Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

05/02/2010

SERVIÇO PÚBLICO: Serviço público? Qual serviço público?

Segundo os jornais, a RTP prevê obter um resultado operacional de 8,8 milhões ou menos cerca de 30% do ano passado. Qual o significado deste resultado operacional para avaliar a eficiência e competitividade duma empresa que recebe mais de 140 milhões de subsídios por ano? Nenhum, claro.

E o serviço público? perguntar-me-ia um adorador do Estado - ou seja 80% dos portugueses, na última contagem. Não tem que ser considerado o serviço público? No fim de contas a RTP até jura que a redução do resultado operacional resulta do «reforço do serviço público». Pois claro que tem. Procurai então descobri-lo na programação de hoje do canal 1 e do canal 2.

04/02/2010

BREIQUINGUE NIUZ: a borrasca agrava-se

Almunia manda recados ao governo português. Os spreads da dívida pública grega a 5 anos já vão em 4,14%. Os de Portugal aumentaram para 2,09%. O PSI está a perder vários pontos percentuais. Solidariamente, o mercado de capitais de coronel Tapioca ultrapassa pela esquerda o do amigo Sócrates. A imprensa internacional que nos costuma ignorar apercebe-se que estamos a naufragar.

Exageram? Não parece. A dívida pública mais do que duplica nos anos do socratismo: aumenta de 41,6% do PIB em 2005 para 88% em 2010 e, se lhe adicionarmos a dívida das empresas públicas e os compromissos com as PPP a coisa atinge a percentagem astronómica de 122% (contas de Pinho Cardão, aqui, próximas das de Dezembro do (Im)pertinências, aqui).

Sócrates «ameaçou (?) demitir-se por causa de 0.05% do PIB quando tem um défice de 9.3%» e, qual Ulisses amarrado ao mastro do autismo, não ouve nada porque tem os ouvidos tapados com a cera do desespero e da falta de saídas.

BREIQUINGUE NIUZ: metendo mais náufragos na jangada e invocando o armador

«O ministro das finanças grego diz que Portugal e Espanha terão problemas semelhantes ao da Grécia. "Depois da Grécia, haverá outros países, como Espanha e Portugal". A previsão de que a crise de dívida da Grécia chegue a outros países serviu para Papaconstantinou exemplificar que o problema grego é um assunto que diz respeito à zona euro.» (DE)

ESTADO DE SÍTIO: cantata ao governo e seus ministros (incluindo os anexos)

Tu non m'inganni più


[A propósito deste, deste e deste posts, para não ir mais longe]

03/02/2010

Agências de rating? Jamé, disse ele.

«O ex-ministro das Obras Públicas adoptou um tom critico em relação às agências de notação financeira, admitindo mesmo que "daqui a meia dúzia de anos já não existam", apontando para a história ainda relativamente curta destas organizações

O pensamento do ex-comunista é arrojado? E porque não? O COMECON não foi extinto?

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: eu não sei o que será do governo se o ministro anexo for para Frankfurt

Secção Com a verdade me enganas

«A redução do défice vai exigir novas e difíceis medidas de contenção da despesa e presumo, alguns aumentos de impostos indirectos», disse Vítor Constâncio, preparando o terreno para o anúncio pelo governo que há-de chegar um dia destes. A previsão do decano dos ministros anexos, rigorosa como os 6,83%, foi revelada, na conferência da Antena 1 e do Jornal de Negócios sobre «O Estado e a competitividade da economia portuguesa», que teve como oradores algumas das principais criaturas responsáveis pela falta de competitividade, como oportunamente chamou a atenção neste post o blasfemo JM.

Três ignóbeis, pelo papel  que o ministro anexo se presta a desempenhar, e cinco bourbons por não abdicar de o desempenhar com gusto.

Já está a ser respondida a minha pergunta

Sabendo-se que o acordo entre o ministério da Educação e dos sindicatos dos professores permite uma promoção mais rápida do que a dos restantes funcionários públicos, como irão reagir as outras corporações? Perguntava-me um dia destes.

A resposta chega-me via um diário da manhã: «Médicos exigem excepções nas quotas como os professores».

