esse número efectivamente quantifica o seu lugar na sociedade. Esta não é uma experiência de pensamento distópico: é realidade na China, onde o sistema de pagamento móvel de Ali Baba inclui Zhima Credit, um sistema aprovado pelo governo para determinar os chamados scores de crédito social dos cidadãos.

«É uma tentativa tecnológica de engenharia social. "Para o Partido Comunista Chinês, o crédito social é uma tentativa de um autoritarismo mais suave e mais invisível", escreve Mara Hvistendahl. Lucy Peng, a presidente-executiva da empresa, foi citada como dizendo na Ant Financial, Zhima Credit "assegurará que as pessoas más na sociedade não tenham um lugar para ir, enquanto as pessoas boas se podem mover livremente e sem obstrução". De fato, Zhima Credit colocou na lista negra mais de 6 milhões de pessoas por não pagarem multas judiciais. Estar nessa lista significa ser banido da maioria das formas de viagens, hotéis de luxo e grandes empréstimos bancários. Você também pode perder os seus amigos cumpridores.

Orwellian, e não tão anti-americano como se possa pensar. O sistema de crédito dos EUA classificou em tempos os cidadãos através de métricas intolerantes, como a raça e os "gestos efeminados". E em 2012, o Facebook patenteou um método para usar as pontuações de crédito dos seus amigos para ajudar a avaliar o seu, embora se recusem ter intenção de usar essa tecnologia . "Você poderia imaginar um futuro onde as pessoas estão assistindo para ver se o crédito de seus amigos está a cair e depois abandonando os seus amigos se isso os prejudica", diz Frank Pasquale, um especialista em Big Data da Faculdade de Direito da Universidade de Maryland Carey. "Isso é aterrador"

(Tradução semi-automática de um sumário do artigo INSIDE CHINA'S VAST NEW EXPERIMENT IN SOCIAL RANKING na newsletter de 15-12-2017 da Wired)

29/10/2017

CAMINHO PARA A SERVIDÃO: L'État c'est lui

Os mais de 2 mil delegados ao congresso do Partido Comunista da China que terminou esta semana passada aprovaram incluir o nome e o pensamento de Xi Jinping nos seus estatutos, colocando-o no mesmo patamar de Mao Zedong, fundador e divindade da religião maoista. Perguntados se tinham alguma objecção à consagração nos estatutos do «Pensamento de Xi Jinping sobre o Socialismo com Características Chinesas para a Nova Era» os delegados responderam com gritos de meió  (nenhum), como mostra o vídeo publicado pela BBC.

É interessante constatar que entre os países alguma vez dirigidos por um partido comunista a China é o único bem sucedido no campo económico ao substituir o comunismo por um sistema capitalista de direcção central, dominado por uma poderosa nomenclatura de apparatchiks liderada por um ditador de facto. Isto foi possível graças ao génio de Deng Xiaoping. Em contraponto, os russos tiveram um Mikhail Gorbachev que tentou salvar o sistema soviético injectando-lhe democracia, sem perceber não ser possível ter sol na eira e chuva no nabal. O seu idealismo levou a Rússia a ficar com sol no nabal e chuva na eira e uma plutocracia administrada pelo czar Putin.

11/07/2017

Mitos (258) - Os baixos salários chineses estão roubar postos de trabalho nos EU (e na UE)

«One of Donald Trump's frequent claims is that China has been "stealing" US manufacturing jobs, with low wages and poor conditions giving Chinese firms an unfair advantage. Recent analysis by The Economist intelligence Unit shows that, in fact, the days of Chinese wages being low are long gone. A shrinking workforce and fast productivity growth has meant that average monthly wages in China are now higher than in almost every country in Latin America and surpass those in a number of EU countries as well. Anyone who talks to people with operations in China won't be surprised: rapidly rising wages are a common business challenge.»

