Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

30/04/2009

SERVIÇO PÚBLICO: É mais o que os une do que aquilo que os divide

«A nova lei do financiamento dos partidos políticos, das campanhas eleitorais e dos grupos parlamentares, ontem aprovada na especialidade em tempo recorde, sobe em mais de um milhão de euros — de 22.500 para 1.257.660 euros — o limite das entradas em dinheiro vivo nos partidos.

O texto final foi aprovado, na esmagadora maioria dos artigos, por unanimidade, o que prenuncia o consenso que hoje deve ser conseguido no plenário em votação final global
.» (Público)

Espera-se que o Ministério das Finanças relance a campanha PEÇA FACTURA.

O senador do queijo limiano


[no Oje de hoje]

29/04/2009

«Uma peça desonesta de politiquice pré-eleitoral» (2)

«Gordon Brown’s budget is a dishonest piece of pre-election politicking»
[Desperate measures, Apr 23rd 2009, The Economist]

Não há notícia de que Gordon Brown tenha processado a Economist. Sorte a deles. Se escrevessem a mesma coisa sobre as trapalhadas do nosso primeiro não se livravam dum processo.

«Uma peça desonesta de politiquice pré-eleitoral»

«O orçamento é uma peça desonesta de politiquice pré-eleitoral. As previsões fiscais são como aquelas desculpas infantis que começam com um pequeno exagero e se transformam numa completa falsidade. É insuportável que, para emagrecer o défice, as Finanças assumam que a economia voltará a crescer no final do ano. Um primeiro-ministro prudente não poderia autorizar tal coisa.

A curto prazo, um módico de guerra de classes pode ajudar. Mas, por cada eleitor que aprecia a ideia de apertar os ricos, pode haver vários que se lembram da promessa de não aumentar os impostos durante a legislatura.»


Desafio: quem escreveu (aproximadamente) isto, sobre quem e quando?

Irá o primeiro-ministro em causa accionar o jornalista ou o jornal que publicou tais diatribes?

28/04/2009

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: País em vias de subdesenvolvimento

«Portugal deverá cair este ano para a 33ª e última posição no "ranking" de riqueza criada por habitante das economias avançadas, revelam as últimas previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI). Entre 2000 e 2008, Portugal recuou da 18ª para a 32ª posição. Este ano, arrastado pela crise, tocará no fundo, ultrapassado pela Eslováquia.» (JdeN)

É um país em vias de subdesenvolvimento.

DIÁLOGOS DE PLUTÃO: Quando for crescido quero ser deputado

- Avô sabes onde fui ontem, numa visita de estudo?
- ?
- À Assembleia da República.
- Hum. E que tal?
- Um deputado falava e os outros dormiam ou navegavam na Net.
- Todos?
- Só os do palanque é que tomavam notas ou jogavam à batalha naval. Não tive a certeza.
- E então?
- Quando for crescido quero ser deputado.

27/04/2009

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: Abissus abissum invocat

Deve haver uma atracção dos portugueses pelo abismo. Só isso pode explicar que num contexto duma década de queda relativa da produtividade e consequente perda de competitividade, défice estrutural no comércio externo, crescente endividamento do Estado, do sector financeiro, dos particulares e das empresas em geral, contexto agravado por uma conjuntura internacional desfavorável que torna ainda menos atractivas as exportações portuguesas … (pausa para respirar) num contexto e numa conjuntura assim, à beira duma deflação, acentue-se, depois de o Estado ter aumentado os salários dos funcionários públicos em 2,9%, o sector privado acordou com os sindicatos aumentos médios de 2,6%, presumivelmente o «maior ganho de poder de compra desde 2000».

É um país em vias de subdesenvolvimento.

Nobody would have the balls today

«Salman Rushdie publicou os “Versos Satânicos” há vinte anos. Os líderes religiosos do Irão consideraram que o livro ofendia o Islão e condenaram-no à morte.

Muçulmanos britânicos queimaram cópias da obra em fogueiras públicas. No entanto, as elites políticas, intelectuais e os meios de comunicação ocidentais defenderam o escritor, mostrando a sua perplexidade e indignação. Não passou pela cabeça de algum ocidental condenar Rushdie ou o livro.