O ruído do silêncio da gente honrada no PS é ensurdecedor (5)

«Armando Vara terá tentado o exercício de influência sobre o ministro Mário Lino, por causa dos negócios de Godinho na Refer; terá solicitado e recebido dez mil euros para apresentar Godinho a Paiva Nunes, da EDP Imobiliária, e terá ainda recebido 25 mil euros por conseguir que Paiva Nunes “arranjasse trabalho” ao sucateiro de Ovar.» (Jornal de Negócios)

02/02/2010

Estado empreendedor – (26) Cosec V

[Continuação de (5), (11), (16), (20) e (24)]

Em Abril, Sócrates anunciou a intenção de comprar; em 1 de Julho Teixeira dos Santos anunciou o «trabalho feito»; em 22 de Outubro o «trabalho feito» continuava por fazer; em 10 de Novembro o governo «estava a tentar comprar» mas a Euler Hermes não queria vender o que o governo já tinha dito que estava acordado, comprado e feito; em 9 de Dezembro o ministro da Economia disse ao Diário Económico que a nacionalização, indispensável em Abril para apoiar as exportações, deixou de o ser.

«Posto de parte não está, mas não se tem falado no assunto ultimamente», disse ontem Teixeira dos Santos. Em 1 de Julho do ano passado também tinha dito no parlamento que estava a «finalizar as peças contratuais» e ontem, a propósito das trapalhadas do défice, também disse «Eu não engano. Eu engano-me.». É inegável que mantém uma certa consistência.

A atracção fatal entre a banca do regime e o poder (2)

aqui se recordou a atracção fatal inscrita nos genes dos Espíritos, atracção de que Ricardo Salgado nos dá mais um significativo exemplo com a entrevista ao Diário Económico, afinal o seu jornal via Ongoing. Alguns excertos que qualificam Ricardo Salgado como outro ministro anexo fazendo eco das teses míticas do governo:

«… maus rácios que Portugal está a apresentar, muito devido às análises das agências de ‘rating'» (fazendo aqui o papel de repetidor de Teixeira dos Santos)
«… Portugal é um país que pode estar num processo de morte lenta. É inqualificável.» (enfiando a cabeça na areia e esquecendo que há dez anos que vivemos em ecoanomia, muito graças aos seus amigos do PS)
«… Portugal está relacionado com países emergentes que estão a crescer e que estão interessados em Portugal» (wishful thinking na reversão do colonialismo?)

Lost in translation (29) – esqueci-me de perguntar ao doutor Constâncio, queria ele dizer

«Eu engano-me, mas não engano. Que me posso enganar admito, mas o que se passou foi que fomos confrontados com condições que nos fizeram rever os números», confessou com assombrosa inocência o ministro das Finanças para justificar esta novela ainda hoje aqui descrita no (Im)pertinências.

Escusava bem de ter errado em 322,7% no défice, que começou em 2,2% e acabou em 9,3%. Bastaria ter pedido ao governador do BdeP Vítor Constâncio para o estimar, o mesmo Constâncio que conseguiu a enorme proeza de estimar o putativo défice que o primeiro governo Sócrates herdaria se até ao final de 2005 não tomasse as medidas que ele, doutor Constâncio, sabia que haveria de tomar porque já tinha nascido o eu do «está para nascer um primeiro-ministro que faça melhor no défice do que eu».

Se tal tivesse acontecido, Vítor Constâncio, que estimou 9 meses antes o défice as if de 2005 em 6,83% (seis vírgula oitenta e três por cento), teria informado Teixeira dos Santos que no final do 2009 o défice seria de 9,31416%.

[Este post foi inspirado numa ideia do Corta-Fitas, via Insurgente]

01/02/2010

BREIQUINGUE NIUZ: o querido líder resolve mais um problema

O problema desta vez chamava-se Mário Crespo e foi resolvido a propósito deste artigo que deveria ter sido publicado no Jornal de Notícias.

[Primeiro, eles vieram atrás dos jornalistas que os criticavam com ferocidade. Os jornalistas não protestaram, porque a maioria não os criticava com ferocidade. Depois eles vieram atrás dos jornalistas que simplesmente os criticavam. Os jornalistas não protestaram, porque a maioria simplesmente não os criticava. Depois eles vieram atrás dos jornalistas que não os elogiavam. Os jornalistas não protestaram, porque a maioria dos que restavam já os elogiava. Chegados a este ponto já não havia jornalistas para protestar.]

