Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

03/02/2012

Índice de civilidade segundo o presidente do município

O presidente de Câmara do Porto, Rui Rio, vai apresentar na próxima 3.ª Feira uma proposta à vereação de alteração do Código Regulamentar para proibir «urinar na via pública» e «cuspir para o chão», entre outras coisas.

Não consta que a proposta preveja a proibição dos munícipes defecarem na via pública. Não deveria o preclaro presidente fazer um aditamento? 

Sugestão de cartaz

02/02/2012

Porque não há crédito para as empresas viáveis? (II)

Continuação de (I)

Se a banca tem um funding limitado (o mercado interbancário deixou há muito de funcionar e as poupanças dos portugueses são mais raras do que o lince da Malcata) tem necessariamente uma liquidez limitada e cada euro de crédito concedido às empresas públicas é um euro a menos no crédito às empresas privadas.

Citando os números do BdeP disponibilizados ao Diário Económico, as 355 empresas públicas fora do perímetro de consolidação têm quase seis mil milhões de crédito (média de 17 milhões) contra 115,8 mil milhões para mais de 240 mil empresas privadas (média de 481 mil euros). Situação agravada pelo facto do crédito concedido às empresas públicas ter aumentado 14% e o concedido às privadas reduziu-se de 1,7%.

Confirma-se assim que a resposta é, uma vez mais, porque o crédito é canalizado das empresas viáveis para as empresas inviáveis.

DIÁRIO DE BORDO: Imagens da NASA (8)

Calhau fotografado na segunda missão Apollo 17 EVA

01/02/2012

SERVIÇO PÚBLICO: O monstro eléctrico (2)

Há dois meses e meio, o (Im)pertinências transcreveu um artigo de Mira Amaral num post baptizado de «O monstro eléctrico». Por coincidência, 50 luminárias acabam de publicar um manifesto denunciando o desastre da política energética socrática onde também aludem ao «monstro eléctrico». Segundo eles, o manifesto já estava pronto no fim do ano passado, mas por aquelas coincidências muito frequentes no complexo político-empresarial socialista (inclui, além dos empresários do regime, os socialistas das tendências PS, PS-D e CD-S) surge uns dias antes da apresentação do novo plano energético pelo governo.

Aparte estas manobras habituais no portugal dos pequeninos, a verdade é que a política socrática de energia foi um desastre que em 5 anos injectou mais de 7 mil milhões de euros de subsídios para viabilizar projectos inviáveis. Tudo com grande pompa e circunstância que o inefável Mexia tem aproveitado para promover a sua imagem de campeão das renováveis e presidente de uma das «eléctricas mais sustentáveis do mundo».

Esclareça-se que a sustentabilidade mexiática se faz a poder de subsídios, do monopólio do serviço universal, de tarifas políticas nas energias renováveis e do famoso défice tarifário. Tão a poder de subsídios que, imediatamente ao governo de Rajoy os ter congelado, a EDP Renováveis suspendeu os «investimentos» em Espanha.

Outros serviços públicos eléctricos publicados no (Im)pertinências pelos seus contribuintes, por vezes com outras contribuições:

Joe Berardo deixou de estar na moda… e passou a estar falido

Abandonado pelas testemunhas, descartado pela banca do regime (CGD, BES e BCP), pela tralha socrática que o usou no assalto ao BCP (ver este e este posts) e pelo governo de Passos Coelho, Berardo está falido e não tem dinheiro para pagar os mil milhões que lhe emprestaram em 2007, garantidos por acções do BCP valendo hoje um décimo do preço de há 5 anos. A banca do regime já considerou os calotes como fatalidades e provisionou-os como créditos irrecuperáveis.

A acrescentar às suas desgraças autoinfligidas, a sua Fundação está também sem cheta e Mega Ferreira, o presidente em fim de mandato do CCB, onde o Estado paga o estacionamento da colecção Berardo, descobriu agora que se soubesse o que sabe hoje não teria aceitado o convite.

31/01/2012

Joe Berardo deixou de estar na moda

«Nunca lhes fui lá pedir dinheiro. Eles [os bancos] é que vieram oferecer. Fiz um volume de negócios em três ou quatro anos que acho que foi de quase seis mil milhões de euros. ‘O sr. Berardo quer comprar acções?’ Era assim. Era o que estava na moda

Era assim, explicou o Sr. Berardo como o BCP, a CGD e o BES lhe emprestaram dinheiro para participar no assalto ao próprio BCP. Era assim há 6 meses. Mas, como no futebol, o que era verdade ontem pode não ser verdade hoje. Hoje, ou melhor ontem, não apareceu uma única das testemunhas de defesa do Sr. Berardo no julgamento do processo de difamação interposto por Jardim Gonçalves.

