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21/01/2026

DIÁRIO DE BORDO: O inimigo do meu inimigo não é necessariamente meu amigo

Nos dias que correm, a disputa política mais importante não é entre esquerda e direita, mas entre adeptos da democracia liberal, uns de esquerda e outros de direita, e os adversários do liberalismo, uns de esquerda e outros de direita, nomeadamente os inimigos da liberdade, como os chamou Isaiah Berlin. Na verdade, as ideologias políticas não são representáveis a uma só dimensão, precisamos pelo menos de duas e, ainda assim, isso exige simplificação, por vezes bastante grosseira.

The Political Compass

A insuficiência dessa dicotomia para explicar a realidade política é hoje bem visível na incapacidade que uma parte da direita - a direita de convicções liberais frágeis - tem de lidar com o epifenómeno do trumpismo, deixando-se fascinar por um catavento político movido pelo onanismo, o nepotismo e a falta de princípios e escrúpulos e uma prática autocrática, imaginando que a partilha dos mesmos adversários (na verdade, vistos como inimigos) é suficiente para sustentar uma aliança. No final do dia, é a perigosa ilusão de que «o inimigo do meu inimigo é meu amigo», um princípio duvidoso até do ponto de vista táctico e absurdo do ponto de vista estratégico, como a história nos dá exemplos trágicos.

Vem isto a propósito do fascínio pelo trumpismo de algum comentariado doméstico que, em termos da política interna, olha com simpatia ou também se deixa deslumbrar por um Dr. Ventura que, na sua versão actual (ele já teve várias), corporiza um trumpismo de fancaria. Como em tudo na vida, há excepções e uma delas é Henrique Raposo, como se percebe nesta peça sobre alguns colunistas do Observador a propósito das eleições presidenciais.

5 comentários:

Afonso de Portugal disse...

Infelizmente para o (Im)Pertinente, o André Ventura já demonstrou ser bem mais democrata do que as alternativas supostamente liberais. Na questão da liberdade de expressão, por exemplo, há muitos pê-ésse-dês e cê-dê-ésses que querem censurar as redes sociais.

De resto, a ideia de que o Chega é um partido iliberal é absolutamente ridícula. O Chega quer apenas regular a imigração, não a quer proibir. A única coisa que o Chega quer proibir é a perpetuação da subsidiodependência, mas isso não seria propriamente iliberal, uma vez que viver à custa dos outros não é uma escolha legítima.

Quanto a isto:

«deixando-se fascinar por um catavento político movido pelo onanismo, o nepotismo e a falta de princípios e escrúpulos e uma prática autocrática»

Das duas uma: ou o (Im)Pertinente é burro, ou é mentiroso. Já lhe foi explicado milhentas vezes que Trump foi eleito porque a alternativa, a imbecil comunista woke da Kamela, era pelo menos mil vezes pior. Ou o (Im)Pertinente acha que a alternativa era melhor - e, nesse caso, é burro - ou acha que os seus leitores são estúpidos e prefere infantilizá-los mentindo. Ninguém ficou fascinado com coisa nenhuma. As pessoas limitaram-se a escolher o mal menor. Não é isso que os "liberais" cá do burgo vão fazer agora votando na ameba do Seguro? Ou também se deixaram fascinar???

Luís Lavoura disse...

Trump foi eleito porque a alternativa [...] era pelo menos mil vezes pior. [...] As pessoas limitaram-se a escolher o mal menor.

Exatamente. 100% de acordo.

Os Democratas é que são responsáveis pela eleição de Trump, ao terem durante anos apoiado Biden e terem depois apresentado ao eleitorado uma candidata completamente intolerável.

Um Patriota disse...

Srs. Drs. Afonso e Luís.
Sou um grande admirador do Doutor Ventura e um fiel eleitor do Chega!, mas tenho duas grandes dúvidas.
Não sei se deva votar no Doutor Ventura que se opõe à entrada de imigrantes do Blangdesh ou no Doutor Ventura que diz que «países como Portugal e a Irlanda não devem esquecer o seu passado e devem acolher o maior número de migrantes».
Não sei deva continuar a acreditar no Doutor Ventura ou se deva juntar-me aos 140 mil eleitores do Chega! que deixaram votaram no Doutor Ventura.
Antecipadamente grato pelo vosso conselho.

Afonso de Portugal disse...

"140 mil eleitores do Chega! que deixaram votaram no Doutor Ventura"? Essa é boa, eu não sabia que tinha havido eleições legislativas recentemente! Ou será que o "Patriota" está a incorrer na velha falácia de comparar Presidenciais com Legislativas? E se o Doutor Ventura vier a ter mais votos na segunda volta destas Presidenciais do que o Chega teve nas Legislativas de 2025, ainda fará sentido comparar?

Quanto às incoerências do Doutor Ventura, o simples facto de ele falar em imigrantes, bem ou mal, já é significativo. É que, antes de ele aparecer, a conversa ia sempre no mesmo sentido… e ai de quem se atrevesse a questionar os interlocutores! Essa é outra coisa que vocês teimam em não perceber: ninguém encara o Doutor Ventura como um messias ou como um salvador da Pátria. Isso é uma caricatura ridícula perpetuada pelos agentes do sistema acantonados na “comunicação” social.

O que sucede é que, sendo o Doutor Ventura o único que coloca certos assuntos na agenda me(r)diática, torna-se o único em que aqueles preocupados com a imigração podem votar. Já expliquei isto aqui no (Im)Pertinências milhentas vezes, mas tanto o dono deste blogue como os “patriotas” de serviço preferem enterrar a cabeça na areia, fingir que não há problemas com a imigração em Portugal – ou que esses problemas são meramente secundários – e rotular todas as pessoas que apoiam o Chega como analfabetas, desinformadas ou simplesmente radicais.

Só que ninguém gosta que lhe digam que as suas preocupações são irrelevantes. Muito menos que lhe chamem de tudo e mais alguma coisa por ter essas preocupações. E ainda menos que sugiram enviá-l@ para a cadeia, como já acontece em vários países da Europa, por ter essas preocupações.

Luís Lavoura disse...

Patriota,
eu não sou partidário de Ventura e certamente não votarei nele.
Você, faça o que quiser.