Simon Baptist, Chief Economist (The Economist)

30/07/2016

ESTÓRIA E MORAL: O imperador e o czar

Estória

Rússia, cabeça do império soviético desmantelado há quase três décadas. China, um aliado da URSS no curto período entre a tomada do poder pelo Partido Comunista Chinês em 1949 e meados da década seguinte durante a qual a rivalidade se acentuou. No princípio dos anos 60 deu-se a ruptura completa com base em diferenças ideológicas que se repercutiram no movimento comunista internacional - maoístas por um lado, os verdadeiros revolucionários, e revisionistas, por outro. Pelo meio, a China perdeu a Mongólia anexada por Estaline e fez várias outras concessões aos soviéticos. Afastados e rivais durante 60 anos, reaproximaram-se nos últimos anos por iniciativa do czar Putin. Está em construção um novo eixo de potências mundiais com regimes autocráticos.

Como parte dessa aproximação, a China anunciou que vai realizar pela primeira vez exercícios militares "de rotina" com a Rússia no Mar do Sul da China em Setembro. Esses exercícios, disse um porta-voz, visam reforçar "parceria cooperativa estratégica China-Rússia". Os outros países da região rejeitam as reclamações territoriais expansionistas da China na zona.

Moral(is)

Old Habits Never Die
Les bons esprits se rencontrent

06/06/2016

ACREDITE SE QUISER: Em breve os trabalhadores de seguros chineses serão mais do que todos os portugueses

Economist
No início do ano passado trabalhavam no sector de seguros 3 milhões de chineses e a meio deste ano já eram 7 milhões, isto é, mais de cem vezes o número equivalente em Portugal. Os activos das seguradoras duplicaram em menos de 4 anos e atingem actualmente 2,1 biliões de dólares. É muito, mas é apenas cerca de 33 vezes o volume dos activos de seguradoras portuguesas ou, dito de outro modo, esses activos representam apenas cerca de 11% do PIB chinês enquanto que em Portugal os activos das seguradoras representam 22% do PIB português.

17/04/2016

Títulos inspirados (57) – «O mistério chinês da Fundação Mário Soares»

«Há um empresário chinês detido nos Estados Unidos, acusado de branqueamento de capitais e corrupção de altos funcionários da ONU, que faz parte da Fundação Mário Soares, mas aparentemente ninguém na instituição sabe de quem se trata e como entrou para os órgãos sociais. A “misteriosa” personagem chama-se Lap Seng. Tem 68 anos e é um magnata da construção civil, imobiliário e turismo, com passaporte português. No conselho geral da fundação, onde os cargos são vitalícios, há mais quatro chineses. O multimilionário Stanley Ho, ligado à exploração do jogo, e o advogado de origem portuguesa Jorge Neto Valente, que dirigiu as candidaturas presidenciais de Soares em Macau, são dois. Leong Su Sang e Sio Tak Hong, desconhecidos empreendedores e sócios de Lap Seng, são os outros dois. O magnata que nasceu pobre já teve, ou tem, negócios com todos.

Lap Seng está em prisão domiciliária nos EUA desde setembro, com uma caução de 50 milhões de dólares, acusado de branqueamento de capitais e de participar num esquema de subornos destinados ao ex-presidente da Assembleia Geral da ONU, John Ashee, que também se encontra detido. O escândalo é já considerado o maior das Nações Unidas desde o caso “Petróleo por Alimentos” e o líder da organização, Ban Ki-Moon, confessou-se “chocado”

(Visão)

13/03/2016

Mitos (223) – Os chineses só investem em países endividados (3)

Outros mitos sobre o investimento chinês: (1),  (2) e (3)

Em retrospectiva, na verdade o mito completo é: os chineses só investem em países endividados, aproveitando os saldos e com o propósito de controlarem essas economias vulneráveis. É um mito cultivado pela esquerdalhada doméstica em geral (que, como se sabe, cultiva 99% dos mitos inventariados), pelo PS (enquanto está na oposição) e até por alguns empresários que não gostam dos chineses (por exemplo Soares dos Santos).

