Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

02/10/2009

ESTADO DE SÍTIO: estatísticas de causas

Segundo o Diário Económico, citando o Boletim do Observatório do Emprego Público, «entre 2006 e Junho de 2009, o Estado contratou 49.852 funcionários públicos mas registou a saída de 107.584 trabalhadores - destes, 64 mil foram para a reforma. Em termos líquidos, a Administração Pública perdeu 57.732 funcionários públicos.»

Vamos ver se percebo.

Saíram                                              107.504
Dos quais, para a reforma                  64.000
Ou seja, saíram mesmo apenas         43.504
Entraram                                           49.852
Ou seja, temos mais                           6.748 utentes da vaca marsupial pública.

Recorde-se que o programa de governo se propunha cortar 75 mil postos de trabalho e, mesmo na versão estatística de causas, «cortaram» menos de 58 mil. Em termos de despesa pública, 64 mil trocaram vencimentos por pensões da CGA.

01/10/2009

Sou eu que estou a ver mal ou os submarinos estão a emergir outra vez

É bastante estranho uma antiga potência marítima comprar submarinos. Não tanto por serem submarinos, mas por serem apenas dois. A primeira ideia que me ocorreu foi que o racional da compra seria oferecer um brinquedo ao almirantado. E porquê dois submarinos? Somos pobres, não podia ser só um? Diziam os cadetes milicianos 3 ou 4 décadas atrás que a Marinha tinha então 3 submarinos: um que só imergia, outro que só emergia e o terceiro que não imergia nem emergia. É pois natural que, com o preço a que chegaram os submarinos modernos, um país pobre que só tinha três velhos passasse a ter dois novos - um para imergir e outro para emergir.

Já é mais familiar o processo de compra, conduzido por Paulo Portas, que encarnava em 2004 o ministro da Defesa do governo Barroso, estar contaminado de suspeitas de corrupção, tráfico de influências e financiamento ilegal de partidos políticos. É igualmente familiar a imersão do processo de investigação durante bastante tempo até emergir agora com a visita mediática do DCIAP, Inspecção de Finanças e GNR ao escritório de advogados Sérvulo & Associados.

Mesmo sem querer, uma pessoa tende a não precisar de explicações para a imersão do processo de investigação durante anos nas profundezas do oceano da incúria, negligência, compadrio, etc. A imersão dos corpos mais densos é, digamos assim, um fenómeno físico natural que não carece de interpretação. O que ainda resta compreender é o fenómeno da emersão, precisamente neste momento pós-eleitoral, quando o partido envolvido conseguiu um vibrante resultado com as consequências conhecidas em matéria da geometria das coligações possíveis.

30/09/2009

A obra com maioria absoluta foi o que foi. E com maioria relativa, como será?

Durante o mandato que agora termina o querido líder alcançou os seguintes extraordinários resultados:
  • Crescimento médio anual do PIB português 0,1%; na UE-27 foi de 1% no mesmo período

  • Ranking da competitividade segundo o WWF passou de 24.º em 2004 para 43.º em 2009

  • Défice externo anual médio 8,8% do PIB; em consequência o endividamento externo aumentou de 64% para mais de 100% do PIB

  • Défice público ciclicamente ajustado deve situar-se acima de 6% do PIB em 2009

  • Aumento da carga fiscal de 34,9% do PIB em 2004 para mais de 37% em 2009

  • Despesa pública, apesar do corte no investimento público, subiu de 46,5% do PIB em 2004 para mais de 50% em 2009

  • Dívida pública directa subiu mais de 15 pontos percentuais do PIB, chegando a 75% em 2009

  • Endividamento público total (incluindo as empresas públicas não financeiras e os encargos previstos com parcerias público-privadas e concessões) aumentou mais de 20% do PIB atingindo 110% em 2009

  • Desemprego passou de pouco mais de 7% para mais de 9%; na UE-27 desceu meio ponto percentual

  • Esforço fiscal relativo (carga fiscal face ao nível de vida) aumentou de 118,2% em 2004 para cerca de 124% da média europeia a sétima mais elevada dos 27 e a quarta maior subida.

