Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

31/01/2013

DIÁRIO DE BORDO: Entradas de leão e saídas de sendeiro (2)

Confirmando o apodrecimento da situação do PS, António Costa encolhe-se outra vez, não se expõe a uma candidatura e ainda tenta fazer acordos com os inimigos internos para enfrentar os adversários externos, como poderia ter dito Churchill se por acaso ainda por cá andasse e frequentasse o Largo do Rato.

As suas conversas redondas ontem na Quadratura do Círculo confirmam a sua estratégia que consiste essencialmente na falta dela deixando apodrecer o poder até lhe cair no colo. Nada que não se esperasse. É grave? Para um possível futuro secretário-geral do PS, nem por isso. Para um candidato a primeiro-ministro de um país em estado de assistência financeira e de soberania limitada, se calhar também nem por isso - se for para manter a soberania limitada.

Pro memoria (92) - Seria o Constâncio deles melhor do que nosso ministro anexo?

«Contratos de alto risco e suspeitas de gestão ruinosa passaram despercebidos ao Banco de Itália quando este era dirigido por Mário Draghi. O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mário Draghi, teve ontem um encontro não programado com o ministro italiano das Finanças, Vittorio Grilli, para discutir o avolumar de problemas e suspeitas de gestão danosa no Monte dei Paschi di Siena (MPS), em vésperas de o assunto ser debatido no parlamento italiano e em plena campanha eleitoral.» (Negócios)

À escala, Mario Draghi não chegou aos calcanhares do nosso ministro anexo, agora sentado na cadeira ao lado, no BCE em Frankfurt. Na verdade, 4 mil milhões de euros torrados no MPS, o banco mais antigo do mundo, em Itália, com um PIB quase 10 vezes o de Portugal, não comparam com os 6,5 mil milhões torrados no BPN em Portugal.

Em conclusão, ambos têm problemas de visão já antigos. Contudo, os óculos de Vítor Constâncio precisariam de mais dioptrias do que os de Mario Dragui.

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: A tradição ainda é o que era

[Enviado por JB)

30/01/2013

DIÁRIO DE BORDO: Entradas de leão e saídas de sendeiro

Como aqui prognostiquei, António Costa ficou surdo ao canto de sereia dos órfãos de Sócrates mesmo depois de «meio copo de uísque» e empurrou a candidatura à liderança do PS com a barriga para a frente. Aposto singelo contra dobrado que vai continuar com o discurso ambíguo, a colocar pedras em todos os tabuleiros e com um olho no burro e outro no cigano, como diz o povo, esperando que Seguro fique inseguro, o governo se desgaste um pouco mais e a situação melhore o suficiente para a criatura prometer «estimular o consumo».

Foi um prognóstico fácil, dadas as características do actor e as exigências do papel na peça que está em palco. Difícil de prognosticar seria António José Seguro recandidatar-se contra «o regresso ao passado», rejeitando 13 anos de governação socialista.

Títulos inspirados (14) - «Macaco astronauta iraniano preocupa Estados Unidos»

«O Irão anunciou ontem que enviou um macaco para o espaço, que regressou são e salvo. Os EUA dizem que, a ser verdade, é uma violação das resoluções das Nações Unidas.» (Expresso)

Bons exemplos (49) – Melhor é possível (e não é difícil)

The Lisbon MBA, um mestrado em gestão da Nova em parceria com a Católica, surge este ano em 61.º lugar (em 15.º entre os europeus) como único MBA português do Global MBA Ranking 2013 do Financial Times. Entre os 100 melhores encontramos 51 universidades americanas, 11 do Reino Unido e 6 da China e igual número do Canadá, os nossos vizinhos têm 3 e a Alemanha só tem 1 (shame on them!).

