Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

09/11/2011

DIÁRIO DE BORDO: Deve haver uma boa explicação…

… para só os suspeitos ou acusados de crimes de corrupção e os seus advogados se desdobrarem em declarações de fé nos tribunais e na justiça portuguesa.

Mitos (55) – o governo vai mais longe do que o MoU

Todos os dias, resmas de jornalistas de causas e sem causas, comentadores, analistas e políticos da oposição (interna e externa) dizem e escrevem coisas como «Confirma-se: Passos foi mesmo mais longe que a troika». Nem por um momento perpassa pelas mentes dessa gente uma pergunta elementar: mais longe em que sentido e em quê? Pois se, até ver, o défice previsto de 2011 é mais elevado do que o previsto no MoU e se for alcançado será à custa de mais engenharia orçamental, como a transferência de fundos de pensões para a SS. Pois, se até ver, o défice de 2012 será cumprido à queima, isto a verificar-se algo nunca antes verificado nos últimos 35 anos – uma execução orçamental limpa.

ACTUALIZAÇÃO: As folgas do PS (muito bem lembradas por João Miranda no Blasfémias):
  • Janeiro de 2011: “Portugal tem uma folga orçamental de 800 milhões” (disse Sócrates)
  • Novembro de 2011: Seguro diz que há uma «folga orçamental» de €900 milhões

Títulos inspirados (2)

«Cavaco Silva recorre a figura lendária para pedir empenho no trabalho aos portugueses», titula o Negócios citando o Venerando Chefe de Estado a falar aos indígenas de Nelas no «moiral», uma figura mitológica que se moía a trabalhar pastoreando os rebanhos na vizinha serra da Estrela. Após 35 anos de Estado Sucial em cima de quase 50 de Estado Corporativo, tal figura só poderia ser lendária. Bem haja o Venerando professor doutor Cavaco Silva, por no-lo lembrar.

08/11/2011

Mitos (54) – a dívida dos P?GS é filha da crise do subprime e de pai incógnito

«Para quem não se lembre, o problema de hoje começou em 2007 nos Estados Unidos, não nasceu na Grécia, nem na Irlanda nem em Portugal», escreveu Helena Garrido no artigo «O elogio a Papandreou», bastante mais do foro mitológico do que o habitual. Nele é defendida a tese, unanimemente aceite pelo jornalismo de causas, das desgraças do endividamento pantagruélico dos países da Europa meridional (o caso de Irlanda é outro filme, como sempre defendemos) não resultarem de décadas de défices orçamentais e de défices do comércio externo, mas do crash do crédito hipotecário americano.

Tem esta mitologia importância? Tem alguma, precisamente porque é perigosa e bastante popular, como tudo quanto é empurrar a responsabilidade. Não é possível tratar um alcoólatra se ele está convencido que os seus problemas resultam do aumento do preço do briol.

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Equidade? Qual equidade?

«...

(i)Quantos desempregados, dos mais de 13% da população activa segundo os dados oficiais, são desempregados que tinham vínculo laboral efectivo no sector público, central, regional ou autárquico?

(ii)Em contraponto aos milhares de insolvências de empresas registados nos últimos anos, que induziram centenas de milhares de desempregados, quantos serviços públicos ou empresas públicas estatais, regionais ou municipais encerraram as portas lançando seus trabalhadores no desemprego?

(iii)Como comparar a segurança do emprego no sector privado e no sector público - será que a situação é idêntica e que os trabalhadores das empresas privadas em geral sentem a segurança do emprego da mesma forma que os do sector público?

4. Não me parece que estas questões possam ser ignoradas quando se discute a questão da igualdade de tratamento entre os trabalhadores do sector público e do sector privado.

5. E também não me parece adequado que, tendo o Estado que resolver um problema financeiro que alimentou por culpa própria, dos seus gestores ao mais alto nível, no momento em que se vê forçado a tomar medidas de contenção indispensáveis para repor um mínimo de equilíbrio nas contas públicas, nas suas contas, venham altos responsáveis do Estado clamar pela solidariedade dos trabalhadores do privado...

6....Será que o Estado se lembrou dessa solidariedade, sempre que ao longo dos últimos anos foram sucessivamente noticiados, a ritmo ensurdecedor, encerramentos de empresas privadas, normalmente do sector da industria transformadora, lançando no desemprego ou atirando para a emigração milhares de trabalhadores?

