Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

30/09/2008

CASE STUDY: It's about trust, stupid.

Pode-se especular sobre as causas da crise financeira global, mas lá que é global é coisa que só metendo a cabeça na areia se não vê. Também só metendo a cabeça na areia é que se não vê que as medidas de emergência passam por reconstituir a confiança.

Como explicar a alegada falta de liquidez dos mercados quando os montantes cedidos por uns bancos europeus ao BCE, que os remunera a 3,25%, são o triplo dos montantes cedidos pelo BCE a outros bancos europeus, aos quais cobra 5,25%? Não seria melhor para todos se os bancos com excesso de liquidez a cedessem aos bancos com falta de liquidez a uma taxa de 4,25%, por exemplo? Talvez não fosse e, seja como for, não é.

A crise acabou e a prosperidade também

Menos de 2 anos depois de anunciar o fim da crise, o oráculo da Horta Seca, doutor Pinho, anunciou o fim da prosperidade.

29/09/2008

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Um exemplo de publicidade enganosa - um Magalhães que é um Magellan

O último Expresso dedica uma página ao Magalhães. Esforçadamente conseguem encontrar 3 componentes portugueses no computador totalmente português:

Aplicações da Porto Editora
Embalagem
Memória RAM

As aplicações da Porto Editora (Diciopédia, Descobrir com Zito Mosquito, Descobrir com Guida a Margarida, Escola Virtual 1º Ciclo anteriores ao Magalhães) já existiam e a Porto Editora teve que implorar para que fossem instaladas à borla.

As memórias DDR2 667 são fabricadas na Maia por uma sucursal da alemã Qimonda AG, sendo a incorporação tecnológica portuguesa zero.

A embalagem é fabricada pela Micropak, empresa americana em Cumming na Geórgia, da qual não se encontram traços duma eventual presença em Portugal. Terão provavelmente um representante local.

Este tema já foi tratado no (Im)pertinências aqui, aqui, aqui e aqui.

28/09/2008

Se fosse

Se fosse americano ainda não saberia em quem votar, mesmo depois de ver este debate.

Se fosse um prosélito da esquerda europeia preferiria John MacCain, escolheria o melhor de dois mundos: ter um punch bag em substituição de George Bush, manter a mesma atitude displicente e nonchalant e a continuação da alegre irresponsabilidade face às questões da segurança global, ao renascente império russo e ao fundamentalismo islamita, sem deixar de ter as costas quentes.

ESTÓRIA E MORAL: Do jornalismo de causas ao jornalismo de casas.

Estória

«Não existem separações de poder, como pretendem os arautos do neoliberalismo. Há um grupo, fortíssimo, que dirige o mundo, com asseclas a soldo, estipendiados nos jornais, nas rádios e nas televisões, que mantêm as aparências. A economia domina a política. E os políticos servem-se das suas funções para, mais tarde, auferir das prebendas, ocupar lugares nas administrações, receber o pagamento da indignidade. Os exemplos são tão recentes e estão tão vivos na nossa memória que escuso de os referir.»

«E os políticos servem-se das suas funções para, mais tarde, auferir das prebendas». Quem escreve assim é o senhor Armando Baptista-Bastos, o pai do jornalismo de causas - «o porta-voz daqueles que não têm voz, jornalismo de indignação (que não é) indolor e incolor (e de revolta contra os que) querem é capar-nos». O mesmo que explicou ao Expresso que «aqui não há prendas. A casa que alugava há 32 anos estava a cair, eu tinha três filhos e não tinha meios. Escrevi à presidência a pedir uma casa». Casa (um andar na Estrada da Luz) que, também segundo o Expresso, há 14 anos lhe foi atribuída pela Câmara de Lisboa presidida então pelo doutor Sampaio e com o doutor João Soares como vereador da Cóltura.

Esta foi «uma das 3.200 atribuídas por cunha em Lisboa».

Moral

O mel é pouco e os lambedores muitos (provérbio popular).

Pergunta impertinente

Poderei classificar B-B como um assecla a soldo, estipendiado nos jornais?

