Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

08/06/2020

De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva (24) - Medidas diferentes têm efeitos diferentes

Este post faz parte da série De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva.


Os dois primeiros diagramas representam a evolução diária dos novos casos de infectados em Portugal e em Londres, com números de habitantes são muito próximos (10,1 e 9,8 milhões respectivamente), iniciaram o lockdown quase na mesma altura, sendo o de Londres consideravelmente menos rigoroso do que o Portugal. No caso português a curva de infectados continua a não "aterrar", em contraste com a de Londres que está a cair rapidamente. 

O terceiro diagrama, mostra-nos que a taxa de letalidade estimada de Londres já estava a diminuir ainda antes do lockdown. 

O que podemos concluir? Talvez o que já suspeitávamos: que, perante um vírus muito contagioso de letalidade relativamente baixa, o lockdown serve essencialmente para atrasar as infecções diminuindo a pressão sobre os serviços de saúde e prolongando-as no tempo.

07/06/2020

O jornalismo de causas como prostituição



«Torna-se, dado o descaramento ou o descuido, bastante ingrato defender o papel da imprensa num regime democrático quando ela se curva sistematicamente aos poderes do regime que devia contrabalançar. Acrítica e obediente, deixou de questionar e passou a comunicar, parou de analisar e resignou-se a narrar. O modo como tentou normalizar – e até abrilhantar – o recrutamento de Costa Silva diz muito do que é o jornalismo de hoje em Portugal. Descredibiliza-se e insulta-se a classe política, como se esta não estivesse habilitada a levantar o país de uma crise e fosse necessário convocar um providencial CEO para a empreitada. Desvaloriza-se a informalidade do convite, promovendo-se inconscientemente a falta de transparência, quando o propósito da comunicação social é justamente o contrário: responsabilização. Se olharmos para os últimos meses, reparamos como se foram criando exceções deste género para tudo – comemorações, concertos, regras e cargos –, enchendo assim a boca àqueles que lucram com um eleitorado cansado de viver debaixo de excecionalidades tão indevidas quanto incompreensíveis. Querem mesmo parar Ventura? Comecem por aqui.»

Excerto de Costas quentes, Sebastião Bugalho no Observador

A pletora de referências encomiásticas ao paraministro António Costa Silva e o acolhimento acrítico às dúzias de declarações que proferiu desde a nomeação são um indicador do grau de alienação e da ausência de independência da maioria dos mídia em relação ao polvo socialista que excedem o que os comunistas conseguiram durante o PREC, durante o qual, apesar de tudo, ainda havia algumas resistências nas redacções.

A hidroxicloroquina, as esquerdas e o reflexo de Pavlov

Há algumas semanas, o jornalismo de causas de todo o mundo divulgou com grande fanfarra um estudo publicado pela Lancet, uma prestigiada revista inglesa de medicina, que concluía seriam nocivos para a saúde a hidroxicloroquina (e a cloriquina), medicamentos usados para o tratamento da malária, recomendados por Donald Trump e Jair Bolsonaro para tratar a Covid-19 e por eles próprios tomados, segundo as suas declarações.

É claro que a popularidade da hidroxicloroquina, substância que aparte a comunidade médica, pouca gente já teria ouvido falar, se ficou a dever àquelas duas criaturas que têm o poder de desencadear entre as esquerdas um reflexo semelhante ao que a campainha de Ivan Pavlov, o cientista russo pioneiro no estudo comportamental, desencadeava nos cães que usava nas suas investigações. Os cães de Pavlov babavam os seus sucos gástricos associando o som da campainha à comida que foram treinados para associar.


As esquerdas e o jornalismo de causas espumam de raiva associando nas suas mentes primitivas (disclaimer: não, não estou a compará-las aos cães) Trump e Bolsonaro a Hitler e Mussolini, os quais foram treinados a odiar e ensinados a fazer subtis distinções não os confundindo com Estaline e Mao, por exemplo.

Infelizmente para a tese, a Lancet na quinta-feira retractou esse estudo, por razões aqui explicadas. Poucas horas depois, o New England Jornal of Medecine retractou também um outro estudo cujos dados eram originários da mesma empresa de onde provieram os dados para estudo sobre a hidroxicloroquina.