Os pulgões do Estado Sucial (2) – os ajustes de contas

Outros pulgões: (1)

«A mentora do Código dos Contratos Públicos, aprovado em 2008 e que regula os ajustes directos feitos pelo Estado, é também uma das principais beneficiadas: a sociedade de advogados Sérvulo & Associados já recebeu 7,5 milhões de euros, por 157 contratos de ajustes directos. Muitos são contratos para defender entidades públicas com irregularidades detectadas em ajustes directos

 Nos últimos 3 anos a mesma sociedade de advogados facturou 7,2 milhões de euros em ajustes directos. Curiosamente, em Fevereiro do ano passado o BdeP pagou-lhes 650 mil euros por assessoria jurídica no caso que levou a apear a administração do BCP de Jardim Gonçalves e a substituí-la pela brigada socrática de Santos Ferreira e Armando Vara.

(Fonte ionline]

SERVIÇO PÚBLICO: O amigo americano deixa a defesa da Europa (mal) entregue a si própria

«THE new “strategic guidance” announced by Barack Obama on January 5th, has triggered a wide-ranging debate about the future of American military power. On the right, critics have lambasted it as “declinist”, principally because, quite sensibly, it seeks to reconcile America’s strategic priorities with the need to find around $500 billion of defence savings over the next decade.



Perhaps the least remarked upon part of the new strategy is the seemingly bleak future for American forces in Europe. It glibly refers to “most European countries” now being “producers of security rather than consumers of it” and talks about a “strategic opportunity to rebalance the US military investment in Europe” following the drawdown in Iraq and Afghanistan. The American military presence in Europe, it hints, is an expensive relic of the cold war and it suggests there are no significant threats to Europe’s security other than Iran developing a nuclear-capable ballistic missile, which supposedly will be countered by the new missile-defence system America is starting to deploy.


The number of European-based American soldiers has already fallen from 213,000 in 1989 to only about 41,000 today. It has already been agreed that one of the US Army Europe’s four combat brigades will return to America by 2015.

The downgrading of Europe, Economist

30/01/2012

ARTIGO DEFUNTO: Jornalismo a soldo é um jornalismo de causas anónimas

Não sei se Cavaco Silva perdeu o tino de vez ou se são os cavaquistas anónimos a tentarem impor a sua agenda de sabotagem das medidas tímidas que Vítor Gaspar está a tomar - imagine-se se o homem fizesse o necessário.

Sei que uma jornalista que se presta a fazer estes recados nem chega a ser uma jornalista de causas. É uma jornalista a soldo.

A metalúrgica do regime afunda-se com ele (5)

Actualização de (1), (2), (3) e (4)

Já foi contado nos posts anteriores a estória resumida da Martifer, uma das empresas amigas do regime durante o socratismo, com vários favores prestados no activo e recebidos no passivo, foi-se afundando desde que entrou na bolsa em 2007, descendo de 10€ para pouco mais de 1€, apesar de levada ao colo pelo jornalismo promocional. Em 2007 foi comprada pela Mota-Engil, outra empresa do regime dirigida pelo ex-estradista Jorge Coelho.

Desde 2008 a Martifer só tem dado desgostos ao doutor Coelho. E continua, nos primeiros 9 meses contribuiu com um rombo de 13 milhões, não obstante estar a desfazer-se dos anéis ou dos dedos, não se sabe.

E os desgostos continuam. A unidade de Benavente da Martifer Construção com 120 trabalhadores vai fechar em Agosto. O homem do sindicato lamenta que «esta empresa recebeu apoios estatais para se instalar em vários concelhos e agora de um momento para o outro manda encerrar a unidade de Benavente que se dedica à metalurgia pesada». Pois. É a maldição da simbiose do jornalismo promocional com os «apoios estatais».

LA DONNA E UN ANIMALE STRAVAGANTE: Para tirar os trapinhos qualquer causa é boa (6)

[Mais trapinhos tirados aqui, aqui, aquiaqui e aqui]

Maminfestação em Davos

Terão a minha admiração no dia em que se maminfestarem contra o Profeta e forem objecto de uma fatwa de lapidação.

29/01/2012

Não chega não parecer sério. É preciso ser sério.

