Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

30/11/2010

Estado empreendedor (37) – os pilares do aeroporto de Beja estão todos rachados

Em 2001 foi lançado o projecto do aeroporto de Beja assente «em cinco pilares, lembra o TC: captação de voos charter/low cost, tráfego de carga, manutenção e estacionamento de aeronaves e desenvolvimento de negócios não-aviação - como o aluguer de carros». O aeroporto de Beja iria constituir uma «plataforma logística para a carga a receber e a expedir de/para a América e África, incluído o transporte de peixe, utilizando aviões de grande porte e executando em Beja o transhipment para aviões menores para a ligação com os aeroportos europeus» e seria um «entreposto para a carga recebida no porto de Sines, passível de ser transportada por meios aéreos, frescos agrícolas produzidos na zona de regadio do Alqueva e Andaluzia». Foi o que escreveu no estudo «Plano Regional de Inovação do Alentejo» Augusto Mateus, a luminária ministro do governo Guterres que inventou o plano com o seu nome para recuperar empresas irrecuperáveis.

Até agora já foram torrados 34 milhões e, segundo a estimativa actual (que será como de costume um alvo em movimento) a coisa vai atingir mais do dobro. Metade das empreitadas foram adjudicadas sem concurso.

[Para mais pormenores ver aqui, aqui e aqui]

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: amestrados, distraídos e crédulos

«O pai, o modelo-pai, o pai-chefe, desapareceu. Isto tem sido celebrado por significar o fim da opressão machista e autoritária. Ocupemo-nos, para já, desta.
A autoridade paterna oferecia um bem sem preço: o treino para a luta. Aprendia-se, com tempo e em segurança, a nobre arte da rebelião. E aprendia-se outra coisa: o mundo tem lugares marcados.
Hoje, livres de tão ingentes grilhetas, seria de esperar gerações inteiras de inconformados libertários. Infelizmente, encontramos gerações inteiras amestradas, distraídas do seu futuro e crédulas. Fabulosamente crédulas.»


[FNV no Mar Salgado]

28/11/2010

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: A fábula do surto inventivo que nos assola (REPUBLICAÇÃO)

Mariano Gago disse ao Expresso que o crescimento dos indicadores da ciência em Portugal «é o maior da Europa» e cita o investimento em I&D que mais que duplicou entre 2005 e 2009, a despesa das empresas que triplicou (com o investimento em I&D do BCP e da EDP?), etc. Até pode ser tudo isso, mas quando se olha para os resultados não se nota. Por isso, mantém-se actual o meu  post de 8 de Agosto, a seguir transcrito, onde a propósito de um artigo também do Expresso, descrevi as conclusões da minha «investigação» sobre a investigação de Mariano Gago.
Se há coisa que me faz urticária é a tendência doméstica para o auto-contentamento, especialmente notória no jornalismo apologético. Um exemplo deste fim-de-semana é a peça publicada pelo Expresso sobre o suposto surto inventivo que assola os portugueses. O facto que suporta o título «Portugueses criam duas invenções por dia» deveria ser suficiente para desencorajar o jornalista de escrever a peça naquele tom encomiástico, se a criatura se tivesse dado ao incómodo de olhar para as estatísticas do European Patent Office (EPO). Não o fez e escreveu coisas como «os investigadores portugueses estão cada vez mais a dar cartas no mercado global», escreveu, citando o presidente do INPI ou «ao nível da ciência, já temos um desempenho comparável aos dos países mais desenvolvidos da Europa e até do mundo», citando o presidente do IST. O resto da narrativa é no mesmo tom de fábula.

Infelizmente tanto encómio não resiste aos factos. Já o ano passado aqui se desmontou uma outra peça de jornalismo apologético de Nicolau Santos sobre o surto de I&D que, segundo ele, o país estaria a atravessar. Desta vez é mais do mesmo oferecido pelo Expresso para nos animar. Vejamos, pois, os factos, sempre desagradáveis.

Em primeiro lugar, as 723 patentes com pedido de registo em 2009 no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) são patentes «domésticas». A maioria delas não chegará ao crivo do EPO, a começar pelo facto do pedido de registo no EPO custar 20.000 euros e o do INPI custar 100 euros, donde qualquer luso inventor vá a correr a INPI pedir o registo duma ideia que lhe veio ao bestunto numa noite de insónia na cama pelo preço duma noite de insónia nas docas.