Lá se foi pelo cano mais uma bela conspiração. Isso não será um problema porque o repertório das esquerdas dedicado àquelas duas criaturas é vasto e, com ajuda dos próprios, virtualmente inesgotável.

06/06/2020

Um tablóide britânico imita o jornalismo de causas português

«Tabloide inglês distorce realidade epidemiológica portuguesa em artigo sobre destinos de verão»

Depois de ter publicado vários artigos onde apresenta de uma forma distorcida, a exemplo da maioria da imprensa portuguesa, a mortalidade por Covid-19 na Suécia, no Brasil e nos Estados Unidos para demonizar a opção pela liberdade dos cidadãos no primeiro caso e a opção pela defesa da economia dos dois presidentes "fascistas", no segundo e no terceiro casos, o Diário de Notícias, que é um dos diários da manhã dos governos socialistas, queixa-se do Daily Mail por este tablóide ter mostrado Portugal como o terceiro país com mais infectados.

E de facto os dados estão certos, tal como estavam certos (quase todos) os dados descontextualizados (por exemplo comparando valores absolutos de países com população completamente díspares) apresentados pela imprensa portuguesa sobre aqueles países. Mas qual o sentido de escolher um só dia (1 de Junho) para comparar o número de infectados por milhão de habitantes no Reino Unido e em 17 outros países que são destinos mais populares dos britânicos? Porque nesse dia o número de infectados por milhão em Portugal foi até superior a alguns dos campeões como a Bélgica, a Espanha e a Itália, dando uma imagem completamente distorcida do impacto da pandemia nestes países.

De que se queixam? O tablóide apenas imitou o que os jornais portugueses costumam fazer.

O Estado Sucial do Dr. Costa a transformar-se num Estado kafkiano-orwelliano


Sábado

05/06/2020

Dúvidas (310) - Estarão os eleitores a ser vítimas de uma espécie de síndrome de Estocolmo? (2)

Continuação de (1)

Confirma-se que o eleitorado português está infectado pelo síndrome de Estocolmo que, como se sabe, é um «estado no qual os reféns desenvolvem uma aliança psicológica com seus captores durante o cativeiro».

A sondagem de Pitagórica mostra que quase 90% dos inquiridos fazem uma avaliação positiva da actuação de S. Ex.ª, a quem a hipocondria levou a refugiar-se em casa para anunciar o estado de emergência e nos obrigar a fazer o mesmo, e 74% aprovam a governação do Dr. Costa.

A mesma sondagem mostra o PS com 44,8% das intenções de voto, à beira da maioria absoluta, e uma vantagem de 20 pp sobre o PSD, a maior vantagem em muitos anos, o que é um argumento a favor da candidatura do Dr. Rio a vice-primeiro ministro do governo socialista. O Chega com 6,4% ultrapassa o BE com 6,1%, a CDU dos comunistas com 4,8%, o CDS do Chicão com 2,8% e o IL com 1,6%.

Confirmando a infecção pelo síndrome de Estocolmo, outra sondagem da Pitagórica mostra que 61% dos inquiridos concordam em ser vigiados a partir do seu telemóvel e que 81% concordam com novos períodos de confinamento rigoroso.

Porém não se iluda o Dr. Costa. A única coisa que é definitiva é o cagaço do povo e a sua aversão às reformas, «num país que há séculos depende de um Estado hegemónico, que se habituou a servir e, quando possível, iludir», como escreveu Teodora Cardoso. Quando a «queda monumental» desabar sobre nós, com grande surpresa da maioria hipnotizada pelo ilusionismo do Dr. Costa, choverão as pedras do ressentimento em cima dele que irá então desfrutar de uma licença sabática para voltar como candidato aplaudido pelos então ressentidos às presidenciais de 2026.

Racismo é o que os "activistas" e os jornalistas de causas quiserem

A narrativa do «bom gigante» afro-americano George Floyd assassinado por um polícia racista, pode ser muito apelativa para "activistas" e jornalistas de causas, mas tem pouca aderência à realidade.

Vejamos alguns factos. George Floyd foi condenado em 2009 a 5 anos de prisão por assalto à mão armada a uma residência, comprou cigarros usando uma nota falsa, e parecia descontrolado, segundo o empregado do supermercado que chamou a polícia. 