7.E será que nos processos de insolvência de milhares de empresas privadas, o Estado credor – fisco e segurança social - tem assumido atitudes de solidariedade, facilitando as recuperações de empresas...
...»

Tavares Moreira no 4R

Títulos (e cartunes) inspirados

«Europe Tries to Rescue Its Rescue», no Wall Street Journal.

Cartune do Guardian

DIÁRIO DE BORDO: Outono nos parques nacionais americanos (1)

Natchez Trace Parkway

07/11/2011

CASE STUDY: O trilema dos okupas

A esquerdalhada parece muito feliz por publicar o discurso do filósofo esloveno Slavoj Žižek aos okupas na acampada de Wall Street, como lhe chamam. Possivelmente muitos deles não saberão que quando a Eslovénia fazia parte do paraíso socialista, venerado por muitos dos pais espirituais dos okupas de hoje, o mesmo Žižek formulou um trilema postulando que, sob um regime de constrangimento ideológico, seriam incompatíveis as virtudes de honestidade, inteligência e adesão sincera a esse regime.


Hoje deveríamos substituir o vértice do comunismo pelo okupismo, o indignismo, e outros ismos.

LA DONNA E UN ANIMALE STRAVAGANTE: Para tirar os trapinhos qualquer causa é boa (5)

[Mais trapinhos tirados aqui, aqui, aqui e aqui]

As meninas do costume (Femen) protestam na praça de S. Pedro em Roma

Uns dizem que é contra o Papa, outros que é contra Burlesconi. Se é que posso ter opinião nestas matérias, parece-me mais provável a primeira hipótese. De outro modo, em vez do crucifixo na boca teriam pintado «Bungabunga» nas maminhas. Não interessa, aquilo é uma pulsão para mostrar as ditas. That’s it.

AVISO: ó meninas do Femen, pela minha parte, não vos dou mais guarida, a não ser que façam uma maminfestação contra o Profeta e sejam objecto duma fatwa de lapidação.

ESTADO DE SÍTIO: Crisis? What crisis? (3)

Crise, austeridade, sacrifício, sofrimento, brutal, cruel, apertar o cinto, duro(a)(eza), injusto, injustiça, são palavras que, juntas ou separadas, nos últimos meses preenchem as «notícias», os comentários, as opiniões, as análises, nos jornais, nas televisões, nos blogues., com verbos conjugados no passado ou no presente.

Vejamos mais de perto. Aparte os desempregados, cujo número não tem parado de aumentar, quantos dos (ainda) com um emprego tiveram até agora uma redução significativa dos seus rendimentos? Zero, niente, nil, rien, nein. Então porquê tantos se queixam, ou melhor a esquerdalhada e o jornalismo de causas se queixam em nome desses supostos tantos?

Porquê então cai o consumo, as famílias têm deixado de amortizar os seus empréstimos, as férias têm sido cá dentro e todo esse cortejo de «sacrifícios», se os rendimentos da maior parte das famílias (ainda) não baixaram e os impostos (ainda) não aumentaram? É o crédito, senhores. É o crédito que se evaporou deixando por tapar os buracos entre o rendimento disponível e as despesas. E os anúncios, senhores. Os anúncios dos amanhãs que choram, em substituição dos anúncios dos amanhãs que cantariam do supremo mistificador. É deprimente? Tomemos Prozac e vivamos dentro das nossas posses.

06/11/2011

SERVIÇO PÚBLICO: BCE, um exército derrotado na guerra do euro

«Imaginemos um exército que parte para a guerra. Tem um poder de fogo tremendo. Os seus generais, no entanto, anunciam que na verdade odeiam aquilo tudo e que limitarão ao máximo os tiros disparados. Alguns deles estão tão incomodados com a perspectiva de entrarem em guerra que até se demitem do exército. Os restantes generais dizem então ao inimigo que o tiroteio será apenas temporário e que as tropas voltarão para casa logo que possível. Qual será o resultado provável desta guerra? Adivinhou. O exército acabará por ser derrotado pelo inimigo.