Quando comparamos os pedidos de registo em 2009 no EPO, verificamos que Portugal pediu o registo de 107 patentes (compare-se com os 723 pedidos ao INPI) e dos 36 países considerados só há 13 com menos pedidos. Em número de pedidos por milhão de habitantes, desses 36 países só há 9 com menos do que os 10,1 por milhão de Portugal: Bulgária, Grécia, Croácia, Lituânia, Macedónia, Polónia, Roménia, Eslováquia e Turquia. A nossa vizinha Espanha, por exemplo, registou 12 vezes mais patentes e não consta esteja a celebrar nenhum surto inventivo.


Vejamos o que se passa com os pedidos de patente no USPTO (United States Patent and Trademark Office) onde são registados todas as invenções que interessam. O que se observa no «Patent Counts by Country/State and Year – All Patent Types» é arrasador. Portugal registou menos patentes em 2009 (19) do que em 2008 (31) e desde 1977 apenas registou 291 patentes. Do total registado em 2009 no USPTO (191.933 ou 29 patentes por milhão de habitante, considerando um total de 6.900 milhões), as 19 patentes portuguesas representam uma percentagem infinitesimal e correspondem a menos de 2 patentes por milhão de habitantes (compara com a média mundial de 29).

Porquê a minha urticária com estas efabulações? Porque ninguém sai de um atoleiro onde se meteu ou foi metido se não perceber que está nele.

ESTADO DE SÍTIO: a privatização do chefe dos espiões

Quais as qualificações mais adequadas a um chefe de espiões? Ora que pergunta! Evidentemente experiência numa organização secreta, por exemplo a loja maçónica Mozart da Grande Loja Regular de Portugal. Qual o momento mais oportuno para o chefe dos espiões anunciar a sua demissão? Sem dúvida, nas vésperas duma cimeira da NATO na capital do país em causa. Para onde deve ir um chefe demissionário dos espiões usar as competências adquiridas como chefe dos espiões? Obviamente para o complexo político-empresarial socialista, por exemplo a banca do regime (BES ou Millenium bcp, que o disputam) ou, melhor ainda, para um dos apêndices da banca do regime (Ongoing) dirigido por um correlegionário da mesma loja (Nuno Vasconcelos).

Nem um protesto, nem uma indignação, apenas o reconhecimento do ex-ministro da Defesa Paulo Portas da necessidade de «reflexão». Quereis melhor prova de maturidade da nossa democracia?

[Estória contada pelo Expresso a propósito da saída anunciada de Jorge Silva Carvalho do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa]

Os pulgões do Estado Sucial

Com a mesma à vontade com que escreve livros desancando no candidato de cuja comissão de honra faz parte, Júdice, é mais um dos advogados-pulgões praticando activamente o parasitismo do Estado Sucial facturando serviços imaginários ou serviços reais por preços imaginários. No último exemplo divulgado pelo Sol, a sua sociedade PLMJ faz o pleno e factura serviços imaginários (ou, para ser rigoroso, serviços imaginados) por preços imaginários. Pela mão de Rui Pedro Soares, ele próprio um homem de mão de José Sócrates, a PLMJ facturou à Taguspark 229 mil euros sem uma adjudicação, sem um contrato, por serviços relacionados com «estudos relativos ao lote 31», que afinal eram estudos relativos à compra da TVI. A PLMJ facturou ainda 500 mil euros por uma auditoria (?) ao que parece encomendada por Isaltino de Morais, envolvendo «1.935 horas de trabalho por parte de 32 advogados».

Tudo isto não parece incomodar a nomenclatura socialista que através do Estado e das empresas públicas sustenta o escritório, como não parece incomodar Cavaco Silva, que também levou tempo a incomodar-se com as ligações perigosas de Dias Loureiro ao BPN, e muito menos parece incomodar o próprio Júdice que é bem capaz de mostrar a sua «independência» mordendo a mão que o afaga e cuspindo no prato que o alimenta.

DIÁRIO DE BORDO: Fractais da natureza (3)

Floco de neve com padrões que reproduzem a curva de Koch

27/11/2010

A maldição da tabuada (5) – operações com números imaginários

Vejamos como evoluiu a poupança resultante das energias renováveis, ao longo do ano:
  • Em Abril eram 500 milhões, segundo Zorrinho;
  • Em Setembro eram 100 milhões, segundo Sócrates;
  • No mês seguinte, em Outubro, já eram 700 milhões, segundo o mesmo Sócrates;
  • Em Novembro, segundo o mesmo Zorrinho, subiram para 800 milhões.
Será o mesmo Sócrates? Será o mesmo Zorrinho? Terá Zorrinho adicionado as poupanças de Sócrates? Serão as mesmas energias renováveis?