A polícia chegou e após longos minutos e várias peripécias (aqui relatadas em detalhe), Floyd foi arbitrariamente imobilizado por Derek Chauvin que o sufocou até à morte. A autópsia de Floyd revelou infecção por Covid-19, e consumo do opióide fentanil e de metanfetamina, uma droga sintética estimulante. (fonte NBC) «Bom gigante» é bom para fazer títulos mas parece pouco apropriado. Derek Chauvin foi imediatamente expulso da polícia, preso e acusado de homicídio.

Nos dias imediatos, em muitos Estados americanos, foram organizadas violentas manifestações a pretexto do homicídio de George Floyd. Um pouco por todo o mundo os "activistas" mobilizaram-se em protesto contra o que chamam "racismo", com ampla cobertura das suas narrativas pelo jornalismo de causas. 

Vejamos os números de pessoas mortas pela polícia americana desde 2017.

Statista
Evidentemente, que o número de americanos brancos é muito maior ao de negros, e por isso a taxa de mortalidade pela polícia é claramente superior no caso dos negros. Mas será por serem negros? Ou será principalmente porque a pobreza e a criminalidade se correlacionam e afligem mais os negros? Acrescente-se que, segundo a jornalista negra Candace Owens (citada por Henrique Monteiro), em 2018 quase 90% dos negros foram mortos por polícias negros.

Neste contexto, a narrativa racista não tem grande consistência e parece mais um pretexto para exacerbar o racismo latente em todo lado. 

04/06/2020

ARTIGO DEFUNTO: O dinheiro de uma agência do governo de um regime autocrático não cheira melhor do que o dinheiro de um governo socialista de um regime democrático


Este anúncio da Xinhua (Nova China), a agência de notícias oficial do governo chinês, está a ser apresentado duas, três quatro ou mais vezes nalgumas páginas do Observador com um link para uma página da Xinhua anunciando que «Legisladores chineses propõem lei de imunidades de estados estrangeiros», significando que os deputados à Assembleia Popular Nacional escolhidos pela nomenclatura do Partido Comunista Chinês aprovaram uma lei que impede os nacionais chineses de serem julgados por tribunais estrangeiros por terem omitido ou deturpado informações vitais sobre a pandemia Covid-19.

Dúvidas (309) - Porquê a Suécia suscita a criação de "factos alternativos"?

Observador / worldometers 
Se fosse adepto das teorias da conspiração já estaria a construir cabalas a respeito do Observador (que assino e a quem dei um significativo donativo). Como não sou, digo apenas que a nódoa cai em qualquer pano.

Porquê a Suécia suscita a criação de "factos alternativos"? Talvez porque a Suécia entendeu que estava em causa "uma questão de liberdade, não de epidemiologia" e, como sabemos, a liberdade não é muito apreciada pelos praticantes do jornalismo de causas.

Dúvidas (308) - Se a Suécia errou na estratégia, a Bélgica acertou em quê?


Anders Tegnell admitiu que a sua abordagem de manter a economia aberta provocou mais mortes do que o previsto. Morreram, até ao momento, 4.468 pessoas no país devido à covid-19.


worldometers
Quem diz a Bélgica, diz o Reino Unido, ou a Espanha ou a Itália que adoptaram estratégias de lockdown muito rigorosas, ao contrário da Suécia que apenas adoptou um limite de 50 pessoas para as reuniões.

DIÁRIO DE BORDO: Porque te dás ao trabalho de escrevinhar num blogue? perguntam-me por vezes...

... e acrescentam: não tens mais nada para fazer?

Também faço a mim próprio a primeira pergunta e nunca encontrei uma resposta satisfatória. Quanto à segunda a resposta é fácil: tenho sim, tenho imensas coisas para fazer e não tenho tempo para fazer muitas das que gostaria.

Não é que não tenha um propósito, só que não sei bem qual seja. Por isso, posso bem aceitar como álibi que «É muito agradável ter o conhecimento que ainda há muitas pessoas decentes. É muito real a noção de que a decência foi sempre muito mal distribuída pelo planeta. E (também) acredito que a decência sempre foi uma das indeléveis marcas da Liberdade.»