O Banco Central Europeu tem-se comportado como estes generais. Quando anunciou o seu programa de aquisição de títulos de dívida soberana fez saber aos mercados financeiros (o inimigo) que não gostava nada de o fazer e que deixaria de comprar dívida dos países mal pudesse.



Não há forma mais pateta de implementar um programa de compra de dívida do que a do BCE. Ao tornar claro desde o início que não confiava no seu próprio programa, o BCE garantiu o seu falhanço. Ao mostrar que desconfiava dos títulos que estava a comprar, disse aos investidores que também deviam desconfiar deles

[Quem salva o euro?, artigo de opinião de Paul De Grauwe no Expresso]

De Grauwe é um especialista em sistemas monetários e integração monetária; publicou em Abril «The governance of a fragile zone», um trabalho a propósito do qual o hiper-keynesiano Paul Krugman escreveu «a paper I wish I had written (there is no higher praise)» - whatever that means, I would say.

Alguns podem não concordar com o programa defendido por De Grauwe para o BCE. Ninguém pode concordar com o programa do BCE - é um programa meio-certo ou meio-errado.

Exemplos do costume (7) – a Líbia, esse campeão dos direitos humanos

Já deveria ter sido um choque para os cultores da santidade da ONU, a eleição em 2003 da Líbia do coronel Kadhafi para a presidência do Conselho dos Comissão de Direitos Humanos da ONU, ou a eleição há poucos meses da Coreia do Norte para a presidência da Conferência sobre Desarmamento.

E o que terá sido para esses crentes o relatório da 16ª sessão do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, de Janeiro deste ano elogiar a Líbia por ser um paraíso dos direitos humanos e das liberdades, escassos dois meses antes de 8 dos países que subscreveram o elogio terem apoiado a intervenção da NATO, alegadamente para evitar que o querido líder massacrasse o seu povo?

É certo que o relatório foi assinado por representantes de países conhecidos pelo pouco respeito dos direitos humanos como a China, a Rússia a Nicarágua, Angola, Nigéria e Zimbabué, mas não faltaram outras assinaturas como as da Itália, Holanda, Eslovénia, Espanha, Suécia, Noruega, Hungria, África do Sul, Alemanha e Austrália.

05/11/2011

Lost in translation (127) – a diferença é que nós tínhamos a obsessão certa

A propósito da «eliminação, dita transitória, dos subsídios de férias e de Natal dos funcionários públicos, dos trabalhadores das empresas públicas e dos pensionistas (que) constitui uma injustiça brutal e intolerável na distribuição dos sacrifícios», Pedro Silva Pereira, o terceiro maior responsável pelo descalabro das contas públicas durante 6 anos que tornou essa inevitável «injustiça brutal», explica ser assim porque o PSD sofre de uma «obsessão por medidas do lado da despesa, em detrimento de medidas fiscais, ainda que mais equitativas». Ao contrário, o PS tem a obsessão certa: aumentar os impostos até onde for necessário para cobrir o desvario da despesa pública .

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: O governo de Netanyahu é o melhor aliado do Hamas

Secção Tiros nos pés

Fonte: Economist
O facto de o Protocolo dos Sábios de Sião, um panfleto ridiculamente doentio, ser ainda hoje alimento para os inimigos de Israel, não significa que Israel precise de inimigos. Talvez lhe baste Netanyahu e os seus correlegionários que levaram o governo israelita a autorizar recentemente a construção de mais 1.100 casas num bairro de Jerusalém reclamado pelos palestinos, parte de um projecto de mais de 4.000 casas. Sem esquecer as centenas de colonatos que nas últimas décadas foram semeados na Cisjordânia.


Para Netanyahu e os seus correlegionários, cinco chateaubriands, por estarem convencidos que o pior para os palestinos é o melhor para Israel e cinco bourbons por aí continuarem encalhados.

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Erupção conspiratória nas páginas do Avante

Secção Res ipsa loquitur

Soterrado sob os escombros do colapso do império soviético e camadas sucessivas de verniz democrático, jaz o jacobinismo brontossáurico alucinado. De vez em quando ele irrompe. Desta vez irrompeu directamente nas páginas do Avante no artigo de Jorge Messias «A máquina da morte e a utopia».

