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24/04/2025

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (74) - Somos dos que mais merecem o interesse do Império Russo

Outros portugueses no topo do mundo.

Não há muitos rankings em que o nosso Portugal dos Pequeninos esteja quase no nono decil, posição que os mídia patrióticos não poderiam deixar de saudar, como o faz o semanário de reverência numa peça com o título «Interesse da Rússia “não é novo”: Portugal é o 12.º país (numa lista de 87) com maior volume de desinformação russa» onde nos dá conta de «um estudo realizado na Bulgária (que) coloca Portugal como uma das nações do mundo onde um grupo de desinformação russo mais opera. Os investigadores veem o país como um terreno de testes “interessante para as táticas de desinformação russas serem experimentadas e testadas”».

The Pravda Ecosystem: Publications Analysis Dashboard, Dec 2024-Mar 2025

Note-se que o 12.º lugar de Portugal é o segundo, a seguir à Dinamarca, dos países que não integraram (ainda) o Bloco Soviético.

Este interesse do agitprop do Império Russo, de resto já visível no comentário político na TV portuguesa sobre a invasão da Ucrânia por alguns militares portugueses, comentário classificável como um teste para as tácticas russas, é previsível, além de honroso, pelo menos desde que o apresentador Vladimir Solovyov do canal estatal "Russia-1" considerou que «os portugueses viveriam bem como parte do império russo» e sugeriu a anexação de Portugal após a «desnazificação da Alemanha».

14/02/2025

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (73) - "Um evento extraordinário e único no mundo!”

Outros portugueses no topo do mundo.

Semanário de reverência

Note-se que neste caso a DOC não é Douro, Dão, Bairrada ou Alentejo, etc. Isso é para tesos sem pedigree. Este é o «icónico Château Petrus, produzido em Pomerol, a partir de casta Merlot e por muitos considerado o melhor vinho do planeta» que irá ser degustado na «iniciativa “Big Bottle Day” promovida pelo restaurante JNcQUOI Avenida», esse templo da piroseira endinheirada.

Podemos ser «um país mais corruptodo que quatro dos sobreviventes do colapso do Império Soviético, mais corrupto do que uma ex-colónia (Cabo Verde), vários países árabes (Emiratos, Arábia Saudita), o Botswana, etc. Podemos estar no 38.º lugar do ranking (terceiro a contar do fim) dos países que apresentaram pedidos de patentes ao EPO. Podemos ter caído para o 30.º lugar no ranking, atrás de Eslovénia, Estónia, República Checa e Eslováquia para citar apenas os sobreviventes do colapso do Império Soviético, do Elite Quality Report 2023: Country Scores and Global Rankings (EQx2023)  que classifica a qualidade das elites. Porém, tudo isso cede perante o facto de termos elites que degustam o «icónico Château Petrus, produzido em Pomerol».

05/02/2025

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (72) - O top do jornalismo de causas patrióticas não é no topo

Outros portugueses no topo do mundo.

Jornal Económico

Não faço ideia o que significa estar no top para o jornalista em causa, mas o certo que a European Patent Organisation (EPO) tem 39 membros, 27 da União Europeia e 12 outros (RU, Suíça, Turquia, Estados bálticos, etc.) e estar no 20.º lugar em 39 é estar no meio da tabela. Seja como for, no texto do artigo escreve-se que está no «19.º lugar quanto ao número de patentes tecnológicas relacionadas com oncologia na Europa»

Para compor o ramalhete, o artigo do JE cita que «a iLoF Intelligent Lab on Fiber (iLoF), startup de combate ao cancro orientada para a fotónica e a IA, registou três pedidos de patentes». A iLoF é um dos quatro case studies do estudo New frontiers in oncology: an evolving innovation ecosystem da EPO, e apesar de ter entre os fundadores investigadores portugueses e um escritório no Porto, é tão portuguesa como era a Farfetch, e tem as instalações principais em Londres e Nova Iorque. 

De modo que, lá temos de recorrer, uma vez mais, ao velho Eduardo Lourenço para entendermos o «sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou colectivo» .

