Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

30/04/2005

DIÁRIO DE BORDO: a 1ª dum é a 10ª do outro

Eu hoje levantei-me para este lado. (*)

Basta ouvir um qualquer andamento da 5ª (ou qualquer outra das nove) do Ludwig Van para perceber porque precisou um admirador obsessivo do Van, como Brahms, 14 anos para terminar a sua 1ª sinfonia que, na paródia, os críticos da época escreveram que era a 10ª de Beethoven.

(*) Quase-plágio do Bomba - espera-se uma acção por ofensa dos direitos de autor.

29/04/2005

CASE STUDY: o homo sinister é o homo neanderthalensis contemporâneo

Tenho um amigo que, desde que me lembro, jura que a esquerda é troglodítica. Por uma questão de princípio, costumava temperar aquela certeza apologética dele com um «nem toda» ou «nem sempre».

Não mais o farei. Agora está demonstrado. Jason Shogren da universidade do Wyoming vai publicar no Journal of Economic Behaviour and Organization um paper citado aqui com o resultado das suas investigações.

A principal conclusão dessas investigações é que o comércio e a divisão do trabalho foram os factores críticos de sucesso que proporcionaram vantagens competitivas ao Homo sapiens sobre os outros hominídeos concorrentes, nomeadamente sobre o Homo neanderthalensis. O Homo sapiens adoptou a divisão de trabalho: os bons caçadores caçam, os maus caçadores fazem as tangas, as lanças, os machados e outros artefactos necessários na época. E deu o passo seguinte com o comércio: os caçadores e os artesãos trocavam de seguida os respectivos produtos. Onde é que já ouvimos esta estória?

O insucesso do cavernícola encontrado em Neanderthal não se deve à sua estupidez, como durante muito tempo se pensou - está provado que até era capaz de falar, como de resto o Homo sinister contemporâneo. O Homo neanderthalensis não só não era estúpido, como teve imenso sucesso durante 200.000 anos, até à chegada do Homo sapiens vindo de África, através da Ásia Central, e disputando-lhe parte do mesmo habitat na Europa central. Porém, o cavernícola só resistiu à concorrência 10.000 anos. Foi estrondosamente derrotado por Adam Smith, avant la lettre.

Mas porque razão o Homo sinister, uma subespécie do extinto cavernícola hirsuto, nas suas variedades Homo sinister sinister, Homo Sexualis e Homo Paedicator, sobreviveu até aos nossos dias, apesar de também abominar o comércio e o mercado? É uma boa pergunta a que o doutor Shogren ainda não respondeu, mas que eu vou tentar com a ajuda do meu amigo AB, antropólogo amador.

A resposta é simples: disfarçando-se e adoptando a estratégia oportunista do roubo criativo. Disfarçando-se de quê? De Homo sapiens, claro. Mas como? Cortando o cabelo e a barba e tirando a bóina. Que outra coisa poderia ser? Roubo? Qual roubo? Cópia duma das armas do inimigo - a divisão do trabalho que proporcionou ao Homo sinister uma especialização em oratória, de que vivem ainda hoje quase todos os espécimes sobreviventes.


espécime contemporâneo do Homo sinister exercitando o verbo

28/04/2005

SERVIÇO PÚBLICO: «a vingança do chinês»

«decidimos arranjar um novo culpado: a China. Como é óbvio, mais facilmente achamos os chineses uns patifes, que exploram mão-de-obra escrava e agridem a ecologia, do que levamos a mão à consciência.»

A vingança do chinês, por Sérgio Figueiredo no JN, uma leitura imperdível.

CASE STUDY: se carecesse de demonstração

Se carecesse de demonstração que não adianta torrar dinheiro para salvar empregos em empresas inviáveis, dinheiro melhor gasto em negócios viáveis, ficaria demonstrado com o caso MG Rover.

Há cinco anos, o governo britânico enterrou na MG Rover, em cima de milhões de libras que governos anteriores já haviam enterrado, mais 427 milhões num empréstimo sem juros que fez ao grupo Phoenix para tomar conta do moribundo que havia sido abandonado pela BMW. O grupo Phoenix, para além de abichar os 427 milhões de libras, não tinha a mais pequena ideia do que fazer com MG Rover.

Nessa altura o governo britânico, apavorado com as manifs para «defender os postos de trabalhos», preteriu uma outra proposta do grupo Alchemy que tinha uma ideia para o futuro da MG Rover e se comprometia a viabilizar parte do negócio, salvando 1/5 dos postos de trabalho e pagando 50 mil libras a cada um dos despedidos.

