Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

01/08/2017

ACREDITE SE QUISER: Adivinhe quem é o homem mais rico no mundo

MarketWatch
Possivelmente pensou, como eu, que seria Bill Gates (Microsoft) ou Jeff Bezos (Amazon). Nem de longe. Segundo Bill Browder, CEO de Hermitage Capital Management que já foi accionista da Gazprom e de outras empresas estatais russas, no seu o depoimento no Comité Judicial do Senado americano, no âmbito da investigação à interferência russa nas eleições americanas, o czar de todas as Rússias Vladimir Vladimirovitch terá uma fortuna entre 40 a 200 mil milhões de dólares, quase o PIB português, conseguida à custa de extorsão, tortura e confiscação. Nada mal para quem começou a vida como espião no KGB e depois no FSB até 1991.

DIÁRIO DE BORDO: R.I.P.

Jeanne Moreau

31/07/2017

Chávez & Chávez, Sucessores (60) - Maduro e Jerónimo, a mesma luta

Outras obras do chávismo.

Venezuela a ferro e fogo em domingo de eleições


Venezuela: PCP exige "atitude de respeito do Governo" português pelas eleições

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (94)

Outras avarias da geringonça.

Começo esta crónica com a grande novidade desta semana: o presidente dos Afectos saltou de pára-quedas e deixou a geringonça desgovernada com os motores a falhar e em risco depois de um mensis horribilis.

Retornando ao incêndio de Pedrógão Grande, em primeiro lugar separemos a ocorrência, que nada tem a ver com este governo, com a resposta que lhe foi dada de que o governo é o único responsável. Um mês e meio depois surge cada vez com maior nitidez um quadro de enorme incompetência que na sua maior parte tem a mão de Costa [ver A obra feita de Costa nos incêndios florestais (1) e (2)]. A começar com as falhas do SIRESP, que continuam agora em Mação, em que Costa está enfiado até ao pescoço, e a continuar com a colocação dos seus boys na Autoridade Nacional da Protecção Civil - um dos casos mais escandalosos foi a substituição de um comandante distrital licenciado em Protecção Civil e bombeiro com mais de 20 anos de experiência por um advogado e mandatário da candidatura do PS à câmara de Alcobaça que passou pelos bombeiros voluntários. O amadorismo é tão grande que as criaturas que comandam o combate aos incêndios nem sequer tomam em conta as previsões do IPMA sobre a direcção dos ventos para posicionar os recursos, nomeadamente os meios aéreos (ver aqui).

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (160) - O costismo visto por Henrique Neto

«Que não fez a rutura com o passado que gostaria de lhe ter visto fazer. 
Escrevi-lhe cartas e tive reuniões com ele para lhe dizer que se ele não cortasse com a herança de Sócrates, os herdeiros iriam destruí-lo, era só uma questão de tempo. Ele, bem intencionado, dizia que era preciso unir o partido. Eu sempre estive convencido de que não havia união possível com aquilo a que se convencionou chamar "tralha socrática". E assim foi. 

E António Costa faz parte dessa "tralha"?
Claro que 'sim, é uma emanação da governação de Sócrates, é dos que nunca levantaram um dedo a dizer "isso está mal". Aquilo que é hoje a força do PS é uma extrema fidelidade ao chefe. Como se vê na forma incompetente como o PS e o Governo geriram a questão dos fogos e que foi a gota de água que me fez demitir: Costa, talvez mais do que Sócrates, tem a política de escolher os amigos, ou os muito fiéis ao partido, para cargos para os quais não têm as competências necessárias. Na tragédia de Pedrógão Grande, ficou claro que Costa não tem estatura de grande dirigente político: era naquele dia que se tinham de tomar grandes medidas, que se tinha de identificar as pessoas que falharam, de se responder à pergunta porque é que se atacaram os fogos em vez de se protegerem as populações, que é uma pergunta que tem de ter uma resposta rápida.