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Este post também poderia ser publicado na série ARTIGO DEFUNTO.

19/01/2025

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (71) - A selecção social fez dos portugueses os mais ansiosos (e avessos ao risco)

Outros portugueses no topo do mundo.

Cruzei-me acidentalmente com este vídeo de Mark Manson, uma criatura que os produz com regularidade sobre os temas mais variados, alguns deles, como este, sobre certas características dos nacionais de alguns países. No caso do Portugal dos Pequeninos sobre a ansiedade - o título do vídeo publicado em Novembro de 2024 é «Understanding the Most Anxious Country in the World» - uma emoção exacerbada - um transtorno - que segundo as estatísticas assalta os locais muito mais intensamente do que em qualquer outro país do mundo.

Mark Manson, um observador perspicaz, ficou tão intrigado com a prevalência da ansiedade entre nós que visitou Portugal e falou com um certo número de pessoas e concluiu que na génese do fenómeno se encontra a selecção resultante da saída maciça a partir do século XV dos mais afoitos, ambiciosos e inconformados deixando para trás os conformados e o seu receio patológico das mudanças e a baixa tolerância ao risco.

Concordo, isso mesmo venho escrevendo há duas décadas (por exemplo neste post de 2006 precisamente sobre a aversão ao risco) baseado nos estudos e no modelo de Geert Hofstede, desenvolvido nos princípio da década de 70, e em particular num post desta série onde escrevi sobre o «processo de selecção social dos últimos cinco séculos que fez sair os inconformados de Portugal nos Descobrimentos e os fez e faz sair pela emigração».

05/08/2023

Com estas elites, o Portugal dos Pequeninos, que tem algum passado e pouco presente, dificilmente terá um futuro diferente

«Em boa verdade, as supostas elites do país, em particular as de Lisboa, tirando os seus chefes, encarnam em larga medida uma tristonha mediocridade, sendo, em grande parte, caracterizadas por uma trupe parasitária, parola, larápia e oportunista, que subsiste, como lembrava Antero, de mãos estendidas pelas secretarias dos ministérios, das administrações e das amizades mais felizes, à procura do negócio de ocasião, do subsídio, da concessão, da colocação, bem como da posição ou de um lugar para o filho, ou para o sobrinho, assim trocando favores, conhecimentos e gerindo “influências”.

Pelo meio, na modernidade caracterizada pela sempre presente necessidade da “comunicação” e das relações públicas, precisamente aquelas que garantem o posto na oligarquia, gere-se e fomenta-se todo um sistema de comunicação social que, subserviente, presta-se ao serviço de mandar, receber e publicar os providenciais “recados” que compõem o paupérrimo panorama público e publicado português. Desde o presidente da república até ao primeiro-ministro, sempre por entrepostas pessoas, quando não anónimas “fontes”, passando pelos gestores e administradores — hoje, em cheios de chique importado “lá de fora”, transformados oportunamente em “CEO”, “CFO” e demais siglas anglo-saxónicas —, todos tratam de publicar, através da respectiva agência e do jornalista mais amigo, a “notícia” que, por entre portas, faz chegar a picardia a quem de direito. Ainda assim, no final, todos se entendem — enquanto o povoléu, cada vez mais à rasca, paga a conta.

No entanto, e esta é a tragédia pátria, não existe uma verdadeira solução instantânea para este parasitismo oportunista. Muito pelo contrário, nele se revela uma característica fundamental do modo de existir português, ainda para mais uma que conta já com mais de quinhentos anos.»

Excerto à laia de teaser de A elite e o povo, Nuno Lebreiro no Observador

[Assinaria por baixo sem o "supostas" elites, porque estas são as elites efectivas e isso explica muito, mas não tudo. Falta explicar porque temos estas e não outras elites.] 

29/10/2022

ACREDITE SE QUISER: Ele disse fábrica de unicórnios. E não pode ser só uma oficina? (2)

Continuação de (1)

Há um ano, o Dr. Moedas anunciou uma «fábrica de unicórnios, onde vamos ensinar os detalhes e os processos, e fazer dos sonhos grandes negócios, criar empregos e mudar o mundo e ter propósito. É isso que a Fábrica de Unicórnios será.»

