Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

27/11/2012

Lost in translation (162) – Eu não faço ideia do que os empresários portugueses querem e podem fazer, mas não vou ficar calado

Segundo o ministro da Economia, o governo vai esforçar-se por «apoiar a agenda de reindustrialização» com políticas do Governo «viradas para voltar a apostar nos setores produtivos, no setor exportador, na nossa indústria». Deve ser uma coisa parecida com o regresso ao Mar ou o regresso à Lavoura (uma bela palavra que Paulo Portas deixou cair em desuso).

Agora que o ministro parece querer fazer o lugar dos empresários, espero que não resolvam estes fazer o papel dele.

26/11/2012

CAMINHO PARA A SERVIDÃO: Os comunistas portugueses deveriam fazer uma viagem ao passado dos sovietes

«Está neste momento em Portugal, um país onde um partido comunista, o PCP, representa pelo menos um décimo do eleitorado. O que gostaria de dizer aos apoiantes desse partido, tendo em conta a experiência que viveu na Polónia?

Diria que não compreendo sequer como se pode apoiar um partido comunista perante a experiência daquilo que aconteceu noutros países, perante o fracasso económico, o facto de não haver nada nas lojas e de haver todo o tipo de constrangimentos, as perseguições, as humilhações, a proibição da livre expressão e pensamento...


A via chinesa para a regulação dos mercados

«In the aftermath of the Asian financial crisis in 1999, the head of financially troubled Ping An Insurance pushed Chinese officials to relax rules that required the company to be broken up. Insurance executives made a direct appeal to the vice premier at the time, Wen Jiabao, as well as the China’s central bank — two powerful officials with oversight of the industry.

In the end, Ping An was not broken up and went on to become one of China’s largest financial services companies, a $50 billion powerhouse. Behind the scenes, shares in Ping An that would be worth billions of dollars once the company rebounded were acquired by relatives of Mr. Wen, who became prime minister in 2003.

The New York Times reported last month that the relatives of Mr. Wen had grown extraordinarily wealthy during his leadership. The greatest source of wealth, The Times reports, came from the shares in Ping An bought about eight months after the insurer was granted a waiver to the requirement that it be broken up.»

Lobbying, a Windfall and a Leader’s Family, NYT

CONDIÇÃO MASCULINA: Minoria mentalmente diminuída

Sabendo-se que a maioria dos estudantes que entram nas universidades e a maioria cada vez mais esmagadoras dos licenciados são do sexo feminino não deveria ser surpresa que sejam igualmente raparigas a maioria dos vencedores de bolsas de estudo para o ensino superior atribuídas pelo programa «Quero Estudar Melhor» promovido pelo Expresso e a Prébuild .

25/11/2012

A maldição da tabuada (13) – se não sabe fazer contas, não devia querer governar

Em alternativa ao corte de 4 mil milhões na despesa pública que o governo se propõe fazer, António José Seguro tem defendido crescimento em vez de austeridade, aumentando o PIB e assim baixando o rácio défice/PIB para 4,5%. Se reduzirmos esta conversa encantatória e o raciocínio miraculoso que lhe subjaz à aritmética mais elementar, a coisa não resiste a meia dúzia de contas. Contas que o blogue «Será que os anjos têm sexo?» fez e que aqui reproduzo e subscrevo:

«O PIB 2012 previsto para 2012 é de 166.341,1 milhões de €.
Se o PIB cair 1% em 2013, como previsto, será nesse ano de 164.677,7 M€.
A meta do défice é de 4,5% deste último valor, ou seja 7.410,5 milhões de €.
Se são necessários 4.000 milhões de cortes na despesa para atingir essa meta, é que o défice previsto sem essa correcção seria de 11.410,5 milhões, o que corresponde a 6,93% do PIB de 2013.
Para que este défice de 11.410,5 milhões corresponda, sem a correcção, a apenas 4,5% do PIB, este teria de crescer em 2013 até 253.566,6 milhões de €, ou seja, o crescimento do PIB teria de ser de 88.888,9 milhões de euros, o que representa um crescimento de 54%.»

Em conclusão, não estou satisfeito com este governo, mas o que posso esperar de um hipotético governo liderado por um sujeito que não sabe fazer contas e não encontra entre os seus prosélitos alguém que saiba? É o trilema de Žižek.

