Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

31/12/2006

ARTIGO DEFUNTO: todos diferentes, todos iguais (2)

Se o Diário Económico e o Jornal de Negócios se esmeraram a trombetear os 8 (oito) contratos de investimento que ascendem a (no valor total de) 1,69 mil milhões de euros aprovados pelo executivo (governo) liderado por José Sócrates, o Sol transcendeu-se com o título na página 9 do Confidencial: Governo investe 1,7 milhões mil de euros.

Se levado o título ao pé da letra, significaria que ainda o novo ano não tinha começado e o governo já teria torrado quase 30% do investimento previsto no OE de 2007, em coisas tão pouco solidárias como o Ácido Tereftálico Purificado. Nem o próprio governo no seu comunicado foi tão longe na mistificação.

[Já ia a caminho e voltei atrás para cravar mais este prego no caixão da defunta imprensa]

29/12/2006

ARTIGO DEFUNTO: todos diferentes, todos iguais

Governo aprova 8 contratos de investimento que ascendem a 1,69 mil milhões de euros
O Executivo liderado por José Sócrates aprovou esta quinta-feira em Conselho de Ministros oito contratos de investimento com um valor total que ultrapassa os 1,69 mil milhões de euros. A concretização dos projectos em causa - Visabeira, Plêiade, Altri, VGMM, Hikma, La Seda, ENR e Repsol – vai criar quase 500 empregos
, escreveu Pedro Latoeiro no Diário Económico.

Governo aprova oito contratos de investimento no valor total de 1,69 mil milhões
O Governo liderado por José Sócrates aprovou na reunião de hoje oito contratos de investimento cujo valor global supera os 1,69 mil milhões de euros. Com a concretização dos projectos em causa - com a Visabeira, Plêiade, Altri, VGMM, Hikma, La Seda, ENR e Repsol - serão criados mais 494 empregos
, escreveu Sara Antunes no Jornal de Negócios.

Cada um deles continua a seguir a sua redacção, esforçando-se muito pouco para disfarçar a fonte comum, não citada, a quem ambos, e os seus jornais, estavam a fazer o frete.

Nenhum deles se deu ao trabalho de perceber e nos explicar o papel do executivo/governo liderado por José Sócrates - usar o dinheiro dos contribuintes para fazer uns descontos nos impostos e conceder uns subsídios cujos montantes, certamente por pudor, não foram informados. Com esses montante não especificados, habitualmente avantajados, o governo irá baixar a taxa de desemprego de 7,2% para 7,1905%.

27/12/2006

CASE STUDY: study those fellows but don't follow them for god's sake (1)

Depois dos anos do bom aluno cavaquista, vêm os pódios [(1), (2) e (3)] dos cábulas e o exemplo do mau aluno que não deve ser seguido pelos recém-chegados, Eslovénia et alia.

Amanhã, com mais tempo, trato disso em detalhe (o diabo está nos detalhes).

26/12/2006

DIÁLOGOS DE PLUTÃO: chamada de Melmac a pagar no destino

- Alô! É você seu impertinente?
- Sou. Quem fala?
- É o Alf. Você se lembra? (*)
- Sim, claro. Não estava a conhecer a sua voz. Está com uma pronúncia diferente?!
- Até pode ser. Estou chegando a Melmac, voltando de Manaus. Tem lá gato gostoso dimais. Olha, também estive lendo suas bobagens nesse seu blogue Imprevidências.
- Impertinências.
- Pode ser. Mi conta uma coisa, rapais. Estou morrendo de curiosidade. Essa Maria José que está tratando do pito dourado é aquela mesma Maria José, a justiceira?
- Não é Pito, é Apito, e é essa mesmo.
- Olha aí
, isso quer dizer que voismicês não querem investigar o pito?
- O apito!
- O apito, se você faz questão.
- Claro que queremos investigar até ao fim. Todos apoiam a Maria José.
- Como até ao fim? Ela vai se demitir loguinho.
- Você acha isso?
- Está na cara.

