Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

02/05/2017

ARTIGO DEFUNTO: História de causas, problemas com a aritmética e a manipulação do costume

No seu afã de educar os leitores nas suas causas, o Expresso reescreve a história e coloca Salazar a recusar encontrar-se com Paulo VI e este a receber três anos antes do tempo os líderes dos partidos independentistas das colónias portuguesas. Se quanto à cronologia ainda se desculpa, quanto à recusa de Salazar se encontrar com o papa não lembraria ao Anticristo pelo absurdo, nem a quem tenha uma ideia mínima do pensamento do Botas. Desta vez o semanário de reverência teve azar porque os seus «factos alternativos» caíram sob o escrutínio histórico de Helena Matos.

Uns dias antes tinha o mesmo semanário trocado os pés pelas mãos com as contas da saúde pública e, no mesmo dia em que rescreveu a história da visita de Paulo VI, referiu na sua edição broadshit broadsheet outros «factos alternativos» ou sugestão dos mesmos às mentes frágeis.

Por exemplo, a propósito das conclusões do Grupo de Trabalho sobre a Sustentabilidade da Dívida Externa, foi plantado na primeira página do caderno de economia o título «Reestruturação suave da dívida poupou €2500 milhões», seguido de «reduzem fatura com juros», deixando implícito que a suavidade fora obra do par Costa-Centeno, cuja fotografia ocupa quase metade de uma das duas páginas dedicadas à reestruturação suave. Lá pelo meio, onde dada a aridez do tema chegarão apenas alguns leitores, ficamos a saber que o «alívio começou logo em 2011», faltando acrescentar que toda a negociação suave foi da responsabilidade do governo anterior.

01/05/2017

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Já não somos pobres, somos mal agradecidos e irresponsáveis

Tenho dificuldade em ouvir discursos em geral e definitivamente não dou para o peditório dos discursos comemorativos do 25 de Abril. Fiquei por isso privado de apreciar os deste ano e só me apercebi da indigência mental a que chegaram depois de ler o artigo no Expresso de Daniel Bessa, um ex-ministro da Economia de Guterres durante apenas 18 meses (et pour cause), de que transcrevo o último parágrafo:

«Os partidos políticos que hoje apoiam o Governo foram de uma unanimidade surpreendente: Heloísa Apolónia (PEV), Jorge Machado (PCP), Joana Mortágua (BE, num discurso belíssimo, do ponto de vista formal e mesmo estético) e Alberto Martins (PS, num discurso politicamente mais elaborado) responsabilizaram a União Europeia, o euro e as políticas de austeridade. É injusto, porque ignora o contributo da União Europeia para muitas das conquistas de que o 25 de Abril se vangloria; é desresponsabilizante, porque imputa a terceiros a responsabilidade pelos nossos défices de desempenho.»

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (81)

Outras avarias da geringonça.

Ponto de situação do défice e da dívida em 2016 na Zona Euro: o tão festejado défice de 2% de Costa-Centeno é o quinto maior (défice médio da Zona Euro 1,5% e da UE 1,7%) e a esquecida dívida de 130,4% é a terceira maior (dívida média da Zona Euro 89,2% e da UE 83,5%). Tomemos nota que a Irlanda (lembram-se do «não somos a Irlanda»?) registou o menor défice (0,6%) e uma dívida de 75,4% que tem vindo a descer desde um máximo de 120%.

Este ano a dívida continua florescente tendo aumentado 0,2% na óptica de Maastricht outra vez em Fevereiro, segundo o BdP. Para adensar o nevoeiro informativo, o IGCP divulgou a dívida directa do Estado (uma parte da dívida na óptica de Maastricht) que se reduziu em Março -0,2%. A mim parece-me como se uma empresa endividada até ao tutano anunciasse que a dívida total tinha aumentado mas o passivo bancário tinha diminuído.

30/04/2017

Mitos (252) - Macron não tem aparelho partidário

Depois da esperada vitória de Emmanuel Macron na primeira volta das eleições presidenciais francesas, e da menos esperada completa derrota do candidato socialista Benoît Hamon (que entretanto teria tentado montar uma estratégia «brinquebalante», inspirada no zingarelho de Costa), começou a circular entre a comentadoria doméstica a ideia de que Macron não teria um aparelho partidário e ficaria dependente dos partidos estabelecidos, nomeadamente do PS.

