Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.
» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)

29/04/2006

DIÁLOGOS DE PLUTÃO: um sacana neoliberal

- Isto não pode continuar assim.
- ?
- Não podemos dar ouvidos aos profetas da desgraça, aos jeremias, incluindo o doutor do BP, que é pobre e mal agradecido.
- Pobre e mal agradecido?
- Sim, pobre e mal agradecido, porque foi entronizado como pitonisa do governo e depois diz que a coisa não tem pernas para andar.
- Mas, o FMI diz o mesmo...
- O FMI? O FMI é o porta-voz da globalização.
- E a OCDE? É o porta-voz de quê?
- Seja como for, não podemos ser pessimistas. É uma crise passageira. E o senhor engenheiro todas as semanas anuncia novas medidas. Os portugueses há-dem sair do buraco.
- Passageira? Mas se estamos em decadência desde o século XVI.
- A culpa é da globalização.
- Mas se fomos a primeira potência global?
- Talvez, mas não acautelámos os nossos interesses. Deixámos o estrangeiro sugar-nos.
- Como assim? Desde o século XVI os únicos períodos de crescimento forte seguiram-se ao desmantelamento de barreiras ao comércio internacional, depois da adesão à EFTA e mais tarde ao Mercado Comum.
- Foi coincidência. Não importa. o senhor engenheiro vai refundar o 25 de Abril.
- Vai refundar o 25 de Abril? Começo a ficar mais preocupado.
- Ó pá, porra! Não se pode falar contigo. És um sacana neoliberal.

28/04/2006

BREIQUINGUE NIUZ: o hemicirco ilhéu agita-se ao ritmo da batuta do bokassa local

Resolução da Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira n.º 6/2006/M. DR 81 SÉRIE I-B de 2006-04-26
«Resolve denunciar e lamentar, perante os órgãos de soberania, a reiterada discriminação negativa a que as Regiões Autónomas têm sido objecto quanto à não cobertura dos canais generalistas privados SIC e TVI e canal público (a 2) da RTP e resolve submeter à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) a renovação ou não das licenças dos canais SIC e TVI, recomendando que a ERC adopte idêntica decisão no que respeita ao canal 2 da RTP no sentido de assegurar a efectiva cobertura à Região Autónoma da Madeira»

27/04/2006

O IMPERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: depois da Teoria Geral do Prego, os Dicionários Improváveis

A publicação no Impertinências dos Contributos para a Teoria Geral do Prego do meu amigo APS, que se iniciou aqui e terminou abruptamente (isto não é piada para o JPP) aqui só não foi um fiasco completo porque se interrompeu. Acarretou-me mais descrédito, único bem que me abunda, e abalou-me a enfraquecida reputação. Das características paroxísticas da obra de APS, típicas do síndroma Creutzfeld-Jacobs, não deveria eu esperar outra coisa.

Apesar disso, proponho-me publicar umas notas, frívolas, como o próprio reconhece, recentemente produzidas. É um acto de gratidão dar a conhecer ao mundo a obra do meu benfeitor - o único ser, além da minha falecida mãe, que me alimentou com uma sopita Knorr. Estou à espera de autorização.

25/04/2006

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: mais do mesmo

Secção Padre Anchieta

Confesso que não tive pachorra para ouvir o discurso do senhor presidente da República na Assembleia. Não tive, nem prevejo que venha a ter.

Avaliando pelo resumo do Público, tratou-se de mais do mesmo. Diagnóstico? Os coitadinhos. Medicina? O medicamento do costume em doses maiores. O medicamento do costume tem como princípio activo o estado napoleónico-estalinista e como excipiente o compromisso cívico, no manipulado do professor Cavaco Silva.

Como era de esperar, a prescrição cavaquista entusiasmou o senhor engenheiro a sua tropa, as tropas do doutor Mendes e o que resta das tropas do CDS. Quanto ao PCP e aos Berloque de Esquerda, nem por isso, o que é manifestamente má vontade, porque é mais o que os une ao resto da tropa do que o que os divide (entusiasmos e má-vontade aqui relatados).

Tudo isto é aborrecido de tão previsível. Verdadeiramente excitante deveria ser (se eu soubesse) o que se passou nas mentes das criaturas (incluindo liberais de salão) que depositaram no professor Cavaco Silva as suas esperanças de caminhar para a construção do estado liberal.

Três bourbons para o professor Cavaco Silva, que só engana quem gosta de ser enganado e quatro chateaubriands para as esperançosas criaturas (incluindo liberais de salão).