Não precisa de uma comissão técnica independente? 
Para isso não. Talvez a característica mais lamentável do PS no nosso tempo é que manipula a opinião pública com informações erradas ou com falta de informações, quando a característica principal de um partido democrático é a transparência, a boa informação. Ora, um país não pode desenvolver-se com base na mentira e na manipulação da verdade. Mas não houve um socialista que tenha feito a mais leve crítica ou sugestão. Isto prova uma reverência ao chefe, uma fidelidade quase canina, muito pouco própria num partido democrático.»

Excerto de uma entrevista do Expresso a Henrique Neto, um socialista honrado que nunca ficou silencioso

30/07/2017

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (42) - Empurrando Costa para o redil de Belém

Outras preces.

Agora é oficial. Com esta entrevista ao diário da manhã DN, Marcelo Rebelo de Sousa puxou o tapete a Costa. E não, sossegai, não é para o derrubar, porque eles precisam um do outro (até ver). É apenas para o desequilibrar e o deixar mais dependente da muleta de Belém submetendo-o às suas manobras.

A que outro propósito, um presidente, que enche a boca com estabilidade e tem mantido uma cumplicidade com o primeiro-ministro que nada tem a ver com a indispensável solidariedade institucional, vem agora esclarecer que «o Presidente não tem de ter confiança política pessoal no primeiro-ministro», admitir a dissolução da assembleia e sublinhar a conveniência de ter uma oposição forte que proporcione «outro termo da alternativa que possa governar o país»?

Porquê agora? Porque Marcelo é tudo menos um político corajoso e só agora sente que Costa está suficientemente fragilizado para o trazer ao seu redil. Como diz o povo, mandaste-os vir? agora aturai-os.

CASE STUDY: Sócrates & Pinho, uma dupla de sucesso nos negócios – La Seda (REPUBLICAÇÃO)

Este post também poderia ser a propósito das conclusões da comissão de inquérito (CPI) à Caixa entre 2000 e 2016 que afastaram quaisquer «pressões para a aprovação de crédito de favor», contra toda a evidência. Mas é a propósito da La Seda em Sines (Artlant), cuja insolvência foi declarada na passada quarta-feira, onde a Caixa poderá perder 500 milhões, 75% dos 690 milhões de euros das dívidas desta empresa. Trata-se de uma das empresas do complexo político-empresarial socialista muito acarinhada pelo governo de Sócrates e pelos seus serventuários, acerca da qual publiquei há oito anos um post que agora é oportuno republicar.

[Advertência: os links das notícias da época já não estão válidos, por várias razões, umas boas outras más; nalguns casos é possível aceder a essas notícias fazendo uma pesquisa com algumas as palavras-chave do texto]

20-09-2007
«O ministro da Economia, Manuel Pinho, afirmou hoje que gostaria de atrair para Portugal mais investimentos do tipo dos efectuados pelas empresas Abertis, Repsol e La Seda, que totalizam 1,5 mil milhões de euros.»


21-09-2007
«La Seda diz que produção da fábrica de Sines arranca em 2009 e estuda nova unidade em Portugal»


12-03-2008
«O investimento do grupo La Seda de Barcelona, que tem como principais accionistas as portuguesas Imatosgil, com 10,8 por cento, e a Caixa Geral de Depósitos (CGD), com 5 por cento, na unidade de PTA, que ficará localizada na Zona Industrial e Logística de Sines, é de 400 milhões de euros até 2010.
Este é um projecto de Potencial Interesse Nacional (PIN) e, de acordo com declarações hoje à Lusa do presidente do grupo La Seda de Barcelona, Rafael Español Navarro, "os trabalhos no local estão bastante avançados".
O lançamento da primeira pedra da nova fábrica de PTA conta com as presenças do primeiro-ministro, José Sócrates, do ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho, e do presidente do grupo La Seda de Barcelona.»


04-02-2009
«Mais de quarenta accionistas da empresa La Seda de Barcelona apresentam quinta-feira à Comissão Nacional de Mercado de Valores (CNMV) espanhola um pedido de OPA obrigatória para que o grupo português Selenis/CGD/Imatosgil compre 100 por cento do capital da empresa.»

