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13/04/2024

O Novo Império do Meio numa encruzilhada. Capitalismo e autocracia não combinam bem

«É o teste económico mais grave da China, desde que a mais abrangente das reformas de Deng Xiaoping começou na década de 1990. No ano passado, o país alcançou um crescimento de 5%, mas os pilares do seu milagre de décadas estão a vacilar. A sua famosa força de trabalho industriosa encolhe, o boom imobiliário mais selvagem da história desmoronou-se e o sistema global de livre comércio que a China usou para enriquecer está desintegrar-se. (...) a resposta do presidente Xi Jinping é dobrar a aposta com um plano audacioso para refazer a economia da China. A mistura da tecno-utopia, planeamento central e obsessão por segurança define a ambição da China de dominar as indústrias do futuro. Mas as suas contradições significam que decepcionará o povo da China e irritará o resto do mundo.

Em comparação com 12 meses atrás, sem falar nos anos anteriores, o clima na China é amargo. Embora a produção industrial tenha crescido em Março, os consumidores estão deprimidos, a deflação espreita e muitos empresários estão desiludidos. Por trás da angústia estão temores mais profundos sobre as vulnerabilidades da China. Prevê-se uma redução de 20% de sua força de trabalho até 2050. Uma crise no sector imobiliário, que movimenta um quinto do PIB, levará anos para ser corrigida. Isso prejudicará os governos locais sem dinheiro que dependiam da venda de terras para obter receitas e do sector imobiliário florescente para crescer.  (...)

A resposta da China é uma estratégia construída em torno do que as autoridades chamam de "novas forças produtivas". Isso evita o caminho convencional de um grande incentivo ao consumidor para estimular a economia (esse é o tipo de artifício ao qual o decadente Ocidente recorre). Em vez disso, Xi quer que o poder do Estado acelere as indústrias de manufatura avançadas, o que, por sua vez, criará empregos de elevada produtividade, tornará a China autossuficiente e a protegerá contra a agressão americana. A China vai saltar do aço e dos arranha-céus para uma idade dourada de produção em massa de carros elétricos, baterias, bioindústria e a "economia de baixa altitude" baseada em drones. (...)

No entanto, o plano de Xi está fundamentalmente equivocado. Uma falha é que negligencia os consumidores. Embora o consumo supere a propriedade e as novas forças produtivas, conta apenas 37% do PIB, muito abaixo das padrões globais. Para restaurar a confiança no meio de uma crise imobiliária e, assim, aumentar os gastos do consumidor é preciso um estímulo. Induzir os consumidores a poupar menos requer uma melhor segurança social e cuidados de saúde, bem como reformas que abram os serviços públicos a todos os migrantes urbanos. A relutância de Xi em adoptar isso reflete a sua mentalidade austera. Ele detesta a ideia de socorrer empresas imobiliárias especulativas ou dar subsídios aos cidadãos. Os jovens deveriam ser menos mimados e dispostos a "comer amargura", disse ele no ano passado. (...)

Se essas falhas são óbvias, por que não muda a China de rumo? Uma das razões é que Xi não escuta. Durante grande parte dos últimos 30 anos, a China esteve aberta a visões externas sobre reformas económicas. Os seus tecnocratas estudaram as melhores práticas globais e acolheram debates técnicos vigorosos. Sob o governo centralizador de Xi, os especialistas económicos foram marginalizados e o feedback que os líderes costumavam receber transformou-se em bajulação. A outra razão que Xi invoca é que a segurança nacional agora tem precedência sobre a prosperidade. A China deve estar preparada para um conflito no futuro com os Estados Unidos, mesmo que haja um preço a pagar. É uma mudança profunda em relação aos anos 1990 e seus efeitos nocivos serão sentidos na China e em todo o mundo.»