Cinco anos depois, o problema submerso debaixo dos milhões de libras emergiu num estado ainda pior e sem qualquer saída à vista. Ou melhor com a saída que à distância de 2 semanas das eleições se prevê que o governo britânico venha a adoptar: pagar 6,5 milhões de libras de salários por semana para o pessoal da MG Rover ficar sossegado.

Enquanto isso, projectos e planos do Rover 25 e do Rover 75 e equipamentos para a produção de outros modelos foram vendidos. Adivinhem a quem? Aos chineses, pois claro. Para continuar a produção nas fábricas ineficientes e inviáveis da MG Rover? Não queriam mais nada? Em Xangai, se não se importam.

«It is too big to be small and too small to be big»
Professor Peter Cook, Nottingham Business School.

(Mais pormenores aqui e aqui, ou ainda aqui)

27/04/2005

O IMPERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: se non e vero e bene trovato

«Vê-se logo que não conheces bem as mulheres. Para quê partir em cruzada se os americanos podem fazê-lo por nós», disse-me pelo telefone, a propósito disto, a minha filha mais velha que cultiva um feminismo desalinhado e desconforme.

SERVIÇO PÚBLICO: eu sabia que alguém iria escrever isto

«A maior parte dos críticos (de Bento XVI) parece acreditar que não há tolerância sem relativismo. Errado. É exactamente ao contrário. Só pode haver tolerância se existirem princípios comuns perenes que não podem ser postos em causa por mero capricho. Não pode haver tolerância numa sociedade onde a própria tolerância é considerada um valor relativo. Uma sociedade em que cada um tolera aquilo que lhe apetece e em que cada um define tolerância como lhe apetece é uma sociedade intolerante.»
Escreveu João Miranda do Blasfémias

CONDIÇÃO MASCULINA: e pur se muove

Se eu fosse um adepto do multiculturalismo, esqueceria continentes inteiros onde predominam culturas e religiões que aceitaria à pala da doutrina, e que por isso não seriam para aqui chamados. No remanescente (Europa, EU, Canadá, Austrália) pode dizer-se que o mulherio se saiu razoavelmente bem da emancipação da secular tutela masculina. Mérito delas? Sem dúvida. Sem esquecer a preciosa ajuda da indústria farmacêutica, que inventou a pílula e fez mais pela causa do que todas as Andreas Dworkin juntas. Sem esquecer, também, o capitalismo que lhes deu oportunidades no mercado de trabalho e lhes assegurou a independência económica.

Pois bem, em vez de partir em cruzada para as longínquas regiões ainda sob o jugo do macho, as legiões feministas preferem investir sobre o inimigo derrotado nas regiões libertadas e quase pacificadas, salvo uma ou outra guerrilha impertinente.

Na versão soft, como é o caso da escritora Inês Pedrosa, a investida faz-se pastoreando o inimigo com o bordão da «filosofia feminista».

Na versão hard são incontáveis os exemplos. Cito um deles relatado por um Lobo do mar, o da megera que dá pelo nome de Susan Darker-Smith. Nas palavras do Lobo do mar, «já não se trata de igualdade de sexos no plano simbólico, mas de aniquilação do sexo no plano metafórico: só sem diferenças sexuais se pode matar Adão e o predomínio capitalista-sexista».

E, no entanto, as diferenças existem. Já aqui relatei as teses politicamente incorrectas de Lawrence Summers que provavelmente levarão à sua demissão pela matilha do PC.

É agora a vez dos investigadores heréticos do Laboratório de Neuropsicologia do Instituto da Inteligência correrem o risco de serem perseguidos por concluírem que «os rapazes são melhores no raciocínio matemático, na filosofia e na leitura de mapas e as raparigas vêem melhor no escuro, têm mais habilidades verbais e maior persistência e capacidade de concentração», só para citar algumas das diferenças.

Outros heréticos da University of East London concluíram que «gay men adopt male and female strategies (and) their brains are a sexual mosaic". Quer isto dizer que são cada vez mais as evidências da diferenciação no hardware da bicharia, que partilha componentes dos dois géneros.

HERESIAS TERMINAIS:
Se levarmos até ao fim as conclusões dos heréticos do Laboratório de Neuropsicologia, voltaremos a adoptar a separação de sexos, pelo menos até ao final do ensino secundário, para potenciar o desenvolvimento óptimo do software mental de cada género a partir de hardware diferenciado. Sejamos modestos e esqueçamos potenciar seja o que for. Cuide-se apenas de evitar a colonização por estratégias pedagógicas, talvez adaptadas ao hardware mental feminino, mas completamente inadequadas para o masculino. Eventualmente essas estratégicas explicam o crescente fracasso escolar do género.