Ontem o Dr. Moedas cumpriu o prometido e anunciou que a nova Fábrica de Unicórnios vai arrancar em 2023 com um investimento de €8 milhões para três anos de funcionamento. Cumpriu o prometido? Pois parece que não, porque primo, ele fez apenas outro anúncio, e secundo, oito milhões em três anos não dão nem para mandar cantar um cego, quanto mais para "apoiar" empresas inovadoras que um dia serão avaliadas em mais de mil milhões de dólares.

É mais um equívoco que começa por imaginar que já existem unicórnios portugueses, os quais segundo a AICEP seriam Farfetch, OutSystems, Talkdesk, Feedzai, Remote, SWORD Health, Anchorage Digital. Na verdade, um já não é classificado como tal (a Farfetch já está cotada) e os outros seis estão sedeados em cidades americanas: Boston, São Francisco (3), São Mateo e Nova Iorque. Entre os 1.191 (número de hoje) unicórnios não se encontra um único com sede em Portugal. Mais, entre os vários milhares de "Selected Investors", numa vista rápida em diagonal não encontrei um único português.

Todos aqueles supostos unicórnios lusitanos são considerados pela CBInsights como americanos porque foram criados, operam e se financiam nos Estados Unidos e a nacionalidade dos fundadores só é considerada quando a sede do unicórnio se situa no exterior. 

E o equívoco continua com o imaginar que atirar (pouco) dinheiro para um terreno inóspito a respeito do risco e da inovação irá criar uma safra de unicórnios, quando virtualmente todos os unicórnios nasceram sem dinheiro ou com o dinheiro de venture capitalists que puseram o dinheiro onde puseram a boca apostando numa ideia e numa equipa. 

E o equívoco termina, por agora, com o pensar que a inovação, isto é, a criatividade organizada e sistemática, e a iniciativa, isto é, a disposição para assumir riscos, precisam do «edifício da Factory que está em fase de conclusão no Hub Criativo do Beato.» É o equivalente a pensar que a fé precisa de um Convento de Mafra, ainda para mais sem o ouro do Brasil. Não temos emenda.

02/09/2022

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (50) - Sempre em bicos de pés

Outros portugueses no topo do mundo.
«Os Portugueses vivem em permanente representação, tão obsessivo é neles o sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou colectivo. A reserva e a modéstia que parecem constituir a nossa segunda natureza escondem na maioria de nós uma vontade de exibição que toca as raias da paranoia, exibição trágica, não aquela desinibida que é característica de sociedades em que o abismo entre o que se é e o que se deve parecer não atinge o grau patológico que existe entre nós».
Escreveu Eduardo Lourenço, que teve ganas de dissecar a "alma" portuguesa exaltada pelas elites merdosas que fingem venerar o povo para darem graxa a si próprias.

Todos os dias encontramos exemplos semeados nos mídia desse desejo obsessivo de aparecer a propósito das coisas mais ridículas.

A propósito, por exemplo, de um petroleiro que encalhou no Suez, que é o facto relevante, o qual por coincidência, tinha partido de Portugal, que é o facto irrelevante - afinal ele teria de partir de algum lado e o facto de ter partido de Sines é igual ao litro e não consigo imaginar a outra imprensa salientar que o petroleiro tivesse saído do respectivo país. O evento deu origem a uma peça da Agência Lusa - a Tass do PS - que foi glosada em inúmeras referências nos jornais de ontem e até por alguns títulos, como:

26/05/2022

Mitos (319) - Nacionalismo só com um corno

Unicórnios na newspeak são as startups tecnológicas, não cotadas em bolsa, avaliadas em mais de mil milhões de dólares. De acordo com a Complete List Of Unicorn Companies da CBInsights há no total mais de 1.000. Apesar da obsessão dos mídias domésticos com os unicórnios portugueses, em boa verdade, eles são mais raros do que o lince da Serra da Malcata e ainda assim os poucos que se podem encontrar só se podem considerar portugueses se o critério for a nacionalidade de algum dos fundadores.

