Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

03/08/2026

Crónica da passagem de um governo (61a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Caos é o que a comentadoria e o jornalismo de causas quiserem

Caos é, por exemplo, dos 290 mil exames ainda haver 170 exames sem classificação ou 15 mil pedidos de reapreciação muito incentivada pelos sindicatos.

Mais um prego para o caixão do Dr. Fernando Alexandre

A partir do próximo ano lectivo, a proibição do uso de ‘smartphones’ nas escolas será alargada até ao 9.º ano, medida que, entre outros efeitos, se espera que melhore o aproveitamento escolar e a socialização nas escolas. Se da maior socialização resultar um aumento do bullying, lá teremos o Dr. Alexandre a ser acusado de promover o caos nas escolas, depois de ter sido acusado de censurar a promoção da identidade de género no programa de Cidadania e Desenvolvimento.

A «hecatombe social» do Dr. Dominguinhos

Perante a proximidade do fim do PRR e o atraso para aplicar os respectivos dinheiros da bazuca, o Dr. Dominguinhos, presidente da respectiva Comissão Nacional de Acompanhamento, alerta que «se a consequência for a devolução do dinheiro vamos ter uma hecatombe social», hecatombe que desde S. Bento até ao Edifício Berlaymont toda a gente teme tanto como os beneficiários, pelo que, com toda a probabilidade, serão feitos os “ajustes” indispensáveis para isso não acontecer, como por exemplo considerar como executados para efeitos de financiamento uma percentagem de conclusão abaixo dos actuais 90% (qual, logo se vê).

Apesar dos “ajustes”, à cautela, o ministro da Economia garante que «nenhum euro do PRR será devolvido a Bruxelas».

Afinal, a bazuca serviu para alguma coisa…

Pelo menos serviu para contratar um número de funcionários a acrescentar aos 767 mil, que ninguém sabe ao certo qual seja, e que poderá andar pelos 1.295 autorizados por um despacho em 2021, e que agora «o fim do PRR ameaça deixar desempregados trabalhadores que o Estado contratou», lamenta, compungido, o semanário de reverência.

Canários na mina de carvão

mais liberdade

Segundo as projeções da CE, Portugal será um dos países mais impactados pela mudança radical da política orçamental devido ao fim do PRR e à dependência da economia portuguesa dos fundos europeus. Em 2027, Portugal deverá passar para uma política orçamental restritiva, registando um dos maiores arrefecimentos orçamentais da Zona Euro, apenas superado pela Bulgária e Grécia.

Take Another Plan. Como transformar 3.340 milhões de euros em menos de 2.000 milhões

Segundo uma avaliação financeira encomendada pelo jornal ECO, a TAP poderá valer entre 1.948 e 2.073 milhões de euros, depois lá terem sido enterrados 3.340 milhões de euros de ajudas com o dinheiro dos contribuintes.
 
(Continua)

02/08/2026

CASE STUDY: Perceberam mal. O que falta não são diplomas, é know-how. Now, how?

A valorização do canudo é um caso particular da valorização dos títulos que domina há séculos a cultura, isto é, o conjunto de valores, de crenças, de normas, de costumes, de conhecimentos e de símbolos, do Portugal dos Pequeninos. Daí a atribuir-se ao canudo propriedades mágicas na atribuição de estatuto social vai um pequeno passo, e daqui a imaginar-se que o "atraso" resulta da escassez de canudos vai outro passo mais pequeno, que os governos socialistas (do PS e do PS-D), com destaque para o programa «Novas Oportunidades», criado pelo governo do Sr. Eng. José Sócrates, que foi uma espécie de fábrica de diplomas que dariam acesso a 143 cursos profissionais, de aprendizagem e de ensino artístico especializado que o governo ofereceu aos candidatos que terminassem a equivalência ao 9.º ano de escolaridade que o programa atribuiu.