FT: Global MBA Ranking 2013

29/01/2013

DIÁRIO DE BORDO: Against all odds

Se tivesse de apostar, apostaria que o homem providencial para o Estado Previdência, o Dom Sebastião do PS, vai deixar desapontados os aflitos à espera de serem por ele conduzidos pela autoestrada dos amanhãs que cantam ao assalto à mesa do delapidado orçamento. António Costa, ao contrário do que esperam e vaticinam os órfãos de José Sócrates, vai aguardar por melhores dias – é esse o meu prognóstico.

CASE STUDY: O homem providencial para o Estado Previdência (2)

Já se percebeu que António Costa se estava a movimentar na penumbra e a colocar o palito no bolo para avaliar as hipóteses da sua putativa candidatura a líder do PS. Os anúncios da Câmara de Lisboa a evidenciar a sua faceta de combatente das dívidas não são inocentes porque o homem anda por aí há muito tempo.

Faltava saber se as suas ideias políticas se distinguiam das do actual líder e, sobretudo, das de José Sócrates, o grande responsável por chegarmos aonde agora nos encontramos. A resposta dada no congresso do PS-Açores é não se distingue e oferece-nos como solução para doença a mesma receita que nos pôs doentes: «estimular o consumo».

Por essa, e por outras, terei de dar razão a Alberto Gonçalves que ontem escreveu no DN: «O Dr. Costa não tem vergonha nenhuma e, se o pernicioso regresso aos mercados não lhe trocar as sondagens, pondera apresentar-se às massas enquanto o orgulhoso representante dos desvarios que condenaram as massas a apertos sem fim à vista. Se nada garante que tamanha extravagância vá longe, a sua mera plausibilidade é suficiente para recear a falta de memória e de juízo do bom povo.»

DIÁRIO DE BORDO: Caught in the Act (41)

Orson Welles, «impossível de fotografar», por Eduardo Gageiro no Guincho

28/01/2013

Pro memoria (91) – O condicionamento pavloviano das mentes pelos comunistas

Continua a ser impressionante a forma e a extensão como os comunistas condicionaram e condicionam o pensamento e a expressão política em Portugal. Que outro partido poderia defender e justificar durante décadas, sem protestos dos comentadores de esquerda e direita e com a passividade da opinião pública, os regimes políticos mais abjectos da história, responsáveis por mais vítimas do que todos os nazismos e fascismos, como desde sempre os sistemas soviéticos da URSS e as «democracia populares» dos países da Cortina de Ferro, as ditaduras de inspiração maoísta da China, do Vietname, do Cambodja, do Laos, da Coreia do Norte (*), e ainda Cuba, entre outros? Nenhum.

Por isso, nenhum outro partido poderia pela voz de um dos seus destacados dirigentes e controleiro da CGTP referir-se numa manifestação de professores a um etíope «rei mago escurinho». Mesmo sendo o representante do FMI para Portugal na troika. Embora, reconheça-se, para muita gente a demonização do FMI é suficiente para fazer orelhas moucas a uma boca que vinda de outras paragens e dirigida a outra pessoa da lista das personalidades toleradas pela esquerdalhada criaria vagas de indignação histérica. Como seria de esperar numa imprensa ocupada por jornalistas ao serviço de causas (os que não servem causas metem o rabinho entre as pernas quando se trata de certas causas), com excepção do Correio da Manhã, os outros jornais publicaram apenas as desculpas de mau pagador de Arménio Carlos, mas não a notícia original.

(*) Nem de propósito, ficou-se a saber que na Coreia do Norte, aquele país que o líder parlamentar do PCP diz não estar certo de que não seja uma democracia, morreram 10 mil pessoas de fome o ano passado e um pai foi executado por ter comido os seus dois filhos durante essa vaga de fome.

