Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

30/08/2009

CASE STUDY: quem é o deus ex machina da Ongoing? (2)

Alguns factos e informações complementares interessantes a partir daqui (por indicação de AP). Fala-se pela primeira vez de Nuno Vasconcelos e da Ongoing com a OPA da Sonae sobre a PT. A Ongoing surge então, em 2006, como uma espécie de white knight caseira a salvar a PT das garras dos Azevedos, por conta e ordem de interesses vários liderados pelos incontornáveis Espíritos, eles próprios accionistas de referência da PT.

Entre 2006 e 2008, o BES financiou 187 milhões, mas foi o Millenium bcp que entrou com a fatia de leão - 387 milhões. A Ongoing tinha no ano passado um passivo superior a 830 milhões, dos quais 800 milhões dívidas à banca – além do BES e do Millenium bcp há mais bancos (pelo menos o Crédit Suisse, com a maior parte) a quem a Ongoing deve mais de 200 milhões. Mais de 70% do passivo de 800 milhões é de curto prazo.

Como explicar que uma banca tão prudente na gestão do risco de crédito, que chora cada tostão que empresta a uma PME, aposta 800 milhões num SPV (*) tão sólido como ar rarefeito?

(*) Special Purpose Vehicle. Isto sou eu a brincar com as palavras. Neste caso, o Special Purpose é precisamente o mistério a desvendar: o propósito do deus ex machina da Ongoing.

29/08/2009

CASE STUDY: quem é o deus ex machina da Ongoing?

Se me perguntassem quais os mistérios mais densos, de entre a multidão de mistérios que pululam na intersecção, cada vez mais volumosa, entre os mundos dos negócios e da política portuguesa, apontaria sem hesitação dois relacionados entre si. Quem é o criador da criatura Ongoing-Vasconcelos e quais os seus propósitos? É o primeiro mistério. Porquê este mistério parece não interessar a ninguém nos media?

Este segundo mistério perdeu relevância deste ontem, com o editorial do arquitecto Saraiva no Sol precisamente sobre este tema o qual coloca algumas das perguntas que toda a gente deveria andar a fazer. Passemos em revista algumas delas.

Donde vem o dinheiro da Ongoing para comprar 7% da PT, uma pechincha de 500 milhões, para pagar 30 milhões pelo Diário Económico, e se propor pagar 100 milhões pela TVI? Sem esquecer que ainda pretende comprar uma participação de controlo na Imprensa de Balsemão, holding da SIC. Não vem de Nuno Vasconcelos, que não tem activos para isso. Vem do Millenium bcp, o banco do governo, e do BES, cada vez mais os banqueiros do socialismo pós-moderno. Ao todo serão 600 milhões de euros parqueados por estes dois bancos na Ongoing.

Porque estão disponíveis o Millenium bcp e o BES para emprestarem 600 milhões a uma empresa que pretende vir a ter o seu core business nos media, um sector de alto risco?

Como conseguirá pagar a Ongoing 600 milhões de empréstimo com uma carteira de investimentos cujos rendimentos nem para pagar os juros chegam?

E, last but not least, quem é o deus ex machina da Ongoing?

28/08/2009

Lost in translation (7) – se o governo tivesse tomado medidas à séria, estaríamos à cabeça do pelotão

Este governo não pára de me surpreender. Depois de ter gasto apenas uns míseros 278,5 milhões dum total de 2.500 milhões do plano global de combate à crise, segundo nos informou um secretário de estado adjunto, o governo, pela boca do ministro das Finanças, cada vez mais um clone tristonho do querido líder, informa-nos que «as medidas levadas a cabo pelo Governo para enfrentar os efeitos da crise estão a resultar» e que «o pior da crise terá já passado».

A receita é simples: se decrescemos menos do que os outros, são as medidas do governo; se crescemos menos do que os outros, como é costume, é a crise. É extraordinário o que o contágio fez dum homem, que parecia sensato, digno de crédito e com a sebenta da macroeconomia decorada, um sujeito trapalhão, cheio de truques, sempre a vender o produto estragado do querido líder.

DIÁRIO DE BORDO: a passarada que me visita (3)

Bando (Sturnus vulgaris?)

27/08/2009

Lost in translation (6) se Deus escreve direito por linhas tortas, o jornalista escreve torto por linhas direitas

Sob o título «Portugal bate países europeus pela primeira vez desde 2001» o jornalista do Semanário Económico tem a desfaçatez de escrever:
«Se Deus escreve direito por linhas tortas, a economia portuguesa deve estar sob alçada divina. No meio da maior recessão desde a II Guerra Mundial, Portugal fez aquilo que não conseguia desde 2001: um desempenho económico superior ao da zona euro, aproximando-se dos parceiros europeus.»
Como aqui se lembrou, «é aconselhável olhar para os números do INE e, antes de deitar foguetes convém ter em conta que o crescimento de 0,3% é em cadeia relativamente ao trimestre anterior em que o PIB caiu 1,6%, e convém igualmente olhar para a queda homóloga de 3,7% prevista nas estimativas rápidas.»