Can Silicon Valley still dominate global innovation?

Como se pode ver nos diagramas acima, nenhuma cidade portuguesa está no mapa-mundo dos unicórnios. De facto, dos sete unicórnios portugueses recenseados pela AICEP (Farfetch, OutSystems, Talkdesk, Feedzai, Remote, SWORD Health, Anchorage Digital), um já não é classificado como tal (Farfetch que já está cotada) e os outros seis estão sedeados em cidades americanas: Boston, São Francisco (3), São Mateo e Nova Iorque.

O que a AICEP escreveu «Portugal já tem mais unicórnios que Espanha, Grécia e Itália juntos», não faz sentido porque Portugal não tem unicórnio nenhum e os nacionais dos países citados, tal como os portugueses, têm mais unicórnios do que os sedeados nesses países. É o nacionalismo ridiculamente saloio do costume muito cultivado entre nós, a começar por S. Ex..ª, o papagaio-mor do reino, e a acabar no político ou no jornalista mais incógnito.

24/12/2021

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (46) - Afinal não. Os trombetas precipitaram-se. Foi engano

Outros portugueses no topo do mundo.

Durante vários dias, os mídia do Portugal dos Pequeninos celebraram mais um feito que colocaria mais uma empresa portuguesa no topo do mundo, com títulos patrióticos tais como:

Filho do selecionador nacional Fernando Santos compra Euronews

Portuguesa Alpac Capital compra Euronews. Quer apostar em Bruxelas e no digital

"Venture capital" portuguesa compra quase 90% da Euronews

Portugueses da Alpac Capital compram 88% da Euronews

SOCIEDADE PORTUGUESA DE CAPITAL DE RISCO COMPRA CANAL EURONEWS

Portuguesa Alpac Capital compra Euronews. Valores do negócio não foram divulgados mas antecipam-se “fortes” investimentos

Subitamente, tudo mudou. Afinal a portuguesa Alpac já não é portuguesa, é uma empresa com sede em Lisboa que tem como chefe-executivo o «filho de um grande apoiante do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán», o qual é uma persona non grata do jornalismo de causas doméstico. 

Persona non grata sim, porque, como se sabe, o Sr. Orbán é uma personagem maléfica que tenta controlar os mídia húngaros, tal como o Dr. Costa tenta controlar os mídia do Portugal dos Pequeninos, embora com muito menos sucesso malgré tout, isto é, apesar das câmaras de eco plantadas em quase todas as redacções domésticas.

E foi assim que, de repente, a empresa portuguesa bestial a caminho do topo do mundo passou a empresa estrangeira besta, controlada por um inimigo da imprensa livre.

02/12/2021

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (45) - No topo e nos pés

Outros portugueses no topo do mundo.


Desta vez é a exaltação dos sapatos usados por Alexia Putellas, na cerimónia de entrega da Bola de Ouro de futebol feminino que inspirou aquele título celebratório.

Mais um exemplo da razão que assistiu a Eduardo Lourenço quando escreveu que «os Portugueses vivem em permanente representação, tão obsessivo é neles o sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou colectivo.»

Para quem ande distraído e imagine que isto é um caso isolado, remeto para as duas dezenas de exemplos recentes que inventariei.

Mergulhados nesta atmosfera doentia de complexos de inferioridade, duvido que a maioria dos aborígenes se aperceba do ridículo deste tipo de notícias que é comparável aos jornais italianos exaltarem as calcinhas Intimissimi que a bela Alexia poderia ter usado na cerimónia.

05/11/2021

ACREDITE SE QUISER: Ele disse fábrica de unicórnios. E não pode ser só uma oficina?

Só agora me dei conta da intenção do Dr. Moedas, como presidente da câmara de Lisboa, montar uma «fábrica de unicórnios, onde vamos ensinar os detalhes e os processos, e fazer dos sonhos grandes negócios, criar empregos e mudar o mundo e ter propósito. É isso que a Fábrica de Unicórnios será.»