O resultado foi, em matéria de diplomas, a redução do nosso desalinhamento em relação à UE: dos 25 aos 29 anos, apenas 13,5% possuem escolaridade inferior ao ensino secundário e 44,4% concluíram o ensino superior. Não obstante, a escolaridade entre os empregadores é verdadeiramente um desastre, com mais de 40% só com o ensino básico, e isso é uma parte da explicação da baixa produtividade do trabalho.

O problema real não é a falta de diplomas, é a falta de competências, o saber como fazer.


O gráfico acima, extraído do trabalho de Óscar Afonso «Portugal tem mais diplomas, mas falta capital humano», publicado há dias, coloca-nos em 34.º lugar na proficiência média (*) em numeracia e literacia dos 38 países da OCDE.

Perante este handicap o que fazem as nossas elites merdosas? Autoelogiam-se dentro da respectiva bolha, dão graxa à plebe e exaltam as exageradas, e muitas vezes imaginadas, realizações do Portugal dos Pequeninos, que é outra maneira de se autoelogiarem.

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(*) «A proficiência dos adultos em resolução adaptativa de problemas é avaliada através do PIAAC, um programa internacional da OCDE que mede a proficiência dos adultos em competências-chave de processamento de informação. A resolução adaptativa de problemas envolve a capacidade de atingir objetivos em situações dinâmicas, onde uma solução não está imediatamente disponível.»

31/07/2026

TIROU-ME AS PALAVRAS DE BOCA: O Portugal dos Pequeninos é «um Estado corporativista, com traços claros de capitalismo de compadrio» (andamos a dizer isso aqui há 23 anos e noutros sítios há mais tempo)

Portugal está preso num sistema de compadrio, com justiça lenta, reguladores capturados e um Estado que falha aos cidadãos, é, «em larga medida, um Estado corporativista, com traços claros de capitalismo de compadrio», onde a proximidade entre poder político e grandes grupos económicos continua a condicionar a concorrência, a produtividade e o crescimento económico.

James A. Robinson, Prémio Nobel da Economia em 2024, co-autor com Daron Acemoglu de «Porque Falham as Nações».

30/07/2026

Dúvidas (369) - O assalto ao gabinete do Dr. Ventura e as trapalhadas do Dr. Neves, serão uma espécie de Reichstagsbrand e de Untermensch no Portugal dos Pequeninos?

O grau zero da democracia em Lisboa 2026 e em Berlim 1933

«Assim está o meu Gabinete esta manhã na Assembleia da República. Alguém estava à procura de alguma coisa e não se coibiu de agir dentro do próprio Parlamento. Não sei ainda se foi roubado algum documento ou não, mas atingimos o grau zero da nossa democracia. (...) desapareceram dois lotes de documentos e duas 'pens' com informação relativa a dois assuntos diferentes». Um dos lotes de documentos estava guardado «numa das pastas que estavam em cima da primeira mesa e referia-se à Comissão Parlamentar de Inquérito ao ministro da Administração Interna». (fonte)

29/07/2026

SERVIÇO PÚBLCO: Os Sete Saberes para a Educação do Futuro, de Edgar Morin

Edgar Morin (1924-2026)

  1. O erro e a ilusão: o conhecimento não é um espelho fiel da realidade; a mente humana pode falhar e ser enganada pelas nossas ideias e sentidos.
  2. O conhecimento pertinente: para que uma informação seja útil, ela precisa estar ligada ao seu contexto, unindo as partes ao todo e o todo às partes.
  3. A condição humana: precisamos lembrar quem somos nós, seres ao mesmo tempo físicos, biológicos, psíquicos, culturais, sociais e históricos.
  4. A identidade terrena: todos os humanos partilham o mesmo destino no planeta Terra, que hoje está ligado e globalizado.
  5. Enfrentar as incertezas: o futuro é incerto; a educação deve ensinar a navegar pelas surpresas e mudanças sem buscar apenas regras fixas.
  6. A compreensão: aprender a entender os outros, superando o ódio e as barreiras entre pessoas de culturas diferentes.
  7. A ética do género humano: a responsabilidade de cuidar da humanidade, unindo a nossa liberdade com o respeito pela comunidade global.
Era para ser um R.I.P. há dois meses, quando morreu Morin, e ficou na gaveta até que me ocorreu em plena campanha de agitprop e vacuidades a pretexto da bagunça da digitalização e da incapacidade de pensar e agir nas matérias do que haveria de ser um elevador social e uma alavanca para desenvolver o Portugal dos cada vez mais Pequeninos e é um sistema de criação de empregos e um campo de batalhas político-doutrinárias.