Segundo o Financial Times, o ano passado o investimento chinês na Europa cresceu 28% atingindo 23 mil milhões de dólares e foi de 15 mil milhões de dólares no Estados Unidos.


Com o atraso de alguns séculos e suspenso durante várias décadas, está agora a realizar-se uma profecia de Nostradamus e um pesadelo do Kaiser Guilherme II da Alemanha - o inventor do nome para a coisa: «Perigo Amarelo». It's just a joke.

Aditamento:
Dois dias depois de ter publicado este post, soube-se que a chinesa Anbang Insurance fez uma oferta de USD 12,8 mil milhões para a compra da cadeia Starwood Hotels & Resorts Worldwide (cadeia que inclui Sheraton, Westin e outros). No fim de semana, a Anbang confirmou a compra ao Fundo Blackstone da cadeia Strategic Hotels & Resorts.

04/02/2016

Mitos (220) – Os chineses só investem em países endividados (3)

Outros mitos da mesma família: (1) e (2)

Relembrando o mito: os chineses só investem em países endividados, aproveitando os saldos e com o propósito de controlarem essas economias vulneráveis. É um mito cultivado pela esquerdalhada doméstica em geral (que, como se sabe, cultiva 99% dos mitos inventariados), pelo PS (enquanto está na oposição) e até por alguns empresários que não gostam dos chineses (por exemplo Soares dos Santos).

Continuando as aquisições chinesas na Europa, a China National Chemical Corp, uma empresa do Estado chinês, gerida por membros do Partido Comunista, anunciou a compra por USD 43 mil milhões de uma participação dominante na Syngenta, uma empresa suíça de sementes e pesticidas. Ironicamente, a Syngenta recusou várias vezes propostas da Monsanto, uma empresa americana e a maior do mundo nesta área, em parte por recear a não aprovação pelas autoridades suíças da concorrência.

23/01/2016

Mitos (218) – Os chineses só investem em países endividados (2)

Em retrospectiva, na verdade o mito completo é: os chineses só investem em países endividados, aproveitando os saldos e com o propósito de controlarem essas economias vulneráveis. É um mito cultivado pela esquerdalhada doméstica em geral (que, como se sabe, cultiva 99% dos mitos inventariados), pelo PS (enquanto está na oposição) e até por alguns empresários que não gostam dos chineses (por exemplo Soares dos Santos).

No post anterior só referi os investimentos chineses na Europa, agora é a vez dos Estados Unidos. Em pouco dias, dois grupos chineses foram às compras:
  • Dalian Wanda Group comprou por USD 3,5 mil milhões o estúdio Legendary Entertainment (que produziu o Parque Jurássico e vários outros blockbusters);
  • Haier Group comprou por USD 5,4 mil milhões a divisão de electrodomésticos da General Electric. 
E não é que o o governo de Barack Obama não mexeu um dedo para evitar a venda de dois ícones ianques? Tivessem eles o Costa e aquele realizador especialista em aviação…

26/12/2015

ACREDITE SE QUISER: China, uma potência «expansionista»

Fonte: MarketWatch
Como parte da sua estratégia de afirmação como potência mundial, a China começou em 2013 a construir ilhas artificiais em águas internacionais no mar do Sul da China, a centenas de milhas ao largo da costa chinesa, numa área conhecida como Ilhas Spratley a meio caminho entre Vietname e Filipinas, para nelas instalar bases militares. Não admira que, apesar do passado, o Vietname veja hoje os EU como a uma potência «amiga». Nas fotos uma dessas ilhas artificias (Gaven Reef) antes e depois da «expansão».

29/08/2015

Mitos (210) – Os chineses só investem em países endividados

Na verdade o mito completo é: os chineses só investem em países endividados, aproveitando os saldos e com o propósito de controlarem essas economias vulneráveis. É um mito cultivado pela esquerdalhada doméstica em geral (que, como se sabe, cultiva 99% dos mitos inventariados), pelo PS (enquanto está na oposição) e até por alguns empresários que não gostam dos chineses (por exemplo Soares dos Santos).