«Xi Jinping’s misguided plan to escape economic stagnation»

22/07/2022

Paying the price to do business with the New Middle Kingdom

Financial Times

For those who may not know, «HSBC Holdings plc is a British multinational universal bank and financial services holding company. It is the largest bank in Europe by total assets, with US$2.953 trillion as of December 2021. In 2021, HSBC had $10.8 trillion in assets under custody (AUC) and $4.9 trillion in assets under administration (AUA), respectively. HSBC traces its origin to a hong in British Hong Kong, and its present form was established in London by the Hongkong and Shanghai Banking Corporation to act as a new group holding company in 1991; its name derives from that company's initials. The Hongkong and Shanghai Banking Corporation opened branches in Shanghai in 1865 and was first formally incorporated in 1866.» (Wiki)

25/06/2020

A estratégia do Novo Império do Meio para controlar os países subdesenvolvidos

Fonte: Sovereign debt crises are coming, A report by The Economist Intelligence Unit
Nova Rota da Seda, compra de activos de todos os tipos, imóveis, empresas (*), etc., em todo o mundo, compra de áreas gigantescas de terrenos agrícolas (2,3% no caso da Austrália), financiamento de mega-projectos nos países em desenvolvimento (um eufemismo que abrange países em vias de subdesenvolvimento), com os países endividados a comer na mão chinesa, são alguns dos componentes da estratégia do Xi Jinping e do PC Chinês.

(*) Em Portugal, EDP, REN, BCP, partes do ex-BES, Fidelidade, entre outras.

Aditamento:

Em relação a este comentário, não entendo que o Estado chinês seja uma ameaça aos países democráticos por a China ser um país aforrador. O Estado chinês é uma ameaça porque é um Estado totalitário dominado por uma nomenclatura que se auto-perpetua e a China é uma potência expansionista e agressiva. Porque é um país aforrador, por enquanto, pode usar o seu excedente externo como instrumento da sua estratégia de dominação.

10/05/2020

O Novo Império do Meio é hoje o maior inimigo das liberdades

«Finalmente, um dos elementos mais alarmantes do crescente perfil internacional da China são os seus esforços acelerados para projetar “sharp power” , uma expressão de Larry Diamond, um dos maiores peritos académicos em democracia do mundo. O poder duro refere-se ao recurso regular da China à desinformação, ao equívoco, à coação, ao suborno e à influência penetrante em instituições políticas e civis das sociedades abertas com o intuito de tentar moldar o discurso sobre a China.

A China está a usar a abertura e o pluralismo das democracias para as subverter. Estabelece alianças com grupos sociais chineses no exterior e com indivíduos proeminentes, enquanto vai também, ao mesmo tempo, gerindo informações, promovendo propaganda e envolvendo-se em espionagem. Ex-altos funcionários dos governos do Reino Unido, de França, da Alemanha, da Austrália e de Portugal têm vindo a ocupar cargos lucrativos com interesses chineses depois de deixarem as suas funções governamentais.»

Leitura recomendável «China: Uma ameaça para as democracias ocidentais», Teresa Roque no Observador

27/04/2020

O coronavírus no agitprop do Novo Império do Meio (6) - A autocracia de Xi Jinpeng mostra as suas garras

Continuação de outros posts.

«Todas as dúvidas sobre o que realmente se passou no início da pandemia começam em Dezembro em Wuhan, ainda antes das tentativas das autoridades para abafarem as notícias da eclosão da doença e de terem mandado calar os médicos que falavam dela.»

18/04/2020

O coronavírus no agitprop do Novo Império do Meio (5) - Estatísticas de causas, a tradição ainda é a mesma coisa (II)

Continuação de outros posts.

Em retrospectiva, o que se passa na China em matéria de dados estatísticos é apenas uma reedição com sabor local do comportamento das autoridades dos Estados que fizeram parte do Império Soviético. A China, apesar de ter abandonado o comunismo, substituindo por um capitalismo do Partido Comunista, manteve e refinou a tradição de tratar a estatística como a arte de torturar os números até que eles confessem. E eles, os dados e os traidores ao Partido, acabam sempre por confessar.

Os indícios de falsificação dos dados relativos à pandemia Covid-19 pelo governo chinês eram cada vez mais fortes e as acusações que começaram pelo presidente americano foram prontamente descartadas pelo jornalismo de causas que não consegue abster-se de reacções pavlovianas a seja o que for que Trump diga, o que devido às suas constantes contradições mostra da parte dos jornalistas de causas algum talento para conseguirem estar contra duas coisas contraditórias.

Até que as autoridades locais de Wuhan reconheceram publicamente que cometeram um erro cuja correcção aumentou em 50% a mortalidade. Não sei se há alguém neste mundo, para além dos 90 milhões de membros do PCC, que acredite num erro de contagem desta magnitude.