DIÁRIO DE BORDO: O Grande Auditório Gulbenkian, não é apenas o Met dos tesos

Também é o cabaré dos tesos dos remediados, como ontem com a Ute Lemper a fundir o mundo da música erudita com o mundo da chanson, na sua própria definição, interpretando com um estilo pessoalíssimo Michel Emer, Weil, Piazzolla para só citar os mais conhecidos, acompanhada pelo quarteto Vogler e pelo homem-orquestra Stefan Malzew, e a fechar com um encore de Weil, um «Speak low» com muita improvisação e swing. Desta vez os bárbaros que deixaram os telemóveis tocar num seu espectáculo no CCB há uns anos ficaram em casa ou desligaram-nos.

Graças à providência ou ao acaso, o grande corruptor Calouste Gulbenkian resolveu um dia ir dormir ao Hotel Avis.

DIÁRIO DE BORDO: Caught in the Act (21)

John F. Kennedy

24/11/2012

LOGBUCH: Ich bin kein Berliner. Ich bin Portugiesisch, die mehr oder weniger die gleiche ist (2)

aqui tinha concluído que o vídeo promovido pelo picareta falante professor Marcelo era um disparate em todas as dimensões.

A propósito de uma discussão tida com um amigo sobre o endividamento pantagruélico da cidade de Berlim, admiti que a cidade de Lisboa pudesse em termos relativos estar ainda mais endividada, pelo menos antes de o governo central ter dado uma mãozinha a António Costa, «comprando» à Câmara os terrenos do aeroporto, do CCB e do Parque das Nações o permitindo-lhe assim reduzir a dívida que estava antes dessa «compra» em 700 milhões.

ESTÓRIA E MORAL: Os arrependidos

Estória

Haverá uma boa explicação para o CDS ser um viveiro de socialistas eméritos que ao aproximar-se a terceira idade fazem o coming out? Talvez seja o «S». Seja como for, assim de repente, para só citar la crème de la crème, ocorrem-me o professor Adriano Moreira, o professor Freitas do Amaral, o Dr. Basílio Horta. Tenho esperança de um dia poder acrescentar a esta lista o Dr. Paulo Portas.

Talvez o caso mais exemplar seja o de Freitas do Amaral a quem o (Im)pertinências já identificou várias fases: cristão-democrata, rigorosamente centrista, social-democrata, socialista e indeciso. Ultrapassada esta última fase, surgida das angústias da sua participação no governo que mais arruinou o país, Freitas do Amaral retornou à casa socialista fazendo coro com Mário Soares nas suas críticas ao governo de Passos Coelho.

Numa das suas últimas aparições com a persona socialista, Freitas do Amaral deu mais um salto na sua evolução e revela o seu desvelo pela democracia directa declarando em entrevista ao DN que «o povo tem de dizer se concorda ou não com este caminho».

Para quem possa ter dúvidas, o «caminho» a que o emérito socialista se refere não é o caminho feito pelos sucessivos governos, incluindo os que ele participou, que nos conduziram à insolvência onde nos encontramos, «caminho» percorrido com o seu aplauso ou silêncio, conforme as ocasiões, mas um outro «caminho» feito por imposição dos credores.

Moral

«O arrependimento é um segundo pecado» (Baruch Spinoza).

RETROSPECTIVA: Um breve historial impertinente de algumas das muitas ressurreições do professor Freitas do Amaral.

LEMA: «Os cidadãos deste país não devem ter memória curta e deixar branquear as responsabilidades destas elites merdosas que nos têm desgovernado e pretendem ressuscitar purificadas das suas asneiras, incompetências e cobardias.»

23/11/2012

SERVIÇO PÚBLICO: Podia ser muito pior (4)

[(1), (2) e (3)]

Pela primeira vez desde há décadas os défices gémeos (défice primário das contas públicas e défice das contas externas) estão quase anulados. À custa de uma austeridade duríssima, dirá em coro a oposição e com ela o jornalismo de causas. Claro. No pain, no gain.


Fonte: Economist
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E somos o menos pig dos PIGS, salvo no crescimento. Porém, como disse Mário Soares em 1984, durante a 2.ª intervenção do FMI, «não se fazem omoletas sem ovos. Evidentemente teremos de partir alguns».

DIÁRIO DE BORDO: Caught in the Act (20)

Albert Einstein, com ar ligeiramente perdido, durante uma palestra
na American Association for the Advancement of Science in 1934.