Quase duas décadas depois, em 2005, muitas vozes nos mesmos países ocidentais condenaram os jornais dinamarqueses por publicarem as caricaturas de Maomé. O governo turco quis impedir o então Primeiro Ministro dinamarquês de ser escolhido para Secretário Geral da NATO, simplesmente por não ter criticado a liberdade de imprensa dos jornais do seu país. No ano passado, uma das maiores editoras norte americanas, a Random House, não publicou um manuscrito por, na opinião de um académico, ser "ofensivo" para a religião muçulmana. Em 2009, os autores ocidentais são menos livres e têm mais medo do que em 1989. Cito (sem traduzir) o que disse recentemente um outro escritor britânico muçulmano, Hanif Kureishi: "nobody would have the balls today to write The Satanic Verses, let alone publish it".
»

[João Marques de Almeida, Retrocesso na liberdade, DE]

26/04/2009

CASE STUDY: To be born as a gentleman is an accident. To die as a gentleman is an achievement. (2)

Não sendo a genética determinística, valerá a pena o estado fazer alguma coisa para proporcionar oportunidades aos filhos dos pobres, ou pelo menos aos melhores entre eles? Interroguei-me a semana passada aqui.

No decurso da semana, o estado, pela boca do primeiro-ministro durante o seu comício quinzenal no parlamento, anunciou que iria ser aumentada a escolaridade obrigatória de 9 para 12 anos e concedidas bolsas aos alunos com aproveitamento escolar no ensino secundário cujas famílias se enquadrem nos dois primeiros escalões do abono de família. Sendo inquestionável que estas bolsas constituem uma medida (insignificante – a bolsa mensal não chega para comprar um jogo da Playstation) para melhorar as oportunidades dos filhos pobres escaparem ao determinismo social, podemos concluir que o aumento da escolaridade é uma medida importante no mesmo sentido?

Só por milagre. A extensão para 12 anos, com a inevitável transposição do facilitismo reinante no ensino básico, levará à extensão da mediocridade aos 12 anos de ensino. Dito de outro modo, os padrões do ensino secundário, que já de si deixam a desejar, como o reconhecem as universidades que recebem legiões de alunos mal preparados, degradar-se-ão ao nível do ensino básico. O resultado será os melhores ficarão pior e os piores ficarão na mesma. No final, é provável que mais filhos dos pobres cheguem ao 12.º ano, mas pior apetrechados e com um diploma cujo valor de mercado se deteriorou. Se a isto somarmos a previsível migração dos filhos dos ricos para o ensino privado em resposta à degradação do secundário, o nível médio dos alunos decairá ainda mais.

Com esta incursão pelo terreno das medidas para encher o olho dos eleitores, fica por responder a mesma pergunta.

[Continua talvez]

25/04/2009

DIÁRIO DE BORDO: 25 de Abril? ah, pois (REPUBLICADO)

Portugal será uma democracia madura quando os dinossauros cretácicos comemorantes do 25 de Abril igualarem em número os trilobites paleozóicos (não comemorantes) do 28 de Maio e ficarem, literalmente, a discursar uns para os outros.

[4 anos depois continuam quase todos os dinossauros cretácicos e ainda restam uns quantos trilobites paleozóicos]

ESTADO DE SÍTIO: o crime compensa

«Otelo Saraiva de Carvalho foi o líder operacional das FP-25 de Abril. Este facto foi julgado e provado em tribunal. Entre os crimes de que foi acusado, estavam o assassinato de 17 pessoas, de uma forma fria, brutal e cobarde. Apesar disso, Otelo foi promovido a Coronel por despacho conjunto do Ministro da Defesa e das Finanças.»

[O crime compensa no 31 da Armada]

24/04/2009

Os verdadeiros independentes vão nas listas partidárias e os falsos nas listas sem apoio partidário

«Enfim, as voltas que temos que dar para justificar o injustificável. Os verdadeiros "independentes" vão nas listas partidárias enquanto os falsos independentes apresentam-se em listas sem apoio partidário!

