Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

30/09/2006

SERVIÇO PÚBLICO: climatologia de causas - tropeçando nos factos

Ele há modelos para tudo. Modelos de catástrofe e modelos de passarinhos a chilrear. Ele há quem jure que, se não começarmos a andar de burro, o ambiente estará irremediavelmente perdido antes da segurança social estar irremediavelmente insustentável. Ele há quem garanta que se as coisas estão a aquecer, supondo que estão a aquecer, e nada está provado, dizem, é porque há menos enxofre na atmosfera, coisa que é fácil de resolver.

Que as coisas estão a aquecer parece difícil de negar.




E também não parece fácil imaginar os passarinhos a chilrearem.

O glaciar Blomstrandbreen na Noruega, em 1918 e em 2002



Malditos factos.

29/09/2006

CASE STUDY: a engenharia social chegou às novelas

Era inevitável. Com a queda do fassismo, os pais, armados da bíblia do doutor Spock, foram gradualmente demitindo-se do seu papel de educadores, trespassando-o aos profs, os quais, por seu turno, trespassaram a desconhecidos o seu papel de instrutores. Ficou um vazio que o estado napoleónico-estalinista se apressaria a preencher se já tivesse encontrado a vida para além do orçamento.

Como a natureza odeia o vácuo, alguém tinha que o preencher. Pelo menos naquilo que é mais urgente, e, ao mesmo tempo, bastante supérfluo: a educação sexual.

Foi o que disseram os criadores da novela Jura ao Sol da semana passada (exemplar recuperado in extremis antes duma fatal operação de limpeza de vidros onde a minha empregada se preparava para o usar). Um disse que a novela «é um passo no caminho para a abertura das mentalidades» outro que «o meu (dele) objectivo (é) trabalhar na mudança de mentalidades». Eles não queriam fazer pelas suas vidinhas e facturar uns cobres, vendendo uma novela com umas quecas insinuadas e umas intimidades alternativas em cada capítulo, para ser vista por um «dos públicos mais inteligentes da Europa». Eles não queriam ser facturantes. Eles querem ser fracturantes, abrir e trabalhar as mentalidades.

Serão vestígios do serviço cívico do coronel Vasco Gonçalves?

28/09/2006

27/09/2006

DIÁRIO DE BORDO: táctica ou estratégia?

"An old chess saying says that tactics are knowing what to do when there is something to do - strategy is knowing what to do when there is nothing to do."

"We cannot be afraid to ask the difficult questions because we are afraid of the answers we might receive."
Garry Kasparov, provavelmente o melhor jogador de xadrez de sempre, em breve em Lisboa, a convite da SAP (passe a publicidade).

26/09/2006

DIÁRIO DE BORDO: Tintim no país dos sovietes (1)

Segundo as minhas estimativas, se (um grande se) houvesse no nosso país um PBL, um partido berdadeiramente liberal, a probabilidade do seu líder ser um dia 1.º ministro (vá lá, vice) seria 1/4 da probabilidade do professor Anacleto Louça estar no mesmo lugar, ou o doutor Daniel Oliveira ser o ministro da propaganda, e 1/8 da probabilidade do camarada Jerónimo ocupar o lugar de presidente do conselho dos sovietes.

Quando tiver tempo, explico-me.

(a luta continua)

24/09/2006

ARTIGO DEFUNTO: a marca de Sócrates


No seu afã de puxar pela economia mediática, o Expresso não se poupa a esforços.

Na página 3 consola-nos com uma dívida pública que não deverá ultrapassar os 69,3% do PIB em 2007 e este ano «deverá fechar nos 68,7%». Quatro páginas mais à frente, a jornalista que também escreveu na página 3, descai-se com uma má notícia: o Boletim Estatístico do BdeP conta outra estória e o título da página 7 é inquietante pelos padrões manteigueiros do Expresso:
Dívida atinge 73% do PIB

Desapego à realidade? Não admira. O chefe da jornalista, o economista Nicolau Santos, dá-lhe um exemplo desse desapego, com os seus delírios solidários na página 5. Preocupadíssimo com o «sistema de capitalização puro e duro» que nos conduzirá inexoravelmente a uma «sociedade bem mais desigual, egoísta e cruel», o doutor Nicolau, depois de nos confessar as suas dúvidas sobre o sistema misto, redime-nos dum futuro cruel explicando que a solução está em reduzir as pensões mais altas ou, dito dum modo, a solução está na progressividade das contribuições para a Segurança Social. Nada de novo. Apenas uma extensão do IRS.