Ficou a saber-se pelo Correio da Manhã (aqui citado pelo Expresso) que José Lello, figura de proa do PS, deputado e ex-membro de vários governos, «gestor de empresas» com uma licenciatura em «Engenheiro» (biografia no site do Parlamento), não declarou ao Tribunal Constitucional uma conta de 685 mil euros, porque «não conhecia bem a lei e não sabia o que tinha de declarar».

Relevemos a ignorância de quem é deputado há quase 30 anos e louvemos apenas o raríssimo espírito de poupança de uma criatura que nos últimos 6 anos declarou ter exercido os seguintes cargos «não» políticos:
  • 2005-2009 Presidente do conselho fiscal do Boavista FC
  • Desde 2007 membro do CA da DST SGPS SA – uma holding com dezenas de pequeníssimas empresas com volume total de negócio de 190 milhões de euros em 2009, cavalgando negócios do regime (energias renováveis, redes de nova geração, etc.)
  • Desde 2006 membro da Advisory Council da Capgemini SA, a sucursal de uma consultora internacional de origem francesa, onde as competências de Lello presumivelmente o qualificam para o lóbi na administração pública.
Para quem queira saber conhecer melhor o currículo de Lello recomenda-se uma viagem pelos posts de Ana Gomes no Causa Nossa.

SERVIÇO PÚBLICO: Diferentes, mas iguais (2)

A Grécia e Portugal não são só diferentes nos pesos que arrastam de dívida pública (aqui nós menos mal do que eles) e de dívida externa (aqui nós iguais a eles). Também são diferentes nas atitudes para com os credores.

Nós portugueses, atentos, veneradores e gratos, enfiamos o rabinho entre as pernas e tentamos escapar entre os pingos de chuva (*), prontos a vender os restos da soberania em troca de mais uns empréstimos para adiar o inevitável. Todos os portugueses? Não. Há um punhado de resistentes, uma espécie de coligação de tristezas não pagam dívidas, que vai desde Mário Soares, acolitado pelos sobreviventes saudosos do socratismo, até Louçã e as suas várias fracções berloquistas, passando pelo Jerónimo de Sousa e os saudosos do poder soviético.

Eles, os gregos rebeldes, fariam a felicidade do doutor Soares e da sua coligação de resistentes. Por agora recusam alinear a sua soberania orçamental para um «comissário do Orçamento», mesmo com o risco de lhes fecharem a torneira dos euros. Se estivéssemos nas vacas gordas poderiam ter sucesso com as suas chantagens, mas não agora que o pasto está seco.

Hole in one
(*) Quem tem tido sucesso assinalável a escapar entre os pingos de chuva, na tradição do seu ex-governador Vítor Constâncio, o ministro anexo, são os apparatchiks do BdeP. Entre outros exemplos possíveis, escolho o carrinho e equipamento de golf de 5 mil euros comprado por ajuste directo há um ano e meio. É uma espécie de prenda que se concederam como prémio da contribuição para o hole in one do país, pela cumplicidade durante pelo menos uma década com o seu silêncio e o seu laudo.

CAMINHO PARA A INSOLVÊNCIA: O que tem que ser tem muita força

Os analistas financeiros, os comentadores, os políticos e as agências de rating têm em comum o facto de não colocarem o dinheiro onde põem as bocas que proferem as respectivas lengalengas, por muito diferentes que estas pareçam. Ao contrário, os investidores, ou especuladores conforme o glossário dos que não gostam dos mercados, arriscam o dinheiro e não falam muito disso. Segundo o prognóstico implícito destes últimos, a probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa a médio prazo seguido de reestruturação continua elevada e a crescer.


Yields da dívida pública portuguesa a 2, 3, 5 e 10 anos (Fonte: Bloomberg)

Estranho? Nem por isso. Há décadas que percorremos o caminho que nos trouxe até aqui. Percorremos e continuamos a percorrer só que sem aquela insensatez alucinada do socratismo. Segundo a Unidade Técnica de Apoio Orçamental, que com o fim do socratismo parece ter acordado duma longa letargia, o ano passado e sobretudo em Dezembro o governo financiou as entidades públicas com quase 10 mil milhões de euros ou mais de 10% da despesa orçamental e apesar disso continuam a acumular-se dívidas em atraso que aumentaram de Junho a Novembro quase 800 milhões e atingiram em Novembro 5,7 mil milhões de euros. Deve ser isto a que o PS chama folga.