Suponho que o Dr. Moedas chama unicórnios às startups tecnológicas avaliadas em mais de mil milhões de dólares, das quais segundo a Complete List Of Unicorn Companies da CBInsights há em todo o mundo cerca de 900 e entre elas não se encontra nenhuma classificada como portuguesa.

É claro que isso é o ponto de vista da Complete List, já que para a imprensa portuguesa existem quatro unicórnios portugueses, a saber: Farfetch, Talkdesk, OutSystems e Feedzai. Com excepção da Farfetch, que não consta da lista, as outras três são consideradas pela CBInsights como americanas porque foram criadas, operam e se financiam nos Estados Unidos e a nacionalidade dos fundadores só é considerada quando a sede da startup se situa no exterior.

Seja como for, para os jornalistas portugueses e, pelos vistos para o Dr. Moedas, sendo os portugueses os melhores dos melhores, independentemente de onde têm lugar, todos os seus feitos contam para o engrandecimento da Pátria e por isso com quatro unicórnios já estamos acima dos 1,2 que nos caberiam na proporção dos residentes em Portugal. 

Ainda assim, estamos muito longe dos 22 unicórnios israelitas, que seriam certamente muitos mais se a nacionalidade dos fundadores contasse no critério da CBInsights. Tudo isto sem que se saiba ter o presidente da câmara de Telavive montado uma fábrica de unicórnios, como o Dr. Moedas pretende montar, e que bem se poderia ser substituída por uma simples oficina de unicórnios mais em linha com as nossas posses.

02/11/2021

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (44) - «Nós somos bons, muito bons. Somos os melhores dos melhores», a confirmação

Outros portugueses no topo do mundo.

Um curto inventário só dos últimos três meses e picos, confirmando a asserção de S. Ex.ª o PR citada no título:
«Os Portugueses vivem em permanente representação, tão obsessivo é neles o sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou colectivo. A reserva e a modéstia que parecem constituir a nossa segunda natureza escondem na maioria de nós uma vontade de exibição que toca as raias da paranoia, exibição trágica, não aquela desinibida que é característica de sociedades em que o abismo entre o que se é e o que se deve parecer não atinge o grau patológico que existe entre nós.»
Eduardo Lourenço, um pensador já falecido

28/07/2021

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (42) - Os feitos na vacinação segundo o semanário de reverência


Os delírios patrióticos do semanário de reverência:

Expresso 27-07

Os factos segundo o COVID-19 Vaccine Tracker do European Centre for Disease Prevention and Control:

Vem a propósito citar outra vez Eduardo Lourenço, muito venerado equivocadamente pelas nossas elites que não perceberam o que ele pensava delas:
«Os Portugueses vivem em permanente representação, tão obsessivo é neles o sentimento de fragilidade íntima inconsciente e a correspondente vontade de a compensar com o desejo de fazer boa figura, a título pessoal ou colectivo. A reserva e a modéstia que parecem constituir a nossa segunda natureza escondem na maioria de nós uma vontade de exibição que toca as raias da paranoia, exibição trágica, não aquela desinibida que é característica de sociedades em que o abismo entre o que se é e o que se deve parecer não atinge o grau patológico que existe entre nós».

21/06/2021

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (41) - Uma potência em Finanças? É quase tão exagerado como a notícia da morte de Mark Twain

Outros portugueses no topo do mundo.

A imprensa de hoje celebra euforicamente as quatro presenças de Mestrados em Finanças de universidades portuguesas no ranking do Financial Times: Nova (14.º), Católica (23.º), ISEG (35.º), ISCTE (51º) em 55.

Não questiono que, em si mesmo, isso é relevante e positivo para um país europeu em vias de subdesenvolvimento. Dito isso, vejamos as coisas mais de perto, porque o diabo costuma estar nos detalhes, segundo um ditado dos alemães que há dois dias deram uma lição de futebol à selecção portuguesa. 

