Estamos quase no fim deste annus horribilis, é altura de felicitar os leitores persistentes ou acidentais (mais os primeiros do que os segundos) pelo privilégio de frequentarem o Impertinências - provavelmente o melhor blogue em língua portuguesa.
Façam votos para que no próximo ano o Impertinente continue com pachorra para alimentar o Impertinências, esta besta insaciável.
ESCLARECIMENTOS (para quem esteja distraído e pense que o Impertinente 1º acredita no que escreveu, 2º é um picareta, cheio de poses e sem auto-ironia, e 3º é, por isso, igual a todas essas luminárias enfunadas que povoam a Bloguilha):
a) O Impertinente é um picareta, com poucas poses, capaz de se rir de si próprio, e não é igual a todas essas luminárias enfunadas, porque algumas delas são realmente notáveis.
b) Melhor blogue em língua portuguesa é talvez um exagero. Provavelmente o melhor dos começados com “I” e inseridos em 26 de Setembro no PtBloggers.
Our Self: Um blogue desalinhado, desconforme, herético e heterodoxo. Em suma, fora do baralho e (im)pertinente.
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)
Lema: A verdade é como o azeite, precisa de um pouco de vinagre.
Pensamento em curso: «Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos
de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.» (António Alçada Baptista)
The Second Coming: «The best lack all conviction, while the worst; Are full of passionate intensity» (W. B. Yeats)
31/12/2003
DIÁRIO DE BORDO: Não esperemos demais de Alá quando os chefes dos fiéis são incompetentes e corruptos.
Porquê os sismos de Bam no Irão e de Paso Robles na Califórnia, com poucos dias de intervalo e praticamente a mesma intensidade, tiveram efeitos tão radicalmente diferentes?
Será que Alá abandonou os seus fiéis? Talvez não. Mas há dúvidas quando olhamos para os chefes que lhes enviou.
Veja a resposta de David Aaronovitch citada por O Intermitente - uma fonte constante para quem já não tem pachorra de procurar agulhas nos palheiros do politicamente correcto.
Será que Alá abandonou os seus fiéis? Talvez não. Mas há dúvidas quando olhamos para os chefes que lhes enviou.
Veja a resposta de David Aaronovitch citada por O Intermitente - uma fonte constante para quem já não tem pachorra de procurar agulhas nos palheiros do politicamente correcto.
ESTÓRIA E MORAL: O homem doente da Europa.
Estória
Um relatório do Eurobarómetro, bastante citado na imprensa, mostra que 38% dos portugueses sofrem de reumatismo ou artrite, 22% de hipertensão e 10% de diabetes, o que perfaz a bela percentagem de 70% de portugueses que se queixam destas maleitas graves. Se adicionarmos as restantes maleitas graves, provavelmente ultrapassaremos os 100%, mas claro que há portugueses avaros que poderão ter simultaneamente várias doenças graves. Esta performance é absolutamente notável comparativamente com a maioria dos outros países da União Europeia.
Um outro estudo da Fundação de Ciência e Tecnologia, também citado na imprensa, conclui que 36% das crianças portuguesas entre os 7 e os 9 anos têm excesso de peso, o que parece afastar a fome como factor explicativo da morbidez dos portugueses.
Disse-me Alf, o melmaciano que abanca no sótão dos Tanners, is that so with Portuguese people? They should be healthy enough to suffer so much disease.
Moral
Não é de agora o mal que não melhora (ditado popular)
Um relatório do Eurobarómetro, bastante citado na imprensa, mostra que 38% dos portugueses sofrem de reumatismo ou artrite, 22% de hipertensão e 10% de diabetes, o que perfaz a bela percentagem de 70% de portugueses que se queixam destas maleitas graves. Se adicionarmos as restantes maleitas graves, provavelmente ultrapassaremos os 100%, mas claro que há portugueses avaros que poderão ter simultaneamente várias doenças graves. Esta performance é absolutamente notável comparativamente com a maioria dos outros países da União Europeia.
Um outro estudo da Fundação de Ciência e Tecnologia, também citado na imprensa, conclui que 36% das crianças portuguesas entre os 7 e os 9 anos têm excesso de peso, o que parece afastar a fome como factor explicativo da morbidez dos portugueses.