(*) Um simpático alienígena, chamado Gordon Shumway, oriundo do planeta Melmac. O Impertinente teve o privilégio de conhecer pessoalmente Alf no verão de 2002, durante as suas férias com os Tanners na Quinta da Balaia. Desde então, Alf passou a acompanhar regularmente a vida política e cultural portuguesa (ver mais no Glossário).

25/12/2006

NÓS VISTOS POR ELES: hoje não há conquilhas, amanhã não sabemos

O governo e o jornalismo de (certas) causas tratam os portugueses como atrasados mentais atormentados por um infantilismo que os inibe de encarar a realidade. Segundo esta visão, os aborígenes, esmagados pelo falhanço da convergência real, depois de muitos milhares de milhões de euros dos contribuintes europeus torrados ingloriamente, precisam desesperadamente de boas notícias que lhes dêem lustro ao ego e lhes injectem a auto-estima perdida depois de 6 aumentos das taxas de juros que elevaram a um nível estratosférico as prestações da casinha, do chaço e do écran de plasma.

Talvez o governo e o tal jornalismo tenham razão, mas entretanto é melhor ir procurar por outras bandas uma percepção desapaixonada e desinteressada do que se passa cá no burgo. Por exemplo a percepção de Portugal pelos investidores internacionais.

Fonte: Portuguese Attractiveness Survey 2006, Ernst & Young. A percepção de Portugal pelos investidores internacionais baseou-se em entrevistas telefónicas em Março de 2006 duma amostra de 105 executivos de empresas internacionais que incluiu os investidores estrangeiros mais significativos.

24/12/2006

DIÁRIO DE BORDO: a cada um o seu natal - o natal lascivo

«... mas aqueles figos secos, com o interior avermelhado e repleto de minúsculas grainhas e, como se fosse pouco, abertos ao meio, com a noz a aparecer, são a minha paixão. Nesta espécie de sanduíche extra-seca e agridoce, encontro uma boa conjugação de sabores e de 'texturas': a noz estaladiça contrasta com uma certa esponjosidade do figo, apesar das grainhas crocantes. O figo começa por ser doce, mas acaba por ter um sabor ligeiramente acre e o mesmo se passa com a noz. Talvez a combinação feliz se deva a essa harmonia inesperada de sabores: a glicose do figo e da noz torna-se uma certa acidez, que precisa de algo mais doce para compensar e assim sucessivamente.» (Carla Hilária Quevedo, Sabores Natalícios, Cinco Sentidos, na Tabú do Sol)

É por essa, e por outras, que nunca digo Santo Natal.

23/12/2006

DIÁRIO DE BORDO: a cada um o seu natal (3)

Um Natal impertinente:
  • Santo Natal e um beijinho (Lapa, Boavista e classe A em geral)
  • Bom Natal e dois beijinhos (Telheiras, Antas e classe B em geral)
  • Feliz Natal e dois ou três beijinhos (choldra).

22/12/2006

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: sabemos, mas fazemos por esquecer

Secção Óbvio Ululante
«Portugal entrou para um clube de ricos, que tem exigências muito elevadas. E entrou sem ser rico, sem gostar de trabalhar e sem medir as consequências»
Três afonsos para José Miguel Júdice que nos lembrou hoje no PÚBLICO aquilo que todos sabemos mas não gostamos de encarar.

20/12/2006

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: perguntar ofende?

«Vistas assim as coisas, dir-se-ia que, do ponto de vista liberal, muito, ou quase tudo, está por fazer em Portugal. Por conseguinte, se assim é, devemos começar por tentar compreender como chegámos a um ponto destes ao fim de oito séculos de história, ou, em alternativa, porque nunca conseguimos passar disto? Por que razão Portugal continua a ser um país estatizado, onde não existem sequer instituições civis de defesa da cidadania? A resposta, temo, não será agradável de ouvir.» (blasfémia do blasfemo Rui no Blasfémias)

SERVIÇO PÚBLICO: o pódio, em retrospectiva (*) (3)

(*) uma vez mais

19/12/2006

SERVIÇO PÚBLICO: o pódio, finalmente (*) (2)

(*) outra vez
Evolução do PIB per capita, em paridade do poder de compra (quadro no Destak de hoje)