13-03-2009
«Um ano depois do lançamento da primeira pedra, o projecto de engenharia de base da fábrica da Artenius já está concluído em 95% e os equipamentos gerais já foram todos comprados, passando ao lado dos efeitos da crise económica.
A La Seda de Barcelona, onde os portugueses Imatosgil são accionistas (11%), está a investir 400 milhões de euros, em Sines, na construção da única fábrica n Europa dedicada, em exclusívo, à produção de PTA (que serve de matéria-prima ao PET, utilizado na produção de embalagens plásticas).»


20-05-2009
«O EBITDA (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortizações) baixou 99,2 por cento para 300 mil euros e as vendas caíram quase para metade, de 437 milhões de euros, no primeiro trimestre de 2008, para 258 milhões.
A LSB tem planos para construir uma fábrica em Sines, que tem sido apresentada como bom exemplo de investimento pelo Governo de José Sócrates


09-06-2009
«O grupo La Seda - que em Portugal está já atrasado cinco meses no desenvolvimento do projecto de 400 milhões de euros da fábrica de PET em Sines, para o qual garantiu financiamento até 320 milhões de euros – tem um passivo de 1,3 mil milhões de euros. A falta de liquidez do grupo foi já motivo suficiente para que a unidade catalã, em El Prat, parasse a laboração.
O “fantasma” de suspensão de pagamento de salários e de cobrança de credores, noticia o jornal económico, só foi afastado porque na semana passada se avançou a hipótese da CGD, “accionista e principal credor” da La Seda, poder “assegurar uma emissão de obrigações convertíveis em 150 milhões de euros como passo prévio ao refinanciamento da dívida”.
O jornal adianta que, em 18 meses, a companhia que detém agora as acções suspensas na praça espanhola nos 0,34 euros, já perdeu mais de 70% do seu valor, com a capitalização bolsista a descer para 213 milhões de euros.»


10-06-2009
«A Caixa Geral de Depósitos injectou 25 milhões de euros na espanhola La Seda, onde é um dos maiores accionistas, para assegurar a viabilidade financeira de curto prazo da companhia, que ontem alterou o presidente da empresa devido à pressão dos accionistas portugueses.»


27-07-2009
A La Seda chegou a um acordo de princpio com a Caixa Geral de Depósitos, accionista da empresa, para que esta adquira o capital da Artenius Sines por 40 milhões de euros, como forma de financiamento. Este valor faz parte de um financiamento total de 104 milhões de euros. Em paralelo, a fabricante de plásticos confirma que irá alienar activos não estratégicos, onde se inclui a fábrica de Portalegre, no Alentejo.
A La Seda espera obter do Caixa BI, banco de investimento da CGD, perto de 488 milhões de euros para viabilizar o projecto. A primeira pedra foi lançada há mais de um ano, mas a fábrica leva um atraso de seis meses.

29/07/2017

Lost in translation (295) - Em Pedrógão não houve "gross breach" porque não havia "relevant duty of care"

«The Scotland Yard investigation into the Grenfell fire disaster has said there are “reasonable grounds” to suspect the council and the organisation that managed the tower block of corporate manslaughter.

The two organisations under suspicion are Royal Borough of Kensington and Chelsea and the Kensington and Chelsea Tenant Management Organisation.

The law on corporate manslaughter would require any prosecution to prove that there was a gross breach of a relevant duty of care owed to those who died.»

The Guardian

Esta é uma das diferenças entre uma democracia onde existe separação de poderes e um poder judicial independente e uma democracia onde se elege o pessoal escolhido pelos partidos e pronto. E já foi pior nos tempos do socialismo socratista que além de ter capturado o quarto poder, como nos tempos actuais do socialismo costista, também manteve o terceiro poder em cativeiro.

DIÁRIO DE BORDO: John McCain, Senador



«That principled mindset, and the service of our predecessors who possessed it, come to mind when I hear the Senate referred to as the world's greatest deliberative body. I'm not sure we can claim that distinction with a straight face today.