Disse-me Alf, o melmaciano que abanca no sótão dos Tanners, is that so with Portuguese people? They should be healthy enough to suffer so much disease.
Moral
Não é de agora o mal que não melhora (ditado popular)
30/12/2003
HISTÓRIA E MORAL: Ainda a missão dos pastéis de nata.
Estória
Do meu amigo Zé Agostinho recebi a seguinte correcção e adenda à AVALIAÇÃO CONTÍNUA de ontem,
Os rapazes ficaram indignados quando souberam que os seus soldos eram passíveis de IRS.
A avaliar pela informação divulgada pela CNN, que listava todas as tropas aliadas (que incluem por exemplo a Albânia e a Macedónia ) Portugal não consta da lista! Sabemos agora que estão como seguranças do "Ministério da Adm. Interna" de um qualquer país.
Provavelmente a missão começa e acaba dentro das 4 paredes do quartel onde estão instalados, sem nunca terem ido á rua.
Moral
O ridículo é mais mortal do que as balas do inimigo.
Do meu amigo Zé Agostinho recebi a seguinte correcção e adenda à AVALIAÇÃO CONTÍNUA de ontem,
Os rapazes ficaram indignados quando souberam que os seus soldos eram passíveis de IRS.
A avaliar pela informação divulgada pela CNN, que listava todas as tropas aliadas (que incluem por exemplo a Albânia e a Macedónia ) Portugal não consta da lista! Sabemos agora que estão como seguranças do "Ministério da Adm. Interna" de um qualquer país.
Provavelmente a missão começa e acaba dentro das 4 paredes do quartel onde estão instalados, sem nunca terem ido á rua.
Moral
O ridículo é mais mortal do que as balas do inimigo.
AVALIAÇÃO CONTÍNUA: A missão dos pastéis de nata.
Perguntas impertinentes
Lê-se e não se acredita. Os magalas da GNR ofereceram-se para ir trabalhar no ofício deles para o Iraque, numa missão resultante de um compromisso internacional dum governo legítimo do país deles, numa zona de menor risco, ao colo de outras tropas mais à séria, que por lá já se encontravam. Mães e namoradas choram no ombro dos média e da oposição, governo dá-lhes pastéis de nata para a viagem, tentar servir-lhes bacalhau e bolo-rei na consoada, promete-lhes promoções quando voltarem. Os rapazes convertem-se em vedetas do Big Brother e desdobram-se em declaração aos média, o ministro da Administração Interna vai ver se estão todos bem, e volta preocupado com o estresse que os rapazes sofrem, resolvendo diminuir a duração da missão de 6 para 4 meses.
Alguém já lhes disse que os pais deles foram entrouxados, sem refilar, entre 18 ou 24 meses numa guerra sem sentido, tentativa, falhada antes de começar, de prolongar um colonialismo retardado e bolorento, com um equipamento obsoleto, em condições muitas vezes abjectas, num clima mau até para os macacos?
Chateaubriands, ignóbeis e urracas à discrição, respectivamente para o governo, a oposição, e os magalas.
Esclarecimento:
Escrevi pastéis de nata e não pastéis de Belém, como os média referiram, porque, como todos sabemos, o presidente da República, que tem lá casa perto, só relutantemente aprovou a missão.
Lê-se e não se acredita. Os magalas da GNR ofereceram-se para ir trabalhar no ofício deles para o Iraque, numa missão resultante de um compromisso internacional dum governo legítimo do país deles, numa zona de menor risco, ao colo de outras tropas mais à séria, que por lá já se encontravam. Mães e namoradas choram no ombro dos média e da oposição, governo dá-lhes pastéis de nata para a viagem, tentar servir-lhes bacalhau e bolo-rei na consoada, promete-lhes promoções quando voltarem. Os rapazes convertem-se em vedetas do Big Brother e desdobram-se em declaração aos média, o ministro da Administração Interna vai ver se estão todos bem, e volta preocupado com o estresse que os rapazes sofrem, resolvendo diminuir a duração da missão de 6 para 4 meses.