18/12/2006

SERVIÇO PÚBLICO: o pódio, finalmente

«Número de funcionários públicos: A confirmação de uma certeza», Miguel Frasquilho (no Jornal de Negócios)

16/12/2006

ARTIGO DEFUNTO: fazer o lugar do outro

Via Abrupto, cheguei a esta inacreditável recomendação da Entidade Reguladora para a Comunicação Social. Não faço a menor ideia sobre quem são e, sobretudo, o fazem pela vida as luminárias do Conselho Regulador, mas a recomendação que produziram podia perfeitamente ser escrita por um qualquer gabinete de comunicação dum qualquer partido.

Fiquei desapontado porque «o Conselho Regulador dá por encerrado este "diálogo", tão picaresco como pouco edificante», segundo as suas próprias palavras. Tão pouco edificante quanto bastante esclarecedor sobre o propósito da coisa chamada ERCS. Tivesse a coisa sido filha do cérebro daquele desajeitado braço direito do doutor Santana Lopes para os mídia, cujo nome não recordo, e teríamos a horda do jornalismo de causas assediando as canelas das luminárias da ERCS.

15/12/2006

SERVIÇO PÚBLICO: a insanidade mental do islamismo fundamentalista persa

O Irão nazi

por Nuno Rogeiro, no JN

A República "Islâmica" do Irão decidiu patrocinar uma reunião de nazis e racistas (incluindo David Duke, ex- "Grande Dragão" do Ku Klux Klan), elementos da extrema-esquerda "anti - ianque" europeia e japonesa, antigos membros dos "exércitos vermelhos" que semearam o terror na Europa (um dia falar-se-á sobre os mesmos, e os seus agentes em Portugal, sejam mais ou menos gordos).

A intenção era a de deslegitimizar o Estado de Israel, de negar a existência de um Holocausto nazi contra os judeus europeus e contra a civilização ocidental, nos anos 30. Por esse processo, pensavam a presidência e o Governo iraniano reunir, sob a sua bandeira, o mundo dos árabes de boa fé, criar um novo motivo de aliança dentro do Islão, e aproveitar os trunfos aparentes, gerados desde o relatório Baker.

Ver mais aqui.

13/12/2006

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: a ecoanomia portuguesa

Já se sabia que não temos uma economia, temos uma economia de pedintes, que não apenas vive da esmola de Bruxelas como gasta mal o óbolo. Segundo a comissária da filantropia Neelie Kroes, dos cerca de mil milhões de euros de ajudas apenas uma pequena parte foi aplicada no ambiente, educação, PME e Investigação e Desenvolvimento, que representam mais de 80% na média europeia. No nosso caso, o grosso da massa foi torrado em subsídios às empresas e benefícios fiscais na zona franca do Bokassa das Ilhas.

Será preciso explicar à comissária da filantropia que a economia portuguesa é uma ecoanomia?


Ecoanomia é um sistema económico em que não são válidas as leis da economia; os agentes ecoanómicos encontram-se num estado de dissonância cognitiva não se-governando-se, nem se-deixando-se governar, pelas regras económicas correntes nas economias.

12/12/2006

DIÁRIO DE BORDO: parecidos, todavia diferentes

Se comparar os curricula de Augusto Pinochet e de Fidel Castro, considerando os anos de exercício de ditadura (15 contra 50), o número de mortos pelos quais directa ou indirectamente são responsáveis (três mil e tal contra vários milhares) e last but not least o resultado das suas políticas (um dos dois países mais avançados da América Latina e uma versão tropical da Coreia do Norte), é-me difícil compreender a euforia da esquerdalhada pela morte do primeiro e o desgosto pela doença do segundo.

11/12/2006

ESTADO DE SÍTIO: mais anúncios

A lógica imparável do estado napoleónico-estalinista está bem patente em dois anúncios que hoje fizeram notícia nas secções de economia dos jornais.

