Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

10/07/2016

DIÁRIO DE BORDO: Contra todas as probabilidades


Pobres gostam de taças. Quem não gosta de taças são os intelectuais. Teria dito Joãozinho Trinta, se não fosse brasileiro.

Aditamento: até em África gostam das taças ganham pelos tugas.

Bons exemplos (111) – Durão Barroso, uma espécie de Mourinho-Horta Osório

No mesmo dia em que escrevi sobre Horta Osório, ficou a saber-se que Durão Barroso foi nomeado presidente não executivo da Goldman Sachs International e conselheiro da Goldman Sachs, depois de ter passado pelos crivos das autoridades de supervisão bancária americana e britânica. Recorde-se que a Goldman Sachs, segundo a esquerdalhada uma entidade diabólica, não costuma recrutar patetas. Entre outros passaram por lá António Borges, Carlos Moedas, Mario Monti (ex-comissário europeu e ex-primeiro-ministro italiano), Mario Dragui (actual presidente do BCE).

Não tinha intenção de escrever sobre esta nomeação de uma criatura que, depois dos 10 anos como presidente da CE da UE, deve ser o político português com maior notoriedade internacional, até ver a profusão de reacções indignadas. Para só citar algumas: eurodeputados socialistas franceses sortidos não citados, designados por «França» e Marine Le Pen (Público), Jerónimo de Sousa (Negócios), Catarina Martins (DN).

Os argumentos são desesperadamente patéticos e não há um único que se esforce por demonstrar a existência de um conflito de interesses na passagem de um cargo sem responsabilidades financeiras especiais num órgão político-administrativo comunitário para um cargo não executivo num banco internacional de investimento.

ACREDITE SE QUISER: O Brexit é um estado de espírito (induzido)

A Cornualha, um pequeno condado no sudoeste de Inglaterra naquela espécie de bota, com 536 mil habitantes e 3.560 km2, o equivalente à população dos concelhos de Sintra e Oeiras e a dez vezes a área, foi severamente atingindo pela crise mineira nos anos 80, algumas das suas cidades estão entre as mais pobres da UE.

Com um rendimento per capita abaixo de 75% da média europeia, uma população envelhecida (um quarto com mais de 65 anos) e, apesar de tudo, um desemprego moderado (5-6%) a Cornualha é o único condado de Inglaterra a beneficiar dos fundos estruturais. No período 2007-13 a Cornualha recebeu 654 milhões de euros e receberá 600 milhões até 2020.

Se há regiões com muito a perder com o Brexit, a Cornualha será uma delas. Apesar disso, o «Leave» ganhou com 57% dos votos, mais 5% do que a média do RU.

(Fontes dos dados: esta, aquela e aqueloutra)

09/07/2016

Lost in translation (273) - «Estamos perante uma atitude colonialista», disse um notório herdeiro espiritual do Gulag e do colonialismo soviético

«Não são aceitáveis quaisquer sanções. Estamos perante uma atitude colonialista, em que os países mais fortes tentam subjugar o povo português aos ditames da União Europeia, anunciando de forma chantagista a possibilidade de reduzirem os fundos estruturais de investimento de que Portugal precisa», disse Arménio Carlos, secretário-geral da CGTP e membro do Comité Central do Partido Comunista.

Relembrando: este Arménio Carlos é o mesmo Arménio Carlos de há muitos anos membro do comité central do PCP, uma organização que durante décadas foi tributária de um partido comunista e de um regime soviético que manteve durante 30 anos, de 1930 a 1960, um sistema prisional de trabalhos forçados principalmente para a repressão política de dissidentes. A Administração Principal dos Campos e Colónias Correctivas de Trabalho, ou na sigla em russo Gulag, chegou a ter 53 campos e 423 colónias de trabalho por onde passaram 14 milhões de pessoas, das quais 1,6 milhões morreram. O mesmo regime soviético que colonizou durante mais de quarenta anos duas dezenas de países europeus e asiáticos.

Arménio Carlos é igualmente um notório prosélito dos regimes despóticos da Coreia do Norte e de Cuba.

Não se conhece a Arménio Carlos uma palavra, um estado de alma, um sobressalto moral, um suspiro, uma distância, de um ideário, de um regime e da potência colonial soviética.

ESTADO DE SÍTIO: Estamos a falar da mesma Nação?

Segundo Costa, ontem no parlamento, falando do Estado da Nação, «os portugueses estão melhor e o país está melhor».