Como todos os mitos, este está tão longe da verdade que é incapaz de lhe infligir danos corporais. Veja-se o diagrama seguinte publicado pelo Handelsblatt que dá tanta importância aos investimentos em Portugal que nem lhes faz referência.


Segundo os dados recolhidos pela Ernst & Young e citados pelo Handelsblatt, as companhias chinesas investiram em 79 projectos na Alemanha no ano passado (68 em 2013 e 46 em 2012); 38 por cento dos investimentos chineses na Europa são na Alemanha; em segundo lugar encontra-se a Grã-Bretanha com 40 projectos. Segundo a Ernst & Young «as empresas chinesas querem juntar-se no topo do mercado mundial com produtos de alta qualidade, e para isso eles precisam do know-how da Europa, e especialmente da Alemanha».

30/05/2014

Pro memoria (170) – Mudam-se os tempos, mudam-se os amigos (e os inimigos)

Durante 20 anos, de 1955 a 1975, o maior inimigo do Vietname foram os Estados Unidos e a China, durante séculos inimigo histórico do Vietname, foi desde o pós-guerra e principalmente nesse período o seu maior aliado.

Quarenta anos depois do final da guerra com os EU, o Vietname retomou a sua animosidade secular com a China que não esconde as suas ambições sobre vários territórios e zonas marítimas em disputa. Recentemente, a China National Offshore Oil Corporation ancorou uma gigantesca plataforma petrolífera a 220 quilómetros da costa vietnamita, ao mesmo tempo que deslocou para a proteger uma pequena armada.

Economist
O Vietname protestou sem consequências para além de um dos seus barcos de pesca ter sido abalroado e afundado por um barco chinês. Em várias manifestações em Hanói e noutras cidades, a China foi apupada com a condescendência cúmplice das autoridades vietnamitas que não costumam apreciar agitações.

Com tudo isto, o Vietname vem aproximando-se do seu inimigo ocasional daquelas duas décadas que aparece aos seus olhos e de vários outros governos asiáticos como um conveniente potencial aliado para os proteger das ambições do Grande Panda.

Um dia Lord Palmerston, ministro inglês dos Negócios Estrangeiros durante 40 anos, disse «a Inglaterra não tem nem amigos eternos, nem inimigos eternos, mas apenas interesses eternos». Mutatis mutandis, digo eu.

29/04/2012

A defesa dos centros de decisão nacional (8) – soberania e dívida não rimam

[Continuação de (1), (2), (3), (4), (5), (6) e (7)]

«A comissão executiva da REN, liderada por Rui Cartaxo, atribuiu, na passada quinta-feira, este pelouro a Shan Shewu, ex-quadro da State Grid que passou a integrar o ‘staff' da REN. A decisão, segundo o Diário Económico apurou, está a gerar mal-estar dentro e fora da empresa pela sensibilidade da matéria, relacionada com a soberania do planeamento energético

Primeiro estranha-se, depois entranha-se. O mais difícil foi alienar a soberania política ao eixo Paris-Bruxelas-Berlim. Temos estado a trabalhar para isso há décadas, mas sem o grande impulso socrático não chegaríamos lá tão cedo.

Já que chegámos onde chegámos, porque não alienar a soberania do planeamento energético a Pequim?