Alguém já lhes disse que os pais deles foram entrouxados, sem refilar, entre 18 ou 24 meses numa guerra sem sentido, tentativa, falhada antes de começar, de prolongar um colonialismo retardado e bolorento, com um equipamento obsoleto, em condições muitas vezes abjectas, num clima mau até para os macacos?
Chateaubriands, ignóbeis e urracas à discrição, respectivamente para o governo, a oposição, e os magalas.
Esclarecimento:
Escrevi pastéis de nata e não pastéis de Belém, como os média referiram, porque, como todos sabemos, o presidente da República, que tem lá casa perto, só relutantemente aprovou a missão.
29/12/2003
DIÁRIO DE BORDO: Como atrair as juventudes ao redil.
Leio nos jornais que a JSD – os yuppies do PSD – estão a atrair prosélitos oferecendo-lhes a opção entre uma cervejola e um chóte de vodca. Um amigo purista da política telefonou-me inflamado: é uma vergonha. O quê? A cervejola? O chóte?, perguntei. Seja o que for, respondeu ele. Não tenho a certeza, disse eu.
A coisa poderia até ser adoptada pelas outras juventudes. A JS podia oferecer um almoço de desagravo com a família Soares, a juventude bloquista um aborto, o JC uma viagem de estudo à Coreia do Norte e, já agora, a JP (não sei se é assim que se chamam os Queques de direita do doutor Portas) um lugar de amarração na marina de Cascais.
A coisa poderia até ser adoptada pelas outras juventudes. A JS podia oferecer um almoço de desagravo com a família Soares, a juventude bloquista um aborto, o JC uma viagem de estudo à Coreia do Norte e, já agora, a JP (não sei se é assim que se chamam os Queques de direita do doutor Portas) um lugar de amarração na marina de Cascais.
28/12/2003
BLOGARIDADES: Upgrade d'O Meu Pêpê (1).
Já aqui e aqui tinha prometido começar a esboçar a réplica virtual do Abrupto, a que chamei O Meu Pêpê. De boas intenções está o inferno cheio, quanto mais das más, como esta.
Mas ontem o Abrupto proporcionou-me uma oportunidade imperdível ao pôr em dia o serviço de etiquetas do museu. Nada menos de 11-onze-11 naturezas mortas, paisagens, retratos, etc., pendurados nas duas últimas semanas foram identificados em batch.
Isso nunca aconteceria n’O Meu Pêpê. N’O Meu Pêpê, das duas uma: ou as etiquetas são colocadas online e real time ou será realizado um concurso entre os utentes do blogue, sendo declarado vencedor o utente que acertar mais etiquetas (uma etiqueta vale um ponto). Em caso de empate, as naturezas mortas valerão dois pontos. Se ainda assim persistir o empate, as naturezas mortas com queijos valerão três pontos. Se não houver naturezas mortas com queijos, terão as flores os três pontos.
O utente vencedor terá direito a publicar num post d’O Meu Pêpê um poema da sua autoria. Se não tiver competências poéticas, poderá publicar uma composição em prosa, com o máximo de 500 caracteres, sobre o Piton de la Fournaise.
Post Scriptum:
Reparo agora que JPP abomina a palavra utente. Apresso-me a substituí-la por utilizador.
Mas ontem o Abrupto proporcionou-me uma oportunidade imperdível ao pôr em dia o serviço de etiquetas do museu. Nada menos de 11-onze-11 naturezas mortas, paisagens, retratos, etc., pendurados nas duas últimas semanas foram identificados em batch.
Isso nunca aconteceria n’O Meu Pêpê. N’O Meu Pêpê, das duas uma: ou as etiquetas são colocadas online e real time ou será realizado um concurso entre os utentes do blogue, sendo declarado vencedor o utente que acertar mais etiquetas (uma etiqueta vale um ponto). Em caso de empate, as naturezas mortas valerão dois pontos. Se ainda assim persistir o empate, as naturezas mortas com queijos valerão três pontos. Se não houver naturezas mortas com queijos, terão as flores os três pontos.
O utente vencedor terá direito a publicar num post d’O Meu Pêpê um poema da sua autoria. Se não tiver competências poéticas, poderá publicar uma composição em prosa, com o máximo de 500 caracteres, sobre o Piton de la Fournaise.
