O Estado sucial à luz do pensamento mágico
A consultora Deloitte considera plausível «atingir reduções de custos de 10%” se a tecnologia (Inteligência Artificial) for aplicada “de forma massiva”. O quid está nos “ses”. A começar pela aplicação “massiva” por governos que circulam na autoestrada mexicana do investimento - o presente governo, por exemplo, executou no ano passado apenas 2/3 do investimento orçamentado - e a continuar pela tendência até agora mostrada por todos os governos para desperdiçarem recursos construindo metaforicamente aquedutos para regar desertos. Por isso, embora se perceba, o marketing da Deloitte é perigoso se alguém acreditar que o governo vai reduzir uns 13 mil milhões à despesa.
Mudam-se os tempos e os governos, não se mudam as vontades
«O irmão do chefe de gabinete de Montenegro foi nomeado consultor coordenador. Há um ano era estagiário e vai ganhar 4.400 euro. … Chefe de gabinete desconhecia nomeação do irmão.» (fonte) As justificações de gabinete do Dr. Gonçalo Mateus parecem suficientes para dar um lugar de estagiário ao nomeado; para consultor coordenador, nem por isso. Talvez porque o Amália ainda está na fase karaoke.
O que seria do PIB sem o turismo?
| mais liberdade |
Não fora o turismo, a economia estaria estagnada e os brilharetes dos excedentes orçamentais seriam transformados em défices estruturais.
No Estado sucial do Portugal dos Pequeninos os riscos não se gerem, ingerem-se
[À guisa de introdução, leia-se este post.] Os riscos evitam-se, mitigam-se, transferem-se ou financiam-se.
Dois exemplos de falhas na mitigação na resposta do governo às tempestades: (1) uma vez mais, a ineficácia sistemática do SIRESP que custou até agora mais de 700 milhões de euros; (2) a descoordenação entre governo, autarquias, Protecção Civil e Forças Armadas que, entre outras consequências, atrasou uma semana o estado de prontidão e a intervenção da tropa.
A transferência para seguradores na esfera privada é residual em Portugal, como se vê no quadro seguinte.
Quanto ao financiamento dos riscos catastróficos através de um fundo, como o gerido em Espanha pelo Consorcio de Compensación de Seguros, há muito que em Portugal se fala da criação de um Fundo Sísmico. Um estudo da APS de 2006 apresentava um modelo de cobertura do risco sísmico por meio de um fundo público; depois disso, constituíram-se grupos de trabalho e comissões, produziram-se “relatórios preliminares” e, mais recentemente, em 2023, o governo do Dr. Costa encarregou a ASF de conceber um novo modelo. Como habitualmente, na mente dos governantes o problema ficou resolvido com a publicação de um despacho que deu à ASF um ano para preparar mais um “relatório preliminar”.
Boa Nova (mais uma)
A semana passada, no intervalo da passagem da Kristin para o Leonardo, o ministro das Finanças garantiu «que avança este ano a criação do Fundo Nacional para Catástrofes e Sismos». Esperai sentados.

4 comentários:
Não fora o turismo, a economia estaria estagnada
Podemos encarar as coisas de forma mais positiva afirmando que a economia portuguesa se direcionou para aquilo em que tem vantagem comparativa nos termos de David Ricardo. Tal como Ricardo previu, a economia que se dedica àquilo em que tem vantagem comparativa prospera mais do que a economia que se dispersa por setores nos quais não dispõe de tal vantagem.
cobertura do risco sísmico por meio de um fundo público
Se houvesse um forte sismo em Portugal e muitas casas ficassem destruídas, o problema não seria a ausência de fundos para pagar a recontrução: o probema seria a inexistência de trabalhadores da construção civil que pudessen materializar essa reconstrução. Ou seja, o problema não seria a falta de dinheiro, mas a falta de trabalhadores que pudessem ser pagos com esse dinheiro.
Em Alcácer do Sal, segundo ouvi na televisão a um empresário da restauração que ficou com o restaurante destruído, pura e simplesmente não há eletricistas que possam restaurar a rede elétrica de um restaurante.
Mande-se um aiai (inteligência artificial) reparar as redes eléctricas 😉 Pelos vistos há mesmo trabalhos que ainda precisam do toque humano. Por outro lado, é ir perguntar à miudagem que está a escolher o curso superior, se se importam antes de ir para electricistas, trolhas, ou canalizadores...
É curioso que, de acordo com o +Liberdade, o setor da restauração esteja tão progressivo. É que ainda há pouco tempo o Governo aprovou uma medida de apoio a esse setor...
Tenho duas hipóteses (a ser testadas experimentalmente) para explicar isto:
(1) O setor da restauração não está verdadeiramente a servir mais refeições, o que está é a faturar mais, porque a fuga ao fisco que era vulgaríssima nesse setor está a diminuir.
(2) O setor da restauração está de facto progressivo mas somente no seu sub-setor que se dedica a servir os turistas e os estrangeiros em geral, enquanto que o sub-setor que se dedica a servir os portugueses está decadente. De facto, verifico que cada vez há mais restaurantes portugueses a fechar, enquanto que abrem cada vez mais restaurantes cuja clientela é quase excusivamente estrangeira.
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