Barómetro de Julho da Eurosondagem publicado pelo Expresso

Não sabemos a que portugueses Costa se refere, porque nem mesmo todos os eleitores do Partido Socialista parecem concordar,

08/07/2016

Bons exemplos (110) - Horta Osório, uma espécie de Mourinho da banca

Embora a uma distância respeitosa, o único profissional português que rivaliza com José Mourinho ou Cristiano Ronaldo em notoriedade internacional é António Horta-Osório, actual presidente do Loyds Bank, onde tem feito um trabalho notável, e antigo presidente do Santander Totta, onde fez um trabalho notável e ganhou o petit nom odioso de «o amigo dos espanhóis», dado pelo bando de banqueiros do regime. Leia-se o que sobre ele escreveu o Financial Times e o tom irónico-respeitoso so british:

«Lloyds’ boss António Horta-Osório really likes to win. So much so that on Wednesday he cancelled a day out at Wimbledon to go to the Euromoney awards at the Tower of London. He picked up a gong for being the world leader in “Adapting to the Regulatory Environment”. Horta-Osório was also missing the football — his native Portugal was pitched against surprise semi-finalists Wales. But the banker clearly kept abreast. Taking the stage to accept his award, he gloated: “Portugal is leading 2-0 and [there’s] one minute to go, so I’m going to make my bet.” He then launched into a worthy speech about the UK banking system being “stronger than ever”. But he forgot his host was Rob Brydon, the Welsh comedian. And Brydon had the last laugh. “Viewers will be pleased to hear that Antonio’s speech is now available as a talking book,” he quipped, as the deflated banker left the podium.»

Ver outros bons exemplos de Horta-Osório: aqui, aqui, aqui e aqui.

Chávez & Chávez, Sucessores (47) - Realizações do socialismo bolivariano

Outras obras do chávismo.



«Mujeres venezolanas cruzaron la frontera en busca de alimentos en Cúcuta»

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: Chuva na eira e sol no nabal


«A key issue is that additional years of life expectancy are almost never accompanied automatically by an increase in the retirement age. This means that those workers lucky enough to be born at the right time get the retirement age of their parents, but the life expectancy of their children.»

Simon Baptist, Economist Intelligence Unit Chief Economist

Declaração de interesse: Nasci na altura certa e trabalho ininterruptamente há mais de 50 anos.

07/07/2016

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: De como o melhor que pode acontecer ao paraíso prometido aos gregos pelo Syriza é ser um purgatório (LVI) – Highjacking and hacking (2)

Outros purgatórios a caminho dos infernos.

aqui comentei que a vaidade doentia de Yanis Varoufakis, picada pelos comentários pejorativos de Paul Krugman, o levou a admitir o que até então tinha negado: haver um plano B de transição do euro para o dracma usando os bancos como um sistema paralelo de pagamentos.

Como se fosse necessário, o economista James Galbraith, filho de um outro célebre economista com o mesmo nome - uma espécie de papa Francisco do keynesianismo -,  confirma no seu livro agora publicado, "Welcome to the Poisoned Chalice: The Destruction of Greece and the Future of Europe", a existência do «Plano B» de transição para o «novo dracma», que incluía planos para manter a ordem pública e o racionamento de combustível, apesar de o governo Syriza-Anel ter prometido manter a Grécia no Euro e ter sido eleito com esse pressuposto.

Um dia como os outros na vida do estado sucial (29) - O presidente multitask

Num só dia, o presidente Marcelo enfiou a cabeça em vários chapéus.

Como ministro das Finanças, a fazer as vezes de Mário Centeno, «Marcelo antecipa data para a posse da administração da CGD».

Como seleccionador, a fazer as vezes de Fernando Santos, diz-se «preocupado com lesão de Pepe».

Como comentador, a fazer as vezes dele próprio, sopesando cogumelos, diz que «o cogumelo maior é o cogumelo presidencial e este é o governo porque é mais pequenino» e que aguenta o governo «por uns tempos». Não se conhecem os comentários do cogumelo mais pequenino, por uns tempos.


Como entertainer, a fazer as vezes de presidente itinerante, esteve em Alfândega de Fé a prometer unidades de missão e a tocar bombo.

06/07/2016

DIÁRIO DE BORDO: Finalmente um pouco de ketchup

ACREDITE SE QUISER: A bancarotta deles é muito maior do que a nossa

O crédito bancário malparado em Itália atinge a cifra prodigiosa de 360 mil milhões ou um quinto do PIB italiano ou o dobro do PIB português. O governo italiano pretende ensopar este oceano de dívidas incobráveis com quê? Ora que pergunta! Com o dinheiro dos contribuintes.