Post Scriptum:
Reparo agora que JPP abomina a palavra utente. Apresso-me a substituí-la por utilizador.
27/12/2003
BLOGARIDADES: Ressurreição.
Quando foi anunciada a morte do Cataláxia escrevi aqui:
Não há desculpas para liquidar um blogue impertinente. Não há nenhuma tese de doutoramento que o justifique. É uma desistência sem perdão.
Pois bem, ei-lo de volta uns dias antes do Natal, de pantufas, com o marmanjo do Sean e a marafona da Kathleen, apenas para aquecer os butes e entrar a matar no tema aborto no dia seguinte ao Natal.
Estás perdoado, pá. Volta sempre.
Não há desculpas para liquidar um blogue impertinente. Não há nenhuma tese de doutoramento que o justifique. É uma desistência sem perdão.
Pois bem, ei-lo de volta uns dias antes do Natal, de pantufas, com o marmanjo do Sean e a marafona da Kathleen, apenas para aquecer os butes e entrar a matar no tema aborto no dia seguinte ao Natal.
Estás perdoado, pá. Volta sempre.
DIÁRIO DE BORDO: O colectivismo em altura.
Não tenho uma opinião definitiva sobre a construção em altura. Nuns casos parece-me uma agressão à paisagem e ao ecossistema urbano, noutros não. Mesmo que fosse pecado, a ausência de pecado não faz a virtude, como se pode ver pelas monumentais devastações urbanas que as nossas cidades são com os seus prédios de 2 ou 3 andares amontoados anarquicamente.
Mas não é isso que está em causa com a recente polémica dos 35 andares das torres de Alcântara que a actual câmara pretende autorizar contra a oposição que, quando foi executivo, autorizou os 28 andares do World Trade Center alfacinha em Sete Rios.
O que está em causa é a cultura política lusitana presente em qualquer dos partidos que povoam a cena política que têm sempre diferentes critérios para avaliar o nós e o eles.
Não admira, diz a minha amiga doutora Ana, antropóloga nas horas vagas, pois uma das dimensões dominantes na cultura lusa é o colectivismo, o espírito de grupo (família, amigos, clube, partido, etc.) que leva o português a ter dois pesos e duas medidas com a maior naturalidade, sem mesmo se dar conta.
Mas não é isso que está em causa com a recente polémica dos 35 andares das torres de Alcântara que a actual câmara pretende autorizar contra a oposição que, quando foi executivo, autorizou os 28 andares do World Trade Center alfacinha em Sete Rios.
O que está em causa é a cultura política lusitana presente em qualquer dos partidos que povoam a cena política que têm sempre diferentes critérios para avaliar o nós e o eles.
Não admira, diz a minha amiga doutora Ana, antropóloga nas horas vagas, pois uma das dimensões dominantes na cultura lusa é o colectivismo, o espírito de grupo (família, amigos, clube, partido, etc.) que leva o português a ter dois pesos e duas medidas com a maior naturalidade, sem mesmo se dar conta.
26/12/2003
AVALIAÇÃO CONTÍNUA: A diferença fundamental não é óbvia (outra vez) seguido de É melhor não perguntar.
Intróito
Talvez ainda por efeito das rabanadas, continuei as minhas leituras da Única. Desta vez da semana seguinte, isto é da passada. Pousei na Crónica Feminina de Inês Pedrosa e na Pluma Caprichosa de Clara Ferreira Alves, duas senhoras suportavelmente feministas e politicamente correctas, cuja produção croniqueira frequento regularmente, não digo com o prazer que leio o João Pereira Coutinho, mas também sem o esforço (que não faço) para ler o inefável doutor Eduardo Prado Coelho.
Secção George Orwell
Na crónica “Donas de casa e donos do mundo”, Inês Pedrosa protesta contra “a publicidade dos brinquedos (que) continua na Idade das Trevas do Sexismo Absoluto” impingindo action men aos meninos e barbies às meninas, cavando assim pela educação a maldita divisão de géneros, coisa que, como todos sabemos, só existe por via da mente depravada dos criativos e dos copywriters.
