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03/02/2026

Crónica da passagem de um governo (35b)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
(Continuação de 35a)

Um novo pletórico peditório, desta vez o das tempestades

Uma tempestade proporciona uma oportunidade para as lamentações, as acusações e performances dos passa-culpas e culmina num peditório e lamento dos subsídios sempre insuficientes, subsídios que os pedintes nunca chegam a perceber que não saem dos bolsos do governo, mas dos bolsos dos contribuintes. Várias tempestades multiplicam as oportunidades dos pedintes e as demonstrações de caridade das autoridades que, desta vez, se desdobraram em 14 medidas que somam 2,5 mil milhões, que é um número para encher o olho que mistura subsídios com créditos.
 
No final não se fará nada para planear as respostas e mitigar os danos no futuro e ficará tudo na mesma. E não, isto não é coisa deste governo, é coisa de todos os governos, é coisa do desporto nacional de chutar a bola para o lado ou para a frente inspirada numa cultura de improviso e desenrascanço.

[Contava-se nalgumas empresas alemãs com quem trabalhei que cada uma delas deveria ter um português numa redoma com uma legenda “partir em caso de emergência” para as raríssimas situações em que os alemães não teriam nada preparado, um português sairia da redoma para lidar com uma situação que para ele seria trivial e igual a qualquer outra.]

Canários na mina de carvão

A estimativa rápida do INE confirma uma baixa do crescimento do PIB de 2,1% em 2024 para 1,9% em 2025, abaixo das previsões do governo (2,0%), ou seja, descemos um degrau no mesmo patamar de crescimento medíocre, numa trajectória de queda nos últimos 3 anos (3,1%, 2,1%, 1,9%). Sem o crescimento do turismo e os dinheiros do PRR já estaríamos em recessão. Para alcançarmos a França, um país não particularmente dinâmico, se crescêssemos um ponto percentual acima, precisaríamos de quatro décadas para atingir o mesmo PIB per capita.

INE

Os canários piariam ainda mais alto se acrescentarmos os resultados de um inquérito a 1500 empresários da indústria, que antecipa uma queda acentuada do emprego nos próximos meses, e que a indústria do calçado, uma das mais competitivas desde que se começou a focar no calçado de qualidade, está a começar a ser ameaçada pelos produtores asiáticos que já dominam o mercado do calçado barato e estão a entrar no upper market, a preços que não deixarão de ser muito mais baixos do que os portugueses. Se a tudo isto acrescentarmos o impacto das tempestades em milhares de empresas, o retrato não fica bonito.

Como no passado, os empresários e os consumidores, embalados pelos cânticos governamentais, não ouvirão o piar dos canários e continuarão, como se não houvesse amanhã, a comprar os seus popós cuja venda aumentou 18% em termos homólogos, em cima de um parque automóvel existente que nos coloca na metade superior do ranking europeu, aquela metade em que o crescimento da produtividade deveria situar-se para garantir que continuaremos a comprar popós no futuro.

Uma Boa Nova, ou talvez não

A dívida pública em percentagem do PIB reduziu-se de 93,6% em 2024, para 89,7% em 2025.

Dívida pública: nota de informação estatística — dezembro de 2025 (BdeP)

Essa é a boa notícia. A má notícia é que o valor da dívida líquida e da dívida bruta aumentaram quase 4 mil milhões e a redução da dívida bruta no último trimestre atingiu quase 20 mil milhões para melhorar a fotografia.

2 comentários:

Luís Lavoura disse...

No final não se fará nada para [...] mitigar os danos no futuro

Mas que queria o Pertinente que se fizesse???

Duas sugestões:
(1) Derrubar todas as árvores nas ruas das cidades (para evitar que elas caiam aquando de uma tempestade).
(2) Colocar pedregulhos por sobre as telhas de todos os telhados (para evitar que elas voem aquando de uma tempestade).
Ambas estas sugestões teriam um enorme custo de oportunidade. Seria racional tomar tais medidas? Em minha opinião, não.

Há que ver que o que se passou foi um episódio, tanto quanto sabemos, único. Nunca em Portugal Continental tinha havido ventos superiores a 150 km/hora.
(Nos Açores há-os, por iso os açorianos colocam pedregulhos sobre as telhas e não têm árvores nas cidades.)

Luís Lavoura disse...

O que interessa é sempre o valor da dívida em percentagem do PIB, porque isso é que nos diz qual a capacidade do Estado de a pagar.
Da mesma maneira que se uma família tem uma dívida de 100 mil euros, isso não é grave se essa família auferir 5 mil euros por mês, mas é péssimo se ela auferir 500 euros por mês.
Portanto, a dívida líquida e bruta não interessam para nada. O que interessa é a dívida em percentagem do PIB.