Se levarmos até ao fim os resultados das pesquisas dos heréticos da University of East London, vamos talvez concluir que o sucesso da solução final do feminismo radical será o hermafroditismo universal.

26/04/2005

DIÁRIO DE BORDO: a maiêutica do aborto (7)

Depois de (1), (2), (3), (4), (5) e (6) , mais perguntas fáceis de resposta difícil.

Projecto de lei do PS sobre o aborto
Artigo 142.º Interrupção da gravidez não punível (redacção proposta para este artigo do Código Penal )
«1 - Não é punível a interrupção da gravidez efectuada por médico ou sob a sua direcção, em estabelecimento oficial ou oficialmente reconhecido com o consentimento da mulher grávida, nas seguintes situações:
c) Caso se mostre indicada para evitar perigo de morte ou grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida, designadamente por razões de natureza económica ou social, e for realizada nas primeiras 16 semanas de gravidez;»


Em que circunstâncias as «razões de natureza económica ou social» podem provocar «a morte ou grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida»? Pobreza extrema causa de inanição? Discriminação da mulher por ter ficado grávida?

Prevendo o projecto de lei do PS (lei que se pretende aprovar após o referendo), um limite de 16 semanas por vagas e inverificáveis razões, porque refere a pergunta proposta para o referendo somente 10 semanas? Como classificar esta manipulação grosseira? Como um insulto à inteligência dos eleitores?

um perigo de morte ou grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mãe, com 16 semanas

25/04/2005

DIÁRIO DE BORDO: 25 de Abril? ah, pois

Portugal será uma democracia madura quando os dinossauros cretácicos comemorantes do 25 de Abril igualarem em número os trilobites paleozóicos (não comemorantes) do 28 de Maio e ficarem, literalmente, a discursar uns para os outros.

24/04/2005

LA DONNA E UN ANIMALE STRAVAGANTE: Lasciate ogni speranza o voi che entrate

Depois de nos ter descrito as delícias da universidade de Berkeley, nos dois episódios anteriores das suas Crónicas Femininas na Única do Expresso, a escritora Inês Pedrosa mostra-nos neste último que não há bela sem senão. Os senões são, entre outros últimos resquícios do macho opressor que ainda existem por aquelas bandas, os estudantes suicidas «sempre do sexo masculino» .

Mas não desespereis. Há ainda esperança. Aliás, a «única esperança de sobrevivência para o sexo masculino»: «a filosofia feminista».

Permito-me discordar. A única esperança de sobrevivência para o sexo masculino é manter ao largo a filosofia feminista. Se o Senhor na sua infinita sabedoria, para uns, ou, para outros, o processo evolucionário durante milhões de anos de tentativas e erros, tivesse concluído que a indiferenciação dos géneros era a melhor solução para a espécie humana, certamente seríamos hoje caracóis hermafroditas.


macho ex-suicida convertido à filosofia feminista por uma assistente do doutor Mengele

Em boa hora o Impertinências, premonitoriamente, criou a área temática La Donna e un animale stravagante, para acolher estes deliciosos delírios.

23/04/2005

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: beija-mão e lava-pés

Secção Entradas de leão e saídas de sendeiro
A acreditar na última página do Expresso, que merece mais crédito do que a primeira, que costuma ser desmentida na semana seguinte, o doutor Freitas não vai a Washington só ao beija-mão. Vai também ao lava-pés.

Na audiência que a ajudante de George W. Hitler lhe concedeu em Vilnius, um doutor Freitas grato por finalmente merecer alguma atenção do pessoal da Casa Branca, inventou um convite para Condy vir fazer «repouso» a Portugal. Até aqui nada de especialmente relevante, apenas genuflexões avulsas.

Grave foi o doutor Freitas se propor «estudar uma solução constitucional que permita a extradição de cidadãos de Portugal para os EUA, interdita desde 1908», pela existência da pena de morte.

Estamos perante mais um exemplo de que o doutor Freitas não se rege por princípios, mas por considerações. Por considerações que ele acredita que o seu pesado ego deve merecer.

É por isso que, no curto espaço de um mês, o Impertinências lhe atribui, outra vez, 5 ignóbeis e 5 bourbons.

22/04/2005

SERVIÇO PÚBLICO: parem, escutem e olhem

Vem aí um comboio, poderia ter dito Rupert Murdoch, o patrão mais poderoso dos média, para quem o quisesse ter escutado na conferência da American Society of Newspaper Editors.