Reparemos para começar que o ranking é o Masters in Finance pre-experience 2021 e que segundo a metodologia do FT:
  • «The pre-experience ranking measures average salary increase between the first post-masters job on graduation and today — a timespan of about three years» 
  • «Local salaries are converted to US dollars using purchasing power parity rates supplied by the International Monetary Fund.»
  • «There are 17 different categories in the pre-experience ranking, and alumni responses inform seven categories that together constitute 58 per cent of the total weight. The other 10 categories are calculated from the school data and account for the remaining 42 per cent»
  • «The current average salary of alumni has the highest weighting: 20 per cent.» 
Só para temperar a euforia vejamos os factores onde as escolas portuguesas pontuaram acima, em certos casos muito acima, do ranking global e que, portanto, o afectaram positivamente:
  • Factores relacionados com o salário, sobretudo «Salary percentage increase» e «career progress» (não esquecer que os salários são corrigidos pela paridade do poder de compra);
  • Factores relacionados com o "género", como «Female faculty %» e «Women on board (%)».
Por isso, titular que Portugal é «uma potência em Finanças» me parece quase tão exagerado como a notícia da morte de Mark Twain, e também porque em matéria de Finanças (Públicas), o Portugal dos Pequeninos é um dos dois maiores desastres da UE, e o outro está a caminhar rapidamente para deixar de o ser. É claro que a coisa se percebe à luz do complexo de inferioridade lusitano sempre à procura de um reconhecimento «lá fora».

23/05/2021

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (40) - No ranking dos pedintes os portugueses são dos melhores entre os melhores

Fernando Campos Nunes surge logo em 3.º lugar com €76,6 milhões. António Mota em 4.º com €72,6 milhões. Mário Ferreira é 16.º e Maria Fernanda Amorim a 24.ª. No total, a lista é composta por sete portugueses, cinco polacos, três checos, três alemães e sete outras nacionalidades.

Com 2,3% da população e 1,5% do PIB da União Europeia, o Portugal dos Pequeninos tem 28% dos 25 maiores pedintes e um lugar no pódio. Somos os melhores entre os melhores pedintes. A confirmação que S. Ex.ª o presidente dos pedintes tem razão.

28/04/2021

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (39) - Deitar foguetes antes da festa

Outros portugueses no topo do mundo.


O título sugere um Portugal que sempre foi especial passar a ser também espacial. No texto o foguetão baixa à categoria de foguete ao saber-se que o consórcio vai investir no Portugal dos Pequeninos uns míseros 9 milhões de euros em 3 anos, escassamente suficientes até para montar uma modesta fábrica de pirotecnia, daquelas que de vez em quando explodem levando consigo a família proprietária.

Uma linhas mais abaixo fica-se a saber que afinal a produção é só de umas peças a que Luís de Gôngora y Argote se escrevesse o artigo teria chamado de sistemas para o futuro foguetão RFA ONE, e se no lugar do presidente da AICEP também proclamaria «estamos a entrar numa nova era, ao plantar as primeiras sementes da indústria espacial no País. Estamos a lançar a Era Espacial!». 

22/04/2021

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (38) - Os primeiros na mão estendida

Outros portugueses no topo do mundo.

#Portugal foi o primeiro Estado membro a apresentar o PRR. A nossa recuperação assenta no reforço do SNS, na habitação digna e acessível, na promoção das qualificações, na capitalização e inovação empresarial, no desenvolvimento do interior e nas transições climática e digital.

Saudemos o Dr. Costa e a sua obra de realização do sonho do Padre António Vieira, dando passos para a criação do Quinto Império da Pedinchice.

21/04/2021

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (37) - "Sem paralelo" disse S. Ex.ª

Outros portugueses no topo do mundo.

«O Presidente da República considera que as reuniões do Infarmed, que juntam especialistas, líderes políticos e parceiros sociais, são realizadas “num quadro político e institucional sem paralelo em qualquer outra experiência externa”.» (Observador)

Foi com este quadro político e institucional sem paralelo que nos colocámos em Janeiro no topo do mundo com mais mortes por milhão de habitantes e ainda hoje nos colocamos a nível mundial num honroso 19.º lugar em número de casos por milhão de habitantes e num notável 17.º lugar em número de mortes por milhão de habitantes (worldometer).