28/01/2012

Os portugueses dispensam mais cantigas dos amanhãs que cantam

É certo que foi conversa para a estranja, na circunstância o Wall Street Journal, mas Carlos Moedas anunciar que a descida da despesas primária e do défice estrutural (por agora, ainda sem as verdadeiras reformas, apenas uma miragem) irá permitir a redução dos impostos, parece-me um pouco exagerado, como Mark Twain classificou o anúncio da sua morte. Nas últimas décadas já nos foram anunciados suficientes oásis, princípios do fim da crise, fins da crise, prosperidades sem esforço e sem limites.

ESTÓRIA E MORAL: Esquerdismo senil (republicado)

Propunha-me comentar o discurso de Mário Soares em Coimbra na passada 5.ª feira, onde partilhou com os terrestres dúvidas como «porque não havemos de fabricar euros, quando isso acontecer o problema desaparece» ou o que fazer «quando os militares todos, fardados ou não fardados, começam a manifestar-se nas ruas» e indignações por obedecermos à troika como se «fossemos uns criados», mas lembrei-me que há pouco mais de 2 meses tinha publicado um post que pode aplicar-se mutatis mutandis a todos os seus discursos.


Estória

Era uma vez um Mário Soares. No PREC bateu-se contra a tropa golpista, a versão doméstica da ditadura do proletariado e os esquerdismos. Nos idos dos anos 80 defendeu a intervenção do FMI para salvar as finanças públicas da falência e viu as paredes do país borradas com o seu nome ao lado do FMI.


Agora assina um manifesto em conjunto com os últimos abencerragens do socialismo, refrescados com JS e bloquistas arrependidos. O manifesto propõe-se «combater a crise» com «a mobilização dos cidadãos de esquerda que se revêem na justiça social e no aprofundamento democrático» (isto é, uma minoria de  menos de 1/3 dos cidadãos) e dá como exemplo a «rua árabe». O manifesto propõe um velho rumo a que chama «Um Novo Rumo» e apela à «participação política e cívica dos cidadãos... e... (à) construção de um novo paradigma».

Não se espere deste novo paradigma a ajuda para aumentar a produtividade, retomar o crescimento, tornar a economia competitiva, aumentar as exportações, pagar as dívidas, equilibrar as contas públicas e a balança de transacções correntes. Na verdade, nem mesmo para tratar da parte política da doença: responsabilizar os políticos pelas suas acções e perante os eleitos, diminuir a corrupção e o clientelismo. Tudo indica ser o novo paradigma parecido com o velho - o mesmo que nos trouxe até aqui, com a grande ajuda do doutor Soares .

Moral

A sabedoria não decorre necessariamente da idade. A única coisa que decorre necessariamente da idade são as artroses.

27/01/2012

Pergunta retórica

«O que distingue a escolha dos accionistas da EDP de Eduardo Catroga da dos accionistas do BANIF de Luís Amado?» pergunta Helena Matos.

Tudo. A começar pela EDP ainda fazer parte do núcleo duro das empresas do regime onde as nomeações se deveriam fazer pelo método de Hondt no Bloco Central e o Banif estar apenas na periferia, na zona das simpatias socialistas. A continuar por Eduardo Catroga ter sido ministro do PSD, andar há demasiado tempo no «privado» e ter um certo destempero verbal e Luís Amado ter sido ministro do PS, ser membro do seu secretariado nacional, nunca ter andado no «privado» e conseguir manter uma fleuma britânica. E a acabar porque ainda hoje são visíveis os resultados do excelente trabalho da central de manipulação socrática trabalhando sobre as inclinações naturais do jornalismo de causas.

ESTADO DE SÍTIO: Nada está tão mau que não possa piorar

A propósito deste post, também tenho as maiores dúvidas que os resultados positivos das reformas que a equipa de Nuno Crato está a levar a cabo resistam ao alargamento da escolaridade obrigatória até ao 12.º ano e a permanência nas escolas até aos 18 anos. Por duas razões. Primeiro, porque tem o risco de deteriorar a qualidade do ensino e baixar o nível de exigência para evitar a subida da percentagem de chumbos. Segundo, porque a permanência nas escolas de alunos sem o menor interesse em prosseguir os estudos irá inevitavelmente degradar a disciplina e o ambiente escolares.

O resultado final arrisca-se a piorar o retrato da desistência escolar, por muito difícil que isso pareça face à situação actual como se pode ver no diagrama seguinte.