Pela minha parte classificaria este discrepância não como um erro mas como o resultado da primeira contagem ter sido segundo os métodos próprios das estatísticas de causas.

08/04/2020

O coronavírus no agitprop do Novo Império do Meio (4) - Estatísticas de causas, a tradição ainda é a mesma coisa

Continuação de outros posts.

Não há nada de novo sobre a terra. Haver há, mas não em matéria de dados estatísticos produzidos por regimes autocráticos. O que se passa na China a este respeito é apenas uma reedição com sabor local do comportamento das autoridades dos Estados que fizeram parte do Império Soviético. A China, apesar de ter abandonado o comunismo, substituindo por um capitalismo do Partido Comunista, manteve e refinou a tradição de tratar a estatística como a arte de torturar os números até que eles confessem. E eles, os dados e os traidores ao Partido, acabam sempre por confessar.

É claro que os admiradores do sistema chinês sempre poderão concluir que a coincidência dos "saltos" que os gráficos mostram com eventos políticos é apenas aleatória e que a correlação não é causalidade. Não adiantará tentar mostra-lhes que a probabilidade de isso ser puramente aleatório cai no domínio da impossibilidade prática. Não há nada a fazer a esse respeito, é uma profissão de fé, credo quia absurdum

China’s data reveal a puzzling link between covid-19 cases and political events
«Há uma suspeita crescente de que não se pode confiar nas estatísticas oficiais da China sobre a pandemia do Covid-19. Em 24 de Março, o primeiro-ministro da China, Li Keqiang, chegou perto de admitir que os números haviam sido incorrectos quando alertou as autoridades de que "não deve haver ocultação ou comunicação incompleta". Relatórios classificados ao Congresso das agências de inteligência americanas concluíram que o número de casos e mortes por doenças na China é muito maior do que os números oficiais do governo sugerem.

Tal cepticismo pode ser merecido. Uma análise do The Economist dos dados relatados pela Comissão Nacional de Saúde da China revela duas características peculiares. Primeiro, os dados são voláteis. Nas nove províncias chinesas com surtos graves, identificamos 15 episódios nos quais os novos casos de Covid-19 aumentaram mais de 20% em um único dia, antes de retornar rapidamente aos níveis anteriores. Embora esses picos possam ocorrer em qualquer conjunto de dados - por causa da manutenção errática de registos, por exemplo -, descobrimos que outros países e regiões com surtos de Covid-19, de dimensão semelhante a essas províncias, tiveram menos. Segundo, quando ocorrem picos, eles geralmente são acompanhados por decisões importantes de entidades do governo. Dos 15 episódios observados nos dados, dois terços ocorrem no dia seguinte a ter sido demitido um funcionário da província ou outro evento político significativo

03/04/2020

O coronavírus no agitprop do Novo Império do Meio (3) - A celebração da vitória do Grande Irmão

Continuação de outros posts.


Se fosse necessário demonstrar a natureza opressiva e tirânica do regime chinês e o inerente culto da personalidade, esta página de publicidade paga numa grande revista internacional seria só por si suficiente.

Um amigo explicou-me a razão de Donald Trump ter uma indisfarçável inveja de Xi Jinping: ele Donald só tem o espelho e meia dúzia de palhaços para o venerarem, contra os 90 milhões de apparatchiks do PCC do Camarada Presidente Xi.

01/04/2020

O coronavírus no agitprop do Novo Império do Meio (2)

Continuação deste post.

São cada vez mais fortes os indícios de que o surto de coronavírus na China começou em Novembro e foi escondido pela nomenclatura chinesa até Janeiro, com as consequências conhecidas na sua propagação. Nomenclatura que usa todos os meios necessários para abafar ou suprimir informação que não controla, seja proveniente dos próprios chineses (como a médica "desaparecida"), seja proveniente de jornalistas estrangeiros (uma dúzia expulsa recentemente).

Como são cada vez mais fortes os indícios de falsificação dos dados sobre infectados e mortos (ver, por exemplo, este artigo), como de resto é prática habitual em toda informação de origem chinesa.

Não fica por aqui a a utilização da pandemia na estratégia do imperador Xi Jinping e da nomenclatura do Partido Comunista, que se estende à  manipulação das opiniões públicas ocidentais e à tentativa de atrelar os respectivos governos aos seus interesses, como aqui descreve Miguel Monjardino no seu artigo A pandemia e a tentação imperial da China, de onde respigo os excertos seguintes.