Disse-o por outras palavras, explicando que o pessoal com menos de 40 anos não tem saco para aturar a «god-like figure from above to tell them what's important and they certainly don't want news presented as gospel». O Impertinências acrescenta que mesmo o pessoal com mais de 40 anos também já lhe custa ler as pesporrências, aleivosias e opiniões disfarçadas de factos dos artigos defuntos com que nos empanturram.

Vale a pena ler aqui o que provavelmente a melhor revista de economia e finanças tem para nos dizer sobre este tema. Em particular sobre o papel dos blogues na radical transformação da comunicação tal como a conhecemos hoje.

Não é preciso muito imaginação para perceber a ameaça que tudo isto representa para o exército de incompetentes, preguiçosos e ideólogos desperdiçados que pululam no jornalismo. Correm o risco de perder o emprego e serem obrigados a ter um blogue (ah, ah, ah).

Parem, escutem e olhem. Vem aí um comboio.

BLOGARIDADES: sucumbindo às foleiradas

Não fosse achar uma foleirada botar música à entrada do blogue, como tem sido moda a que submeteram, em certa altura, espíritos da maior elevação, se não fosse isso, dizia eu, que já me ia perdendo, se não fosse isso, botava a Nessun Dorma! da Turandot com Franco Corelli a seduzir os duros ouvidos da meia dúzia de almas penadas que visitam o Impertinências.

Sucumbindo à foleirada, AQUI fica a «voz de tenor mais impressionante do mundo, provavelmente de todos os tempos», a seduzir as almas privilegiadas que em 1965 estiveram sentadas no Teatro dell'Opera di Roma.

21/04/2005

TRIVIALIDADES: engolir uns sapitos

O doutor Freitas vai a Washington ao beija-mão à ajudante do George W. Hitler. Ficará Condy invejosa e esmagada pelo peso do grande estadista?

Desculpe lá menina Condy, só disse aquelas coisas para os anacletos me deixarem entrar nas manifs

20/04/2005

ESTÓRIA E MORAL: o que a greve da RTP nos fez perder

Estória
Os trabalhadores da RTP, que explora os canais de TV da vaca marsupial pública, indignaram-se pela administração se ter congratulado com o aumento das audiências durante os dias em que fizeram greve. Criticaram ainda a administração por «não (ter) apresentado qualquer reportagem sobre a actualidade» (Público). Queriam, possivelmente, referir-se àquelas peças sobre trivialidades fabricadas pelas estagiárias em que nos são mostradas, durante infindáveis minutos, megeras desdentadas, aos berros, envergando o seu uniforme oficial - a bata. [*]


(as reportagens sobre a actualidade, que perdemos por causa da greve do pessoal da RTP, vistas pela Vitriolica)

Moral
Quando tudo o que se tem é um martelo, tem-se tendência para ver tudo como pregos (lei de Maslow)

[*] Não é machismo, não senhora. É simplismo.

NÓS VISTOS POR ELES: joaninha avoa, avoa que o teu pai foi para Lisboa

Que o portuga é um ser obcecado pela importância que julga ter aos olhos da estranja é coisa que todos nós, os portugas, sabemos. Foi por isso que o Impertinências criou a área temática Nós vistos por eles.

Até agora só se tratou do que pensaram de nós alguns estrangeiros que por cá passaram: Nadim Habib, gestor líbano-dinamarquês, Alfred Doeblin, romancista alemão e Albert Einstein, físico alemão.

É a vez de tratar do que pensam os estrangeiros que não precisaram de passar por cá, porque fomos nós lá. Os polacos, por exemplo, parecem pensar bem, pelo menos da Jerónimo Martins que oferece às vítimas do colapso do socialismo real (o único existente, porque todos os outros são imaginários) os benefícios da sociedade de consumo em 730 lojas em 400 cidades.

Os polacos, mas nem todos. Bozena Lopacka, uma ex-gerente duma loja da cadeia da Jerónimo Martins Bierdronka (joaninha em polaco, diz quem sabe), reclama com grande estridência 2.600 horas de trabalho extraordinário não pago. Reclamação que parece excitar os sindicalistas, que já a comparam a Lech Walesa, vendo nela uma santa padroeira capaz de conduzir a «Associação das Vítimas da Jerónimo Martins» (sic), por si criada, ao assalto dos grandes retalhistas - quem sabe tendo em mente a ressureição dos armazéns do povo com as suas prateleiras vazias.