Segundo as regras europeias de resgate, os obrigacionistas dos bancos terão de suportar primeiro as perdas. Quem são os principais obrigacionistas no caso de Itália? Os contribuintes porque em Itália as famílias aplicam frequentemente as suas poupanças em obrigações dos bancos. (Fonte: The Economist Espresso)

Como diria Burlesconi, se lhe tivessem perguntado à saída do hospital, alla fine della giornata è la stessa cosa.

No meio de todo este nevoeiro conceptual, em Itália como em Portugal, esquece-se a pergunta essencial: sabendo-se quem perde, quem beneficia no fim da linha com as perdas suportadas pelos contribuintes? Ora que pergunta! Os detentores do crédito malparado - empresários e pessoas amigos do regime e da nomenclatura bancária - que aplicaram o dinheiro emprestado pelos bancos, mal ou bem, e não irão reembolsá-lo no todo em ou parte.

Chávez & Chávez, Sucessores (46) - Os portugueses da Venezuela apagados pela esquerdalhada por amor ao chavismo

Outras obras do chávismo.

«Em 2016, os média portugueses ainda não têm a coragem ou a honestidade intelectual para criticar de forma sistemática os "paraísos socialistas", mesmo quando centenas de milhares de portugueses e de luso-descendentes sofrem no interior desses "paraísos". Cerca de 1,2 milhões de portugueses e luso-descendentes estão a viver situações desesperadas na Venezuela chavista, que, como todos os paraísos socialistas, caiu num inferno hobbesiano. O silêncio é infame: mais de um milhão de portugueses está a viver um inferno, mas em Lisboa ninguém quer saber, nem os políticos, nem os jornalistas, nem os profissionais da indignação. No máximo, a Venezuela é uma nota de rodapé na agenda da corte lisboeta. Fala-se mais do Podemos, filho bastardo de Chávez, do que dos portugueses que já foram assassinados pelo caos criado por Chávez e Maduro. A cegueira ideológica conduz muitas vezes à simples e prosaica traição. É o caso. Os bem pensantes amam tanto a Humanidade, a Revolução e a Esquerda que acabam por trair pessoas concretas, compatriotas reais que não se chamam Progresso, mas sim António, Joaquim, Carlos.»

«Os portugueses da Venezuela: ecos dos retornados», Henrique Raposo no Expresso Diário

SERVIÇO PÚBLICO: O comportamento «crescentemente errático» de Juncker (continuação)

No post anterior da semana passada onde comentei o diagnóstico do/a autópsia ao (cortar conforme o gosto) presidente da CE, escrevi: não é de todo impossível que Juncker venha a ser a primeira baixa do turbilhão bruxelense gerado pelo Brexit.

Segundo o mentidero bruxelense, parece que se confirma o prognóstico. Numa peça com um título que é um sumário («Angela Merkel 'to oust Jean-Claude Juncker' as Europe splits deepen over Brexit response») o Telegraph escreve:

«The pressure on him [Juncker] to resign will only become greater and Chancellor Merkel will eventually have to deal with this next year,” an unnamed German minister told The Sunday Times, adding that Berlin had been furious with Mr Juncker “gloating” over the UK referendum result.

Mr Juncker’s constant and unabashed calls for “more Europe”, has led to several of Europe other dissenting members – including Poland, Hungary and the Czech Republic – to lay some of the blame for Brexit at his door.»

Termino como no post anterior: não deixará saudades.

05/07/2016

DIÁRIO DE BORDO: Senhor, concedei-nos a graça de não termos outros cinco anos de TV Marcelo (11)

Outras preces.

«O Presidente da República, pelas suas funções, representa o Estado. O Estado que neste momento, através do poder judicial, acusa Sócrates de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais; o Estado que Sócrates, por sua vez, acusa de estar a ser utilizado, contra a lei, para consumar uma mera perseguição política. Quem ontem se deparou com os sorrisos e os cumprimentos entre o Presidente da República e o arguido do “Processo Marquês”, que terá concluído? Que, condenados a encontrar-se, ambos preferiram fintar os óbvios constrangimentos com uma cortesia banal? Que, como terá comentado o Presidente, em Portugal nunca se “discrimina” ninguém, seja qual for a razão? Ou que nada neste regime é afinal suficientemente sério para impedir um momento de boa disposição?