«No final de fevereiro, Pequim passou à ofensiva. Zhong Nanshan, o cientista que lidera o painel de peritos na contenção da pandemia, disse pela primeira vez que “o coronavírus apareceu primeiro na China mas pode não ter começado na China”. Esta frase foi o primeiro sinal de uma campanha de desinformação em larga escala orquestrada pelo PCC.

«Duas semanas depois, Zhao Lijian, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, usou o Twitter para defender a existência de provas de que a covid-19 começou num laboratório militar nos EUA. A CGTN, o canal de televisão em inglês da Televisão Central da China, controlado pelo PCC, fez o mesmo. Na sua edição de 22 de março, o jornal “Global Times” sugeria que o vírus apareceu em Itália. De então para cá, estas teorias da conspiração foram repetidas por uma série de embaixadores chineses e divulgadas no Twitter — que é proibido na China — e na aplicação social WeChat. (...)

A duração da campanha de desinformação chinesa é incerta mas, por agora, tem o apoio de Xi Jinping. Do ponto de vista de uma parte da liderança chinesa é essencial desviar as atenções ou as críticas em relação à tragédia de Wuhan, semear as dúvidas em relação à origem geográfica da doença, consolidar a autoridade e legitimidade do líder chinês e criar a impressão de que Pequim comprou tempo para salvar o mundo da pandemia. Tudo isto sugere que o PCC vai reescrever a história do que aconteceu em Wuhan. Tal como sucedeu com as revoltas e o massacre de Tiananmen em 1989, os alunos que frequentarem as escolas e as universidades chinesas em 2040 não deverão ter a oportunidade de saber a verdade sobre o que se passou na cidade no inverno de 2019-2020. Voltando a Isabel Hilton, “é demasiado difícil prever o passado na China”.»

Perguntarão, mas não é o que tentam fazer todos os governos de todos os países? Sim, todos os que podem. Então qual é a diferença. As diferenças são pelo menos duas: (1) a China é uma potência planetária que se tenta impor cada vez mais agressivamente (não por acaso o único vizinho com quem mantém boas relações é a Coreia do Norte) e (2) a democracia liberal não faz parte de cultura política da China que não dispõe dos mecanismos institucionais de contrapoderes nem de uma imprensa livre (imagine-se o que seriam os Estados Unidos sem esses mecanismos e sem uma imprensa que todos os dias faz tiro ao alvo das asneiras e das patologias do seu actual presidente).

27/03/2020

O coronavírus no agitprop do Novo Império do Meio

«Peço-lhe também, meu caro leitor, que tire dois minutos do seu dia e leia a conta do porta-voz dos Negócios Estrangeiros da China no Twitter, uma rede proibida para o cidadão chinês comum. Verá, com alguma estupefacção, o empenho das autoridades chinesas em contabilizar os mortos de coronavírus registados fora da China, como que ilibando o regime chinês de qualquer responsabilidade. É isso mesmo, meu caro leitor. A China está a usar o número de mortos europeus como propaganda, como álibi para a sua gestão do vírus desde o ano passado. Vou repetir, porque não o digo de ânimo leve: a China está a usar mortos como propaganda.

Se lermos o Global Times, um jornal do regime, propriedade do seu Comité Central, apercebemo-nos de atitudes de similar desumanidade. A 11 de março, a publicação estatal assumia que se os Estados Unidos excluíssem a Huawei da instalação do 5G não teriam acesso a máscaras e material médico fabricado na China. Sim, também é disto que estamos a falar: um país que usa uma pandemia para fazer chantagem e promover as suas empresas. Pense bem nisso, meu caro leitor, da próxima vez que vir um político português encantado com dinheiro chinês.
»

Excerto de «A verdade sobre a China que não podemos ignorar (mas que vamos ignorar)», Sebastião Bugalho no Observador

26/03/2020

Dúvidas (296) - Será o Gabinete de Monitorização uma espécie de Gosplan?

Vinte e sete economistas subscreveram uma espécie de manifesto a propor a criação de um Gabinete de Monitorização «para monitorizar a crise composto por quadros quer do sector privado quer público, bem como de representantes do governo

Não sei se estes 27 podem ser considerados uma espécie de macroeconomistas conexos ou simplesmente economistas mediáticos, sendo certo que a maioria são cientistas do Estado. Além destas dúvidas, tenho mais uma: será o Gabinete de Monitorização uma espécie de Gossudarstvênnîi Komitet po Planirovâniu, uma instituição criada em 1921, mais conhecida pelo petit non Gosplan.