A fixação do Expresso na economia mediática, na ânsia de nos dar boas notícias, se por um lado revela os tiques manipulativos do jornalismo de causas, por outro evidencia a marca de Sócrates. Contrariamente ao engenheiro Guterres, que se empenhava em dar testemunho aos incréus do universo paralelo em que vivia, o engenheiro Sócrates sabe perfeitamente em que universo vive. A ambição dele é mais terrena: ele só quer que nós acreditemos que a coisa não está tão má quanto parece (estando, a culpa é da oposição), e que, seja como for, ele nos pastoreará até ao jardim das delícias, onde chegaremos por alturas do seu segundo mandato.

23/09/2006

CASE STUDY: bendita econometria

Finalmente vê-se uma luz, que não é um comboio, no fundo do túnel, que não é o do Rossio.

Segundo o modelo econométrico que os doutores Pereira e Jorge Andraz usaram no estudo "O impacto económico e orçamental do investimento em Scut" que acabam de publicar, por cada milhão de euros que o governo investir em infra-estruturas rodoviárias o efeito acumulado no PIB será de 18 milhões de euros, a longo prazo (quando todos estivermos mortos, como dizia o velho Keynes).

Ultrapassando a dúvida inconveniente que se poderia colocar a respeito dum país como a Irlanda que, não tendo praticamente auto-estradas, conseguiu em 20 anos passar de um PIB per capita igual ao português para praticamente o dobro, o modelo dos doutores Pereira e Jorge Andraz mostra claramente o auto-estrada para a convergência real.

Imaginemos uma malha apertada de Scuts com 2.000 km de extensão (1), cobrindo a zona quase despovoada do interior do Nut Alentejo, ligando os montes alentejanos entre si (2). Suponha-se que cada um desses 2.000 km custaria 2 milhões de euros (3) e teríamos um investimento total de 4 mil milhões de euros. A longo prazo o efeito acumulado no PIB português seria de 72 mil milhões de euros, ou 2,4 mil milhões em média por cada um dos 30 anos que duraria o longo prazo dos doutores Pereira e Jorge Andraz. Ou seja, 2 anos após o termo do período de investimento este teria sido recuperado e a partir daí seria dinheiro em caixa.

Tudo isto sem o desconforto das reformas, a dor dos despedimentos, a trabalheira das qualificações profissionais, o risco do investimento, a maçada das conquistas dos mercados.

Meu deus, porque é que ainda não me tinha lembrado disto antes?

(1) Um pouco mais do dobro dos 960 km existentes e perfeitamente ao nosso alcance.
(2) Deveríamos preparar-nos para uma cruzada longa e maçadora do doutor Miguel Sousa Tavares, por lhe estragarem a vista rústica que desfruta do seu monte, mas acredito que valerá a pena.
(3) É uma estimativa conservadora. Com um cambão como deve ser poderia facilmente atingir-se os 3 milhões de euros por km e teríamos um efeito acumulado no PIB de 108 mil milhões.

21/09/2006

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: cidadãos auto-mobilizados

Estamos no país que tem o nível de vida mais baixo da Europa dos 15 e está a caminho de ser sucessivamente ultrapassado pelos outros 10, saídos das ruínas do colapso do comunismo. Como conseguimos ter mais telemóveis do que habitantes, mesmo contando os cidadãos que se babam? A explicação é fácil, dirão: saímos do fassismo com um grande défice de comunicação e um telemóvel pode comprar-se por uma pequena fracção do salário mínimo e pode ser usado apenas para receber chamadas de quem tem mais do que o salário mínimo.

Mais difícil de explicar é como os portugueses conseguem aumentar o número de automóveis por 1.000 habitantes de 258 em 1990 para 572 em 2004, ganhando uma honrosa medalha de bronze, apenas suplantados pelo Luxemburgo e pela Itália. Aqui trata-se não já de uma fracção do salário mínimo mas um múltiplo, que não é inferior a 25 para o chaço mais baratinho do mercado (excluindo as trotinetes com 4 rodas e um motor de 50cc).