Se isto é jornalismo económico, então os jornalistas económicos são oráculos a anunciar o princípio das vacas gordas no auge da era das vacas magras.

26/08/2009

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: uma opinião do tele-evangelista a ter em conta

«O capital anda sempre de chapéu virado para o Estado", disse o professor Louçã na entrevista ao Jornal de Negócios. O capital, o trabalho, os sindicatos, os reformados, os velhos e os jovens desde a mais tenra idade, acrescentaria eu. É o ódio (à extorsão) e o desvelo (pelas tenças) bem português em relação ao Estado, dualidade a que se aplica o pensamento em curso de Bastiat «L'État, cette grande fiction à travers laquelle tout le monde s'efforce de vivre aux dépens de tout le monde.»

A ética socrática é o estádio superior da ética republicana do socialismo histórico (2)

Não é a primeira vez. A primeira foi com a imagem do redentor. Desta vez foi a imagem do querido líder abençoando a sua mandatária para a juventude, extraída do vídeo do youtube, que foi infectada com a última versão (de 24 de Agosto) dum perigoso vírus heurístico.


Para compensar o insucesso dos hackers ao serviço do querido líder, publico a imagem do portentoso rabo da mandatária com as minhas sinceras homenagens.

20/08/2009

BREIQUINGUE NIUZ: coisas difíceis de compreender

E nós a pensarmos que estas coisas só aconteciam no antigamente, nos EU da era pré-Obama. Só pode ser o resultado da direita no poder.

19/08/2009

Lost in translation (5) «disparates de verão»

Como é que o querido líder pode saber se os recados da mini central de manipulação do doutor Cavaco sobre as suspeitas de escutas são «disparates»? Poderá garantir que nenhum das centenas ou milhares de funcionários públicos (ou privados) preparados para montar uma escuta está a fazê-lo? Obviamente que não pode. Não podendo garantir e se não ordenou as escutas, faria sentido classificar as suspeitas como «disparates»? Obviamente que não faria sentido. Porquê então, num clima de crispação com Belém, Sócrates utiliza a sua mega central de manipulação para classificar como «disparates» as suspeitas?

Há várias respostas possíveis. A que melhor se adequa à sua difícil convivência com a verdade, à ausência de escrúpulos que tem demonstrado e aos apparatchiks que o rodeiam, é que José Sócrates no mínimo sabe que as escutas estão a ser feitas e no máximo ordenou-as.

CONDIÇÃO MASCULINA: Não se casem raparigas

[Enviado por AB, quiçá num momento fugaz de grande lucidez acerca do seu self]

18/08/2009

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: a economia não depende dos palhaços que vão à televisão falar de economia

Secção Assaults of thoughts

Surpreendentemente, pelo menos para quem está habituado a governos especializados em apresentar o fim da crise todos os meses e a convencer-nos do seu poder miraculoso para promover o crescimento económico, a ministra das Finanças francesa, Christine Lagarde, manifestou-se muito surpreendida com o aumento de 0,3% do PIB em relação ao 1.º trimestre, como quem se interroga que é que nós fizemos para merecer isto? Segundo o Wall Street Journal, essa insólita humildade fica a dever-se às décadas que Madame Lagarde trabalhou no sector privado, que lhe proporcionaram uma visão privilegiada sobre o funcionamento da economia, em relação às criaturas que fizeram a sua vida nos jotas ou nas torres de marfim universitárias ou, in extremis, terminando licenciaturas em agitados fins-de-semana.

Para usar as palavras do WSJ, «at a time when politicians around the world are desperate for any sign of a turnaround, it's refreshing to hear the minister responsible for France's economy speak the truth about growth. It is the product of literally millions of decisions made by millions of people about what to produce, buy and sell. Politicians can influence all that decision making, especially by increasing or decreasing the incentives to produce, work and innovate. But they can't control today's multi-trillion-dollar economies, no matter how much they'd like to take credit for doing so when things start looking better.»

Aqui ficam 3 afonsos para Madame Lagarde por perceber que «a economia depende dos dez milhões de portugueses (ou dos 65 milhões de franceses) e não dos duzentos palhaços que vão à televisão falar de economia», como um dia disse João César das Neves.

17/08/2009

Socialismos-irmãos

Qual é o país atolado na recessão, com um crescimento baseado em mão-de-obra indiferenciada e barata e em actividades trabalho-intensivas, como a construção e o turismo, com um stock considerável de casas para vender e que, não podendo desvalorizar a moeda, não faz as reformas necessárias para ser competitivo, continuando com um sistema educativo disfuncional e um mercado de trabalho desastroso? Qual é o país cujo primeiro-ministro socialista governa com habilidades tácticas, adia medidas impopulares e tem o hábito de derramar dinheiro em cima dos problemas?

Qual é o país qual é ele, assim descrito pela Economist?