SERVIÇO PÚBLICO: Podia ser muito pior (5)

[(1), (2), (3) e (4)]

Apesar do falhanço das estimativas das receitas correntes (sobretudo do IVA), segundo os dados provisórios da DGO, o défice do OE 2012 acabou por ser inferior ao objectivo do PAEF de 9 mil milhões, graças aos 800 milhões da concessão da ANA. Evidentemente que tudo isto só foi possível com a transferência decidida em 2011 de 2,8 mil milhões dos fundos de pensões dos bancos as quais irão gerar no futuro despesas provavelmente não cobertas pelos valores agora transferidos – só em 2012 as pensões correspondentes ao Regime Substitutivo Bancário atingiram 515,8 milhões ou 3,6% do total das pensões, uma percentagem muito superior à do número de pensionistas bancários.

27/01/2013

A maldição da tabuada (14) - se não sabem fazer contas não deveriam citar números

Comentando com o habitual ressabiamento com que escreve sobre algum resultado conseguido por este governo constituído por gente sem pátina, Miguel Sousa Tavares conclui na sua peça habitual no Expresso que «4,891% de juros (o yield do leilão de OT da semana passada) … não deixa de ser 5 vezes a taxa de inflação». Não se sabe qual a taxa de inflação a que MST se refere, mas se fosse a taxa média de inflação anual em Dezembro passado seria 2,77% (INE), de onde resultaria ser o yield do leilão 1,8 vezes a taxa de inflação e não 5 vezes. Daqui inferimos que a tabuada de MST, eventualmente construída num sistema que não o de base 10, o levou a um erro «colossal».

Pro memoria (90) – Bandeiras arreadas

Depois de aprovada pela maioria de esquerda na assembleia nacional francesa e a seguir ser considerada inconstitucional pelo Conselho Constitucional francês, «la taxe à 75% ne verra pas le jour» antecipou a Europe1. Mais uma bandeira arreada.

26/01/2013

DIÁRIO DE BORDO: Caught in the Act (40)

Roger Federer, finesse e souplesse, o melhor de sempre no ténis masculino, baqueia nas
meias-finais do Open da Austrália frente ao talentoso carregador de pianos Andy Murray

Um governo à deriva (8) – Pior é difícil (mas não impossível)

Continuação daqui.

A gestão do caso RTP é um paradigma das asneiras de um governo que costumamos classificar no (Im)pertinências como mau no género bom, diferentemente dos governos de Sócrates que foram bons no género mau.

Entendamo-nos, mesmo para quem defenda (não é o meu caso) uma coisa chamada «serviço público de televisão», supondo que se saiba do que se trata, não há razão nenhuma para estar alimentar a pão-de-ló um burro que carrega 2 mil passageiros para produzir uma programação miserável que nada distingue das televisões privadas. Por uma fracção dos mais de 200 milhões que custa aos portugueses a RTP seria possível o governo comprar tempo de antena nas televisões privadas para as transmissões de «interesse público».

Depois de um ano e meio de novela realizada pelo inefável Relvas, com episódios de privatização pura e dura, episódios de concessão da exploração, entre outros que não percebi, chegamos a um anticlímax: aliviar o burro de 600 passageiros e reduzir assim a dose de palha. Supõe-se que este anticlímax se deve à necessidade de apaziguar as corporações que se opõem a alterar o status quo que vão desde os 2 mil passageiros até aos operadores privados de televisão, passando pelo CDS, apaziguamento que não parece estar a correr bem dadas as reacções do PS que está contra a «operação de cosmética de emagrecimento» e, inevitavelmente, das reacções do Sindicato dos Jornalistas que defende estar o processo de reestruturação «ferido de clara ilegalidade». Surpreendentemente, neste último episódio da novela, ainda ninguém falou da Constituição. Lá chegaremos, em devido tempo.