FONTE: «E agora, com maioria relativa?!...», artigo de opinião de Miguel Frasquilho no Jornal de Negócios

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES LEITORES: mentiras, inverdades, sobreiros e eucaliptos

«É evidente que a manipulação de dados e consciências é isto mesmo – a mistura de verdades em mentiras, resultam em inverdades, tal como acontece com outra falácia do “aquecimento global”, pandemias, etc.…
Ora, falando de inverdades no resultado das legislativas 2009, para além da “extraordinária vitória” do P$ e respectiva perda de mais de meio milhão de votos e 24 deputados (faltando ainda o apuramento dos resultados no estrangeiro, previsto para 7 de Outubro p.f.), como referiu e muito bem e, de acordo com [os resultados oficiais finais para o território nacional], comparativamente a 2005, cujos resultados foram: 28,7% -1.639.802 votos - 72; o PSD/MFL ganhou 29,09% do eleitorado votante, o que equivale a 1.646.071 votos e 78. Em suma, não perdeu votos, antes pelo contrário ganhou (pouco é certo) mas ganhou 6269 votos.
Este resultado para todos os efeitos até que não foi mau, tendo em conta os 2 eucaliptos a secarem-lhe o terreno, não sei quantos cardos e ervas daninhas pelo meio, mais uma prestação tímida e pouco ou nada folclórica. Podia ter sido melhor é certo, mas considerando todas as “maleitas” e asfixias que o país e os cidadãos sofrem, na minha opinião, foi um bom resultado.
A matemática é infalível, só que para um país dormente, com 650000 cidadãos analfabetos e outros tantos analfabrutos, a “central manipuladora” (vulgo media vendida) faz os possíveis para alastrar as pragas e ninguém corrige… nem no próprio PSD?! Isso é o que me causa verdadeira apreensão! Será que o PSD está em fase de implosão, ou fusão?! De qualquer forma é estranho e devem-se explicações a mais de 1 milhão e meio de cidadãos.
Outro sintoma da doença (será Gripe da política?) é o facto do próprio PR fazer hoje uma comunicação aos media, às 20:00H. Pergunto, essa comunicação não deveria ser feita ao país???
Algo está em franca decomposição na central de compostagem que alguns chamam Portugal
.»

[de um email de AP]

29/09/2009

A visibilidade externa do conúbio entre o governo socialista e os negócios

Segundo os analistas do UBS, a vitória do PS é boa para António Mexia, que fica garantido até ao final do mandato na EDP. E o que é bom para António Mexia é bom para a EDP, pelo que a UBS mudou a recomendação para «buy».

Que os analistas da UBS percebam como funcionam os negócios em Portugal, isso só abona a seu favor. Que os locais não percebam o que isso significa de falta de transparência e de promíscua relação do governo com as empresas e dos negócios e como isso prejudica os negócios e as empresas, isso só abona em seu desfavor.

ARTIGO DEFUNTO: o que é uma derrota segundo os manipulados do ionline

A pesada derrota que o PSD sofreu nas legislativas e a derrota de Manuela Ferreira Leite traduzidas em números são o quê?

A derrota do PSD de MFL foi o ganho de 6 deputados e a perda de 7 mil votos. A vitória do PS de José Sócrates foi a perda de 24 deputados e de mais de 500 mil votos. (*)

(*) Resultados nacionais

Manipulado = Uma notícia preparada numa farmácia de manipulação e zelosamente publicada por um ou mais jornalistas esperançosos de um dia serem convocados para uma comissão de serviço.

ARTIGO DEFUNTO: não sendo novidade, não deixa de ser deprimente para os jornalistas

Uma criatura que frequente assiduamente os jornais portugueses não fica surpreendida ao saber pelo estudo de Vasco Ribeiro (*) que dois terços das notícias são fabricadas pelos spin doctors que enxameiam os gabinetes do governo e de muitas grandes empresas. Algumas dessas empresas têm ligações umbilicais ao governo, através de golden shares (EDP, PT, etc.), através de apparatchiks fat cats (Millenium bcp, etc.) ou de empresários em união de facto com o governo (grupo Espírito Santo, Martifer, etc.), de modo que podemos simplificar englobando no complexo político-empresarial socialista.

Uma tal criatura não fica surpreendida senão pelo grau de alienação da corporação jornalística que, nalguns casos por menos do que um prato de lentilhas, esquece um módico de deontologia profissional e nem ao menos cita a fonte profissional da informação (só 1,3% o faz).