03/06/2020

Bons exemplos (134) - «Em vez de depender do dinheiro dos contribuintes»

A Spectator, uma revista inglesa independente, teve acesso ao regime de lay-off como a imprensa e em geral as empresas britânicas. As coisas correram menos mal do que esperavam e resolveram começar a devolver os subsídios, devolução que o chairman explicou assim:

«Instead of depending on furlough money from taxpayers, I have tasked the editorial and management teams to grow sales of The Spectator to 100,000 as quickly as possible. I have every confidence that they will meet this target. Our paid-for circulation is already higher than at any point in the magazine’s 192 years of publishing. We closed last year with sales at 83,000. I can reveal that we passed 87,000 in the first quarter of this year, with growth accelerating since then. So 100,000 is within our grasp.

Our US and Australian editions have been given new targets too.

For those of us in a position to do so, growing our business out of the crisis seems preferable to depending on government subvention. We will begin the process of withdrawing from the furlough scheme and returning all the funds we’ve received in a phased manner over the next two months.»

Conseguis imaginar algum chairman português a começar uma frase com «em vez de depender do dinheiro dos contribuintes» e a acabar outra com «devolvendo todos os fundos que recebemos faseadamente nos próximos dois meses»? Eu não. É por estas e por outras parecidas que o Portugal dos Pequeninos é um país em vias de subdesenvolvimento.

Quem cabras não tem e cabritos vende de algum lugar lhe vêm

«A União Europeia irá entregar aos Estados-membros que o pedirem um montante que, objetivamente, não tem. Para o fazer, terá de emitir dívida que será comprada, que pagará juros e que no final do período do empréstimo terá de ser paga. Para pagar essa dívida, ao longo dos próximos anos, a União Europeia terá de recorrer ao seu orçamento. Ora, pergunta-se – de onde vêm os recursos para o orçamento da União Europeia? Basicamente de duas fontes. Uma percentagem pequena de alguns impostos que cobra; a maior parte de transferências dos orçamentos dos Estados-membros.

Significa isto que os 750 mil milhões que irão ser pedidos emprestados, independentemente da forma como a União Europeia os vier a distribuir entre os seus Estados-membros (empréstimos, transferências, subvenções, doações, pouco importa para o caso), acrescidos dos juros respetivos, terão de ser devolvidos a quem os emprestou e vão sair ou de impostos que a União cobra ou de transferências que os Estados membros lhe fazem.

Devido ao montante em questão, devido a outros compromissos a que o orçamento comunitário já tem de fazer face, é expectável que, recorra-se a impostos ou a transferências orçamentais, uns ou outras terão de ser fortemente reforçadas nos anos mais próximos. Só assim a União poderá continuar a ter a sua atividade normal financiada e, ainda, pagar o capital e os juros deste novo empréstimo.

Como não é de crer que a Comissão Europeia esteja disposta a pedir aos Estados-membros para estes aumentarem as suas transferências diretas para o orçamento comunitário nos anos próximos, o mais provável é que se abra a porta à criação de impostos europeus (nomeadamente sobre a atividade digital das grandes empresas e a produção excessiva de dióxido de carbono).

Ou seja – a forma mais provável de a União Europeia poder vir a pagar o empréstimo que vai contrair (facilitemos a linguagem) para distribuir pelos Estados-membros necessitados significará abrir a porta à criação de verdadeiros de impostos europeus. Esta é a realidade que, infelizmente, ainda não foi discutida nem debatida.»

Excerto de «A fundo perdido?»,  João Pedro Dias, no Jornal Económico

02/06/2020

CASE STUDY: Trumpologia (65) - Os "antifascistas" estão a salvar a eleição de Trump

Mais trumpologia.

Até há uma semana, graças aos inúmeros disparates que tem produzido e às poucas coisas razoáveis que tem defendido (parece uma contradição mas não é), com o desemprego a aumentar exponencialmente (uma das coisas pela qual não é definitivamente responsável, pelo contrário), Donald Trump parecia ter a eleição perdida com as intenções de voto no confronto com o candidato democrata a penderem para Biden por 48%-43% com 9% indecisos (sondagem Rasmussen em 18-19 Maio).