Macron não tem um partido? Ça dépend de ce qu'on entend par parti. O En Marche!, a organização que suporta Macron, tem 250 mil membros, o dobro do Partido Socialista francês. E não esqueçamos a história dos partidos em França, nomeadamente a criação do RPF (Rassemblement du peuple français) a partir do nada, por Charles de Gaulle em 1946, e a refundação por François Miterrand do PS francês no congresso de Épinay em 1971, a partir dos cacos dos grupúsculos de inspiração socialista.

CASE STUDY: Trumpologia (17) - Mau perder

Mais trumpologia.

«À primeira vista Mauricio Macri, que visita a Casa Branca hoje (5.ª feira), parece ter pouco em comum com Donald Trump. O presidente argentino está a restaurar a sanidade da política do seu país depois de anos de populismo; o líder americano parece estar a tentar o contrário. Mas os dois, ambos filhos de promotores imobiliários, são velhos conhecidos: conheceram-se pela primeira vez na década de 1980, quando o pai de Macri vendeu terras a Trump. Ainda assim, o relacionamento entre os dois precisa de melhorias. Macri descreveu uma vez o Sr. Trump como "totalmente louco", e apoiou a campanha presidencial de Hillary Clinton. Por isso, provavelmente irão evitar os temas difíceis como o comércio. Macri também vai encontrar-se com Paul Ryan e Mitch McConnell, os líderes republicanos na Câmara e no Senado, respectivamente. De acordo com o pai do Sr. Macri, o Sr. Trump uma vez partiu os seus tacos de golfe frustrado por ter sido batido pelo jovem Mauricio. O presidente da Argentina deve esperar que a única coisa quebrada depois da reunião seja o gelo.» (The Economist Espresso)

29/04/2017

A maldição da tabuada (44) – A saúde está pela hora da morte, segundo a agência do regime e o semanário de reverência

«A saúde em Portugal representa quase dois terços da despesa total do Estado, mas está entre as mais baixas da União Europeia, segundo um relatório divulgado esta quinta-feira que faz o retrato do sistema de saúde português.

Segundo o relatório, a despesa pública com a saúde em Portugal totaliza 64,7% do total dos encargos do Estado, enquanto a média da UE é de 76%.»

Excerto do artigo do Expresso «Despesa pública em saúde em Portugal entre as mais baixas da União Europeia»

Dois terços da despesa total do Estado? 

Ora vejamos as despesas do Estado em milhões de euros em 2015 (Pordata)
  • (A) Saúde 8.518,4
  • (B) Total  48.493,5
  • (A) / (B) = 17,6%
É claro que multiplicar por quatro a despesa com saúde é um disparate de um tamanho não poderia vir de um relatório do Observatório Europeu de Saúde. Por descargo de consciência fui vasculhar no «Portugal, Health system review» e a páginas 48 descobri a origem da confusão: onde se escrevia «General government health expenditure as % of total health expenditure» a Lusa leu e escreveu, e o semanário de reverência reproduziu, despesa pública com a saúde em Portugal em % do total dos encargos do Estado.

Acontece, é um erro. Não, não é «um erro», é não ter a mínima noção da grandeza e da proporção das variáveis da despesa pública. É assim como confundir a distância do Terreiro do Paço a Cacilhas com a distância de Peniche às Berlengas. É a maldição da tabuada.

28/04/2017

Berloquistas agarrados à metadona do poder entraram de leão e saíram de sendeiro

A transição das associações de estudantes, das redacções dos jornais e das universidades de Verão com festas «LGBTQIA+» para os corredores do poder não está a ser fácil para o BE. Uma após outra, deixam cair as suas bandeiras para não comprometer a ménage à trois (e não, não é a quatre porque o quarto é a criada de servir do PCP), ménage que lhe dá acesso a esses corredores que percorrem com gosto e avidez, na esperança de chegarem aos gabinetes do poder.

A última bandeira que deixaram cair foi a da «reestruturação da dívida» que no bloquês significava «abaixamento da taxa média de juro», «alongamento do prazo de pagamento da dívida» e «reestruturar, pelo menos, a dívida acima de 60% do PIB», ou seja um haircut de 70% do PIB.