Depois do que aconteceu em Lisboa com os maus resultados do PS e do PSD em detrimento das candidaturas independentes, o destino ficou traçado. Nem independentes, nem partidos regionais, nem círculos regionais que coloquem em perigo a hegemonia dos velhos partidos, nem qualquer tipo de flexibilidade que facilite a formação e financiamento de novos partidos. Nem mesmo a possibilidade de listas abertas ou voto preferencial consegue ter aceitação. Mas também não surpreende. O segundo pilar do nosso sistema político é a centralização de todas as decisões nas lideranças nacionais. Para isso, temos de ter listas fechadas e escolhidas a dedo pelas direcções nacionais dos partidos. Evidentemente que graças a 35 anos desta prática, temos a Assembleia da República que temos, incompetente, inútil, ineficaz. Na verdade, o Governo transformou-se em poder legislativo e executivo enquanto a Assembleia da República tem uma função decorativa que, quanto muito, permite algum que outro espectáculo nas sessões plenárias. A introdução de qualquer influência dos eleitores na escolha dos deputados irá naturalmente prejudicar as lideranças partidárias, e dificultar a distribuição de sinecuras entre os "apparatchiks".»


[Nuno Garoupa, Os pilares do nosso sistema político e a conversa da treta, no JdeN]

23/04/2009

CAMINHO PARA A SERVIDÃO: uma estratégia para a vida

Não seria preciso os rapazes do ISCTE terem torturado as suas meninges e construírem o Índice de Consciência Reforma (ICR). Todos nós já sabíamos o que os portugueses pensam do futuro (a Deus pertence) e o que esperam do Estado (tudo), em particular o que esperam em matéria de pensões de reforma (que custem pouco, cheguem cedo e com suficiência). Já que os rapazes fizeram o estudo, infelizmente pouco frequente entre nós, praticantes do palpite, convém dar-lhe alguma utilidade.

A primeira conclusão é que numa escala de 0 a 100 o bendito ICR apresentou um valor médio na amostra de 10,4, e um máximo de 53,1 pontos percentuais. Registe-se que entre os 1.000-mil-1.000 inquiridos o melhor classificado, se este fosse um exame do secundário, teria passado à tangente.

É também extraordinário que, apesar de só 26% dos inquiridos confiar no sistema de segurança social, 72,5% conta com ele. Os 58,8% que também contam com o apoio da família esquecem que 72,5% das respectivas famílias está a contar com o sistema de segurança social.

Como se escreve no estudo, é «uma estratégia para a vida» ou, se preferirem, como se titula no DE «70% dos portugueses espera depender do Estado»

22/04/2009

Nem todos os obamas de Obama fazem felizes os obamófilos: episódio (27) cada vez menos, cada vez mais

É fácil enganar todos durante algum tempo. É fácil enganar alguns durante toda a vida. Não é possível enganar todos toda a vida.


[Fonte: Daily Presidential Tracking Poll, Rasmussen Reports]

21/04/2009

ESTADO DE SÍTIO: a pergunta que não vai ser feita logo à noite

Senhor primeiro-ministro, porque processou vários jornalistas que escreveram sobre o seu alegado envolvimento no caso Freeport e não processou Charles Smith pelas acusações de corrupção que lhe fez, tornadas públicas com a divulgação do vídeo pela TVI?

Há uma luz no fundo do túnel da economia portuguesa

Portugal pode seguir o exemplo da Grécia, que em 2006 reviu as contas nacionais e teve um crescimento de 25% do PIB, e aproveitar o Sistema Europeu de Contas para incluir no cálculo do PIB a economia paralela, incluindo todas as actividades ilegais, como a prostituição, a droga e, porque não, as “luvas”.

20/04/2009

Mais vale um fim horroroso do que um horror sem fim

Foi o que disse Tom Enders, CEO da Airbus alemã, numa entrevista à Der Spiegel, sugerindo um fim mais aceitável para o projecto iniciado há 6 anos do A400-M, um sofisticado avião militar de transporte que deveria ter começado a ser entregue o mês passado. O projecto que tem sido um exercício de arrogância e má gestão já torrou 2 mil milhões de euros acima do orçamento e ninguém sabe quando terminará nem quanto custará.