Até que o «bom gigante» George Floyd, um negro, perdão um afro-americano, condenado em 2009 a 5 anos de prisão por assalto à mão armada a uma residência, comprou cigarros usando uma nota falsa, parecia descontrolado, segundo o empregado do supermercado que chamou a polícia, e resistiu a ser detido (fonte BBC).  Durante o confronto foi imobilizado pelo polícia Derek Chauvin que o sufocou até à morte e foi por isso imediatamente despedido, preso e acusado de homicídio (azar o dele, se fosse um polícia português poderia aguardar pelo desfecho do inquérito até à reforma).

Nos dias imediatos, um pouco por todos os Estados, foram organizadas violentas manifestações a pretexto do homicídio de George Floyd. Uma organização radical auto-baptizada de Antifa é o principal promotor. Trump, que deve ter visto as manifestações violentas como uma mensagem divina para salvar a eleições, iniciou um bombardeamento de declarações e twits, ameaçando usar o exército.

Os "antifascistas" a trabalharem para a campanha de Trump
Entre os vários actos de violência, foi ontem intencionalmente incendiada a histórica igreja de S. João perto da Casa Branca.

Unintended consequences
Sem surpresa, hoje Donald Trump apareceu hoje na igreja com uma Bíblia na mão. Só por falta de gratidão não agradeceu aos "antifascistas".

Aditamento:

Também por cá as almas piedosas estão indignadas com o homicídio de George Floyd. Não consta que essas mesmas almas se tenham indignado com a morte do ucraniano Ihor Homenyuk assassinado pelos polícias do SEF os quais aguardam o desfecho do inquérito até à reforma.

De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva (23) - Experiências fora da caixa (1)

Este post faz parte da série De volta ao Covid-19. Colocando a ameaça em perspectiva (*) e inicia uma subsérie dedicada às «Experiências fora da caixa» de alguns países que adoptaram estratégias diferentes. A Suécia é um desses países e já lhe dediquei este post, embora numa perspectiva social e política relevando a questão da liberdade de escolha, liberdade que os portugueses não valorizam, mas é vital para os suecos. Agora vou socorrer-me de um artigo de Ross Clark da Spectator dedicado ao Japão que cito parcialmente, omitindo as partes que me parecem mais especulativas.  

«No Japão, restaurantes, lojas, salões de beleza permaneceram abertos por toda parte e não houve restrições ao movimento das pessoas. Além disso, ao contrário da Coreia do Sul e de Taiwan, houve poucos testes – o Japão realizou 2.300 testes por milhão de residentes, em comparação com 920.000 por milhão na Coreia do Sul (a Grã-Bretanha, por sinal, realizou 63.000 testes por milhão). Até a Suécia, em 24.000 testes por milhão, superou o Japão nessa frente.

O Japão realizou alguns testes e rastreamentos no início da epidemia. Mas dificilmente pode alegar ter eliminado o vírus ao fazê-lo. Em Abril, um hospital de Tóquio testou todos os seus pacientes ao Sars-CoV-2 – o vírus causador do Covid-19 – e descobriu que 7% dos pacientes não Covid estavam infectados. Esta percentagem é comparável à divulgada pela ONS na semana passada que estimou que 6,78% da população do Reino Unido tem anticorpos para o vírus, sugerindo que eles foram infectados em algum momento.

Por isso o Japão não usou intensamente nenhuma das medidas padrão para enfrentar o Covid-19 – confinamento, teste, seguimento e rastreamento. Também não conseguiu eliminar o vírus por outros meios. Se acha que Boris Johnson ou Donald Trump foram imprudentes, deveria criticar muito mais o governo japonês. Mas não o fará porque o Japão, apesar de sua atitude laissez-faire, teve notavelmente poucas mortes: sete para cada milhão de cidadãos, em comparação com 567 no Reino Unido. Até mesmo o país modelo da Europa no Covid – a Alemanha – teve uma taxa de mortalidade que é múltipla do Japão: 103 por milhão.

Mas, uma vez mais, se compararmos o Japão com seus vizinhos do Extremo Oriente, poderíamos  concluir que o Japão tem sido imprudente: a Coreia do Sul e Taiwan têm taxas de mortalidade ainda menores em 5 por milhão e 0,3 por milhão, respectivamente.