27/09/2008

ESTADO DE SÍTIO: Se dependesse da eurocracia adoptaríamos uma atmosfera normalizada.

É só um pormenor que constitui um bom exemplo de como funcionam as mentes niveladoras da eurocracia. A partir de 2011 os veículos ligeiros vão ser obrigados a dispor de Daytime Running Lights, luzes que se ligam automaticamente quando a ignição é accionada e se desligam quando se acendem as luzes nocturnas. Com boa vontade, admite-se que nos céus cinzentos da Europa central e do norte a coisa faça algum sentido. Na Órópa dos PIGS com as suas atmosferas límpidas e luminosas não normalizadas a coisa ém 100% inútil em 90% do tempo.

Se dependesse da eurocracia seriamos obrigados a ficar com uma atmosfera igual à de Bruxelas.

Atmosfera normalizada

26/09/2008

Transmigração das almas (reposição actualizada)

Vladimir Ilitch de Sousa / Jerónimo Ulianov


«Perante os complexos problemas que se manifestaram na construção do socialismo na URSS, assim como noutros países do Leste da Europa, o PCP expressou compreensão e solidariedade para com os esforços e orientações que proclamavam visar a sua superação, alertando simultaneamente para o desenvolvimento de forças anti-socialistas e para a escalada de ingerências imperialistas, confiando em que existiam forças capazes de defender o poder e as conquistas dos trabalhadores e promover a necessária renovação socialista da sociedade. Mas certas medidas tomadas agravaram os problemas ao ponto de provocar uma crise geral. O abandono de posições de classe e de uma estreita ligação com os trabalhadores, a claudicação diante das pressões e chantagens do imperialismo, a penetração em profundidade da ideologia social-democrata, a rejeição do heróico património histórico dos comunistas, a traição de altos responsáveis do partido e do Estado, desorientaram e desarmaram os comunistas e as massas para a defesa do socialismo, possibilitando o rápido desenvolvimento e triunfo da contra-revolução com a reconstituição do capitalismo.»
(Teses em discussão para o XVIII Congresso do PCP)

25/09/2008

ARTIGO DEFUNTO: Um fabricante que não fabrica é um operador que ainda não opera.

Quem é afinal este fabricante de jactos privados que escolheu Portugal como sede pelas vantagens ao nível da tributação fiscal?

É um fabricante que não fabrica nada nem fabricará nada. Quem imagina um sucedâneo da Skylander (outro mirífico projecto) está redondamente enganado. A Jet Republic é simplesmente um operador de shared ownership e time-shared de aviões para utilização privada.

Sendo um fabricante que não fabrica nem fabricará nada, é um operador que ainda não opera, como se pode perceber pela entrevista do seu CEO, que passa uma quantidade astronómica de manteiga nas autoridades portuguesas, fazendo suspeitar que está a pôr-se a jeito para conseguir extorquir uns dinheiros aos sujeitos passivos com a ajuda do doutor Pinho.

É melhor esperar para ver o que vai sair daqui (veja-se o tom céptico com que a BBC News se refere ao assunto).

A derrapagem anunciada antes da obra começar

O rácio de derrapagem do custo das obras públicas costumava ser 100%, segundo a estimativa do IST citada pelo insuspeito doutor Oliveira Martins, ou, dito de outra maneira, o custo final costumava ser em média o dobro do valor adjudicado.

No novo pacote betuminoso do governo parece ser necessário considerar um rácio adicional: o rácio da derrapagem da estimativa do custo das obras públicas. Segundo o governo, as 10 novas estradas custariam cerca de 4 mil milhões de euros, mas as propostas já apresentadas apontam para um custo total entre 6 a 10 mil milhões. Ainda antes de José Sócrates ir lançar a primeira pázada já as estimativas derraparam entre 50% a 150%.

24/09/2008

ARTIGO DEFUNTO: O serviço público da RTP é o serviço do governo pago pelo público.

A não perder a denúncia pelo Abrupto (aqui e aqui) do exercício de propaganda que foi o telejornal das 13H de ontem dedicado à fraude «Magalhães».