Após um longo labor intelectual em que participaram luminárias do BE e do PS, foram agora conhecidas as conclusões do Grupo de Trabalho sobre a Sustentabilidade da Dívida Externa: «alargamento da maturidade para 60 anos (mais 45 anos do que o prazo atual) e uma redução da taxa de juro para 1%. Isto apenas em relação aos empréstimos europeus que somam 52 mil milhões de euros, ou seja, um terço do envelope financeiro do resgate português em 2011».

Lá se foi a maior parte da redução dos juros e o haircut de 70% do PIB. Mesmo com o colossal haircut do haircut, deixando o BE cair as calças e a vergonha, o governo já disse que não se compromete. Pudera! Costa sabe perfeitamente que se falar demasiado grosso com Bruxelas arrisca-se a fecharem-lhe a torneira do óleo para a geringonça.

Registe-se que o PCP não participou no Grupo de Trabalho. Teve um pouco mais de vergonha e, sobretudo, tem mais para dar em troca com os sindicatos à trela que lhe dão um poder que o paleio inflamado do BE não lhe proporciona, mesmo cedendo em toda a linha no que jurava serem os seus princípios.

SERVIÇO PÚBLICO: A Internacional da Indignação (11)


Outras indignações internacionais.

Mais um exemplo da paranóia politicamente correcta que assola as universidades, sobretudo americanas (ver exemplos no link acima). Foi agora a vez da Universidade da California, Berkeley, e a propósito de uma conferência de Ann Coulter.

Para quem não saiba, Coulter é uma escritora, colunista e comentadora americana, republicana e conservadora que fora convidada pela associação Berkeley College Republicans para fazer uma conferência. Primeiro a direcção da universidade alterou o evento para um dia e hora em que a universidade estivesse quase vazia com o pretexto que os grupos organizados e potencialmente violentos de estudantes que se opunham à conferência de Couter obrigariam a um policiamento com centenas de agentes e um custo incomportável. O evento acabou por ser anulado.

Lembram-se do episódio da conferência abortada de Jaime Nogueira Pinto na Universidade Nova? É mais ou menos o mesmo, supersize.

Curtas e grossas (47) - Eurobond? Só se for James Bond.

Tudo indica que Costa e o PS em geral apostam em privado em tentar empandeirar a dívida passada e/ou mutualizar a dívida futura e, sendo a Alemanha a chave da solução, depositam grandes esperanças no governo que sair das eleições alemãs.

No pior cenário, se a coligação CDU/CSU ganhar, imaginam que Merkel estará mais compreensiva com a economia europeia a sair da estagnação. No melhor cenário, se o SPD ganhar, imaginam que o socialista Schulz estará disposto a embarcar na mutualização, se não mesmo numa "reestruturação" da dívida portuguesa.

Provavelmente estão enganados. Com altíssima probabilidade Merkel não quer nem ouvir falar em mutualização para não criar mais tensões com o seu parceiro CSU e não dar argumentos à AfD.

Quanto a Schulz também é recomendável não apostar nesse cavalo, por muito que no passado tenha aceite a ideia. Se Schulz retomasse a ideia arriscar-se-ia a perder todas as chances de derrotar Merkel defendendo uma solução que não tem suporte no eleitorado alemão e à qual Merkel já começou a tentar atrelá-lo aos olhos do eleitorado. Por isso Schulz fará tudo para escapar à armadilha e já disse recentemente que é suficiente para a Zona Euro a existência do Mecanismo Europeu de Estabilidade e a respeito dos eurobonds rematou com uma piada que diz tudo: «The most interesting Bond is James».

27/04/2017

Porque não estou surpreendido?

«O investigador José Filipe Pinto referiu que Portugal tem um índice de populismo semelhante ao da França, ocupando o 11.º lugar dos países mais populistas da UE, graças a partidos como o Bloco de Esquerda, o PCP e Os Verdes.

(...)