Isso leva-nos a uma conclusão inevitável que tem sido óbvia desde meados de Março, pelo menos para qualquer um que esteja preparado para a ver: há uma diferença fundamental na forma como este vírus se comportou no Extremo Oriente em comparação com a Europa e a América. Tem sido muito, muito mais mortal nestes últimos, e de uma forma que não pode nem ser explicada pela forma como diferentes governos têm lidado com a epidemia. Isso levanta duas possibilidades: ou há uma diferença no vírus que vem atacando países ocidentais ou há uma diferença nas populações humanas.»

(*) Pela razão que explico neste comentário, alterei o post anterior que irei rever quando tiver tempo.

(Continua)

01/06/2020

Se o socialismo não resultou nas vacas gordas, porque haveria de resultar nas vacas magras?

O Dr. Costa que, em parceria com S. Exª. o PR, foi o artífice de uma estratégia de "guerra" à pandemia que enfiou a economia numa crise muito mais profunda do que a anterior, nomeou conselheiro especial para apresentar um plano de reconstrução da economia assim destruída o Eng. António Costa Silva, por acaso CEO da Partex, uma holding de petróleos, durante muitos anos participada da Fundação Calouste Gulbenkian e vendida no final do ano passado à PTE Plus, uma empresa pública tailandesa.

Mostrando ao que vem, o Eng. Costa Silva fez logo uma declaração de fé estatal: «esta crise mostrou que o papel do Estado tem que ser mais valorizado, mais Estado na economia, o Estado é o último protector contra todo o tipo de ameaças».

E para acabar com as dúvidas informou que o seu draft de plano aposta «nas infraestruturas físicas do país, modernizá-las todas, qualificar a rede viária, intervir muito no sistema de portos que é fundamental alavancar as exportações do pais, toda a rede portuária, construir um hub portuário, que tem sido desenvolvido um trabalho extraordinário nos portos, mas é muito importante infraestruturas portuárias, plataformas logísticas, ampliações de cais, que sejam uma aposta clara deste Governo.»

É um plano que o outro «Eng.» que emigrou para Paris, depois de falir o país e antes de ser preso, não desdenharia subscrever. Estamos assim no início de uma espécie de «Renovação na Continuidade» como a de Marcelo Caetano. Com uma diferença que em vez de suscitar após seis anos um golpe militar e a queda do regime, esta «Renovação na Continuidade» acabará por suscitar, após uma talvez longa agonia, prolongada pelas manobras ilusionistas do Dr. Costa, a declaração de falência do Estado Sucial, outra vez.

Na verdade, como recordou João Marques de Almeida, o PS tem uma longa experiência a torrar dinheiro dos contribuintes europeus. «Em 19 dos 25 anos de governos socialistas, Portugal recebeu cerca de 100 mil milhões de fundos europeus – ou seja, dinheiro oferecido pela UE. Mesmo assim, os governos socialistas não evitaram uma falência, em 2011, que obrigou a um empréstimo da UE e do FMI de mais cerca de 70 mil milhões de euros. Durante esse período, agravou-se o atraso económico de Portugal em relação à maioria dos países da UE, e os novos Estados membros, que entraram em 2004, aproximaram-se de Portugal, com alguns como a República Checa e a Eslovénia a ultrapassarem o nosso país em termos de PIB per capita. Ou seja, nos 19 anos socialistas recebemos muito dinheiro de Bruxelas, mas não nos tornámos um país mais rico e mais desenvolvido em termos relativos aos outros europeus.».

 É a confirmação de que a solução dos socialistas para as falhas do socialismo é sempre mais socialismo e mais Estado Sucial.

ADITAMENTO:

O Eng. Costa Silva, agora possuído por intensa fé no Estado português, há dois anos falando como CEO da Partex dizia «Nós, pura e simplesmente, decidimos não investir mais em Portugal, não vale a pena.»

Crónica da asfixia da sociedade civil pela Passarola de Costa (35) - Em tempo de vírus (XII)

Avarias da geringonça e do país seguidas de asfixias

«A nossa televisão parece a da Coreia do Norte»

Foi o que disse um médico reformado de Castelo de Vide, que aproveito para saudar, citado pelo jornal SOL, a propósito da presença constante do Dr. Costa e de S. Exª no canal estatal e nos dois canais paraestatais.