A nossa Inês descobre, mais adiante, a propósito da homossexualidade, que “a orientação sexual não se define através da educação”. Ficamos a saber que um rapaz homossexual, que talvez brinque com barbies até aos 12 anos, nasce homossexual, mas um rapaz heterossexual, talvez nasça heterossexual, mas só brinca com action men depois de sofrer a lavagem ao cérebro.
Poupo a prosa, remetendo para o post impertinente A diferença fundamental não é óbvia?
Dois chateaubriands para Inês Pedrosa, ficando três de reserva para o caso de manter o seu ponto de vista, depois de ter dois ou três filhos de cada género (talvez um bastasse, mas as probabilidades da genética pregam-nos partidas).
Secção Perguntas impertinentes
Em “O ser português” a Pluma Caprichosa expressa o seu desgosto, horror, desprezo por este país merdoso afundado em escândalos de pedofilia, onde a riqueza sem vergonha convive lado a lado com a medonha pobreza, os telejornais rascas são o reino da estupidez, a miséria espiritual do novo-rico enche as revistas cor de rosa.
Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, pergunta o que podes fazer pelo teu país, conclui a Pluma, revelando a sua costela kennedyana.
É caso para perguntar, porquê tanto as elites como a choldra só fazem a primeira pergunta?
Dois afonsos para a doutora Clara, que, apesar de não ter respondido a esta pergunta, ainda assim mostrou que está aonde não devia estar.
Post scriptum:
A propósito da Pluma Caprichosa, vou aviar O’Neill nos próximos 10 écrans:
Estou aonde não devia estar
Estou no grande medo instintivo de minha mãe
...
Nota do editor:
O Impertinente, que tem uma fixação no Abrupto, pediu para publicar na sua ausência este post. Cortei o resto do poema, porque era só para mostrar erudição e não adiantava nada.
Assinado
Gordon Shumway
Talvez ainda por efeito das rabanadas, continuei as minhas leituras da Única. Desta vez da semana seguinte, isto é da passada. Pousei na Crónica Feminina de Inês Pedrosa e na Pluma Caprichosa de Clara Ferreira Alves, duas senhoras suportavelmente feministas e politicamente correctas, cuja produção croniqueira frequento regularmente, não digo com o prazer que leio o João Pereira Coutinho, mas também sem o esforço (que não faço) para ler o inefável doutor Eduardo Prado Coelho.
Secção George Orwell
Na crónica “Donas de casa e donos do mundo”, Inês Pedrosa protesta contra “a publicidade dos brinquedos (que) continua na Idade das Trevas do Sexismo Absoluto” impingindo action men aos meninos e barbies às meninas, cavando assim pela educação a maldita divisão de géneros, coisa que, como todos sabemos, só existe por via da mente depravada dos criativos e dos copywriters.
A nossa Inês descobre, mais adiante, a propósito da homossexualidade, que “a orientação sexual não se define através da educação”. Ficamos a saber que um rapaz homossexual, que talvez brinque com barbies até aos 12 anos, nasce homossexual, mas um rapaz heterossexual, talvez nasça heterossexual, mas só brinca com action men depois de sofrer a lavagem ao cérebro.
Poupo a prosa, remetendo para o post impertinente A diferença fundamental não é óbvia?
Dois chateaubriands para Inês Pedrosa, ficando três de reserva para o caso de manter o seu ponto de vista, depois de ter dois ou três filhos de cada género (talvez um bastasse, mas as probabilidades da genética pregam-nos partidas).
Secção Perguntas impertinentes
Em “O ser português” a Pluma Caprichosa expressa o seu desgosto, horror, desprezo por este país merdoso afundado em escândalos de pedofilia, onde a riqueza sem vergonha convive lado a lado com a medonha pobreza, os telejornais rascas são o reino da estupidez, a miséria espiritual do novo-rico enche as revistas cor de rosa.
Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, pergunta o que podes fazer pelo teu país, conclui a Pluma, revelando a sua costela kennedyana.
É caso para perguntar, porquê tanto as elites como a choldra só fazem a primeira pergunta?
Dois afonsos para a doutora Clara, que, apesar de não ter respondido a esta pergunta, ainda assim mostrou que está aonde não devia estar.