13/12/2019

O "capitalismo" de Estado não é capitalismo, é comunismo de "mercado"

«Quando a NBA recuou em Outubro para apaziguar Pequim após uma chuva de protestos em Hong Kong, a liga de basquetebol foi criticada por se submeter a um regime autoritário. Daryl Morey, gerente geral do Houston Rockets, num tweet (posteriormente apagado) escreveu: "Lute pela liberdade, fique com Hong Kong". Isso levou a China a suspender as transmissões da NBA na pré-temporada, a retirar patrocinadores dos jogos no país e a romper os laços com os Rockets.

Diante da perspectiva de um tweet que desfaz décadas de trabalho para promover o crescimento no mercado externo mais importante da NBA, a liga capitulou. Mas a decisão da associação de basquetebol de seguir a linha do Partido Comunista Chinês (PCC) está longe de ser a excepção. Longe da humilhação pública da NBA, a China está a recorrer a um mecanismo pouco usado anteriormente para controlar silenciosamente as relações com marcas e empresas estrangeiras que operam na China, afirmam especialistas. E cada vez mais empresas internacionais estão silenciosamente a atender às exigências do PCC.

O mecanismo usado é um comité do partido que opera em empresas e instituições privadas e estatais, cujos membros são escolhidos tanto pelo partido quanto pelas empresas em questão. Oficialmente, esses comités existem para permitir que as empresas se mantenham melhor informadas sobre as mudanças legais e regulamentares e actualizadas com o clima político na China. No entanto, eles são cortinas para esconder a influência cada vez maior que o partido exerce sobre as empresas que operam no país, afirmam especialistas.

Até há 18 meses atrás, esses comités do partido eram em grande parte simbólicos, mas até o final do ano passado, em 106.000 empresas estrangeiras tinham sido criados comités do PCC, totalizando 70% das empresas que operam na China, segundo o Departamento de Organização do Comité Central. Isso representa um aumento de 125% em relação a 2011, quando o número era de 47.000. No geral, dos 2,7 milhões de empresas privadas da China no exterior e no exterior, 68% criaram um comité partidário, um aumento de 30% nos últimos cinco anos. Do Walmart à Walt Disney, vários gigantes americanos têm comités do partido na China.

"O PCC sempre demonstrou poder administrativo para reprimir ou punir empresas que não seguem a sua linha", diz Xin Sun, professor de negócios chineses e asiáticos do King's College. Mas esse poder tornou-se tornou cada vez mais proeminente sob o presidente Xi Jinping, diz ele. "E as empresas estão prestando mais atenção para não se envolverem em acções consideradas inaceitáveis ​​pelo partido".

Não há dúvida de que empresas, nacionais e estrangeiras, continuarão colidindo com as sensibilidades políticas da China. À medida que os laços entre o partido e as empresas se aproximam em sectores da segunda maior economia do mundo e a confiança das autoridades da China aumenta, seguir a linha do PCC será mais importante para empresas estrangeiras. E com o mercado consumidor chinês é vital para as indústrias globais - de bens de luxo à aviação - sair da linha pode ter consequências cada vez mais graves. 

Em alguns casos, esses resultados serão tornados espectacularmente públicos, como acontece com Morey e a NBA. Na maioria dos casos, os comités do partido garantirão que você nem venha a saber.»

Excerto de HOW CHINA MANIPULATES FOREIGN FIRMS na Ozi

É esta China dominada pelo PCC que o governo socialista considera um parceiro privilegiado com quem quer aprofundar relações.

17/11/2019

O Partido Comunista Chinês aplica às minorias muçulmanas a sua receita: "Absolutely No Mercy"


«Internal Chinese government documents obtained by The New York Times have revealed new details on the origins and execution of China’s mass detention of as many as one million Uighurs, Kazakhs and other predominantly Muslim minorities in the Xinjiang region.