Danos colaterais da bazuca de Ursula

Em dissonância com a comunidade dos políticos, o jornalismo de várias causas, a comentadoria e as luminárias do regime e o povo em geral, para quem a cavalo dado não olha o dente, ouve-se uma voz singular e portanto impertinente, sem medo da solidão, que agradece a Mark Rute a sua resistência a enviar para o Portugal dos Pequeninos «dinheiro a fundo perdido». Obrigado Fernando Sobrinho.

É claro que a um povo empurrado para uma queda «queda monumental» por uma troika composta pelo Dr. Costa, S. Ex.ª e uma pandemia, é muito difícil resistir porque durante décadas deixou que a nomenclatura do regime triturasse recursos e criasse défices e dívida, enquanto os sacerdotes dos amanhãs que cantam invocavam Santo Keynes, santo que, quando mais precisaríamos dele, não nos acode por estar vazio o saco das esmolas.

Ineficiente, sempre. Ineficaz sempre que possível

No passado usaram-se guardas-florestais para prevenir incêndios. Os guardas foram desaparecendo por falta de "cabimento" e por falta de candidatos dispostos a suportar o desconforto de percorrer montes e vales em vez de estarem sentados ao fresco. Talvez com esse pretexto, há dois anos o exército torrou quase 6 milhões na compra de drones para a vigilância de fogos que, como é habitual no Estado Sucial geridos por socialistas, não foram usados. E o que faz um governo socialista nestas circunstâncias? Ora, o mesmo de sempre: compra mais 12 drones para a Força Aérea e começa a contratar guardas-florestais.

Da encomenda à China de 500 ventiladores chegaram esta semana mais 60 depois de vários meses. Não se pense, porém, que daí resultaram inconvenientes. Segundo a DGS, nenhum dos que chegaram foi utilizado.

Demonstrando uma grande iniciativa no combate à pandemia, o Estado-Maior do Exército comprou por ajuste directo a uma empresa portuguesa especializada em brinquedos de peluche dez mil testes de Covid-19 e 100 mil máscaras por 74 mil euros e 329 mil euros, respectivamente. Eles podem deixar morrer os comandos. mas o SARS-CoV-2 não fará nem uma baixa na nossa gloriosa tropa.

«Queda monumental»

Diz a ministra que o lay-off simplificado já abrangeu 140 mil empresas e 1,2 milhões de trabalhadores e custou 470 milhões de euros. Na sua simplicidade, estes três números dizem imenso sobre a economia do Portugal dos Pequeninos que o cagaço geral do povo e o especial do governo puseram de pantanas. Dizem-nos que as empresas assistidas têm em média menos de 9 trabalhadores e que cada um destes recebeu em média da segurança social menos de 400 euros em dois meses. A maioria (80%) das empresas pediu já renovação do lay-off e há mais 12 mil na fila de espera.

O BCE já reviu a previsão da queda do PIB da Zona Euro de 5%-12% para 8%-12%. É prudente suspeitar que, mais do que exercício de astrologia. estas previsões são provavelmente fruto de wishful thinking ou mesmo inspiradas no propósito de não desanimar os animal spirits. Nós por cá também não poupamos na animação dos animal spirits e concluímos com alívio que afinal PIB caiu ligeiramente menos. Contraiu 2,3% em vez de 2,4%». É muito animador de facto concluir que com um confinamento de 12 dias no trimestre o PIB "só" caiu 2,3%, por isso no segundo trimestre talvez o PIB "só" caia uns 10% à conta de um confinamento no mínimo de 60 dias, a que haverá de adicionar a queda do turismo que o ano passado representou mais de 50% das exportações de serviços, 20% das exportações totais e 9% do PIB. Tudo por junto, o limite superior das previsões deverá passar a ser o limite inferior, confirmando que a única previsão que se mantém é a de S. Ex.ª.

31/05/2020

CASE STUDY: «A única função das previsões económicas é tornar respeitável a astrologia» - A economia portuguesa pós-pandémica (3)

Continuando a coleccionar previsões do impacto na economia portuguesa das medidas de combate à pandemia, depois do primeiro post e do segundo post, aqui vão mais previsões de 16-luminárias-16 citadas pelo semanário de reverência.