O primeiro, é o anúncio pelos CTT de que deixou de valer o seu anterior anúncio de parceria com a Caixa para criar o banco postal. Enquanto isso, os CTT deitaram pela borda uma parceria já negociada pela anterior administração com o Banif, um dos poucos parceiros a quem poderia interessar tal parceria, por dispor de uma insuficiente rede de balcões. Ao deitar fora esta hipótese viável e procurar um parceiro baseado na equívoca solidariedade estatal, aquele senhor que ficou de presidente dos CTT, cujo nome agora não me ocorre, e que eu pensava que sabia tanto de negócios e de empresas como o Impertinente sabe de electrotecnia, aquele senhor, dizia, demonstrou que sabe ainda menos do primeiro tema do que eu do segundo. Ao procurar tal parceiro aquele senhor chamou implicitamente de besta ao finório que preside à Caixa, convidando-o a dar um tiro nos pés e arruinar o seu próprio negócio. Passado o período de nojo que estes coisas entre vizinhos exigem, o finório deixou aquele senhor anunciar a morte dum cadáver já frio há um ano.

O segundo, é o anúncio pelo governo (convenientemente apresentado como um documento a que o DN teve acesso) da criação da Empresa de Serviços Partilhados da Administração Pública (ESPAP) que irá gerir e acompanhar os supranumerários, ao mesmo tempo que prestará serviços (compras? logística? processamento de salários? gestão da frota automóvel?) à Administração Pública. Parecendo à primeira vista um modelo da plataforma de backoffice adoptado por inúmeros grupos e grandes empresas, as parecenças abortam, ainda antes das 10 semanas, quando se antecipa o resultado de atulhar na ESPAP os supranumerários alijados pelos outros serviços, por invalidez e/ou incompetência, que terão que ser duplicados por gente mais expedita a recrutar nas longas listas de espera do PS. Todo este aparato acabará devidamente ancorado em empresas de consultoria que no final farão o trabalho e poderiam dispensar os supranumerários e até os numerários.

10/12/2006

CASE STUDY: 5% de inspiração e 95% de transpiração

Ao ler o post do maradona sobre o inspirado pontapé livre de Ronaldinho (vídeo aqui), lembrei-me de What it takes to be great publicado na Fortune há uns tempos.

O jornalista Rob Hughes citado por maradona parece acreditar que o génio de Ronaldinho surge miraculosamente dentro do crânio do homem, por obra e graça do divino espírito santo. Se for assim, peço licença para discordar da luminária. Se a coisa fosse tão simples, da lei dos grandes números deveria resultar que entre o Seixal e Alcochete já teriam surgido um ou dois Ronaldinhos. Suspeito que será preciso acrescentar algo mais. No caso do Ronaldinho, dizem-me, é o seu cão com quem brinca com uma bola de ténis incontáveis horas por dia (os colegas de equipa já não estão para o aturar).

Chegados a este ponto, temos um bom ponto de partida para perceber porque diabo, havendo tanto talento em Portugal e tantas mentes brilhantes à espera de serem descobertas (*), se encontra a pátria em permanente declínio desde o século XVI, com dois curtos períodos que se seguiram à adesão à EFTA no princípio dos anos sessenta e à adesão CEE no meio da década de oitenta (think about).

É aqui que entra Geoffrey Colvin fazendo o ponto de situação das pesquisas sobre a relação entre o talento natural e a excelência no desempenho, seja ele no desporto, nas artes, nas ciências ou no negócio. A conclusão curta e grossa é: the lack of natural talent is irrelevant to great success. The secret? Painful and demanding practice and hard work.

A leitura de «What it takes to be great» pode assim ajudar a perceber melhor que uma cultura que desvaloriza o esforço, o trabalho duro, o saber fazer, a procura (obsessiva) da excelência, os resultados práticos e privilegia a oratória, os elaborados rendilhados intelectuais, a elegância imaterial do processo contra a rude materialidade do produto, dificilmente transforma talentos naturais em grandes performers. Mais facilmente transforma talentos naturais em brilhantismos pueris e amaneirados. E sem ovos não há omeletas, ou sem grandes performers não há grandes performances.

(*) Como nos recordam todas as semanas as inumeráveis páginas do Expresso e do seu alter ego Sol, onde jornalistas separados à nascença se esfalfam por melhorar a nossa auto-estima.