03/05/2018

ESTADO DE SÍTIO: EDP, locus do complexo político-empresarial socialista

«O Governo é o lugar onde há mais ministros. O Conselho Geral e de Supervisão da EDP é o lugar onde há mais ex-ministros. Apontem: Luís Amado (ministro da Defesa e ministro dos Negócios Estrangeiros de José Sócrates), Eduardo Catroga (ministro das Finanças de Cavaco Silva), Celeste Cardona (ministra da Justiça de Durão Barroso e Paulo Portas), Jorge Braga de Macedo (ministro das Finanças de Cavaco Silva), Vasco Rocha Vieira (nomeado por Cavaco Silva ministro da República nos Açores e último governador de Macau), Augusto Mateus (ministro da Economia de António Guterres) e António Vitorino (ministro da Presidência e ministro da Defesa de António Guterres). Um terço dos 21 membros do Conselho Geral e de Supervisão da EDP são antigos ministros. Porque será?»

Se o presidente americano Dwight D. Eisenhower quando fez o seu discurso de despedida em 17 de Janeiro de 1961 conhecesse o Portugal Socialista, em alternativa ao exemplo do «military–industrial complex» como «potential enemy of the national interest», uma «unjustified expenditure» e «nothing more than a distorted use of the nation's resources», poderia ter dado o exemplo do complexo político-empresarial socialista português, um dispositivo herdeiro do Estado Novo Corporativo, incrementado com as nacionalizações do PREC e refinado com uma espécie de capitalismo de estado montado pelo polvo socialista mancomunado com os empresários do regime onde sobressaíram os Espíritos.

13/03/2018

No melhor pano cai a pior nódoa ou a fé desperdiçada (2) - Depois do pai, o filho e agora o espírito santo

Continuação daqui.

Primeiro foi o pai Alexandre Soares dos Santos a querer reformar o Estado com uma «comissão de sábios», depois foi o filho Pedro que confessou «acreditar muito no dr. António Costa».

Agora parece que o espírito santo encarnado no filho mitiga a sua fé de há duas semanas em entrevista ao Público, esclarecendo que a sua admiração por Costa se funda na sua «capacidade de negociação, de construção de consensos, talvez única em Portugal neste momento» e, animado com o que parece ser uma epifania pontual, manifesta a sua crença num Estado liberal. 

Passando por cima do facto de a admiração por aquelas competências de Costa para se manter a flutuar são algo incompatíveis com uma inclinação para um  Estado liberal, percebe-se que está a tentar jogar em dois tabuleiros, coisa para a qual se duvida tenha o talento suficiente e coisa supérflua para a sua condição de empresário que deveria jogar em tabuleiro próprio.

02/03/2018

No melhor pano cai a pior nódoa ou a fé desperdiçada

Há duas semanas comentei neste post a visão de Alexandre Soares dos Santos, o patriarca da Jerónimo Martins, sobre a reforma do Estado alavancada por uma comissão de sábios.

Ontem, o seu filho Pedro Soares dos Santos confessou em conferência de imprensa coisas tocantes em matéria de fé, como «acredito muito no dr. António Costa, mas não acredito muito na coligação» e «acredito mais em António Costa do que em Rui Rio». Se a falta de fé na geringonça e em Rui Rio se pode compreender sem dificuldade, já a fé em dose reforçada («acredito muito») ou bem é do domínio do maquiavelismo na versão comercial, se falsa, ou bem, se verdadeira, é do domínio do credo quia absurdum.

Por isso, se já sabíamos que um grande político ou uma sumidade em ciência política não é necessariamente um grande empresário, e também sabíamos que ser um grande empresário não o qualifica para construir uma visão para o País nem desenhar as reformas capazes de induzir as mudanças indispensáveis para sair do atavismo e da tutela de um Estado castrador, ficámos agora ainda a saber que ser filho de um grande empresário também não, ou, em alternativa, na melhor hipótese, o qualifica como um grande mentiroso.

11/02/2018

No melhor pano cai a pior nódoa ou a reforma do Estado por uma comissão de sábios

Alexandre Soares dos Santos é um dos empresários portugueses mais destacados e foi o principal responsável pela transformação da Jerónimo Martins num dos maiores grupos de distribuição, o maior a nível alimentar em Portugal e um dos 60 maiores a nível mundial, com uma presença na Polónia e na Colômbia. Não é pouco.