You can't fool all of the people all the time (16) - Oklahoma withdrew and joined the remaining 45 states.

Other "You can't fool all of the people all the time."

28/07/2026

Crónica da passagem de um governo (60b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 60a)

«Empresa Financeiramente Apoiada Continuamente (pelo) Estado Central». Até ao lavar dos cestos ainda é vindima

Em Julho de 2020, depois do governo do Dr. Costa pela mão do Dr. Caldeira Cabral ter feito o favor de comprar a EFACEC à Dr.ª Isabel dos Santos, o Dr. Siza Vieira começou a tentar vendê-la anunciando todos os meses que a venda iria ter lugar e lá torrando mais uns milhões e mais garantias. Cinco anos depois, o Tribunal de Contas estimou que a festa iria ficar por 564 milhões, dos quais seriam recuperáveis uns 400 milhões. Isso foi antes da Mutares – a empresa alemã que comprou a EFACEC - ter exigido à Parpública o pagamento de responsabilidades financeiras no âmbito do mecanismo de compensação que podem atingir até 80 milhões de euros.

Se o Estado “lucrasse com a guerra” seria a única actividade lucrativa do Estado

O líder socialista Dr. Carneiro teve uma epifania e, a propósito do aumento dos preços dos combustíveis, acusou o Governo de «lucrar com os sacrifícios dos portugueses», no que foi prontamente desmentido pelo Dr. Leitão Amaro, que garantiu que «o Estado não lucra com a guerra». Com discussões desta elevação, ficámos a saber que governo e oposição estão atentos à opinião pública devidamente galvanizada pelas incontáveis páginas de jornais e dezenas de minutos dos telejornais dedicados a este tormentoso assunto.

Não. O Estado não falhou. O Estado fez o que costuma fazer

O ministro da Educação admitiu que o “Estado falhou na digitalização das avaliações para explicar por que muita coisa correu mal num processo em que a única coisa que correu bem foi o agitprop dos poderes fácticos instalados, apoiado pela comentadoria e multiplicado pelo jornalismo de causas para aproveitar o que correu mal para tentar correr com um ministro que meteu o pau no vespeiro com algumas medidas. Por exemplo, flexibilizou o processo de contratação dos profs pelas escolas, simplificou a substituição de profs, mobilizou profs aposentados e fora da profissão, reduziu a burocracia, digitalizou processos, concentrou funções administrativas, aumentou a autonomia das escolas, proibiu os telemóveis nos primeiros ciclos; reduziu a carga ideológica do programa de Cidadania e Desenvolvimento, alterou o RJIES do ensino universitário que obrigará as universidades e  a reverem os seus estatutos, mexeu na investigação fundindo a FCT e a ANI na AI2 com uma gestão mais empresarial e independente.

É sempre possível ficar pior do que está

mais liberdade

As trapalhadas do Dr. Luís Neves e as teorias da conspiração

A inegável gravidade das acções agora expostas do Dr. Neves quando pousado na Judite só é claramente ultrapassada pelo ridículo da pequenez das trafulhices e não é preciso comparar com a multiplicação do património de Donald Trump desde que tomou posse, basta comparar com a multiplicação do património do Sr. Eng. Sócrates. É por essa e por muitas outras que o nosso torrãozinho natal também é conhecido por "Portugal dos Pequeninos".