23/09/2008

BREIQUINGUE NIUZ: Columbines num estado social.

Nos últimos 10 meses a Finlândia, um dos paradigmas do estado-social, teve 2 columbines. A 7 de Novembro do ano passado oito mortos no liceu de Tuusula e hoje 10 mortos no liceu de Kauhajoki.

Ainda não se sabe se Michael Moore irá filmar o Bowling for Kauhajoki. Também não se sabe qual a teoria que a esquerdalhada fabricará para explicar estas columbines num estado social.

Bleeding but not dead yet

«The investors decided at a New York meeting today to ask AIG for data so they can raise money and keep the U.S. from taking a 79.9 percent stake». (Bloomberg)

The reports of AIG death have been greatly exaggerated (maybe).

22/09/2008

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: A 2.ª melhor opção.

Secção Still crazy after all these years

Num país e numa época em que qualquer um se vende por um prato de lentilhas (vá lá, por uns milhares de euros), devemos saudar o general Eanes que renunciou a 1.300.000-euros-1.300.000 de retroactivos duma pensão que o velhaco Mário Soares lhe havia subtraído com um decreto ad hominem saído da sua oficina de filha-de-putice.

Por um lado, devemos saudá-lo. Por outro devemos vilipendiá-lo (mas com todo o respeito) por ter deixado na barriga do ogro uma dinheirama que vai ser inevitavelmente torrada da forma mas inútil. Eventualmente vai servir para contratar umas dúzias de assessores escolhidos na fila de espera dos amigos do doutor Soares (ou do senhor engenheiro, o que vem a dar o mesmo).

Que devia, nesse caso, ter feito o senhor general? Ficar com a grana e doar o líquido de impostos a uma boa causa.

Atribui-se-lhe, pois, 5 afonsos pelo arrojo da renúncia e 4 chateaubriands por ter oferecido à gula do ogro quase um milhão de euros (descontado o IRS).

CASE STUDY: Obama, o campeão da conversa da treta.


Segundo David Skillicorn da Queen’s University em Kingston, Ontário, que lidera uma equipa que desenvolveu um software para medir o «verbal spin», sendo 0 o valor médio de 150 discursos analisados, o indicador da conversa da treta de 3 VIPs é :
  • Barack Obama 6,7
  • Hillary Clinton 0,15
  • John McCain -7,58

21/09/2008

Se for necessário tornar obrigatório o 12.º ano então a ministra da Educação não domina a lógica binária.

Em resposta à tese presidencial de tornar a escolaridade obrigatória até ao 12.º ano (um passo para abreviar a derradeira degradação do sistema público de ensino), a ministra da Educação elaborou a seguinte implicação lógica:

«Se a resposta das escolas for tão boa como está a ser, provavelmente nem será necessário tornar obrigatório o 12º ano.»

Se a lógica binária fizesse parte do software mental da ministra da Educação e, em consequência, soubesse que a implicação lógica «se A então B» é equivalente à sua contra-recíproca «se não B então não A», então a ministra teria percebido que o que disse é aproximadamente equivalente a:

Se for necessário tornar obrigatório o 12.º ano então é porque a resposta das escolas não é tão boa como parece.

Convém tomar nota e recordar quando esta ou outra(o) ministra(o) concluírem que será necessário tornar obrigatório o 12.º ano.

20/09/2008

ARTIGO DEFUNTO: Uma 1.ª página que é um cemitério.

«Magalhães, primeiro computador inteiramente português», lê-se na notícia do Expresso «Chavéz outra vez». Magalhães, recorde-se, é o «primeiro computador portátil com acesso à Internet montado em Portugal», que não é primeiro computador portátil com acesso à Internet montado em Portugal, equipado com o «último processador da Intel», que não é o último processador da Intel, que tem seu «lançamento mundial» aqui no burgo, lançamento que já teve lugar em 2006, Intel que escolheu Portugal, que afinal foi quem escolheu a Intel, Intel que terá uma fábrica em Portugal segundo o governo, que nunca existirá, segundo a Intel. Comprova-se o que já tinha sido concluído: o agit-prop do governo não é um insulto à inteligência, pelo menos dos jornalistas do Expresso.