Caderno de Economia do Expresso
No vosso lugar não lhes daria muito crédito, não apenas pelas razões gerais de natureza astrológica, mas porque também, vim agora a saber, a FocusEconomics considerou que o melhor analista nas previsões para a economia portuguesa em 2019 não foi nenhum português. Foi a maltesa Melanie Debono da Capital Economics. That's it.

Mitos (304) - As falhas americanas no combate à pandemia são grandemente exageradas pelo jornalismo de causas

Quem lê a imprensa portuguesa é induzido a pensar que o combate à pandemia nos EUA está nas mãos de um louro louco a twitar sentado na Resolute Desk do Oval Office. É certo que há uma criatura loura que parece louca e consome o seu tempo a twitar, mas não está nas suas mão o combate à pandemia, como se pode confirmar pelo testemunho da portuguesa Rita Carreira que anda por lá há 25 anos. 

«Fico constantemente impressionada com a rapidez com que as coisas podem acontecer nos EUA. Iniciámos o lockdown em 16 de Março e em 25 de Março a lei CARES (Coronavirus Aid, Relief, and Economic Security) foi aprovada no Senado e dois dias depois foi assinada pelo presidente. Os subsídios começaram a ser pagos em Abril e hoje, 28 de Maio, a Federal Reserve de Chicago divulgou um documento de trabalho analisando a propensão marginal ao consumo de uma amostra de indivíduos que os receberam.

Podemos ver como o FED acompanha de perto a economia, sem dúvida essa velocidade foi influenciada pela recuperação longa e moderada da Grande Recessão e pela timidez do Congresso em gastar o suficiente em política fiscal para responder a esse desafio. Desta vez, o presidente do FED fez as suas rondas de relações públicas e aproveitou todas as oportunidades para encorajar o Congresso a não relaxar.

A Europa ainda está a debater o que fazer. A política monetária não é um obstáculo, mas os governos arrastam os pés e mostram completa falta de solidariedade. Cada país seguiu sua própria resposta à crise médica, mesmo que o fracasso em um país acabasse a influenciar outros países. Mesmo agora, não existe uma única entidade na UE dirigindo a resposta médica.

Estou um pouco enojada com a obsessão portuguesa de apontar as falhas dos EUA ao lidar com o Covid-19. Nova York tornou-se um ponto de foco porque a Itália era um ponto de foco: 75% dos casos nos EUA vieram da Itália e a maioria acabou em Nova York. E se somarmos todos os dados da União Europeia, isso envergonhará os EUA? Eu acho que não. Os europeus afirmam que seus cuidados de saúde são muito melhores do que os americanos e, no entanto, não apenas não conseguiram conter a pandemia em seus próprios países, mas também acabaram sendo a causa de grande parte do problema para os Estados Unidos.»

Alguns números actualizados até hoje:

              Infectados  Óbitos    Infectados(/1M) Mortos(/1M)  
EU/EEA & UK . 1.391.619 .. 164.236 ... 2.681.3 ...... 316,5
USA ......... 1.803.135 .. 104.910 ... 5.450,3 ...... 317,1

30/05/2020

Dúvidas (307) - Alguém pode explicar-me porque precisaram os mídia de dois meses e meio para perceber isto?


«Graças ao confinamento, a pandemia de covid-19 acabou por ser menos mortal do que algumas epidemias de gripe dos últimos anos. Houve mais mortes do que o normal neste período, mas Portugal evitou a tragédia de outros países europeus, onde a mortalidade chegou a triplicar face a anteriores epidemias gripais.»

Pois se numa época gripal morrem em Portugal entre 3 a 5 mil pessoas com gripe ou doenças relacionadas, e desde 17 de Março até agora morreram "por" ou "com" Covid 1.396 pessoas assim distribuídos por idades:

Expresso
Note-se que 87% dos óbitos são de pessoas com 70 ou mais anos.

O diagrama seguinte com dados do Reino Unido mostra que o risco de morte por Covid apenas é superior ao risco normal de morte para idades acima dos 60 anos nas mulheres e acima dos 70 nos homens.
Spectator