Post scriptum:
A propósito da Pluma Caprichosa, vou aviar O’Neill nos próximos 10 écrans:
Estou aonde não devia estar
Estou no grande medo instintivo de minha mãe
...
Nota do editor:
O Impertinente, que tem uma fixação no Abrupto, pediu para publicar na sua ausência este post. Cortei o resto do poema, porque era só para mostrar erudição e não adiantava nada.
Assinado
Gordon Shumway
25/12/2003
DIÁRIO DE BORDO: Parábola hiperbólica do Bem Mandado.
Preparava-me para resistir heroicamente ao Natal e ao seu cortejo de rendições ao consumo e a outros valores decadentes (reflexões xaroposas sobre «a vida», «intimismo», «confessionalismos fúteis»), devidamente fortalecido com o exemplo d’A Praia, quando tomo conhecimento por email de Ivan Nunes que faltava um aqui na sua frase parcialmente citada ali. Esse aqui reduziu a esplêndida resposta metafísica e radical d’A Praia, por mim imaginada, a uma trivial auto-ironia e a um confessado baquear às rabanadas, aos presentes e às xaropadas em geral.
Perdido o exemplo, deixei-me, também eu, sucumbir alarvemente. Espreitei para dentro dos embrulhos dos presentes, mergulhei nas rabanadas, atulhei-me de farófias e filhoses.
Como sempre acontece no final das libações, as minhas raízes judaico-cristãs trouxeram, com a digestão agitada, a culpa e o remorso. Envergonhado, escondi-me num sofá, peguei distraidamente num exemplar da Única (o 327º anexo do semanário do saco de plástico), fingi que estava a ler e afundei-me numa soneca, embalado pela ensurdecedora algaraviada dos impertinentes mais pequenos.
Quando acordei pousaram-me os olhos na página aberta - a nº 36. Um nome familiar irrompeu da floresta de letras desfocadas. Procurei os óculos caídos. Lá estava: LARGO DO LEÃO. Tratava-se dum artigo sobre o pediatra Gomes Pedro que, fiquei a saber, tinha andado na escola primária do Largo do Leão, precisamente a mesma onde, uns anos depois do pediatra, aprendi quase tudo o que interessa. Aprendi a fazer contas de cabeça, a ler e, um grande e, a escrever, com esforço, mordendo a língua e molhando o lápis, mas a escrever. Com um pequeno exagero, direi até, quero dizer escreverei, que o Impertinente nasceu para as letras no Largo do Leão e que as Impertinências encontram lá as suas raízes.
Ainda mal refeito da soneca, flutuando no limbo da semiconsciência, passeei a preguiça do sofá para o escritório e lá fui dar a minha volta pela Bloguilha. Varei n’A Praia para confirmar o aqui. Lá estava. Não sou o único pecador, pensei aliviado. Deixei-me arrastar pelos ventos e atraquei no cais do Armazém de Artes e Letras do Abrupto. Procurei o presépio pendurado. Não estava. Em vez do presépio, uma natureza morta. Mergulhei por entre posts, que no dia 23 foram numerosos, até ser atraído pela BIBLIOFILIA 6 - uma referência, inevitavelmente erudita, ao ensaio de Eduardo Pitta A Fractura. A condição homossexual na literatura portuguesa contemporânea, onde, pelos vistos, a voz dos pederastas na literatura se apresenta como uma “ética da desobediência”.
Alguma sinapse freudiana no cérebro impertinente ligou a “ética da desobediência” ao Largo do Leão.
Foi também lá, no Largo do Leão, que me iniciei no sexo. Não na prática do mesmo, que a idade não permitia, mas na introdução à sua teoria infantil, por assim dizer.
Foi ainda lá, na Escola Primária nº não sei quantos, que, pela primeira de muitas centenas de vezes nos anos seguintes, ouvi um daqueles garotos “de pé descalço” como recordou o pediatra, mandar imperativamente uma das pequenas criaturas que povoavam a nossa aula da 2ª classe: “vai levar no cu”. Essa pequena criatura cresceu e, por uma improvável e inexplicável coincidência (feliz? Infeliz?), algures na adolescência, se não antes, começou obedientemente a cumprir o imperativo mandato. Tão bem o fez, que passou a ser conhecido por o “Bem Mandado”, em homenagem a esse episódio remoto.