DIÁRIO DE BORDO: Caught in the Act (39)

Nelson Mandela (por volta de 1994, com a 2.ª mulher) vs Jacob Zuma (em 2012, numa performance na aldeia de uma das suas 3 mulheres full time),
 ou de como nem sempre do passar do tempo resulta progresso, seja lá o que for progresso

25/01/2013

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Convertido ao crescimentismo

Secção Entradas de leão e saídas de sendeiro

Depois de ter dito algumas verdades impopulares, tais como a inevitabilidade de os salários ainda terem de baixar e a ignorância dos empresários, que suscitaram amplas ondas de indignação das luminárias do regime, devidamente amplificadas pelos megafones do jornalismo de causas, António Borges parece ter-se cansado e resolvido converter-se ao discurso crescimentista, concluindo numa entrevista à Renascença: «já temos a economia equilibrada e, em muito sentido, já não precisávamos de mais austeridade nenhuma … no sentido macroeconómico claro que não, porque já não temos défice externo. É necessário cortar o défice público, o que é uma coisa diferente. Mas esse corte deve ser acompanhado de um regresso ao crescimento no investimento e no consumo».

Infelizmente António Borges não se deu ao trabalho de nos esclarecer como vamos cortar o défice público sem a continuação de medidas de austeridade, e, se regressamos ao consumo, de onde virá o dinheiro para investir a partir das sobras do consumo e do serviço de uma dívida pública crescente e de uma dívida externa de uma dimensão pantagruélica (2,5 vezes o PIB), dívida externa na melhor hipótese estabilizada - se as contas externas continuassem equilibradas, o que não aconteceria com o aumento do consumo.

Três urracas pela conversão à vulgata crescimentista, que certamente lhe renderá o tributo da economia mediática, e cinco chateaubriands, se for um caso de fé equivalente a abençoar a divina providência por fazer passar os rios pelo meio das cidades.

Ressabiados do regime (1) – O caso notável do professor Freitas do Amaral

Entre os ressabiados do regime, o caso do professor Freitas do Amaral é o mais estudado pelos contribuintes do (Im)pertinência, como se pode confirmar pela vasta soma de posts que lhe foram dedicados.

A última manifestação de ressaibo foi ontem a propósito do «grande festejo por Portugal ter regressado aos mercados… (que) não é mérito deste Governo… (mas) do senhor Mario Draghi que, em Agosto passado, fez declarações em que se comprometeu a defender o euro fosse como fosse, e os mercados recuperaram confiança, e os juros começaram a baixar». Para usar as palavras do Blasfémias, o emérito ressabiado não explicou «porque é que a Grécia não acompanhou Portugal e a Irlanda … e se o mérito é todo das declarações de Agosto do senhor Draghi, porque foi que os juros da dívida portuguesa começaram a descer em… Fevereiro?»

Com melhor razão do que ao senhor Dragui, poderia o professor Freitas do Amaral atribuir ao saudoso engenheiro José Sócrates e aos seus governos (de um deles, recordemos, ele próprio fez parte) os méritos pelo regresso aos mercados porque a esses governos se deve a saída dos mercados sem a qual não teria havido regresso.

Pode ser visto aqui o vídeo com as declarações num tom sapiente e definitivo em que o emérito postula ex cathedra, repetidamente. os deméritos do governo e o mérito do senhor Dragui.

24/01/2013

Lost in translation (167) – Portugal volta ao mercado da dívida de longo prazo

É isso que o Financial Times quer dizer quando escreve «Portugal has returned to the long-term debt market for the first time since being bailed out in 2011 in a landmark deal for the rehabilitation of the eurozone’s struggling peripheral economies».

Trata-se de «long-term debt» e não «principalmente nos prazos mais curtos» como vaticinou o novo guru doméstico das finanças. É óbvio que os mercados, onde os investidores colocam a boca e também o dinheiro, acreditarem não quer dizer tudo, nem talvez muito. Mas quer dizer certamente mais do que opiniões domésticas enviesadas de quem não arrisca um cêntimo e sabe que tem audiência amplificada pelo jornalismo de causas e garantida pelo nacional-ressabiamento.

DIÁRIO DE BORDO: Caught in the Act (38)

Frank Sinatra & Grace Kelly
(Look at you Frank! Smile for the camera!)