Há duas explicações possíveis para esta fantasia recorrente dos melhores do mundo fabricada pela nossa nomenclatura política: ou bem eles acreditam nestas baboseiras e nesse caso são patetas, ou bem eles não acreditam e nesse caso consideram patetas quem os escuta.

30/03/2021

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Portugueses no topo do mundo (36) - O mundo com os olhos postos em nós

Outros portugueses no topo do mundo.

A semana passada tivemos duas ascensões notáveis ao topo do mundo.

Tivemos a camisola poveira copiada desavergonhadamente pela Tory Burch causando uma onda de indignação patriótica das Forças Vivas da Nação, como se dizia no Estado Novo, levantamento que, segundo a jornalista Helena Matos, só foi suplantado pelo Ultimatum inglês. Foi preciso uma emigrada lembrar que a Tory Burch já tinha sido precedida pela apropriação pelo estilista Nuno Gama, curiosamente muito saudada pela câmara da Póvoa.  

Tivemos também a cidade de Lisboa que «foi escolhida entre mais de 150 cidades mundiais como um dos "21 Lugares do Futuro", segundo um estudo que será divulgado hoje e que foi levado a cabo pela Cognizant». A explicação de Maximino Gouveia, «responsável máximo da Cognizant em Portugal» para a escolha é comovente de tão encomiástica, ao ponto que para um alfacinha emigrado como eu ficou irreconhecível.

Vá-se lá saber porquê, evoquei a entrevista ao jornal i de Elidérico Viegas, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA) onde revelou com grande escândalo nos meios turísticos que os prémios frequentemente recebidos por destinos turísticos «que andamos a apregoar com frequência são prémios atribuídos por estruturas ou organizações privadas que têm como fim o lucro e que vendem lugares em função dos preços que se pagam». Não é nada que uma criatura assisada e com o desconfiómetro a funcionar não possa concluir ao procurar as referências das entidades que atribuem os prémios.

25/02/2021

Proposta Modesta para Devolver com Atraso aos Povos Colonizados as Riquezas Espoliadas pelo Colonialismo Português, Começando pelo Brasil

Em 1729 Jonathan Swift publicou um panfleto satírico com o título longo e insólito A Modest Proposal: For Preventing the Children of Poor People in Ireland from Being a Burden to Their Parents or Country, and for Making Them Beneficial to the Public.

Desde então, inúmeras Propostas foram baptizadas de «Proposta Modesta». O (Im)pertinências, com quase quatro séculos de atraso, apresentou já várias, três delas Para Evitar que os Áctivistas Desperdicem Acções e Indignações. A proposta de hoje tem o mesmo propósito de evitar desperdícios.
 
Dando razão à justa luta dos áctivistas pela destruição dos símbolos do colonialismo português, mas considerando-a sobretudo simbólica e inadequada para compensar a cruel humilhação pelo Quinto Império e a espoliação desenfreada das riquezas naturais dos povos colonizados, perpetrada por sucessivos regimes opressivos em Portugal (salvo o regime republicano que, embora praticando um colonialismo ainda mais opressivo, nos deixou o legado da ética republicana), proponho que se restitua a esses povos os bens espoliados, ou, não sendo possível a reconstituição natural, se pague uma adequada compensação por essas riquezas. 

Mãos à obra

Proponho ainda que se comece por indemnizar o Brasil pelo equivalente ao ouro e aos diamantes apropriados que, segundo algumas estimativas, teria um valor actual superior a 100 mil milhões de euros. Para tal, começará  por devolver-se as 382,5 toneladas existentes nos cofres do BdP, que às cotações actuais valem uns 18 mil milhões de euros. Para pagar o restante, proponho adoptar a ideia luminosa do manifesto dos Prof. Louçã e Piketty e fazer uma emissão de dívida perpétua do montante necessário. Caso não haja procura suficiente para esta emissão, será proposta ao Sr. Claude Berda a compra do Convento de Mafra que, como se sabe, foi construído com o ouro do Brasil.

Proponho, ademais, que as compensações a pagar ao povo brasileiro só tenham lugar após o impeachment ou morte do Capitão Jair Bolsonaro, o que primeiro ocorrer.