I'm sure it wasn't always deserved in previous eras either. But I'm sure there have been times when it was, and I was privileged to witness some of those occasions.

Our deliberations today -- not just our debates, but the exercise of all our responsibilities -- authorizing government policies, appropriating the funds to implement them, exercising our advice and consent role -- are often lively and interesting. They can be sincere and principled. But they are more partisan, more tribal more of the time than any other time I remember. Our deliberations can still be important and useful, but I think we'd all agree they haven't been overburdened by greatness lately. And right now they aren't producing much for the American people

Excerto do discurso de John McCain, um homem de coragem e de princípios, ao Senado americano na terça-feira passada, poucos dias depois de uma intervenção cirúrgica e de ter sabido ter um cancro no cérebro.

28/07/2017

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (LXIV)

Outros purgatórios a caminho dos infernos.

Este é o 64.º post de uma longa série iniciada em Janeiro de 2015 que começava assim: E será um purgatório se o novo governo Syriza-Gregos Independentes retiver apenas a retórica e deixar cair o seu programa. Será um inferno se o não fizer.

Tem sido um purgatório. O governo deixou cair o seu programa e até Tsipras evoluiu para uma retórica diferente: a retórica do social-democrata.

Não surpreende assim que, finalmente pela primeira vez em três anos, a Grécia se tenha financiado no mercado, tendo conseguido colocar três mil milhões de euros a cinco anos com um yield de 4,625% e uma procura superior ao dobro da emissão. O FMI já anunciou um novo empréstimo de 1,6 mil milhões na condição de haver algum haircut (simbólico), a CE/BCE já adiantou parte de uma tranche de 8,5 mil milhões e a CE já recomendou a saída do Procedimento por Défice Excessivo.

O que mostra este caminho seguido pelo governo «revolucionário» Syriza-Anel? O falhanço das políticas esquerdistas que Costa tanto parecia admirar quando por essa altura dizia «Vitória do Syriza é um sinal de mudança que dá força para seguir a mesma linha».

Costa e Tsipras têm assim em comum terem conseguido sobreviver fazendo o contrário do que prometeram e de diferente o facto de se poder ter dúvidas da sinceridade de Tsipras ao dizer ao Guardian «nobody will say we are corrupt or dishonourable or have had our hand in the honey pot» e não se ter dúvidas sobre a falta de sinceridade se a mesma coisa tivesse sido dita por Costa.

Pro memoria (351) - A obra feita de Costa nos incêndios florestais (2)

[Continuação de (1)]