Ao que parece as FA francesas e britânicas, que precisam desesperadamente dum avião de transporte, admitem comprar ou fretar uns quantos C-17 e C-130 à Boeing - o grande concorrente da Airbus.

[Uma dica de TM]

CASE STUDY: To be born as a gentleman is an accident. To die as a gentleman is an achievement. (1)

Está desde há muito bem estabelecido que os filhos dos pobres têm uma elevada probabilidade de serem igualmente pobres. Faltava perceber porquê.

O estudo de Martha Farah (ver aqui um resumo), publicado há alguns anos, permitiu compreender os mecanismos neurológicos que afectam sobretudo a memória e explicam o menor desempenho dos filhos das classes baixas. Recentemente o estudo de Gary Evans e Michelle Schamberg (citado aqui e aqui) permitiu compreender esses mecanismos movidos pelas causas relacionadas com o stress quotidiano associado às posições sociais baixas.

Enquanto os filhos dos ricos herdam um património, os filhos dos pobres herdam um handicap. Aqui no nosso país talvez devêssemos chamar-lhes direitos adquiridos hereditariamente. Igualdade de oportunidades nestas circunstâncias é uma pura falácia. Se o colectivismo tem uma "solução" (a ditadura do proletariado, a economia de direcção central, o estado social, o estado assistencialista, etc., conforme a corrente), qual é a solução do liberalismo? Serão os mercados? Ou talvez, antes disso, será esta desigualdade de oportunidades um problema para o qual se deva procurar solução?

Devemos procurar solução por duas ordens de razões. Uma moral e outra utilitária. A razão moral não tenho tempo para explicar – nem precisa de grandes explicações. A razão utilitária é que, mesmo admitindo que os pobres são pobres porque o seu património genético é pobre e isso explica, dizem os especialistas, cerca de metade do desempenho (deve ter sido o consenso possível na polémica secular nature versus nurture), a genética não é determinística (graças a Deus, digo eu, que sou agnóstico). Que não é determinística é fácil de comprovar: basta ver a quantidade de idiotas que tiveram a sorte de nascer no sítio certo e não conseguem um módico de realização durante as suas merdosas vidas e os filhos de pobres que apesar disso conseguem desempenhos notáveis.

Não sendo a genética determinística, valerá a pena o estado fazer alguma coisa para proporcionar oportunidades aos filhos dos pobres, ou pelo menos aos melhores entre eles?

(Continua, talvez)

19/04/2009

Nem todos os obamas de Obama fazem felizes os obamófilos: episódio (26) e disse-o sem chorar

Quase me esquecia. Descobriu-se mais um emérito obamófilo arrependido ou pelo menos dubitativo. Jorge Sampaio diz que o «Presidente dos EUA tem muitas limitações» e que tem havido «uma obamania exagerada».

O (IM)PERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: não enterrem os mortos e dêem berlinas aos vivos

O meu jardineiro deixou de aparecer. Procurei-o em sua casa, mas não obtive resposta. Indaguei junto dos vizinhos e fui informado que tinha falecido no fim de Janeiro, no Hospital. E como não se lhe conhece família nenhuma que custeie o funeral, este ainda não se fez, porque, ao contrário do que acontecia há uns anos atrás, em que as Misericórdias se encarregavam disso, agora é o Ministério Público o organismo encarregado destas acções. E como o MP não tem orçamento há que aguardar, mantendo-se o corpo à guarda do Hospital. Estamos em Meados de Abril. Estão escandalizados? Não estejam! Porque, segundo o mesmo informador, só este ano é que foram feitos os funerais dos indigentes falecidos em 2006 e 2007. Tudo porque não havia orçamento. Entretanto, ouço hoje no telejornal, que foi gasto um milhão de euros para renovar a frota do Presidente, Vice-Presidentes e mais uns tantos, poucos, da Assembleia da República. Equipados com BMW, topo de gama, tendo o do presidente custado 150.000 euros».

[Lamento de JB]

A berlina do presidente