Começa por uma citação de Engels que é todo um programa: «Enquanto o proletariado tiver necessidade do Estado, não será no interesse da liberdade mas sim para reprimir os seus adversários!».

Continua com o 1.º mandamento do Protocolo dos Sábios de Sião, um panfleto, possivelmente forjado no final do século XIX, por encomenda de Pyotr Rachovsky da Okhrana (polícia secreta czarista) em Paris. O Protocolo acolhe uma teoria conspiratória de domínio do mundo por um governo sionista secreto e foi muito popular nos meios nazis nas décadas 30 e 40. Foi citado por Hitler no seu Mein Kampf e, pasme-se, referido no artigo 32.º da Carta de fundação do HAMAS: «O plano deles está exposto nos Protocolos dos Sábios de Sião, e o comportamento deles no presente, é a melhor prova daquilo que lá está dito

Jorge Messias (parece paródia, mas é mesmo o apelido do homem) cita de seguida Bento XVI e continua o seu artigo com conclusões sobre «a mãozinha sinuosa dos jesuítas e dos illuminati maçónicos … que repartem ligações entre a Santa Sé, a Maçonaria, o Pentágono e a Wall Street».

Para Messias, com condescendência, dois afonsos pelo arrojo (não leva 5 porque os outros 3 seriam mais pela demência do que arrojo), cinco bourbons por nada ter aprendido e nada ter esquecido e cinco chateaubriands pela alienação. Não leva nenhum ignóbil porque o homem é sincero e autêntico, ao contrário do secretário-geral e das suas justificações.

04/11/2011

As coisas nunca estão tão mal que não possam ainda piorar (2)

Com ou sem referendo, o 3.º piso está à beira de colapsar em cima do 2.º.


Economist

Experimentem: evitar a tributação duas vezes ou …

«O PS quer que o Governo explique a razão de um despacho que permite que os dividendos das participadas para as Sociedades Gestoras de Participações Sociais (SGPS) não sejam tributados em IRC.» (no Público)

…ou evitar a transferência das SGPS para um business center na Holanda, por exemplo em Schiphol encostado ao aeroporto.

LA DONNA E UN ANIMALE STRAVAGANTE: Para tirar os trapinhos qualquer causa é boa (4)

[Mais trapinhos tirados aqui, aqui e aqui]

Hospedeiras rodeando o palhaço Michael O'Leary, CEO da Ryannair

Desta vez a maminfestação teve como pretexto o apoio a crianças com uma doença de pele rara, mas podia ser outra coisa qualquer. Queridas, espero tê-las em breve no meu voo, com esse uniforme.

03/11/2011

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: O joker do poker doméstico palpita sobre o poker europeu (2)

Secção Entradas de leão e saídas de sendeiro

Há 2 dias, o filósofo do regime, numa das suas iluminantes sessões na TVI, classificou a decisão de referendar o plano de resgate da Grécia como «uma jogada genial (no poker europeu), um lance genial de Papandreou».

Certamente sem saber a opinião do nosso joker do poker doméstico e sem o consultar, dois dias depois, Papandreou teve que mostrar o jogo e tudo indica que o «lance genial» foi apenas um bluff.

Por isso mantenho os 5 chateaubriands e 5 bourbons atribuídos ao professor Carrilho e atribuo adicionalmente a Papandreou 4 urracas pela frouxidão e 3 pilatos por ter lavado as mãos do assunto e converter o «lance genial» do professor num bluff vulgar de Lineu.

Post scriptum:
O lance de Papandreou, visto pelo professor Carrilho como genial, começou por ser na 2.ª feira um referendo ao plano de resgate, passou ontem por ser «sim ou não ao euro», até acabar esta tarde no bluff.

Lost in translation (126) – não sou virgem e vim para aqui pela mão do Estado e das empresas amigas do regime…

«Em termos pessoais, não me incomodo muito em ter o Estado como accionista … não seria uma situação virgem. Tive o Estado como accionista durante dez anos na ANA. Por outro lado, a Sonangol é uma empresa gerida por critérios empresariais, mas como vocês dizem, actua como um fundo do Estado», disse com imensa candura Santos Ferreira, o presidente do BCP, transitado directamente da presidência da Caixa depois desta ter participado no assalto ao banco que preside com o governo socialista, os Espíritos, Joe Berardo, entre outros.