“E isto é que me incomoda porque ouvi o senhor Presidente da República [no seu discurso no 25 de abril] dizer que Portugal, felizmente, estava alheio a este fenómeno populista. E estava a falar na Assembleia da República. À sua frente tinha três partidos cujos deputados são populistas: o Bloco de Esquerda (populista autoritário), o PCP (populista totalitário) e o Partido Ecologista Os Verdes (populista autoritário)”, explicou.» (Observador)

Ó José, ó Filipe, ó Pinto, tens toda a razão e não te incomodes com o que diz o senhor Presidente da República. Ele diz principalmente o que pensa que o seu público quer ouvir - ele, se calhar, também é populista.

Brexit - Unintended consequences

A convocação de eleições intercalares para 8 de Junho proporcionará legitimidade acrescida a quem, como Santana Lopes, herdou o poder de Cameron e parece estar a revelar-se uma boa jogada de Theresa May. Segundo as sondagens, os conservadores ganharão as eleições com uma enorme vantagem e, mais do que isso, na Escócia o Scottish National Party de Nicola Sturgeon, pode perder lugares para o Partido Conservador e o Partido Trabalhista, completamente infiltrado por lunáticos esquerdistas, poderá ser simplesmente erradicado do parlamento escocês, Como se fosse pouco, Theresa May pode ter a maioria no País de Gales pela primeira vez em mais de 100 anos e os conservadores podem tornar-se um partido tão britânico quanto tem sido inglês até agora.

26/04/2017

Nem todos os obamas de Obama fazem felizes os obamófilos: episódio (86) – Um homem de palavra

Nos três primeiros meses depois de se ter mudado da Casa Branca, Barack Obama já fez grandes progressos no reforço do seu fundo de pensões privado. Primeiro, vendeu os direitos do livro que vai escrever por 60 milhões de dólares. Agora, inicia o seu ciclo de facturação do verbo aceitando discursar numa conferência de «fat cats bankers» de Wall Street sobre saúde, promovida pelo banco de investimento Cantor Fitzgerald LP pela módica quantia de 400 mil dólares, dobrando a tarifa de Hillary Clinton. A aceitação ainda não está confirmada - está à espera de ver se as reacções não prejudicam a sua imagem...

Barack Obama disse em tempos no programa «60 minutes» da CBS que não se estava a candidatar para ajudar «fat cats bankers». Manteve a sua palavra. São os «fat cats bankers» que o estão a ajudar.

SERVIÇO PÚBLICO: Porque falha a justiça penal?

«Abandonado o moralismo e o justicialismo, porque falha a justiça penal? Porque temos corrupção sem corruptos? A teoria da conspiração da classe política não me parece convincente. Num artigo anterior sobre o Ministério Público, apontei duas pistas. Por um lado, a incapacidade orçamental de disponibilizar mais recursos. E sabemos que isso não vai mudar, não pode mudar e provavelmente não deve mudar (porque as estatísticas europeias indicam que, em valores relativos, já gastamos mais, temos mais procuradores e mais tribunais do que a média). Por outro lado, os consensos jurídicos que rejeitam qualquer aproximação aos modelos europeus (oposição ao princípio da oportunidade, imoralidade da delação premiada, a hierarquização do Ministério Público acompanhada de um sistema de prestação de contas exogâmico seria uma violação inaceitável da independência). Do casamento destas duas restrições, incapacidade orçamental de disponibilizar mais recursos e consensos jurídicos que rejeitam qualquer aproximação aos modelos europeus, resulta a atual situação.»

Excerto de «Corrupção sem corruptos», Nuno Garoupa no DN

Um exemplo da falta de aproximação aos modelos europeus:

Sumário do Acórdão de 29 Mar. 2017 do Tribunal da Relação do Porto

Sendo os arguidos de nacionalidade sul-americana e não lhes tendo sido nomeado o competente intérprete aquando a busca domiciliária, as provas obtidas nessa busca são nulas,