(*) «Fontes sofisticadas de Informação – Análise do produto jornalístico político da imprensa nacional diária de 1990 a 2005», Media XXI

28/09/2009

BREIQUINGUE NIUZ: os desafios do novo primeiro-ministro

Segundo o canal do governo, «Bruxelas vai abrir procedimentos por "défice excessivo" a Portugal». De acordo com alguns analistas, o novo primeiro-ministro ficou surpreendido e irá aumentar os impostos para fazer face ao défice da responsabilidade do seu antecessor.

Um conto de um sobreiro e dois eucaliptos

Era uma vez um sobreiro doente chamado PSD entalado entre dois eucaliptos: o velho eucalipto Cavaco Silva e o novo eucalipto Sócrates. O velho eucalipto seca o solo há 14 anos à volta do sobreiro e o novo eucalipto faz o mesmo vai para 5 anos. Se o novo eucalipto se aguentar até às eleições presidenciais, o velho eucalipto garantirá a morte do sobreiro nos 5 anos seguintes.

27/09/2009

Centro político, o grande derrotado (ACTUALIZADO)

Para onde foram os 520 500 mil votos de 2005 perdidos pelo PS? Não foram para o PSD que conseguiu o mais difícil: perder 10 mil recuperar ganhar apenas 6 mil votos dos resultantes das patetices de Santana Lopes. Ou terão ido, em parte, se o PSD tiver perdido 175 mil dos seus votos de 2005 para o CDS. Dos 520 500 mil perdidos pelo PS, uma parte significativa ter-se-á transferido para o BE e explicará o seu aumento de 190 mil votos. O resto dos eleitores do PS de 2005 votou com os pés.

Tudo visto, o centro político perdeu mais cerca de meio milhão de votos para os extremos do espectro político. Quase 40% dessas perdas foram ganhas pelos partidos das diversas modalidades de estado soviético.

DIÁRIO DE BORDO: uma escolha difícil - converter duas dimensões numa só

Palpitações à boca das urnas

A abstenção vai baixar significativamente. O PS vai ficar abaixo das últimas sondagens - a excitação dos últimos dias pode ter libertado o voto útil no PS a favor do BE e do PCP. O BE poderá ter uma votação histórica e alcançar o seu apogeu. CDS e PCP vão ficar acima dos resultados de 2005. O PSD fica uns pontos abaixo do PS, o suficiente para Sócrates cantar vitória e os challengers de MFL começarem a agitar-se. PSD e CDS juntos não conseguem a maioria na AR. Os «Outros» ficarão abaixo das sondagens - na hora da verdade muitos eleitores votarão «útil».

26/09/2009

O voto do (Im)pertinências é um voto impertinente



Para quem, como nós, defende o primado das liberdades individuais e um estado mínimo não há votos a favor no leque de escolhas do actual espectro partidário. As escolhas disponíveis são entre duas modalidades do estado soviético e três modalidades do estado social e outras exóticas variantes dessas duas famílias. Há, quanto muito, o voto útil, que é um voto inútil para afirmar uma escolha política liberal.

O nosso voto inútil vai, como não podia deixar de ser, para o PSD. Porque sendo um partido híbrido, onde convivem socialistas mitigados, que partilham o mesmo colectivismo do PS, e uns poucos liberais envergonhados, manterá (com alguma sorte nossa, não reforçará) o estado social com menos convicção e mais incompetência do que o PS. Mas o nosso voto vai, sobretudo, contra o PS de José Sócrates, a clique com menos escrúpulos, que mais promoveu a promiscuidade entre política e negócios, com mais cinismo e que mais ocupou e usou o aparelho de estado na defesa dos seus interesse e mais manipulou a opinião pública, que Portugal viu desde a queda da I República. E fê-lo arruinando o país que quatro anos e meio depois tem mais desemprego, está mais pobre (*), menos produtivo e mais endividado. Um país que soçobra debaixo do peso crescente dum estado incompetente e omnipresente que afoga a pouca iniciativa empresarial, que promove a dependência e asfixia as liberdades.

É uma questão de higiene.

Impertinente                 Pertinente


(*) O gráfico do índice caranguejo de A destreza das dúvidas fala por si.

25/09/2009

Take Another Plane - «Quem precisa de pilotos da TAP?»

É uma boa pergunta da Ryanair que não lhe convém responder, porque a resposta seria: a Ryanair em particular e os operadores low cost em geral.