«António Costa, que defendeu abertamente esta “lei da rolha”, tem de facto razões para estar preocupado, pois deixou rasto em muitas das decisões que estão a condicionar negativamente o que se está a passar com as nossas florestas. Recordemos algumas delas:
  • Foi de António Costa, como ministro da Administração Interna, a decisão de apostar tudo num sistema de combate aos incêndios focado em extinguir rapidamente as ignições e que desvalorizou a reforma da floresta. É essa opção que, neste ano quente e de imensa acumulação de combustível nas matas, mostra não ser capaz de evitar tragédia atrás de tragédia.
  • Foi também de António Costa a decisão de manter o contrato com o SIRESP, o sistema de comunicações que está sempre a falhar, tendo-se limitado a renegociá-lo para lhe retirar valências que hoje fazem imensa falta.
  • Foi ainda de António Costa a decisão política, como primeiro-ministro, de promover a aprovação de um pacote legislativo para a floresta que é duramente criticado tanto pelos especialistas em florestas e em fogos florestais, como pelos agentes económicos do sector. Costa, como já referi, preferiu fazer umas flores à esquerda, com o Bloco, para enganar o pagode, perdendo-se mais uma oportunidade de tomar as medidas que têm de ser tomadas.
  • Foi com António Costa que ascendeu a Presidente da Autoridade Nacional de Protecção Civil um coronel (antes esse lugar fora sempre ocupado por um oficial general) que tem como currículo ter quase sempre seguido Costa de perto: Joaquim Leitão foi em 2005 adjunto do gabinete do secretário de Estado da Administração Interna quando António Costa era ministro, em 2008 foi nomeado comandante do Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa pelo presidente da Câmara António Costa, em Janeiro de 2016, com o novel governo Costa, regressou ao Ministério da Administração Interna, de novo como adjunto. É esse mesmo Joaquim Leitão que hoje preside ao caos notado no combate a tantos e tantos incêndios, tal como preside à “lei da rolha”.
  • Foi com este governo de António Costa que o MAI nomeou 30 chefias da Protecção Civil 74 dias antes da tragédia de Pedrógão, sendo que um dos novos nomeados, o 2.º comandante de Leiria, foi quem dirigiu as operações no terreno durante o fogo de Pedrógão Grande das 19h55 às 22h do dia 17 de Junho, isto é, no período em que ocorreu a maioria das mortes. Trata-se de Mário Cerol, um advogado, comandante dos bombeiros de Alcobaça e, vejam lá, antigo mandatário de uma candidatura do PS a esse município.
  • António Costa estava ao lado de Rui Esteves, o comandante operacional da ANPC nomeado pelo seu governo, quando, na noite de sábado para domingo no incêndio de Pedrógão Grande, este declarou que os meios envolvidos no combate àquele fogo eram “claramente” os adequados e que a sua determinação era extinguir o incêndio nessa mesma noite ou no domingo – o incêndio levaria cinco dias a ser extinto. Agora, foi esse mesmo Rui Esteves que, a partir de Proença-a-Nova (que fica no seu distrito de origem, Castelo Branco), dirigiu no terreno o combate ao incêndio de Mação, tendo de responder às queixas já verbalizadas pelos autarcas deste município sobre as opções que tomou.»
Se isto é um primeiro-ministro, José Manuel Fernandes no Observador

«Face a uma catástrofe, tudo aquilo de que Costa é capaz é de recorrer a toda a espécie de malabarismos que lhe granjearam a dúbia fama de político excepcionalmente habilidoso. Só que, confrontado com uma realidade não moldável aos exercícios circenses a que nos habituou e que tanta admiração provocam nos aficionados da política, a tal habilidade revelou-se aquilo que na sua essência radicalmente é: um puro jogo destinado a preservar o poder sem qualquer princípio que respeite verdadeiramente ao bem público. Quer dizer: uma coisa oca produzida pelo vazio.

António Costa minguou aos olhos de todos – e minguou também aos seus próprios olhos, por mais que tente disfarçar este aspecto das coisas. A sua percepção da realidade tenta adaptar-se em vão àquilo para o qual se encontra radicalmente impreparado, já que a situação exige uma concepção da política muito diferente daquela que é a sua, restrita à sabedoria mundana de todos os truques e truquezinhos conducentes à ascensão ao poder e à sua manutenção.
(...)
Não tenho a mínima dúvida que Costa tem plena consciência que a sua reacção a toda a catástrofe dos fogos provou a sua incapacidade como homem de Estado para defender o bem público.»

Um homem muito perigoso, Paulo Tunhas no Observador

Discordando de Paulo Tunhas, tenho as maiores dúvidas que Costa tenha essa plena consciência. Porque o Estado para Costa é apenas um trampolim, porque o bem público para Costa consiste no bem da sua tribo socialista e porque Costa pertence àquele género de pessoas com as quais se poderia fazer um excelentíssimo negócio: comprá-lo pelo preço do que ele vale e vendê-lo pelo preço do que pensa valer.

27/07/2017

Pro memoria (350) - O poder corrompe e a aparência dele amolece e desvenda a hipocrisia

«No Verão de 2015, ainda com Passos Coelho no Governo, o Bloco convocou uma conferência de imprensa para dizer que "a incompetência do Governo não pode encontrar justificação na meteorologia” e que “compete a um Estado competente colocar um dispositivo no terreno que permita contrariar os efeitos, tanto ao nível do ataque direto como da prevenção”. E agora?