Resumo da Jusnet

BUSCA DOMICILIÁRIA. FALTA DE INTÉRPRETE. 
Quando houver de intervir no processo pessoa que não conhecer ou não dominar a língua portuguesa, é nomeado intérprete idóneo, ainda que a entidade que preside ao ato ou qualquer dos participantes processuais conheçam a língua por aquela utilizada. Em conformidade, a falta de nomeação de intérprete constitui uma nulidade dependente de arguição, nos casos em que a lei a considerar obrigatória. Nestes termos, a busca domiciliária efetuada na residência do arguido de nacionalidade sul-americana é nula pelo facto de a autorização dessa busca não ter sido traduzida para espanhol, nem ter sido validada por parte do Juiz de Instrução Criminal, tendo a mesma sido realizada sem ser na sequência de um flagrante delito. Com efeito, não releva que o arguido tenha assinado a autorização de busca, pois se presume que a mesma não foi assinada por não ter sido traduzida para a sua língua. 
ARGUIÇÃO DA NULIDADE. Considerando que não foi nomeado intérprete na busca domiciliária, não era exigível aos arguidos que até ao fim desse ato fosse arguida a nulidade, pois para tanto são necessários conhecimentos técnico-jurídicos e os arguidos não estavam representados por defensor.

Mitos (251) - Não há alternativa? Há alternativa, claro. Porém não gostamos dela.

«A ideia de que “não há alternativa” – o conceito baptizado de TINA, da formulação inglesa “there is no alternative” – é de uma enorme falácia.

Claro que a “alternativa” existe. Ela é praticada há muitos anos em muitos países e com bons resultados. Na Alemanha, Holanda, Áustria ou Bélgica, para dar apenas alguns exemplos, não consta que haja sucessivos pacotes de austeridade, défices descontrolados, impostos a subir estratosfericamente ou dívidas consideradas impagáveis — até a Bélgica, que há duas décadas era um dos países com o indicador mais alto, na casa dos 130% do PIB, conseguiu colocá-lo já próximo de 100%.

E mesmo a Irlanda, que foi resgatada apenas uns meses antes de nós, isso já é verdadeiramente uma coisa do passado. O PIB já cresce acima dos 4%, o défice orçamental quase não existe e a dívida pública está nos 75%.

A austeridade não é nenhuma fatalidade para quem tem políticas consistentes e responsáveis, para quem toma medidas atempadas para evitar desequilíbrios futuros e para os países que têm uma matriz reformista que procura a competitividade e a produtividade.

O problema são os outros, como nós. Incapazes, como temos sido, de construir uma base sólida de crescimento e convergência, passamos a vida a suspirar por uma “alternativa” e por uma “mudança”, atirando para agentes e decisores externos a responsabilidade das nossas próprias insuficiências.»

 «A “alternativa”, grande truque de marketing político», Paulo Ferreira no jornal Eco

25/04/2017

DIÁRIO DE BORDO: Pensamento do dia

«A great many people think they are thinking when they are really rearranging their prejudices.»

Edward R. Murrow, um dos grandes no jornalismo americano de factos

Mitos (250) - O contrário do dogma do aquecimento global (XV)

Outros posts desta série.

Em retrospectiva: que o debate sobre o aquecimento global, principalmente sobre o papel da intervenção humana, é muito mais um debate ideológico do que um debate científico é algo cada vez mais claro. Que nesse debate as posições tendam a extremar-se entre os defensores do aquecimento global como obra humana – normalmente gente de esquerda – e os negacionistas – normalmente gente de direita – existindo muito pouco espaço para dúvida, ou seja para uma abordagem científica, é apenas uma consequência da deslocação da discussão do campo científico, onde predomina a racionalidade, para o campo ideológico e inevitavelmente político, onde predomina a crença.


Economist
Supondo que estes não são «factos alternativos», está a passar-se qualquer coisa no Árctico. Que esta qualquer coisa seja obra do homem é uma outra questão.

24/04/2017

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (80)

Outras avarias da geringonça.

Segundo o semanário de reverência Expresso, o «Governo pressiona agências de rating» e «Mourinho Félix fez raide nos EU para a saída do "lixo"» - sim, é o mesmo Félix que protagonizou aquele número deprimente com Dijsselbloem, registado para a posteridade por um câmara-homem de causas. Tendo sobrevivido àquele momento de ridículo mortal, Félix abusa da sua sorte e reincide com o «raide» às agências, talvez pensando pôr as perninhas dos analistas a tremer como aquele outro pateta imaginava fazer tremer as perninhas dos banqueiros alemães.

O ministro da Cultura quebra o silêncio desde o show Cornucópia, com a participação especial de Marcelo, e promete que irão ser criados lugares de quadro para os trabalhadores de museus e monumentos, dando assim o seu contributo cóltural para a engorda da vaca marsupial pública.