16/04/2012

Os intelectuais, o comunismo e o Expresso

O Expresso, cada vez mais o semanário oficial do socialismo lusitano, citou no suplemento de Economia a frase seguinte que, segundo o jornalista que escreveu a peça, circularia nos meios financeiros de Hong Kong.
«Em 1949, a maioria dos intelectuais acreditava que o comunismo salvaria a China. Em 1969, os mesmos intelectuais acreditavam que a China (com a sua Revolução Cultural) salvaria o comunismo que, após Estaline e a primavera de Praga, começou a ser desacreditado como ideologia. Em 1979, Deng Xiao Ping percebeu que somente o comunismo salvaria a China. Em 2009, o mundo inteiro acredita que somente a China pode salvar o capitalismo.»
A citação foi extraída do paper «How China Got Here & Where is China Heading?» de Louis-Vincent Gave publicado pela GK Research de que Gave foi um dos fundadores. Mais significativo do que não ter identificado a fonte é o facto de o Expresso ter omitido uma frase fatal do texto original («with the horrors of Stalin revealed to the world»). Aqui vai ele.
«In 1949, most intellectuals believed that communism would save China. By 1969, and with the horrors of Stalin revealed to the world and the Prague Spring having disillusioned most right-thinking people, intellectuals argued that China (with its cultural revolution) would save communism. Following that disaster, Deng Xiaoping rose to power and, by 1979, explained that capitalism would save China. Now, thirty years later, it seems that the world's last hope is that China will save capitalism!»

05/02/2012

A Óropa tenta sem sucesso adjudicar o seu resgate

Depois de deixar de poder continuar a adjudicar a sua defesa em outsourcing aos EU, a Óropa tenta pela mão de Merkel adjudicar o seu resgate à China. Igualmente sem sucesso, so far.

À maneira chinesa, o comité central do PCC encarregou Xu Hongcai do China Center for International and Economic Exchanges de explicar nas páginas do Asia Pacific Memo «porque razão a China não está a comprar os títulos para resgates na zona euro (ainda)» num artigo com o mesmo título, publicado, por improvável coincidência, precisamente durante a visita de Merkel.

E a razão são os três ingredientes que faltam, a saber (Expresso):
  • primeiro, a atuação do "Banco Central Europeu como emprestador de último recurso", facto a que "a Alemanha se tem oposto, atrasando o processo";
  • segundo, os líderes europeus têm de tornar o FEEF "operacional e seguro para investidores de fora", já que o que os chineses observam é que a notação do FEEF perdeu o triplo A (na recente decisão da agência Standard & Poor's), os alemães resistem a aumentar o valor envolvido, e faltam "detalhes operacionais";
  • terceiro, os chineses preferem "ajudar a Europa através do Fundo Monetário Internacional (FMI)", apesar de "ainda ninguém ter dado uma resposta aos chineses", em virtude dos fatores de "rigidez dentro da governação do FMI e da preferência por certos países-chave".
Com estes ingredientes, será preciso misturá-las bem, acrescentar os temperos e cozer em lume brando durante vários anos.

08/01/2012

CASE STUDY: Portugal em pequenino (2)

Se não fosse a contaminação pelos preconceitos das nossas elites ociosas, a populaça laurearia sem vergonha os portugueses que se distinguem nas profissões verdadeiramente competitivas. Já escrevi várias vezes, por exemplo aqui, serem os jogadores portugueses de futebol os únicos dos poucos profissionais verdadeiramente a trabalhar num mercado internacional competitivo e por isso sujeitos e a uma avaliação constante e impiedosa. Acrescento o especial Mourinho.

Devo hoje incluir também os nossos motards profissionais a darem cartas uma vez mais no Dakar, a prova de resistência mais dura e mais disputada do mundo, ocupando actualmente o 3.º (Helder Rodrigues) e 4.º (Paulo Gonçalves) lugares.

É também justo salientar o 8.º lugar de Carlos Sousa, um veterano do Dakar correndo com um carro chinês copycat de um BMW crossover, assistido pela equipa chinesa Great Wall, o que faz dele uma espécie de Mexia do Dakar, sem os Espíritos, sem o lóbi e sem mercado protegido.

Falando em chineses, não podemos esquecer Futre, um outro profissional de sucesso do futebol no mercado ibérico, um precursor que enunciou o lema inspirador para as próximas décadas: «vai vir charters da China».