Creio que o que dissemos na altura tem estado a par do que dizemos na actualidade. Agora, creio que nenhum de nós pode negar que estamos a assistir a algo que manifestamente não tem apanhado o país preparado. As alterações climáticas deixaram de ser matéria de disputa científica, o país está numa seca severa e claramente não temos um país devidamente estruturado para responder a estas circunstâncias. Se há responsabilidades de governos, há, de muitos governos. Infelizmente tínhamos alertado para a necessidade de preparar o país para as alterações climáticas, quer no que toca ao ordenamento quer à limitação de espécies, e de ter uma forma de pensar a Protecção Civil garantindo que isso representasse um aumento da capacidade no terreno. Mas percebemos que, anos depois, estes alertas não tiveram consequência. E que agora estamos a ser confrontados com uma realidade difícil.»

(Entrevista do Público a Pedro Filipe Soares, o líder parlamentar do BE) 

Com a proximidade ao poder e a ilusão do poder, o berloquismo perdeu a frescura, manteve a falta de maturidade e sucumbiu à hipocrisia e à língua de trapos do politiquês. Pior é difícil.

CASE STUDY: Há incêndios e incêndios, há florestas e florestas e há respostas e respostas

Isotérmicas em Julho (fonte)
No sudeste da França em dois dias arderam 7 mil hectares, os incêndios foram combatidos por 4 mil homens, foram deslocadas 10 mil pessoas e não houve vítimas. Em Pedrógão Grande arderam 30 mil hectares num incêndio combatido por 1.600 homens, foi deslocado um pequeno número de pessoas e houve um número não inferior a 65 mortos.

Nas duas regiões as temperaturas médias em Julho são semelhantes (ver mapa à direita) e a composição da floresta é diferente: em Pedrógão Grande predomina o pinheiro e eucalipto e nas zonas do sudeste da França predomina o carvalho e o mato (maquis) muito combustível. O que é verdadeiramente diferente é a capacidade de resposta dos Estados português e francês.

26/07/2017

Dúvidas (202) – Quem é realmente Alexis Tsipras? (3)

[Continuação de (1) e (2)]

Há dois anos perguntava-se José Manuel Fernandes a respeito das cambalhotas de Alexis Tsipras, o tribuno esquerdista do Syriza arvorado em primeiro-ministro da Grécia, «Um génio ou um desastrado? Um reformista radical ou um revolucionário dissimulado? Um estadista ou um populista?» 

Nessa altura, respondeu JMF às suas próprias interrogações: «o meu instinto inclina-se mais para que é um radical a caminho da social-democracia».

Também por essa altura, Alexis Papachelas admitia ironicamente no ekathimerini.com que Tsipras parecia um neoliberal ao justificar no parlamento a aprovação das medidas do 3.º resgate. Hugo Dixon admitia no Politico: «Alexis Tsipras is either a liar or a resident of Lalaland», Alexis Tsipras ou é um mentiroso ou um lunático e eu mantinha a questão em aberto.

O tempo parece mostrar que o instinto de JMF estava certo. Leia-se esta entrevista de Tsipras ao Guardian e registe-se a humildade, realismo e flexibilidade que um social-democrata não renegaria:

Humildade
«When I came into this office, I had no experience, or sense, of how big the day-to-day difficulties would be,”  I have made mistakes … big mistakes»

Realismo
A respeito dos planos de Varoufakis para adoptar uma moeda própria: «when we got to the point of reading what he presented as his plan B it was so vague, it wasn’t worth the trouble of even talking about. It was simply weak and ineffective.»
A respeito da saída da UE: «Leave Europe and go where … to another galaxy?” he quips. “Greece is an integral part of Europe. Without it, what would Europe look like? It would lose an important part of its history and its heritage.»
If you go out into the street and ask about this government, many might say ‘liars’, but nobody will say we are corrupt or dishonourable or have had our hand in the honey pot.»