24/04/2006

AVALIAÇÃO CONTÍNUA: anacleto espumante

Secção George Orwell
A propósito da prestação do professor doutor Francisco Anacleto Louçã no debate sobre Globalização promovido pelo Centro de Estudos de Governança e Políticas Públicas da Universidade de Aveiro, escreve Tom Palmer do Cato Institute que também participou:
«He had no evidence, no coherent arguments, but lots of invective (he referred to the “lies” I offered in my remarks and the “falsified statistics” on which the “lies” were allegedly based), lots of foaming at the mouth about unrelated topics (why the U.S. should not attack Iran, for example), and strange excursions into the history of economic thought, especially how Leontieff had shown that additional investment in capital-rich economies represented a “paradox.” I don’t think he made many converts, or even any» (via O Insurgente)

Pela prestação, atribuo ao professor de Economia anacleta 5 inevitáveis bourbons pela extraordinária capacidade de conseguir sempre superar-se na treta demagógica.

DEIXAR DE DAR GRAXA PARA MUDAR DE VIDA: o pior de dois mundos

Durante décadas, o fraco nível de concorrência entre quadros e dirigentes estava em linha com um fraco nível de concorrência entre empresas. A diferenciação salarial também estava em linha com a falta de concorrência no mercado de trabalho. O leque salarial era tradicionalmente mais apertado do que os nossos parceiros comerciais, e o nível dos nossos salários, desde o porteiro até ao administrador, costumava ser uma fracção dos salários homólogos em Espanha, por exemplo.

Já deixou de ser assim, faz tempo. Escreve o Jornal de Notícias que «em termos médios, um administrador português ganhou 416 mil euros em 2005. A média das remunerações dos administradores em Espanha ficou 16 mil euros abaixo.»

Conseguimos, portanto, uma coisa extraordinária. Sem aumentar a competitividade no mercado de trabalho conseguimos aumentar a desigualdade salarial, que, não sendo um fim em si mesmo, é (seria) o preço a pagar por maior concorrência no mercado de trabalho, que temos pouca, ou não temos de todo a nível dos gerentes e administradores. Nas empresas familiares temos obrigado paizinho, pela confiança no teu filho, nas empresas públicas temos obrigado senhor engenheiro, pela nomeação, nas outras temos o obrigado meu caro, por ter sugerido o meu nome; vou só ali compor o nó da gravata e já volto.

22/04/2006

CASE STUDY: malformação genética (1)

Que doutrinas económicas estudavam os economistas que hoje estão na área do poder político e dos poderes fácticos? Para responder a esta pergunta o Impertinências foi buscar à torre do tombo impertinente uma sebenta de História das Doutrinas Económicas e Sociais, uma disciplina do 5.º ano do curso de economia, editada pela associação de estudantes da única escola de economia digna desse nome nos anos de brasa de 68-73 - o ISCEF.

Os alunos que nesses anos frequentavam essa cadeira terão hoje entre os cinquentas e os sessentas. Muitos deles tiveram e ainda têm uma influência determinante nas políticas económicas seguidas nos últimos trinta anos.

A sebenta de História das Doutrinas Económicas e Sociais pode ser dissecada como uma arriba fóssil onde são visíveis as pegadas dos dinossáurios mentais instalados nas meninges dessas influentes criaturas. Vejamos os textos arrolados na fatídica sebenta:

  • «O mercantilismo» de Eli Heckscher, um professor sueco de história económica, especialista em comércio internacional
  • Um capítulo do «Tableau économique» de François Quesnay, um fisiocrata do século 18, pioneiro da ciência económica
  • L'individualisme liberal, capítulo de «Dimensions de l'homme et science économique» de Jean-Louis Fyot, um obscuro professor
  • A atitude das escolas quanto ao conflito dos métodos, um capítulo de «Méthode scientifique et sciense économique» de André Marchal, um praticante da sociologia económica
  • «Manifesto dos Iguais» de François-Noël Babeuf, um proto-comunista
  • A introdução de «A History of Socialist Thought», de G. D. Cole, um fabiano
  • Extractos de vários escritos de Karl Mark, o mais conhecido marxista, tais como:
    - «Manuscritos de 1844»
    - «A Sagrada Família»
    - «A ideologia alemã»
    - «Manifesto do Partido Comunista», em parceria com o 2.º mais conhecido marxista Friedrich Engels
    - «Crítica ao programa de Gotha»
    - Vários capítulos de «O Capital»
  • «Crítica ao projecto do programa social-democrata de 1891», de Friedrich Engels
  • «K. Marx», de Vladimir Ilitch Ulianov, o mais reputado leninista escrevendo sobre o mais conhecido marxista e a sua doutrina
  • Extractos de «O pensamento de Karl Marx» de Jean-Yves Calvez, jesuíta e professor de ética política
  • Extractos de «Fascisme et ditacture» de Nicos Poulantzas, sucessivamente leninista, marxista estruturalista e, no final da vida, eurocomunista.
Com estas leituras o que se poderia esperar de tais criaturas?
(Continua)