[Lido aqui e aqui]

DIÁRIO DE BORDO: Imagens da NASA (1)

Anéis de Saturno

26/11/2010

Pro memoria (13) – casos de sucesso do complexo político-empresarial socialista

Microfil a empresa tecnológica de sucesso, relacionada com 46 mil cartas de condução desaparecidas, «apadrinhada» pelo saudoso ministro Pinho, «à beira da falência está nas mãos da banca».

É o acontece quando os políticos de meia-tijela se arvoram em aprendizes de feiticeiros do mercado com a pretensão de elegerem as empresas de sucesso.

Ainda haverá esperança para a PT?

Com o fim da golden share e a subida para 10% da posição dos fundos geridos pelo Capital Research and Management, que passará a ser o maior accionista, ficará mais limitado o campo de manobra do complexo político-empresarial socialista corporizado neste caso pela coligação espírita e representado pela dupla Granadeiro-Bava. Para começo de conversa, adivinham-se mais dificuldades no cambalacho da transferência do fundo de pensões para a segurança social.

TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: PBREC (processo de branqueamento do regime em curso)

«Por mais responsabilidades e culpas que tenha o actual primeiro-ministro (e são imensas) no desastre económico e financeiro, na ausência de reformas estruturais, na manutenção do corporativismo que infesta o Estado português, nas ligações perigosas e perversas entre o mundo político e o mundo empresarial, Portugal só pode em sonhar sair do buracão em que está metido depois de uma profunda reforma do regime político e uma importante regeneração da nomenclatura partidária. E não falo apenas dos "boys" e das "girls" (que continuam em grande mesmo depois de todos os PEC, como é amplamente anunciado cada dia pela comunicação social) e dos "apparatchiks" que esperam a saída de Sócrates para encontrar outro menino de ouro que faz bem a Portugal. Falo das elites económicas que vão a Belém cada vez que as coisas correm mal e querem outro governo para não atrapalhar os negócios que endividaram o País. Falo das dezenas de comentadores e fazedores de opinião, sempre os mesmos, que andaram anos a defender um modelo que só podia conduzir a este desastre, os que falam do optimismo saudável contra os malvados Velhos do Restelo, os que usavam e abusavam da propaganda para descobrir sempre a dura realidade depois dela já ser evidente. Ainda que muitas vezes discordando da substância da análise dos economistas heterodoxos, não tenho dúvida em achar que estão cobertos de razão ao denunciar a falta de pluralismo em Portugal, onde os mesmos que durante vinte anos defenderam as políticas desastrosas (sempre no intervalo das sinecuras do regime que foram acumulando) continuam a pontificar nos jornais e nas televisões como se não fosse com eles.

A nova versão do regime para explicar o atoleiro português é culpar a senhora Merkel.
»

[«A sobrevivência do regime e o eleitorado alemão», de Nuno Garoupa no Negócios]

CASE STUDY: A situação portuguesa é diferente da irlandesa, mas nem sempre para melhor (2)

Pelas razões que tentei expor no post anterior, o tele-evangelista Louçã está, infelizmente, completamente equivocado no seu «já se vê para onde vamos, vamos a caminho da desgraça irlandesa». O equívoco é tão evidente que confrontado com o trilema de Žižek sou forçado a considerar o professor de economia Louçã desonesto ou burro, isto é desonesto se inteligente e burro se honesto.

Ao elenco das diferenças entre Portugal e Irlanda, a cujo propósito remeto para este artigo de Miguel Frasquilho (espero que os Espíritos seus patrões não lhe puxem as orelhas por escrever heresias),  ainda acrescento as seguintes:
  • À dívida pública portuguesa é preciso adicionar pelo menos 30 mil milhões de dívidas das empresas públicas e 50 mil milhões de compromissos com as PPP, tudo por junto 50% do PIB;
  • O salário mínimo irlandês será reduzido de 12%, e ainda assim ficará a valer 2,7 vezes o salário mínimo português;
  • Em vez de engenharias orçamentais para reduzir o défice comprometendo a sustentabilidade da segurança social (transferência do fundo de pensões da PT), o governo irlandês apresenta ao parlamento medidas que envolvem cortes efectivos e significativos da despesa (despedimento de 25 mil funcionários públicos e 3 mil milhões de benefícios sociais a menos); e last but not least
  • «Portugal is the victim of an orchestrated calumny intended to divert attention from a bankrupt Britain, or America. The rating agencies are deemed agents of Anglo-Saxon hegemony
Em desespero de causa, para melhor percebermos a diferença entre a Irlanda e Portugal, ajudará recordar a profundidade da crise financeira de 1997 na Coreia do Sul, a sua rápida recuperação nos anos seguintes e o vigor actual da sua economia. Ao fazê-lo, cedendo à facilidade em benefício dos distraídos, poderíamos caricaturar a comparação e fazer equivaler a Irlanda de 2010 à Coreia do Sul de 1997, o Portugal de 2010 à Coreia do Norte de 1997, ou qualquer outro ano, e José Sócrates ao querido líder Kim Jong-Il.