A Nation of Dropouts Shakes Europe, Charles Forelle,Wall Street Journal

O alargamento, aprovado em Julho de 2009 por uma coligação de votos do PS com o PCP e o BE, é como as boas intenções que enchem o inferno. Ou, talvez melhor, é como as intenções que, além de não serem boas, podem transformar num inferno o purgatório das escolas públicas. E as intenções não são boas por reflectirem a obsessão da esquerda com endoutrinação dos jovens à força de «pedagogias modernas» e à custa de «educações» cívicas e sexuais.

26/01/2012

A repeteca do Sócrates que não é filósofo vista pelo filósofo que detesta Sócrates

Com atraso de vários anos, Manuel Maria Carrilho descarrega a sua bílis dos amargos de boca que José Sócrates lhe infligiu:

«Os socialistas decidiram o que entenderam e os portugueses escolheram o que pensaram ser melhor. Opções que, naturalmente, respeitei, com esperança que a responsabilidade do poder viesse a ter algum efeito benéfico. Foi uma esperança vã. A história fala por si, e dispensa comentários: o desnorte com o caso da licenciatura em 2007, a total incompreensão da crise em 2008, a aguda mitomania de 2009 e 2010, a bancarrota em 2011. Pelo meio, um tratado de Lisboa inútil, que só veio reforçar o poder alemão, e um reformismo esfarelado que raramente passou dos anúncios.

Na grande história do Partido Socialista, o "socrazysmo" foi um período atípico, que deixou um longo rasto de oportunidades perdidas, de casos estranhos, de histórias mal contadas e de encenações inúteis. Em seis anos de governação nem tudo foi mau, e seria injusto esquecê-lo. Mas sejamos claros: foram anos sem alma, numa constante deriva de valores e de convicções. Não tirar daqui nenhuma lição seria, no mínimo, estúpido.

Tudo isto torna penosamente patética esta história de "José Sócrates a estudar filosofia em Paris". Sobretudo porque, depois das aldrabices da licenciatura na Universidade Independente (hoje bem documentadas no livro O Processo 95385, Publicações Dom Quixote), tudo o que se lê na reportagem do Expresso lembra irresistivelmente aquilo a que Freud chamou em 1920, no seu Jenseits des lustprinzips, a "compulsão de repetição", e a que os brasileiros, de um modo mais corriqueiro, chamam... uma repeteca.»

[A repeteca, artigo de opinião de Manuel Maria Carrilho no DN]

Pro memoria (49) – «truques orçamentais»

Ouve-se ou lê-se e não se acredita. O deputado socialista Pedro Marques acusou o governo de usar «truques orçamentais» em 2011. Receei o pior. Teria Teixeira dos Santos reencarnado num Vítor Gaspar empurrando a despesa com a barriga e inventando receita.

Puro engano. Os «truques orçamentais» de Gaspar afinal são, sempre segundo o deputado socialista, simétricos dos de Teixeira dos Santos. Segundo ele, foram as receitas extraordinárias que foram «empurradas com a barriga» e a execução da despesa ficou abaixo do orçamentado. A conclusão é conhecida: folgas, medidas de austeridades desnecessárias, bla bla.

Não sei se este governo usou «truques orçamentais». Sei que esta gente socialista, depois de 6 anos a fazer batota, não está em posição de apontar o dedo, a não ser que se retrate dessa batota, o que até hoje não aconteceu. E sei que o FMI considera insuficientes os ajustamentos e diz o que toda a gente sabe: «a meta orçamental foi atingida através de uma transferência parcial dos fundos de pensões da banca, o que implica que o ajustamento subjacente em 2011 tenha sido inferior ao esperado».

Também sei que, como escreve Camilo Lourenço, uma das criaturas lúcidas no jornalismo económico deste país, «o alerta do Fundo é muito bem-vindo. Porque ainda não iniciámos a parte mais dolorosa do programa de ajustamento (corte de despesa corrente e adopção de regras que permitem o crescimento contínuo dessa despesa) e já estamos a cantar vitória. Como se o Estado tivesse deixado de gastar o equivalente a 51,3% do Produto Interno Bruto... E depois admiramo-nos que as taxas de juro de longo prazo estejam acima de 12%. Estão porque têm de estar; porque não estamos a fazer o suficiente para tornar as Finanças Públicas sustentáveis (no pain, no gain). É esta pedagogia que o Presidente da República devia estar a fazer, em vez de se descredibilizar com declarações idiotas sobre as suas despesas