21/04/2006

ARTIGO DEFUNTO: em alta acentuadamente baixa

A boa imprensa do senhor engenheiro usa o pior do seu parco talento para fabricar títulos estimulantes. Já que o FMI não se excita com os discursos do senhor engenheiro, excita-se o Público que dum texto onde escreve «O crescimento da economia portuguesa estimado para este ano representa uma revisão em baixa de 0,4 pontos percentuais face à anterior previsão da instituição internacional, divulgada em Setembro de 2005», consegue desencovar o título «FMI prevê crescimento mais acentuado para Portugal em 2006 e 2007» .

Apesar do trabalho esforçado dos plumitivos que escrevinham nos jornais, a OCDE, que não lê a imprensa portuguesa, também não está optimista acerca do crescimento na paróquia.

20/04/2006

BREIQUINGUE NIUZ: creio porque é absurdo

O senhor doutor Augusto Santos Silva, ministro dos Assuntos Parlamentares, quando divulgava a palavra do senhor engenheiro a uma minoria de cépticos na AR, explicou como o senhor engenheiro, com a ajuda do senhor ministro das Finanças, não deixará derrapar o défice, sem aumentar os impostos e sem despedir um só dos os utentes da vaca marsupial pública.

Os outros prometem, o senhor engenheiro cumpre.

TRIVIALIDADES: depois não digam que estou sempre a deitá-los abaixo

«Monte da Caparica: assaltante morto a tiro durante assalto a uma papelaria» titula o Público.

Uma ideia para os rapazes do Berloque inventarem mais uma causa fracturante: a luta pela segurança no trabalho dos jovens delinquentes, perdão, excluídos.

19/04/2006

BREIQUINGUE NIUZ: a retoma não re-toma

«Os desenvolvimentos recentes da economia portuguesa caracterizam-se pela ausência de uma recuperação sustentada da actividade na sequência da recessão de 2003, em contraste com o verificado em anteriores períodos recessivos», disse o senhor doutor do BP.

Quéque vocês querem, filhos? A retoma não escuta a palavra do senhor engenheiro.

DIÁRIO DE BORDO: cada um investiga o que pode

«Governo espanhol investiga excesso de notas de 500 euros». Não têm mais nada para fazer? Então? E o governo do senhor engenheiro não investiga o excesso de moedas de cinquenta centavos? Excesso? Sem dúvida. São tantas que há até há uma dentro da barriga do meu neto Afonso.

SERVIÇO PÚBLICO: há défice(s) para além da vida

«Portugal está em risco de se converter no país com o maior endividamento externo do mundo desenvolvido. De acordo com as novas previsões do Fundo Monetário Internacional, o défice da balança de transacções correntes deverá atingir em 2007 o equivalente a 9,4% do PIB português» (JN)

Mais uma céptica, uma descrente, uma jeremias. Será que a porra da balança de transacções correntes não escuta os anúncios do senhor engenheiro?

SERVIÇO PÚBLICO: há défice para além da vida

Segundo o boletim do BP, em 2005 a receita corrente, a espoliação do estado napoleónico-estalinista, aumentou 0,9% para 40,5% do PIB e a despesa corrente (sem serviço da dívida), a palha consumida pela vaca marsupial pública, cresceu 1,6% para 43,4% do PIB.

TRIVIALIDADES: anúncio não-sexista

Procura-se barriga de aluguer
M/F
Casal procura pessoa para acolher óvulo fecundado
Resposta a este jornal ao n.º 21732

17/04/2006

O IMPERTINÊNCIAS FEITO PELOS SEUS DETRACTORES: perguntar não ofende?

«O seu post "the state is looking after you? so what?" é bullshit. Qual é afinal a sua opinião sobre o que chama paternalismo do estado?», pergunta um detractor acidental.