«Lisboa vai ter seis postos de abastecimento para carros eléctricos», lê-se imediatamente abaixo. Aposto, singelo contra dobrado, que ficarão a existir em Lisboa mais postos de abastecimento do que carros eléctricos (isto é com propulsão exclusivamente eléctrica). Não haverá no Expresso um jornalista com o desconfiómetro ligado?

O Estado com letra minúscula.

Ao visitar o A causa foi modificada podem encontrar-se frequentemente, no meio de densos bandos de gralhas que povoam quase todos os posts, verdadeiras pérolas (ou links que vão dar às pérolas) do pensamento próprio (ou alheio). Como é o caso desta pérola do ...bl-g- -x-st- no post Crédito tóxico, que descreve um exemplo didáctico e inspirado do processo de securitização em cadeia os créditos hipotecários. A parte mais suculenta é a frase final: «O mercado é um órgão da sociedade. O Estado também.»

É necessário, de vez em quando, recordar ao liberalismo lunático a fatalidade chamada Estado. E, já agora, a fatalidade que lhe subjaz: a maioria dos humanos parece apreciar bastante a fatalidade do Estado. E não será por acaso.

É por isso que um liberal pragmático o mais que longe que vai é (sonhar) reduzir o Estado ao estado, isto é o Estado com letra minúscula.

18/09/2008

O IMPERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: A factura do FED, perdão dos contribuintes americanos (entre outros).

Factura corrente da Reserva Federal (em milhões de Euros):

140.500 Fannie Mae + Freddie Mac (compra de arções preferentes para reforço de capital)
210.970 Fed Housing Administration (para refinanciamento de hipotecas falidas)
140.500 (pelo menos)Créditos extraordinários a bancos através de leilões de liquidez da reserva federal
61.181 JP Morgan Chase (relacionado com operações de apoio a Lehman)
59.775 AIG
20.394 JP Morgan Chase (aquisição da Bear Sterns)
2.813 Ajudas a comunidades para comprar e reparar casas abandonadas


[Contas de JARF]

De como o governo americano tem a aprender com o pessoal do Terreiro do Paço

«Numa pequena economia aberta como a portuguesa, ter um banco público como a Caixa Geral de Depósitos é absolutamente estratégico», disse ontem o secretário de estado do Tesouro a propósito das «intervenções outrora impensáveis do governo e do banco central dos EUA».

O doutor Costa Pina não explicou qual o papel que tem a Caixa quando o FED cá do sítio está em Frankfurt e não parece muito interessado no que se passa por aqui, em geral, e no que se pensa no Terreiro do Paço, em particular. Também não explicou qual foi o papel da Caixa durante os anos 80 em que o FMI tutelou as finanças públicas portuguesas.

A não ser que o papel «absolutamente estratégico» da Caixa, sendo igual a zero na política monetária, fique reservado para comprar bancos em estado de falência anunciada, como poderia(rá) ser o caso do Millenium bcp, que até já lá tem o anterior presidente da Caixa. Se for assim, conviria perceber como pôde o governo americano comprar o Freddie Mac, a Fannie Mae e a AIG sem uma Caixa?

17/09/2008

DIÁRIO DE BORDO: Entre marido e mulher nunca metas a colher.

Voltou hoje ao parlamento a lei do divórcio vetada pelo PR. Das duas, uma. Ou o casamento é exclusivamente uma questão do foro privado e o estado não tem que regular coisa nenhuma, como (ainda) não regula a relação de amizade ou a relação sexual. Ou o casamento é uma relação jurídica formal, é um contrato, e o estado só tem que o regular como qualquer outro contrato: com direitos e obrigações de cada uma das partes e, necessariamente, com a possibilidade de incumprimento culposo cujas consequências a lei poderia supletivamente prever, mas que os cônjuges deveriam poder alterar, como em qualquer outro contrato.