SERVIÇO PÚBLICO: o défice de memória (4)

[Actualização deste, deste e deste posts]

17-12-2008
O ministro das Finanças (MF) diz que o défice em 2009 será de 3% do PIB e não 2,2% .

05-02-2009
É aprovado pelo PS o Orçamento suplementar com uma previsão 3,9% do défice.

21-04-2009
O MF diz que «a despesa está perfeitamente controlada» e que o défice se mantém (3,9%)

15-05-2009
O MF diz que o défice será 5,9% em vez de 3,9%

04-07-2009
O MF mantém que o défice será 5,9%.

22-07-2009
José Sócratez diz que «está para nascer um primeiro-ministro que faça melhor no défice do que eu».

09-10-2009
O MF mantém a previsão de 5,9%.

03-11-2009
A CE anuncia uma previsão de 8% e o MF admite a revisão da estimativa anterior (5,9%).

24-11-2009
Défice do Estado dispara para 8,4% do PIB em 2009, em resultado do orçamento rectificativo redistributivo apresentado à AR.

12-01-2010
O ministro admitiu que o défice de 2009 será superior a 8% do PIB.

26-01-2010
Responsáveis do PSD, que tiveram com o Governo negociações sobre o OE, garantiam que o défice iria passar de um valor próximo de 8,7 por cento em 2009.

27-01-2010
Teixeira dos Santos revelou ... que o défice de 2009 atingiu o valor histórico de 9,3% do PIB.

01-02-2010
«Decidimos aumentar o nosso défice não por descontrolo, mas para ajudar a economia, as empresas e as famílias», disse José Sócrates, sem explicar porque não tinha o governo sido capaz de antecipar o défice que resultou das suas decisões, nem como tendo as ajudas sido de menos de 2% do PIB causam um aumento do défice de 2,2% para 9,3%.

Está para nascer um primeiro-ministro mais mentiroso.

Lost in translation (28) – Rigor? Já fizemos engenharia orçamental no passado. Voltaremos a fazê-lo no futuro, queria ele dizer. (II)

[Continuação deste rigor]

«Em 2009, as vendas de património do Estado renderam 300 milhões de euros. Este tem sido um instrumento recorrente na obtenção das chamadas receitas extraordinárias. E 2010 não será excepção. A alienação de património público é a fatia de leão (mais de 400 milhões de euros) nas receitas extraordinárias previstas. Mas quem compra o património do Estado? O próprio Estado, reconhece o secretário de Estado do Tesouro e Finanças.» ( i online)

BREIQUINGUE NIUZ: estão a ver-se gregos

Ainda hoje não sei se é verdade se a Grécia mandatou a Goldman Sachs para vender 25 mil milhões de obrigações do tesouro à China, e se esta colocou como condição meter no pacote uma posição estratégica no Banco Nacional da Grécia, ou não. O que não restam dúvidas é que a Grécia precisa desesperadamente de colocar montantes astronómicos da sua dívida pública e os potenciais compradores não são muitos. Talvez tenha mesmo que vender os poucos anéis para salvar os muitos dedos.

31/01/2010

Lost in translation (27) – Rigor? Já fizemos engenharia orçamental no passado. Voltaremos a fazê-lo no futuro, queria ele dizer.

«Rigor, confiança e estímulos à economia parecem ser as palavras chave do Governo para classificar a proposta de Orçamento do Estado para 2010», escreveu o assessor de imagem para o Público publicar. «Já o fizemos (reduzir o défice) uma vez, como é sabido, em muito pouco tempo, com o Governo anterior», garantiu o ministro Silva Pereira.

«A quebra de despesa com pessoal que surge inscrita na proposta de Orçamento do Estado resulta de uma alteração metodológica na contabilização destas despesas e não de uma redução efectiva de gastos», concluiu o Jornal de Negócios.

30/01/2010

CASE STUDY: porquê os esforços do estado social britânico para diminuir as desigualdades em Inglaterra as aumentam?