«Pagar a dívida é ideia de criança»?

Banco de Portugal

O endividamento total da economia (Estado, empresas não financeiras e famílias) continuou a crescer muito acima do PIB nominal e aumentou 6,4 mil milhões em Maio, dos quais 2,9 mil milhões do sector público. Vem a propósito registar que, no primeiro trimestre, dívida pública da UE aumentou para 82,9% do PIB e Portugal está muito bem classificado no quinto lugar com 91%.

27/07/2026

Crónica da passagem de um governo (60a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
A bazuca de pólvora seca. Desta vez também não foi diferente

Para quem tivesse dúvidas, o PRR - a bazuca do Dr. Costa - , que até agora despejou mais de 13 mil milhões, vinha condicionada à adopção de centenas de medidas e reformazitas, teve o destino que tiveram grande parte dos donativos que os contribuintes europeus (nomeadamente os alemães) nos têm vindo a conceder com os resultados conhecidos que, para simplificar, se reduzem em grande parte a projectos inviáveis que o dinheiro grátis tornou viáveis e a  alimentar o consumo de bens duradouros (*). Quanto às centenas de medidas e reformazitas (que deram origem a seis “reprogramações”) foram sendo “ajeitadas”: 112 das 117 investimentos previstos há três anos forem modificados e só 28 das 44 reformas não foram alteradas.

(*) Vem a propósito lembrar que as vendas de veículos ligeiros no 1.º semestre aumentaram 10,5%, o dobro do aumento na UE (recorde-se que a taxa de motorização no Portugal dos Pequeninos já está acima da média da UE). Sendo certo que correlação não é causação, pedi a um chatbot estimativas do coeficiente de Pearson (uma medida estatística para medir o grau de relação linear entre duas variáveis) entre os valores anuais da entrada de fundos europeus nos últimos 30 anos e o volume anual de vendas de veículos ligeiros em Portugal (com um atraso de 1-2 anos) que estimou valores no intervalo 0,65-0,80 o que se considera uma correlação moderada-forte.

O que começa mal é difícil acabar bem

O SIRESP é um zingarelho que suporta o sistema de comunicações de segurança e emergência (o mesmo que falhou rotundamente nos incêndios de 2017), gerido por uma empresa pública com o mesmo nome, criada pelo Dr. Costa como MAI, com a ajuda do seu amigo Dr. Lacerda Machado, que custou até agora mais de 700 milhões de euros. Actualmente, a NOS fornece o suporte de comunicações utilizado pelo SIRESP. Foi responsabilizada pelas suas falhas no ano passado, e o seu presidente lava as mãos do assunto, explicando que não teve qualquer intervenção no desenho do sistema, que tem inúmeras deficiências e limitações de cobertura e deveria ser suportado pelas redes comerciais existentes, como acontece em muitos países.

É preciso ser muito saudável para resistir a tanta doença (continuação)

Segundo o Relatório sobre Emprego e Formação, no ano passado o número de baixas por doença dos 5,3 milhões de empregados em Portugal aumentou 8,4% para quase 1,6 milhões, das quais se estima em meio milhão as “autobaixas” em que o trabalhador se declara incapaz para trabalhar. Se imagina que a maioria dessas baixas foi dos velhotes, imaginou mal – metade dessas baixas foi de jovens entre os 25 e 39 anos, os quais, contudo, representam apenas cerca de 30% do total.

O Dr. Ventura hesita entre o Estado Novo e o Estado Socialista

Copiando Andy Burnham, novo primeiro-ministro e o líder do Partido Trabalhista mais esquerdista desde o trotskista Jeremy Corbyn, o Chega anunciou que vai propor ao parlamento a eliminação do IVA sobre a eletricidade a partir de 2027. Nem Burnham nem o Dr. Ventura explicaram onde vão espremer os contribuintes para compensar a receita fiscal perdida (umas centenas de milhões de euros no caso do Dr. Ventura).

(Continua)