No seu esforço de levar o governo aos ombros, a imprensa amiga produz títulos que são verdadeiros achados, como os do Público «Centeno conta com prenda nos juros para pagar exigência da esquerda» e «Estado só acaba de encolher em 2020», ambos da autoria do seu director.

ACREDITE SE QUISER: Realizações do socialismo africano


Robert Mugabe, o soba marxista que há 37 anos manda no regime socialista que desgoverna o Zimbábue, depois de uma inflação de 4 dígitos durante vários anos e de ter substituído o dólar de Zimbabué, actualmente a valer $ 0,00276, pelo dólar americano, perante a falta destes, planeia obrigar os bancos a aceitarem gado como colateral para os empréstimos e as escolas a aceitarem cabras como pagamento das propinas.

23/04/2017

Bons exemplos (119) - A arte de recuperar bancos com o português certo

Era uma vez o banco Lloyds resgatado em 2008 pelo governo inglês com 20,3 mil milhões de libras (à época quase 30 mil milhões de euros) dos contribuintes. Nove anos depois, o chanceler Philip Hammond anunciou na sexta-feira que o governo tinha vendido gradualmente desde 2013 os 43% que detinha no Lloyds, ficando com menos de 2% que irá vender nas próximas semanas. Com o produto da venda em bolsa e os dividendos recebidos, o governo já encaixou 20,4 mil milhões de libras, ou seja recuperou todo o dinheiro do resgate. Se a este valor somarmos a venda dos restantes 2% o governo ganhará com o resgate quase mil milhões de libras em 9 anos.

Para justificar a venda Hammond explicou: «while it was right to step in with support during the financial crisis, the government should not be in the business of owning banks in the long term». Algo que o presidente dos Afectos, Costa, Centeno e a geringonça em coro deveriam recitar todas as noites antes de dormirem enquanto por aí andarem.

Como foi isto possível, quando se sabe que os os governos portugueses não tem parado de torrar dinheiro nos bancos resgatados, incluindo num cagalhoto chamado BPN, que foi nacionalizado pelo governo socialista de Sócrates e, segundo Teixeira dos Santos, era para não custar nada e custará pelo menos um quarto do resgate do Lloyds?

As respostas óbvias são: (1) o governo inglês nomeou para resgatar o Lloyds Horta Osório, provavelmente o único português capaz de o fazer com sucesso; (2) o governo inglês teve a rainha Isabel II no lugar de Cavaco, primeiro, e de Marcelo dos Afectos, depois, teve David Cameron e Theresa May no lugar de Sócrates, primeiro, de Passos Coelho e António Costa depois. teve George Osborne, primeiro, e Philip Hammond, depois, no lugar de Teixeira dos Santos, primeiro, e de Vítor Gaspar e Maria Luís Albuquerque, depois, e finalmente Centeno.

Abreviadamente: a Inglaterra ficou com o português certo (aquele a quem Ricardo Salgado e os outros banqueiros que arruinaram os bancos portugueses chamavam a bocca chiusa «o amigo dos espanhóis») e, claro, ficou com os ingleses que já tinha; Portugal ficou sem o português certo e, claro, ficou com os portugueses errados que já tinha e ainda arranjou outros.

22/04/2017

ARTIGO DEFUNTO: Jornalismo de "referência" é o jornalismo de causas adoptado pelo jornal que se diz de referência (2)

Continuação de (1).



Tendo aparentemente desistido de Rui Rio como cunha, o Acção Socialista Expresso tenta agora usar uma carta viciada para um jornal que in illo tempore denunciou as manigâncias de Relvas. É uma manobra bastante denunciada e tosca, até para os critérios do semanário de reverência, misturando cartomância com factóides e leituras da mente através de um acesso privilegiado ao cortex pré-frontal das criaturas citadas.

O que me leva a concluir, outra vez, que tendo eu próprio as maiores dúvidas que Passos Coelho seja o líder da oposição que o país precisa, a procura obsessiva de um seu substituto pela geringonça, o presidente dos Afectos e o jornalismo de causas talvez faça dele um candidato a líder que a oposição precisa (e o país, quem sabe?).

PS: Adicionei uma etiqueta dedicada ao Expresso: «semanário de reverência».