«Parents of public school-educated sons can expect their children to be paid eight per cent more by their mid-20s than boys educated at state schools;
At school poor British white boys are well below the national average by the time they are seven, deteriorating further after they are 11.
Women are paid 21 per cent less than the national average, despite women into their 40s having better qualifications than men;
Britain has one of the most unequal societies in the world, with income inequality ahead of Ireland, Japan, Spain, Canada, Germany and France. Inequality is worse in England than Wales and Scotland;
A typical professional on the verge of retiring is worth nearly £1 million compared with just £59,000 for someone who is long-term unemployed.
Poverty rates are among the worst in Europe, with only Italy, Spain and Greece faring worse.
Average and below average White British children are less likely than those from minority ethnic groups to go on to higher education.
More than half of children educated at private schools, and more than 40 per cent of those with professional parents, go to the top Russell group of universities.
Two-thirds of those with professional parents receive firsts or upper seconds, but only half of those with unskilled parents.»

[Extractos do relatório do National Equality Panel, publicados pelo Telegraph]

Lost in translation (26) - they have a dream (no more speculators, no more rating agencies)

Enquanto o Sócrates helénico acusa no Fórum Económico Mundial, em Davos, os especuladores pelas dificuldades da Grécia se financiar, em consequência de anos de libertinagem financeira, o nosso Teixeira dos Santos queixa-se no Fórum de Administradores de Empresas, antecipando as dificuldades futuras de Portugal se financiar, em consequência da mesma libertinagem financeira, e, em nome do Papandreou português, acusa os «interesses de estratégia comercial de agências que procuram aumentar a sua quota de mercado».

Em matéria de cosmopolitismo, o Papandreou helénico dá 3 a 0 ao procurador do Papandreou português. Quanto ao resto ficam empatados.

29/01/2010

BREIQUINGUE NIUZ: As portagens nas SCUT vão ser introduzidas «o mais depressa possível» (3)

Façamos mais uma retrospectiva da novela e aproveitemos outra vez para avaliar a espantosa incapacidade de realização de um governo que constantemente se empluma precisamente com a sua alegada capacidade de realização.
  • 06-11-2004 Mário Lino revela que portagens nas Scut irão financiar todas as estradas
  • 20-05-2005 Mário Lino, ministro das Obras Públicas, admitiu que em breve se tenha que proceder à cobrança de portagens nas Scut
  • 07-11-2005 Mário Lino está já a desenvolver um novo modelo geral de financiamento da rede rodoviária nacional, que inclui as Scut, e que deverá ficar concluído em 2006.
  • 19-01-2006 Mário Lino revela que portagens nas Scut irão financiar todas as estradas
  • 18-10-2006, pouco depois das 11h, Mário Lino tornava-se o quarto ministro consecutivo a anunciar o fim das chamadas auto-estradas Scut
  • 30-08-2007 portagens pagas nas ... Scut, anunciada pelo ministro Mário Lino em Outubro do ano passado, só será concretizada, na melhor das hipóteses, em 2008
  • 02-05-2007 negociações para introdução de portagens nas Scut retomadas há um mês
  • 10-10-2007 Mário Lino: Governo vai introduzir portagens nas Scut até ao final do ano
  • 13-11-2007 a implementação de portagens nas três Scuts - até ao fim deste ano - poderá ser adiada para o primeiro trimestre de 2008.
  • 15-01-2008 o processo está «bastante avançado», devendo «estar concluído brevemente»
  • 27-02-2008 Negociações para introdução de portagens «bem encaminhadas», garante Mário Lino
  • 01-03-2008 as negociações com as concessionárias estão bem encaminhadas.
  • 27-05-2008 entrarão em funcionamento «o mais depressa possível».
  • 30-06-2008 «Se pudesse ter amanhã portagens nas SCUT eu fazia»
  • 06-07-2007 «o Governo está a implementar a introdução das portagens nas três SCUT já referidas»
  • 02-10-2008 as portagens nas chamadas SCUT`s vão ser introduzidas «o mais depressa possível» 
  • 27-01-2010 «Há condições para introduzir portagens nas SCUT no 1º semestre»

Lost in translation (25) – ele queria dizer que este país é um perigo para si próprio

«Nouriel Roubini, que ‘descobriu’ a crise actual, disse no Forum Económico Mundial apontou Portugal como um perigo para a Europa