Série Demotivators da TechRepublic. Créditos Despair, Inc.

16/04/2006

DIÁRIO DE BORDO: reflexão pascal (2) - the state is looking after you? so what?

Parece haver pelos menos duas versões de paternalismo de estado: a dura e a mole. Para os adeptos da versão dura - a versão tradicional, as criaturas humanas não sabendo cuidar de si e sendo, por natureza, irremediavelmente irresponsáveis, precisam dum estado dirigido por uma liderança iluminada ou, para usar um termo caído em desuso junto com o muro de Berlim, precisam duma vanguarda, que as conduza à sociedade sem classes, ou ao céu, conforme as seitas, e de caminho evite que engordem, morram de Sida, cancro no pulmão, fiquem desfeitos dentro dum chaço, ou sucumbam à libertinagem e ao pecado, conforme as seitas.

A versão mole parte basicamente do mesmo diagnóstico, mas aplica uma diferente medicina. Precisam também do estado para a aplicar, mas em vez de impor aos súbditos a contenção compulsiva das suas tendências suicidas ou pecaminosas, consoante as seitas, concedem-lhe o livre arbítrio mas fazem-nos pagar por isso. Um exemplo clássico (e relativamente benigno) é substituir a adesão legalmente compulsiva aos sistemas de segurança social por uma adesão por defeito com uma cláusula de opting out penalizadora. Para os defensores destas soluções, o funcionamento dos mercados não é suficiente para pastorear as criaturas em direcção aos melhores pastos e acreditam ser indispensável um mecanismo de compulsão imposto pelo estado, sem o que as criaturas não farão as melhores escolhas para si próprias, por fraqueza, por bad judgement, por simples e absoluta incúria. Um exemplo possível começa por ser o pesado imposto sobre o tabaco, suficientemente alto não apenas para pagar o custo excedente do fumador para tratar cancros, catarro, bronquite, enfisemas e outras maleitas que o apoquentam, mas para lhe doer nos bolsos punindo-o por este seu maléfico vício. No final, acaba por ser a proibição de fumar nos locais públicos, hoje os locais fechados, amanhãs os jardins, as praias, os bosques (por causa dos incêndios), as estradas (por causa dos acidentes).

Quando abandonamos as abstracções do liberalismo de salão e descemos ao mundo real, a versão mole não parece inteiramente estúpida. Sobretudo no ponto em que estamos, em que o estado ao mesmo tempo que acalenta e dá colo com subsídios, com caríssimos serviços «gratuitos» de má qualidade (educação, saúde, etc.), de caminho reduz a pó o livre arbítrio das criaturas nessas áreas, fazendo repercutir nos «sujeitos passivos» uma parte significativa do custo das «más» escolhas .

Mas se esperais que vá dissertar sobre este tema num domingo de páscoa, é em vão. Vou apenas acrescentar uma constatação original. Para além daquelas duas versões de paternalismo de estado referidas pelo Economist, a versão mais vulgar na minha (falsamente) modesta opinião é o paternalismo maternal. Os adeptos desta versão prescrevem uma medicina que consiste no estado tolerar e subsidiar os vícios mais malignos à custa da espórtula extraída aos sujeitos passivos, quer eles sejam (medianamente) virtuosos ou (medianamente) viciosos.

Declaração de interesse:
Fumei durante muito anos, mas abandonei o vício há uns 10 anos. Actualmente sou um fumador passivo e um sujeito passivo, sendo que esta segunda qualidade é, de longe, a que me sai mais cara.

14/04/2006

DIÁRIO DE BORDO: reflexão pascal (1)



Não vou ainda tratar do paternalismo de estado com este tempo lúgubre (refiro-me à meteorologia).

Das muitas sextas-feiras da Paixão porque já passei, não me lembro de nenhuma sem este tempo lamentoso, de calvário, de agonia.

Como é possível passarem coisas destas pelo bestunto dum incréu como o Impertinente?

12/04/2006

DIÁRIO DE BORDO: reflexão pascal (0)

Não vou tratar da aposta perdida de Pascal, apesar de me parecer evidente que, mesmo supondo ser evanescente a probabilidade de existência dum deus, sendo incomensuráveis as consequências da sua existência, o valor esperado será sempre altíssimo.

Vou aproveitar o relativo sossego da páscoa, com clientes e fornecedores longe a roerem as amêndoas, para reflectir sobre o paternalismo de estado, inspirado no leader do Economist da semana passada («The state is looking after you»).