O “breve encontro” do Presidente da República com José Sócrates não deveria ter acontecido. O Presidente é demasiado importante para correr certos riscos. Em Maio, na inauguração do Túnel do Marão, o actual primeiro-ministro evitou pelo menos deixar retratos com Sócrates. A Presidência da República deveria ter tido ainda mais pudor e recato. O Presidente não se protegeu, ou ninguém protegeu o Presidente. Noutros países, isto teria consequências – porque, por mais estranho que isso possa parecer em Portugal, há países onde a justiça e a política são levadas a sério.»

«Quem protege o Presidente?», Rui Ramos no Observador

Assino por baixo, salvo quanto à necessidade de proteger o presidente que não precisa de protecção porque faz as suas escolhas, já não tem a desculpa da adolescência e deverá responder por elas. Quem precisaria de protecção são os eleitores que ainda retêm um módico de senso e percebem que estes sinais presidenciais são de mau augúrio quando a borrasca visível no horizonte chegar.

DIÁRIO DE BORDO: England Made Her

«Em 1962, os meus pais deixaram-me passar seis meses em Londres. Pela primeira vez na vida, senti-me livre. Ninguém me vigiava, lia o que me apetecia e tinha tempo para reflectir sobre o futuro. Mesmo sem que disso tivesse consciência, quando regressei a Lisboa estava outra. Em 1971, obtive uma bolsa de estudo da Fundação Gulbenkian para frequentar a Universidade de Oxford. É difícil explicar quanto, durante os anos que ali vivi, amadureci intelectual e emocionalmente. Tão forte era a atracção por esta cidade que durante trinta anos, já doutorada, ali passava três meses. Tudo o que, desde então, pensei, disse e escrevi tem a sua impressão digital.

Nenhum outro país me transmitiu, como este, a nobreza de alguém que, no meio de uma crise internacional, se levanta para afirmar: "We shall never surrender." As ideias liberais não me foram apenas transmitidas em conferências, mas em conversas informais, em noticiários televisivos, em peças de teatro, em revistas e em jornais. Vinda de um país, como Portugal, onde a escolástica era tida como uma forma superior de pensamento e a lamechice literária exaltada, a Inglaterra deu-me a possibilidade de ter contacto com obras superiores. 

É difícil explicar quanto devo à cultura inglesa. Nunca esquecerei a excentricidade do warden do meu College, os livros consultados na Radcliffe Camera, as deambulações por Hay-on-Wye e os fins de tarde passados em Port Meadow. 

É por temer o que o futuro nos possa trazer que recordei o poema de W. H. Auden, "In Memory of W. B. Yeats", intitulado 'September 1, 1939'. Aqui fica um extracto, no original, visto não me atrever a traduzi- lo: " ln the nightmare of the dark/ Ali the dogs of Europe bark,/ And the living nations wait,/ Each sequestered in its bate;"

Excerto de «England Made Me», Maria Filomena Mónica no Expresso

04/07/2016

BREIQUINGUE NIUZ: Unintended consequences

US surpasses Saudi Arabia in oil reserves

Rystad Energy estimates US has 264bn barrels of recoverable oil


Lembrete:
Nos últimos 70 anos, a política externa americana foi fortemente condicionada pela necessidade de manter sob controlo reservas estratégicas de petróleo de onde a aliança com a Casa de Saud e o foco na região. A menor dependência a longo prazo do petróleo, pelo desenvolvimento das energias renováveis, e o aumento das reservas conhecidas em território americano proveniente do shale oil estão a reduzir drasticamente o interesse dos EU na região. Isso a par da importância crescente do Pacífico na estratégia americana, por via da emergência da China como potência mundial, não deixará de ter consequências para uma Europa que não consegue assegurar sozinha a sua defesa e a «adjudicou» depois da II Guerra Mundial aos aliados americanos. É também aqui que o Brexit terá consequências.

Crónica da anunciada avaria irreparável da geringonça (38)

Outras avarias da geringonça.

Recordam-se de Costa se vangloriar das greves estarem em extinção no seu governo? Nem de propósito, os sindicatos da Saúde já estão a preparar as suas.