Se a TAP fosse uma empresa privada tecnicamente falida, como de facto está a empresa pública, teriam os seus pilotos feito a greve em curso de que se orgulham ter afectado só ontem 172 voos? Greve, recorde-se. para reivindicar a «reposição do poder aquisitivo perdido pelos pilotos ao longo de 10 anos de concessões» por quem tem salários mais de 10 vezes superiores à média do país. Tudo isto num mercado de trabalho internacional onde existe um excesso de pilotos, o que não tem nenhumas consequências devido às barreiras artificialmente criadas pela circunstância de se tratar duma corporação profissional numa empresa pública.

Queixam-se os pilotos que «estão 25% abaixo dos seus homólogos europeus». Não sei quem o sindicato considera homólogo, mas suspeito que serão os pilotos alemães, franceses ou ingleses. Não sei se o sindicato considerou para calcular essas equivalências as paridades do poder de compra, mas suspeito que não e tenho a certeza que se esqueceram que em muitas profissões qualificadas os respectivos profissionais portugueses recebem salários nominais entre 50% a 75% «abaixo dos seus homólogos europeus».

24/09/2009

CASE STUDY: o valor do canudo

Um tanto surpreendentemente, Portugal surge no gráfico seguinte como um dos países da OCDE em que os licenciados têm um rendimento adicional (*) mais elevado durante a sua vida de trabalho. Porquê surpreendentemente? Ora, porque sendo má a qualidade média das universidades portuguesas e estando as melhores longe do topo do ranking, seria de esperar que uma graduação não representasse uma mais-valia tão significativa em termos relativos. A explicação talvez seja a reduzida mobilidade social na sociedade portuguesa e a inerente importância dos títulos que confere aos detentores dum canudo, frequentemente independente da qualificação e das competências, um passe social para a ascensão.



[Fontes: Learning and earning, Sep 8th 2009 e It still pays to study, Sep 10th 2009, ambos da Economist]

(*) Os valores do relatório da OCDE são os valores actuais líquidos descontados a uma taxa de juro de 5%, sendo as comparações entre países baseados na paridade do poder de compra.

DIÁRIO DE BORDO: a passarada que me visita (6)


Felosa comum ou felosinha (Phylloscopus collybita)

23/09/2009

ESTADO DE SÍTIO: não sendo asfixia, será falta de ar?

Terá a Dinalivro atrasado intencionalmente a distribuição da biografia não autorizada "José Sócrates - o homem e o líder» do jornalista Rui Costa Pinto impedindo a sua publicação antes das eleições?

Se não, será que não perceberam a oportunidade de vender uns milhares de exemplares em poucos dias?

Se sim, será porque são referidas situações de «pressão sobre a comunicação social»? Será porque o homem é classificado peo autor como «bipolar» (o conflito entre o Sócrates «animal feroz» e o José «bonzinho»)?

Estado empreendedor – (8) quando a energia se esgota na manipulação mediática

A entropia da política energética já aqui foi abordada no (Im)pertinências. Vem agora a confirmação que o projecto Pelamis de energia das ondas continua à deriva.

Quanto à energia eólica, para se perceber a dimensão das asneiras em curso recomenda-se a leitura do post «Clusters industrais nas renováveis: 23 mil empregos, ou a fraude portuguesa do século? Parte I – eólicas» (uma dica de AP).

22/09/2009

Reparando outra distracção

Lá porque aqui em casa também não apreciamos especialmente o homem e muito menos as suas ideias, não é caso para deixar de relevar a recusa de Manuel Carrilho cumprir as instruções do ministro dos Negócios Estrangeiros para votar no ministro da Cultura egípcio Farouk Hosny para secretário-geral da UNESCO. A principal obra cultural de Farouk Hosny em 22 anos que leva de ministro foi a promessa de ele próprio queimar todos os livros em hebraico que porventura encontrasse na biblioteca de Alexandria.

Estado empreendedor – (7) as vendas do engenheiro Sócrates ao coronel Chávez

«Chávez já comprou 110 milhões a empresas portuguesas» titula entusiasmado o Diário Económico, citando uma fonte do ministério da Economia. Talvez sim, talvez não. Segundo os dados do INE, de Março a Julho as exportações para a Venezuela somaram cerca de 52 milhões ou cerca de 0,4% do total das exportações.

Tais números, sejam eles os entusiásticos 110 milhões ou bastante menos, manifestamente não justificam o entusiasmo do DE e muito menos o alarido do governo, nem dão substrato ao amor assolapado entre os dois queridos líderes, talvez mais fruto da comunhão de mundivisões do que do mesquinho interesse comercial.