Flexibilidade negocial
«All this time we have been in continual negotiation and continual quest for compromise between our programme and the memorandum [of bailout conditions]»

25/07/2017

Curtas e grossas (48) - Não são de direita (parecem mais de esquerda). São betinhos

Os betinhos de Loures anunciando a derrota antecipada (*)
«Quando, na semana passada, Assunção Cristas reuniu a Comissão Política do CDS para retirar o apoio a André Ventura e, desta forma, por termo à coligação com o PSD naquela autarquia, Pedro Pestana Bastos aplaudiu e ofereceu-se para ser candidato, caso fosse preciso. (...) E põe a fasquia alta: “Ter menos votos do que o PSD será uma derrota. O que aqui está em causa é o modelo de direita que queremos para o país”, diz ao Expresso»

O modelo de direita? Qual modelo? Qual direita? A direita que mete a cabeça na areia, nega a realidade e se borra de medo de contrariar a vulgata do pensamento único?

(*) Inspirado no analista Vasco Pulido Valente que há uns anos, depois de ter falhado estrondosamente uma previsão, despromoveu-se a comentador, garanto que se a minha profecia não se confirmar farei o mesmo. (Não sou analista nem quero ser comentador, mas a intenção é que conta.)

CASE STUDY: «A única função das previsões económicas é tornar respeitável a astrologia» (2)

Continuação de (1)

The Econonist
O FMI tem falhado por excesso as previsões de crescimento do PIB mundial, revendo-as quase sempre em baixa. Sublinho: a nível mundial, onde os erros das previsões nacionais se compensam parcialmente. A nível nacional as previsões têm sido um desastre. Estamos agora numa fase singular em que as previsões estão a ser revistas em alta devido à sincronia das economias americana, chinesa e europeia.

24/07/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (93)

Outras avarias da geringonça.

Mostrando o seu apreço pelo direito dos eleitores à informação, o governo de Costa proibiu comandantes dos bombeiros de dar informações sobre os fogos. Porquê? Porque os incêndios que mais preocupam o governo não são os das florestas são os dos mídia, como o número de mortos de Pedrógão Grande.

Mostrando o seu apreço pela verdade, o governo de Costa colocou em segredo de justiça a lista dos nomes dos falecidos no incêndio de Pedrógão Grande. A arbitrariedade e propósito absurdo de tal segredo, os hábitos de Costa e vários indícios (entre eles o respeitador semanário de reverência Expresso que dá uma no cravo dos factos e outra na ferradura do governo) tornam provável ser o número de mortos superior ao anunciado pelo governo, como indicia esta investigação privada. A ser assim, é muito provável que a mistificação do governo se venha a refugiar na exclusão das mortes indirectas, o que escreve Poiares Maduro seria como «se o governo britânico dissesse que as pessoas que morreram ao saltar da torre em chamas no recente incêndio em Londres não eram vítimas do mesmo pois não morreram vítimas de inalação ou queimaduras...»

Exemplos do costume (52) - Os caciques

Passos Coelho será tudo menos um santo, mas pelo menos desta vez está inocente das manobras de «mobilização artificial de militantes nas eleições internas partidárias» para o PSD Lisboa, em benefício do beato Nuno Morais Sarmento devidamente patrocinado por santa Manuela Ferreira Leite, manobras que o Observador documentou.

Tão revelador como a reportagem do Observador é o facto de apenas o Expresso (citando a SIC) lhe ter feito referência. Guess why. Adivinhe não porquê o Expresso (deve ter sido acidente), mas porquê nenhum dos outros jornais. Imagine-se o clamor indignado dos pandeiretas do jornalismo de causas se essa mobilização tivesse sido em benefício da facção de Passos Coelho...

Os ingénuos que imaginam que este tipo de manobras se circunscreve a facções do PSD, desiludam-se. Recomenda-se vivamente a leitura de «Os predadores», já aqui citado a propósito de «A rede da agência de empregos no município» montada por Costa em Lisboa, da autoria de Vítor Matos, não por acaso um dos jornalistas que subscreve a peça do Observador.