Depois de ter defendido em entrevista ao Expresso que para reformar o Estado «temos de fazer um contrato a 10 anos, com sanções pesadas em caso de incumprimento, chefiado pelo presidente da República», respondeu à pergunta «como implementaria esse contrato a 10 anos que refere?»:
«Devia incluir a nomeação de uma comissão de sábios com portugueses e estrangeiros que estudassem a reforma do Estado, que teria de ser aprovada por todos e que. depois, começaria a ser implementada ministério a ministério, departamento a departamento.»
Em conclusão, se já sabíamos que um grande político ou uma sumidade em ciência política não é necessariamente um grande empresário, ficámos a saber que ser um grande empresário não o qualifica para construir uma visão para o País nem desenhar as reformas capazes de induzir as mudanças indispensáveis para sair do atavismo e da tutela de um Estado castrador.

17/12/2017

CAMINHO PARA A SERVIDÃO: Atrasado três décadas, "1984" está a chegar. Por agora à China

«Imagine a Amazon expandida para abranger os serviços e recursos de tratamento de dados da Apple News, eBay, Uber, Groupon, American Express, Citibank e YouTube. Agora, imagine que essa entidade usou essa informação - tudo o que você compra, para onde você vai, como você paga suas contas e quem são seus amigos - para lhe dar uma pontuação entre 350 e 950. E que esse número efectivamente quantifica o seu lugar na sociedade. Esta não é uma experiência de pensamento distópico: é realidade na China, onde o sistema de pagamento móvel de Ali Baba inclui Zhima Credit, um sistema aprovado pelo governo para determinar os chamados scores de crédito social dos cidadãos.

«É uma tentativa tecnológica de engenharia social. "Para o Partido Comunista Chinês, o crédito social é uma tentativa de um autoritarismo mais suave e mais invisível", escreve Mara Hvistendahl. Lucy Peng, a presidente-executiva da empresa, foi citada como dizendo na Ant Financial, Zhima Credit "assegurará que as pessoas más na sociedade não tenham um lugar para ir, enquanto as pessoas boas se podem mover livremente e sem obstrução". De fato, Zhima Credit colocou na lista negra mais de 6 milhões de pessoas por não pagarem multas judiciais. Estar nessa lista significa ser banido da maioria das formas de viagens, hotéis de luxo e grandes empréstimos bancários. Você também pode perder os seus amigos cumpridores.

Orwellian, e não tão anti-americano como se possa pensar. O sistema de crédito dos EUA classificou em tempos os cidadãos através de métricas intolerantes, como a raça e os "gestos efeminados". E em 2012, o Facebook patenteou um método para usar as pontuações de crédito dos seus amigos para ajudar a avaliar o seu, embora se recusem ter intenção de usar essa tecnologia . "Você poderia imaginar um futuro onde as pessoas estão assistindo para ver se o crédito de seus amigos está a cair e depois abandonando os seus amigos se isso os prejudica", diz Frank Pasquale, um especialista em Big Data da Faculdade de Direito da Universidade de Maryland Carey. "Isso é aterrador"

(Tradução semi-automática de um sumário do artigo INSIDE CHINA'S VAST NEW EXPERIMENT IN SOCIAL RANKING na newsletter de 15-12-2017 da Wired)

29/10/2017

CAMINHO PARA A SERVIDÃO: L'État c'est lui

Os mais de 2 mil delegados ao congresso do Partido Comunista da China que terminou esta semana passada aprovaram incluir o nome e o pensamento de Xi Jinping nos seus estatutos, colocando-o no mesmo patamar de Mao Zedong, fundador e divindade da religião maoista. Perguntados se tinham alguma objecção à consagração nos estatutos do «Pensamento de Xi Jinping sobre o Socialismo com Características Chinesas para a Nova Era» os delegados responderam com gritos de meió  (nenhum), como mostra o vídeo publicado pela BBC.

É interessante constatar que entre os países alguma vez dirigidos por um partido comunista a China é o único bem sucedido no campo económico ao substituir o comunismo por um sistema capitalista de direcção central, dominado por uma poderosa nomenclatura de apparatchiks liderada por um ditador de facto. Isto foi possível graças ao génio de Deng Xiaoping. Em contraponto, os russos tiveram um Mikhail Gorbachev que tentou salvar o sistema soviético injectando-lhe democracia, sem perceber não ser possível ter sol na eira e chuva no nabal. O seu idealismo levou a Rússia a ficar com sol no nabal e chuva na eira e uma plutocracia administrada pelo czar Putin.