Quem não deve achar piada a estas performances são os contribuintes alemães que pagam uma parte da nossa festa, financiada com os fundos comunitários. Aguentam-se com estoicismo porque recebem a grana de volta dos portugueses mais abonados que compram os seus carros, todos eles mais caros do que a concorrência, mas com um certo charme (os pretos sobretudo) que atrai irresistivelmente as nossas classes A e B, bem como os servidores do estado que também um penchant pela espécie.
(Fonte: Jornal de Negócios)

20/09/2006

ESTADO DE SÍTIO: radiografia do monstro (2)

Depois da radiografia da cabeça do monstro, temos agora a radiografia do resto do corpo em rápido crescimento, nomeadamente nas partes consignadas ao reino do Bokassa das Ilhas e nas do outro senhor, cujo nome não me lembro. Juntando as radiografias, ficamos a saber que existem 737.744 utentes pendurados nas mirradas tetas da vaca marsupial pública, assim distribuídos (fonte: Jornal de Negócios):

19/09/2006

ESTADO DE SÍTIO: a vida para além do orçamento - a 3.ª via

Como pretende o governo cumprir o Programa de Estabilidade e Crescimento e reduzir o défice para o limite previsto? Reduzindo as despesas públicas? Aumentando ainda mais os impostos? A primeira seria uma boa estratégia a segunda seria a habitual. O governo não escolheu nem uma, nem outra - escolheu a 3.ª via.

O governo mandou a Direcção-Geral do Orçamento avisar «todos os serviços do Estado ... de que não seriam efectuados pagamentos decorrentes de compromissos posteriores a 1 de Setembro, de modo a assegurar "o cumprimento das metas implícitas do Programa de Estabilidade e Crescimento" e os limites do défice» (Público). Tirando partido do facto da contabilidade pública ser uma ciência oculta (João César das Neves), em que as despesas só são contabilizadas se forem liquidadas, o governo empurra a dívida com a barriga para a frente. Talvez no próximo ano a Direcção-Geral do Orçamento faça outra circular a fechar a porta em 1 de Agosto ou 1 de Julho, mas até lá o show off mediático continua.

O que fariam a oposição, os mídia, os analistas e comentadores se, no lugar do senhor engenheiro, que diz barbaridades (*) com fala grossa e ar seguro, estivesse o pateta do doutor Lopes a fazer a mesmíssima trampolina?

(*) Como, por exemplo, gabar-se que «a despesa pública vai este ano cair em função do PIB - e isso será algo de inédito em 30 anos de história das finanças públicas em democracia», quando nesse período houve 11 descidas e 18 subidas, que em termos líquidos elevaram as despesas públicas de 23,1% do PIB nos tempos do fassismo (com uma guerra colonial em curso!) para o impressionante score do senhor engenheiro de 47,8% em 2005 (Fonte: editorial do DE).

18/09/2006

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: erro ou irrelevância estatística?

Os pânditas do governo apressaram-se a saudar a correcção da previsão do FMI de crescimento do PIB de 0,8% para 1,2% como o anúncio dos amanhãs radiosos que nos esperam ao virar da esquina.

Não sendo completamente irrelevante, mas qual é a diferença do crescimento em 2006 ser 0,8% ou 1,2%? O alargamento do fosso entre a economia portuguesa e os outros países comunitários reduz-se. Mas que importância prática tem isso quando os crescimentos previstos são: Alemanha 2%; França 2,4%; Reino Unido 2,7%, Holanda 2,9%, Espanha 3%, Finlândia 3,5%, Grécia 3,7% e Irlanda 5,8%? (Fonte SE)

Tenham dó. Deixem a economia mediática e dediquem-se à reforma da Administração pública e ao emagrecimento do monstro.

17/09/2006

ESTADO DE SÍTIO: radiografia do monstro

32 anos depois do queda do fassismo, o governo do engenheiro Sócrates dá-nos conta do número de funcionários públicos até às unidades. De acordo com a Base de Dados de Recursos Humanos da Administração Pública, são exactamente 558.813 funcionários na Administração Central, a desmesurada cabeça do estado napoleónico-estalinista. A estes haverá que acrescentar um número indeterminado na Administração Local, cuja contagem poderá levar outros 30 anos.

Este gigantesco feito aritmético do governo do engenheiro Sócrates é, contudo, ensombrado pelo desconhecimento da remuneração (1) de 26.897 (2), do tipo de contrato de 30.636 (2) e das habilitações literárias (3) de 12.149 funcionários.