Moral da estória das diferenças: a desgraça irlandesa faria a nossa felicidade.

Adivinhe quem escreveu

Cavaco Silva transformou o PSD num partido «feito à sua imagem e semelhança: um partido tecnocrático, um catch all party, ou seja, um partido sem fronteiras, onde todos poderiam vir plantar a sua tenda, desde que aceitassem a liderança indiscutida do então primeiro-ministro, e assim ajudassem a conquistar votos e a manter suseranias».

Este juízo sobre o papel de Cavaco Silva poderia ter sido escrito por muita gente. Salvo, evidentemente, por um apoiante da candidatura do homem que «se apresentou como um líder autoritário, não permitindo a libertação da sociedade civil, como Sá Carneiro sempre defendera». E muito menos um membro da comissão de honra da candidatura. Ou estarei enganado?

25/11/2010

Portugal vai ser um dos maiores países islâmicos do mundo

6 milhões de mouros estão quase a deixar de acreditar em Jesus!


[Autor desconhecido, provavelmente um tripeiro]

Alguém pode explicar-me

Segundo um estudo do Gabinete de Planeamento, Estratégia, Avaliação e Relações Internacionais do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, numa lista das 100 empresas que mais investiram em Investigação & Desenvolvimento em 2008 (esta gente não consegue usar dados com menos de 2 anos de atraso?) os primeiros 5 lugares são ocupados pela PT, BCP, EDP, BIAL e ISBAN.

Alguém pode explicar-me que Investigação & Desenvolvimento fizeram em 2008 o BCP e a EDP, para não ir mais longe?

DIÁRIO DE BORDO: O microcosmos da Nikon (4) – mosca-de-água

Garras posteriores de larva da Trichoptera Hydropsyche angustipennis
[Fabrice Parais, Caen - França]

24/11/2010

NÓS VISTOS POR ELES: 25 anos a beber imoderamente não fazem uma bebedeira mas dão ressaca

«C'est la crise sans les bulles, une épouvantable gueule de bois sans s'être vraiment enivré. Le Portugal s'enfonce dans une profonde atonie économique sans avoir connu les délires bancaires de Irlande, les folies immobilières de l’Espagne ou même les colères de la rue grecque. De tous les surendettés de Union Européenne (UE), c’est le pays qui a le plus de mal il compenser par des ' points forts" les ' points faibles' recensés par les analystes. Il n'est pas forcément menacé d'une banqueroute immédiate, mais comme dépourvu de perspectives d'amélioration.

La crise économique est en effet intimement liée à l'agonie d'une pratique du pouvoir rejetée par beaucoup de Portugais. Le premier ministre, José Socrátes (PS), avec une majorité relative, ne gouverne que par défaut. Aux législatives de 20OEl, il s'est sauvé en octroyant aux fonctionnaires une augmentation qu'il leur reprend aujourd'hui. Leur sentiment de trahison est accru par sa sous-estimation de la situation pendant le premier semestre de cette année. Mensonge ou incompétence? Quels que soient ses torts, le gouvernement ne risque pas de sanction des urnes avant l'élection présidentielle du printemps 2011.»

[Chômage, récession, rigueur: le Portugal glisse inexorablement vers la pauvreté, de Jérôme Fenoglio, enviado especial a Lisboa de Le Monde] 

António Costa, o aprendiz de feiticeiro em estágio na CML

Várias vezes foi denunciada no (Im)pertinências a prática do governo do engenheiro orçamental José Sócrates de ajeitar as contas com a venda de imóveis do estado a empresas públicas. António Costa, na câmara municipal de Lisboa, vai-se preparando para o lugar ensaiando truques semelhantes. Perante a situação caótica da câmara com o inchaço dos passivos que atingem cerca de 2 mil milhões, as receitas no orçamento de 2011 vão crescer 30% à custa da criação do fundo imobiliário que comprará à câmara imóveis no valor de 218 milhões e da venda de parte da rede de esgotos à EPAL por 100 milhões.

NOTA: Depois da publicação deste artigo, o Público diz que errou. O que escrevi neste post não foi afectado pelo esclarecimento de António Costa.