Foi por isso que a alusão do Pitta, citada pelo Abrupto, à “ética da desobediência” a propósito dos pederastas, na literatura portuguesa ou em qualquer outro lugar, me pareceu, ainda mal refeito da soneca agitada pela digestão das rabanadas, completamente infundada.
Perdido o exemplo, deixei-me, também eu, sucumbir alarvemente. Espreitei para dentro dos embrulhos dos presentes, mergulhei nas rabanadas, atulhei-me de farófias e filhoses.
Como sempre acontece no final das libações, as minhas raízes judaico-cristãs trouxeram, com a digestão agitada, a culpa e o remorso. Envergonhado, escondi-me num sofá, peguei distraidamente num exemplar da Única (o 327º anexo do semanário do saco de plástico), fingi que estava a ler e afundei-me numa soneca, embalado pela ensurdecedora algaraviada dos impertinentes mais pequenos.
Quando acordei pousaram-me os olhos na página aberta - a nº 36. Um nome familiar irrompeu da floresta de letras desfocadas. Procurei os óculos caídos. Lá estava: LARGO DO LEÃO. Tratava-se dum artigo sobre o pediatra Gomes Pedro que, fiquei a saber, tinha andado na escola primária do Largo do Leão, precisamente a mesma onde, uns anos depois do pediatra, aprendi quase tudo o que interessa. Aprendi a fazer contas de cabeça, a ler e, um grande e, a escrever, com esforço, mordendo a língua e molhando o lápis, mas a escrever. Com um pequeno exagero, direi até, quero dizer escreverei, que o Impertinente nasceu para as letras no Largo do Leão e que as Impertinências encontram lá as suas raízes.
Ainda mal refeito da soneca, flutuando no limbo da semiconsciência, passeei a preguiça do sofá para o escritório e lá fui dar a minha volta pela Bloguilha. Varei n’A Praia para confirmar o aqui. Lá estava. Não sou o único pecador, pensei aliviado. Deixei-me arrastar pelos ventos e atraquei no cais do Armazém de Artes e Letras do Abrupto. Procurei o presépio pendurado. Não estava. Em vez do presépio, uma natureza morta. Mergulhei por entre posts, que no dia 23 foram numerosos, até ser atraído pela BIBLIOFILIA 6 - uma referência, inevitavelmente erudita, ao ensaio de Eduardo Pitta A Fractura. A condição homossexual na literatura portuguesa contemporânea, onde, pelos vistos, a voz dos pederastas na literatura se apresenta como uma “ética da desobediência”.
Alguma sinapse freudiana no cérebro impertinente ligou a “ética da desobediência” ao Largo do Leão.
Foi também lá, no Largo do Leão, que me iniciei no sexo. Não na prática do mesmo, que a idade não permitia, mas na introdução à sua teoria infantil, por assim dizer.
Foi ainda lá, na Escola Primária nº não sei quantos, que, pela primeira de muitas centenas de vezes nos anos seguintes, ouvi um daqueles garotos “de pé descalço” como recordou o pediatra, mandar imperativamente uma das pequenas criaturas que povoavam a nossa aula da 2ª classe: “vai levar no cu”. Essa pequena criatura cresceu e, por uma improvável e inexplicável coincidência (feliz? Infeliz?), algures na adolescência, se não antes, começou obedientemente a cumprir o imperativo mandato. Tão bem o fez, que passou a ser conhecido por o “Bem Mandado”, em homenagem a esse episódio remoto.
Foi por isso que a alusão do Pitta, citada pelo Abrupto, à “ética da desobediência” a propósito dos pederastas, na literatura portuguesa ou em qualquer outro lugar, me pareceu, ainda mal refeito da soneca agitada pela digestão das rabanadas, completamente infundada.
24/12/2003
LOG BOOK: Politically correct season greetings to you all.