Falando de habilitações literárias, num país de iletrados o estado napoleónico-estalinista, ou mais exactamente a cabeça do monstro (4) , 260.606 (2) funcionários têm cursos superiores, dos quais 11.000 têm um mestrado e 9.500 são doutores. Se a estes acrescermos os titulares de diplomas que se encontram estacionados na Administração local, percebemos que, nesta como noutra áreas, o estado napoleónico-estalinista se auto-devora, produzindo bacharéis, licenciados, mestres e doutores que se dedicam a produzir mais bacharéis, licenciados, mestres e doutores que constituirão outros tantos utentes da vaca marsupial pública. Com tal gula, o estado devorará a nação.

(Fonte: Diário Económico)

NOTAS:
(1) Os utentes da vaca marsupial pública não têm salário, têm uma tença, chamada remuneração.
(2) Note-se, uma vez mais, o rigor matemático.
(3) Os utentes não têm competências profissionais, ou graus académicos, eles têm habilitações «literárias».
(4) «Monstro» foi o nome que um dos seus pais, o professor Cavaco Silva, prantou à criatura.

15/09/2006

DIÁRIO DE BORDO: R.I.P.

Oriana Fallaci 1930-2006

14/09/2006

BREIQUINGUE NIUZ: já somos dois (pelo menos) - outra vez

«Coordenador Europeu do Comboio de Alta Velocidade não considera prioritárias as ligações Lisboa-Porto e Lisboa-Madrid. Etienne Davignon coloca assim em dúvida parte do apoio comunitário ao projecto.» (DE)

Começo a sentir-me inquieto com esta convergência com as instâncias comunitárias, que ameaça tornar-se um hábito.

SERVIÇO PÚBLICO: o munícipe sujeito passivo está insolvente (RELOADED)

Aos 1.924 euros em média por agregado de sujeitos passivos é preciso adicionar um montante indeterminado correspondente aos prejuízos em metade das empresas municipais que o Tribunal de Contas apurou (DE).

13/09/2006

SERVIÇO PÚBLICO: o munícipe sujeito passivo está insolvente

A dívida total bruta das autarquias ultrapassou 8 mil milhões de euros (CM, via JN), cabendo a cada um dos 4.157.377 agregados de sujeitos passivos (últimos dados publicados disponíveis aqui) a módica quantia de 1.924 euros.

12/09/2006

BLOGARIDADES: reductio ab absurdo

O melhor argumento da temporada para pôr em causa a sanidade mental dos adeptos das teorias conspiratórias, como o doutor Anacleto Louçã, perdão como o doutor Soares, foi assim formulado por um lobo do mar:
O SÍNDROMA DE MUNCHHAUSEN (*): Existe um motivo suplementar para tentar encontrar Ben Laden: precisa de ajuda psiquiátrica, pois está absolutamente convencido que destruiu dois edifícios nos EUA no dia 11 de Setembro de 2001.
(*) Para quem (como eu) não sabe (sabia) o que é a coisa: o síndroma de Munchhausen é um distúrbio psiquiátrico que consiste em procurar simular sintomas de doenças graves. Bem vistas as coisas, os adeptos das teorias conspiratórias talvez apenas estejam a tentar disfarçar.

11/09/2006

BREIQUINGUE NIUZ: Prós e contras

Estou a assistir ao frente a frente do doutor Pacheco Pereira com o doutor Louçã. É extraordinário como de repente o doutor Louçã envelheceu. Envelheceu, mas está acutilante como de costume.

O doutor Soares, se lá estivesse, certamente não apreciaria aquela piada do imperialismo americano interferir nos negócios internos de países soberanos, como foi o caso, durante o verão quente de 75, da mãozinha ianque que embalou o doutor Soares. Embalo que o doutor Louçã, nessa altura ainda de calções, tão apaixonadamente denunciou.

BREIQUINGUE NIUZ: já somos dois (pelo menos)

«O Banco Central Europeu (BCE) duvida que o Governo português consiga cumprir o compromisso assumido com os parceiros da União Europeia (UE) de reduzir este ano o défice orçamental para 4,6% do PIB.

A quatro meses do fim do exercício orçamental de 2006, a autoridade monetária do euro queixa-se de falta de informação e diz persistir "bastante incerteza" sobre os resultados das medidas de contenção anunciadas no Executivo, noticia hoje (*) o Jornal de Negócios
»


(*) Isto é, sexta-feira passada - trata-se de breiquingue niuz.

CASE STUDY: discriminação negativa, precisa-se

A ATP devia obrigá-lo a competir com «uma mão à frente e outra atrás».