Ainda vamos assistir à formação duma brigada internacional do Bloco, comandada por um anacleto, para apoiar a luta da «Associação das Vítimas da Jerónimo Martins».


Anacleto apontando o caminho às vítimas no combate à joaninha

19/04/2005

DIÁRIO DE BORDO: a maiêutica do aborto (6)

Na sequência de (1), (2), (3), (4) e (5), continuando a fazer perguntas com respostas difíceis.

  • Supondo que a pergunta do referendo refere um limite de 10 ou 12 semanas, ou outro qualquer, não seria razoável que os eleitores tivessem acesso à informação que lhes permitisse distinguir entre um embrião e um pólipo? Por exemplo, imprimindo no boletim de voto uma foto dum embrião com a idade correspondente ao limite máximo proposto?

.........8 semanas..................................10 semanas

12 semanas

(mais informação aqui)

  • Supondo que o referendo aprova a despenalização dos abortos, deverá o Serviço Nacional de Saúde fazê-los gratuitamente ou com taxa moderadora?
  • Em qualquer caso, qual será a prioridade dos abortos praticados no SNS? Serão feitos nas urgências ou ficam na fila de espera das intervenções cirúrgicas?
  • Se o referendo rejeitar a alteração da lei do aborto, quando será o próximo referendo?
  • Se o aborto é eticamente aceitável para os seus defensores, porque usam o eufemismo «interrupção voluntária da gravidez»?

17/04/2005

TRIVIALIDADES: o período de graça não é de borla (2)

Ou muito me engano, ou continuam a encastelar-se as nuvens por cima do governo do engenheiro Sócrates. Uma vez mais, o Expresso, que havia sido um activíssimo patrocinador da campanha eleitoral do PS, é agora o lugar geométrico dos primeiros sinais de impaciência. A fé dos crentes cedo começa a vacilar.

Não é caso para menos. Decorrido um mês, 17 professores universitários acolitados pelas restantes luminárias, não produziram até agora mais do que duas ideias (a liberalização da venda dos medicamentos sem receita e o ensino do inglês no ensino básico), uma promessa inquietante [*] (não aumentar os impostos este ano) e três prioridades (Espanha, Espanha, Espanha).

É pouco? É demais e de menos. Para um governo que não produz nada, não investe nem vende nada em Espanha ou em qualquer outra parte do mundo, essas prioridades estão a mais e são claramente vazias de sentido. Em contrapartida, para um governo que cavalga a vaca marsupial pública que consome 50% do que o país produz, não ter ainda explicado como pensa cortar-lhe a pantagruélica ração é claramente de menos.

[*] Uma promessa inquietante? Sem dúvida. Não reduzir a despesa e não aumentar os impostos, que seria pagos pelos eleitores que contribuiram com as suas escolhas para eleger governos incompetentes, significará aumentar a dívida pública, que será paga no futuro, numa proporção maior ou menor, por outros eleitores.

16/04/2005

SERVIÇO PÚBLICO: se carecesse de demonstração

Se carecesse de demonstração que a entrega ao Moloch (copyright Semiramis) da exploração de qualquer negócio é pior que do entrega do ouro ao bandido, ficaria demonstrado com um só facto.

O facto de para extinguir uma empresa pública o Moloch precisar em média de 7-anos-7. Numa organização que o Moloch vampirizou, defunta apesar dos montes de dinheiro que lhe atirou durante anos para cima, são ainda necessários 7-anos-7 para emitir a certidão de óbito.

Durante esses 7-anos-7, uma comissão de extinção composta por extintores, assessores, secretárias, contínuos e descontínuos, devidamente municiada de veículos pretos e toda a parafernália habitual, torra mais uns milhões de euros.

Em média são precisos 7-anos-7. Em média. Mas há casos, como o jornal O Século, que já levam 24-anos-24 and counting.

Q.e.d.

15/04/2005

SERVIÇO PÚBLICO: fugiu-lhe a boca para a verdade

«Digo simplesmente que esta Constituição é essencial para ter uma Europa organizada e salvar os valores que são essencialmente os valores franceses e que se impõem na realidade da Europa desde há dois séculos», terá dito, segundo o Público, M. Chirac no debate de 5ª Feira à noite.

E que diabo queria ele dizer? Que ele acha, e com ele a classe política francesa e possivelmente um grande parte dos franceses, apesar discordarem dele no que respeita à constituição europeia, que a Europa serve para dar lastro à decadente fraqueza de la différence française e pode servir de procurador às obsessões de grandeur perdue de vieille putain. Onde fala de valores devemos ler interesses.