23/07/2017

DIÁRIO DE BORDO: Não há pachorra para a brigada do pensamento único

A pretexto das entrevistas do Expresso a Gentil Martins, um médico notável, e do Jornal i a André Ventura, o candidato PSD/CDS à câmara de Loures, o universo mediático foi atravessado por ondas de indignação provenientes dos círculos do politicamente correcto e de outras correntes esquerdistas fazendo o papel dos novos polícias do pensamento único. A que pretexto? Porque o primeiro classificou a homossexualidade como «anomalia» (bem-vindo ao clube) e o segundo porque se referiu indirectamente e no contexto do concelho de Loures à «etnia cigana» como sendo um dos grupos que «vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado (e) acharem que estão acima das regras do Estado de direito».

Os polícias do pensamento reagiram prontamente exigindo procedimentos disciplinares e queixas-crime contra as duas criaturas tresmalhadas do pensamento único. Não vou efabular sobre a «ciência» da homossexualidade ou as demonstrações factuais de que os ciganos de Loures são «quase exclusivamente» como os caracteriza André Ventura, embora considere que uma e outra opiniões mereceriam uma análise e discussão sérias. Também não vou discutir a forma como essas opiniões foram expressas que é obviamente discutível.

Tão pouco vou apontar, outra vez, o dedo aos polícias do pensamento único todos eles grandes defensores em abstracto da liberdade de expressão e em concreto da liberdade de expressão das ideias conformes à sua vulgata. Vou apenas salientar um argumento sofista, particularmente repugnante, tratando-se de gente ilustrada.

O argumento consiste na tentativa de reverter a acusação que lhes é feita de polícias do pensamento único vitimizando-se por serem criticados, de onde, segundo a sua lógica, isso significaria que os «homofóbicos» e os «racistas» são intolerantes e não suportam as críticas. Ora acontece, que se saiba, nenhum «homofóbico» ou «racista» apresentou ou ameaçou apresentar, queixa-crime ou exigiu procedimento disciplinar contra um qualquer polícia do pensamento único. Há também nesta matéria uma divisão profunda entre os que combatem o que entendem ser ideias erradas com argumentos melhores ou piores e os polícias do pensamento único que pretendem calar os que eles rotulam de «homofóbicos» e de «racistas».

Como escrevi há dias, uma coisa é contraditar os desatinos, outra é tentar calar os desatinados. É esta a grande diferença entre quem defende a liberdade e quem a usa para calar a desconformidade. E, a propósito, recomendo vivamente a leitura de «A ditadura da ideologia de género» de Bernardo Sacadura no Observador.

22/07/2017

ACREDITE SE QUISER: Myselfie, himselfie, yourselfie, ourselfies, themselfies

Alguns psicólogos explicam a obsessão pelas selfies com a ocorrência de problemas de saúde mental, como o transtorno dismórfico corporal que se caracteriza por uma preocupação mórbida por um defeito real ou imaginário e comportamentos compulsivos que se desenvolvem em resposta a essas preocupações.

Nalguns casos esses comportamentos têm consequências no mundo real. Em 2015 morreram mais pessoas a tentarem fazer selfies perfeitas do que de ataques de tubarão. Além dos praticantes da selfie também as obras de arte estão a sofrer consequências. Alguns exemplos (fonte: The Economist Espresso):
  • Em 2014, um estudante italiano destruiu uma estátua do início do século XIX, ao subir ao seu colo para disparar uma selfie; 
  • Um americano ficou preso numa escultura representando uma vagina de 32 toneladas de Fernando de la Jara e teve que ser libertado por 22 bombeiros;
  • A semana passada em Los Angeles, uma mulher tentando a selfie perfeita derrubou uma fila de esculturas de Simon Birch causando 200 mil dólares de danos. 
A estes casos podemos acrescentar o do visitante do Museu Nacional de Arte Antiga que em Novembro do ano passado derrubou um São Miguel do séc. XVIII. Também poderíamos acrescentar o caso do presidente dos afectos que com milhares de selfies um pouco por todo o lado tem contribuído para o presente estado de euforia (tecnicamente um episódio maníaco) a que se seguirá, como habitualmente, uma profunda depressão, salpicada com surtos de indignação.