22/11/2012

O pior dos melhores é o melhor dos piores (ou vice-versa)

Deve haver uma explicação para a discrepância entre os juízos do jornalismo de causas doméstico e dos comentadores do regime sobre o ministro das Finanças Gaspar e os juízos que nas instâncias políticas e jornalísticas europeias se fazem sobre um Gaspar que parece outro. Vou limitar-me aos factos.

No mesmo dia em que o ministro alemão das Finanças Schäuble, que não precisaria nada de engraxar Gaspar, releva o seu desempenho, o Financial Times coloca-o no 10.º lugar entre os 19 ministros da Zona Euro, depois de o ter classificado em 12.º no ano passado.

Dirão os jornalistas de causas e os comentadores do regime, quanto ao 10.º lugar, e daí? Pois se o homem tem 9 à frente dele. Pois tem, direi eu, e tem 9 atrás dele: o holandês, o dinamarquês, a austríaca, o britânico, o francês, o grego, o húngaro e o espanhol, por esta ordem.

Pode Gaspar não ser uma estrela no firmamento financeiro, mas, que diabo, e o que dizer de Teixeira dos Santos, durante 6 anos levado num andor pelo jornalismo de causas e os comentadores do regime, a quem o FT colocou em último lugar em 2008, em 15.º em 2009 e em 16.º em 2010?

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: A novela RTP continua a ser transmitida

Secção Musgo Viscoso

Se há coisa em que o governo falhou fragorosamente foi quanto à «reforma» da RTP. Escrevo reforma à míngua de saber qual o propósito das trapalhadas à volta deste elefante branco cuja única utilidade parece ser a de servir de megafone. Em primeiro lugar, das mais de 2 mil criaturas que o cavalgam, em segundo lugar dos governos em exercício e subsidiariamente dos lóbis das múltiplas corporações que parasitam o Estado.

A adicionar à confusão já instalada, muito bem aproveitada pelos controleiros das tais 2 mil criaturas, vem agora o presidente do CA da RTP manifestar a «convicção» que, por outras palavras, tudo ficará na mesma, no que foi admoestado pelo inefável Relvas que nos esclareceu que «a seu tempo será tomada» uma decisão, que tudo indica seja ficar tudo na mesma, talvez reduzindo uns trocos nas indemnizações compensatórias.

Pela produção desta novela bafienta, leva o governo 4 urracas e 5 pilatos e o inefável Relvas leva 4 bourbons por continuar igual a si próprio. O gestor das cervejas leva 3 chateaubriands, por razões que não será preciso explicar e, mesmo que fosse, não estou para aí voltado a esta hora da noite.

21/11/2012

Pro memoria (81) - Vamos pôr a crise em perspectiva

Segundo a Autoridade para as Condições de Trabalho, em Setembro deste ano havia cerca de 17 mil trabalhadores com salários em atraso. Segundo a Sociedade Portuguesa de Neurologia, a crise está a fazer-nos engordar devido ao consumo de alimentos mais baratos.

Durante a crise e intervenção do FMI em 1983-4, na vigência de um governo de Mário Soares, havia 100 mil trabalhadores com salários em atraso e o bispo vermelho de Setúbal falava em fome. Dizia o então primeiro-ministro que «os problemas económicos em Portugal são fáceis de explicar e a única coisa a fazer é apertar o cinto». O mesmo Soares que agora acusa o governo de Passos Coelho de levar o país à miséria, apela à insubordinação e à demissão do governo.

Não há pachorra

Não há pachorra para ouvir as luminárias, silenciosas, a maioria, ou, quanto muito, produzindo discursos redondos, enquanto caminhámos durante décadas para o nosso «fiscal cliff», virem agora partilhar connosco as suas angústias existenciais. Como é o caso da presidente do Conselho de Finanças Públicas, doutora Teodora Cardoso, que disse ao canal ETV:
«Os mercados financeiros sabem que o défice parece uma coisa, mas é outra. Nessa perspectiva é muito difícil aliviar a austeridade. O erro foi no início ter-se subestimado o efeito das medidas de austeridade. O programa foi feito admitindo que o efeito da austeridade seria menor do que foi.»
Os défices ou, mais exactamente, a abundância deles, mesmo aldrabados pelos vários governos, com especial destaque para os de José Sócrates, sempre me pareceram que só podiam conduzir-nos onde nos encontramos. A mim, que não sou luminária, parece-me muito mais difícil antecipar o efeito das medidas de austeridade do que o efeito do acumular dos défices desde o tempo da outra senhora.