Uma vez mais as previsões do FMI de crescimento de 2016 foram revistas de 1,4% em Abril para 1%; e as de 2017 foram revistas para 1,1% . Talvez por isso, Centeno parece admitir que as suas projecções são insustentáveis, mas, debatendo-se com o célebre dilema dos chapéus (o do político e do economista), espera - uma semana depois do Brexit, note-se - «uma aceleração da economia ao longo do ano». Será uma espera mais longa do que a espera de Godot, já que é duvidoso até mesmo atingir a meta revista em baixa para 1,2%. Vejamos outra vez o carrossel das previsões no diagrama seguinte do Público:


03/07/2016

CASE STUDY: Os referendos e a sabedoria das multidões

Há quem acredite na sabedoria das multidões, como James Surowiecki, o autor do grande sucesso de há 10 anos «The Wisdom of Crowds: Why the Many Are Smarter Than the Few and How Collective Wisdom Shapes Business, Economies, Societies and Nations». Contudo, a fé nessa sabedoria pode ser um pouco exagerada. O próprio Surowiecki aponta algumas condições para uma multidão tomar decisões «sábias»: diversidade de opinião (o que exige acesso autónomo à informação), independência (o que requer reduzida ou nula influência de outras pessoas), descentralização (especialização e acesso a conhecimento local) e agregação (existência de um processo de transformar juízos pessoais numa decisão colectiva).

Um referendo só assegura indiscutivelmente a agregação. A diversidade de opinião e a independência dificilmente são asseguradas por campanhas altamente manipulatórias vulgares nos referendos – veja-se o caso do Brexit. Mesmo sem campanha, são múltiplos os exemplos dos preconceitos que contaminam a opinião pública até em aspectos relativamente objectiváveis. Alguns exemplos americanos e britânicos (extraídos daqui e daqui):
  • Os americanos pensam que os imigrantes representam um terço da população – na realidade são 14%; 
  • Os britânicos julgam que um quarto da população é muçulmana – na realidade são 5%;
  • Há mais britânicos que pensam que é na ajuda externa que o governo gasta mais do que nas pensões ou na educação – na realidade a ajuda externa representa apenas 1% do total; 
  • Os americanos acham que um quarto das adolescentes engravidam todos os anos – na realidade são 3%;
  • Mais de três quartos dos americanos pensam que estão preparados para a reforma mas apenas cerca de 60% fazem poupanças com esse propósito;
  • Só metade dos americanos sabe que os fundos de investimento não garantem rendimento;
  • Quatro em cada dez americanos subestimam a esperança de vida dos reformados em 5 ou mais anos;
  • A propósito da morte recente de uma criança por um jacaré na Disney World em Orlando, o jacaré foi considerado um animal perigoso – na realidade causou apenas uma morte no período 2001-2013; nesse período o maior número de morte foi causado por insectos e em terceiro e quarto lugares encontravam-se cães e vacas.
Parte dos juízos preconceituosos resulta da inumeracia geral. Alguns exemplos:
  • Só 56% dos respondentes americanos de um inquérito foram capazes de dizer quanto receberia cada um de 5 acertadores num jackpot de 2 milhões;
  • Só um quarto dos britânicos foi capaz de calcular a probabilidade de duas caras (ou coroas) em dois lançamentos consecutivos de uma moeda.
Chegado aqui, ocorre-me perguntar qual o grau de preparação dos eleitores britânicos para responder à pergunta?

QUEM SÓ TEM UM MARTELO VÊ TODOS OS PROBLEMAS COMO PREGOS: O alívio quantitativo aliviará? (42) Unintended consequences (XII) – A punição dos aforradores

Outras marteladas.

Uma das consequências perversas do intervencionismo dos bancos centrais com taxas de juro negativas ou próximas de zero é punir os aforradores e desincentivar a poupança. É claro que a punição dos aforradores só tem impacto social se houver aforro significativo. Por isso, a política do BCE não preocupa os países onde a poupança é desprezível – não por acaso os países onde a bancarrota teve mais impacto e a recessão foi mais violenta -, países cujos eleitorados são constituídos por uma maioria esmagadora de devedores a quem as taxas de juros baixas permitem empurrar com a barriga os seus débitos.

Economist
Ao contrário, os eleitorados aforradores como a Alemanha e a Holanda (poupança em percentagem do rendimento disponível de 17% e 14% respectivamente) não apreciam a situação e apreciam-na ainda menos quando consideram os baixos rendimentos dos seus fundos de pensões que no caso da Holanda atingem 1,3 biliões de euros ou quase o dobro do seu PIB. Compare-se com o montante pífio do nosso Fundo de Estabilização da Segurança Social de 13,5 mil milhões (2014) ou 7,8% do PIB que cobrem menos de 14 meses de pensões.

Os defensores do intervencionismo monetário fintam a questão com a lengalenga de que os alemães e os holandeses adoram poupar e vêem os empréstimos como imorais – o argumento definitivo é que, em alemão como em holandês (uma língua muito próxima do alemão), uma das palavras para designar dívida é culpa.

Por muito que se finte a questão, as fintas deparam-se com a dura realidade: sem poupança não há investimento e sem investimento não há crescimento.