LEMA: «Os cidadãos deste país não devem ter memória curta e deixar branquear as responsabilidades destas elites merdosas que nos têm desgovernado e pretendem ressuscitar purificadas das suas asneiras, incompetências e cobardias.»

DIÁRIO DE BORDO: Caught in the Act (19)



Martin Luther King Jr.

20/11/2012

BREQUINGUE NIUZ: Lá se foram mais 3 ases

Apesar da conversão de Hollande ter levado o redressement a ficar cada vez mais parecido com a austerité, isso não evitou a Moody’s retirar à dívida francesa o triple A, a exemplo da Standard & Poors. Resta assim, por agora, o triple A da Fitchs, uma agência da qual é accionista maioritário a Fimalac, uma holding francesa de Marc Ladreit de Lacharrière, enarca com um château com o seu nome de família.

Por falar em agências de rating, já tenho saudades do tempo em que os problemas da dívida portuguesa resultavam dessas criaturas diabólicas.

Talvez eles tenham razão, mas não é evidente

Talvez Luís Fazenda, o marxista-leninista da UDP agora em serviço no BE, tenha razão e seja mesmo necessária uma nova lei (a coisa não vai lá sem mais leis) para «saber exactamente quem são os donos dos media em Portugal». Mas não é evidente, porque o que podemos verificar, independentemente de quem são actualmente esses donos, e encontramos donos que vão do governo português à cleptocracia angolana, passando por toda a espécie de grupos empresariais, é o domínio absoluto do jornalismo de causas que com muito mais impudor do que o mais despudorado dos donos passa e repassa a agenda da esquerda adoradora do Estado.

ESTÓRIA E MORAL: Tudo por uma boa causa

Estória

«A vida de José Dirceu dava um romance, um extraordinário romance por cujas páginas passaria a história dos últimos quarenta e tal anos do Brasil. Ouvi falar em Dirceu, como um mito da esquerda brasileira que corajosamente enfrentou a ditadura militar, muito antes de ele se ter tornado o todo-poderoso ministro político de Lula. Mas só o conheci pessoalmente bem mais tarde, já o "Mensalão" o tinha obrigado a sair do governo e estava ele reconvertido a uma actividade difusa, entre o Brasil, Portugal e Angola - em cujos países, todavia, a sua lista de amizades revelava melhor do que qualquer de visita ao que se dedicava ele: tráfico de influências político-empresariais. Pareceu-me que esse destemor, associado à impopularidade de que gozava no Brasil, só podia significar que ele não levava a sério a hipótese de vir a ser julgado e condenado pelo seu papel de mentor do "Mensalão".

19/11/2012

Mitos (90) - «Os ricos que paguem a crise»

Quando chega a altura de fazer os ricos pagar, conforme a bíblia da esquerdalhada, aumentando a «taxa adicional de solidariedade» (esta criatividade ao serviço do esbulho estatal comove-me) de 2,5% para 5% nos rendimentos superior a 250 mil euros o resultado são 25 milhões de euros. Os 2,5% adicionais valem menos de 1/4 de uma redução de 1/8 da percentagem da taxa de solidariedade, de 4% para 3,5%.

Conclusão, os ricos nunca pagaram nem pagarão a crise. Quem paga a crise é a classe média, como se sabe desde pelo menos o Cardeal Mazarino.

«Colbert : Nous ne pouvons pas taxer les pauvres plus qu’ils ne le sont déjà.

Mazarin : Oui, c’est impossible.

Colbert : Alors, les riches?

Mazarin : Les riches, non plus. Ils ne dépenseraient plus. Un riche qui dépense fait vivre des centaines de pauvres.

Colbert : Alors, comment fait-on?

Mazarin : Colbert, tu raisonnes comme un fromage (comme un pot de chambre sous le derrière d’un malade) ! il y a quantité de gens qui sont entre les deux, ni pauvres, ni riches… Des Français qui travaillent, rêvant d’être riches et redoutant d’être pauvres ! C’est ceux-là que nous devons taxer, encore plus, toujours plus ! Ceux là ! Plus tu leur prends, plus ils travaillent pour compenser…C’est un réservoir inépuisable.»

LE DIABLE ROUGE" de Antoine RAULT