Dear Friends
From us ("the wishor") to you ("hereinafter called the wishee"), please accept without obligation, implied or implicit, our best wishes for an environmentally conscious, socially responsible, politically correct, low stress, non-addictive, gender neutral, celebration of the winter solstice holiday, practiced within the most enjoyable traditions of the religious persuasion of your choice, or secular practices of your choice, with respect for the religious/secular persuasions and/or traditions of others, or their choice not to practice religious or secular traditions at all... and a financially successful, personally fulfilling and medically uncomplicated recognition of the onset of the generally accepted calendar year 2004, but with due respect for the calendars of choice of other cultures or sects, and having regard to the race, creed, colour, age, physical ability, religious faith, choice of computer platform or dietary preference of the wishee. By accepting this greeting you are bound by these terms that:
(i) This greeting is subject to further clarification or withdrawal
(ii) This greeting is freely transferable, provided that no alteration shall be made to the original greeting and that the proprietary rights of the wishor are acknowledged.
(iii) This greeting implies no promise by the wishor to actually implement any of the wishes.
(iv) This greeting may not be enforceable in certain jurisdictions and/or the restrictions herein may not be binding upon certain wishees in certain jurisdictions and is revocable at the sole discretion of the wishor.
(v) This greeting is warranted to perform as reasonably may be expected within the usual application of good tidings, for a period of one year or until the issuance of a subsequent holiday greeting, whichever comes first.
(vi) The wishor warrants this greeting only for the limited replacement of this wish or issuance of a new wish at the sole discretion of the wishor
(vii) Any references in this greeting to "the Lord", "Father Christmas", "Our Saviour", or any other festive figures, whether actual or fictitious, dead or alive, shall not imply any endorsement by or from them in respect of this greeting, and all proprietary rights in any referenced third party names and images are hereby acknowledged.
(Courtesy of A.B.)
From us ("the wishor") to you ("hereinafter called the wishee"), please accept without obligation, implied or implicit, our best wishes for an environmentally conscious, socially responsible, politically correct, low stress, non-addictive, gender neutral, celebration of the winter solstice holiday, practiced within the most enjoyable traditions of the religious persuasion of your choice, or secular practices of your choice, with respect for the religious/secular persuasions and/or traditions of others, or their choice not to practice religious or secular traditions at all... and a financially successful, personally fulfilling and medically uncomplicated recognition of the onset of the generally accepted calendar year 2004, but with due respect for the calendars of choice of other cultures or sects, and having regard to the race, creed, colour, age, physical ability, religious faith, choice of computer platform or dietary preference of the wishee. By accepting this greeting you are bound by these terms that:
(i) This greeting is subject to further clarification or withdrawal
(ii) This greeting is freely transferable, provided that no alteration shall be made to the original greeting and that the proprietary rights of the wishor are acknowledged.
(iii) This greeting implies no promise by the wishor to actually implement any of the wishes.
(iv) This greeting may not be enforceable in certain jurisdictions and/or the restrictions herein may not be binding upon certain wishees in certain jurisdictions and is revocable at the sole discretion of the wishor.
(v) This greeting is warranted to perform as reasonably may be expected within the usual application of good tidings, for a period of one year or until the issuance of a subsequent holiday greeting, whichever comes first.
(vi) The wishor warrants this greeting only for the limited replacement of this wish or issuance of a new wish at the sole discretion of the wishor
(vii) Any references in this greeting to "the Lord", "Father Christmas", "Our Saviour", or any other festive figures, whether actual or fictitious, dead or alive, shall not imply any endorsement by or from them in respect of this greeting, and all proprietary rights in any referenced third party names and images are hereby acknowledged.
(Courtesy of A.B.)
23/12/2003
ESTÓRIA E MORAL: Comunicar é preciso.
Estória
Segundo o “Portugal Social” do INE, citado ontem pelo DN, os portugueses gastam em comunicações (telefone fixo, telemóvel, acessos Internet) quase tanto como gastam em saúde e TRÊS vezes o que gastam directamente em educação (excluindo, claro, o que gasta o Estado do bolso dos contribuintes). Uma boa parte dos 451 euros gastos por família em comunicações vai directa para o telemóvel.
Segundo o Censo 2001, a população residente era de 10.356.117 potenciais clientes TMN, Vodafone ou Optimus. Nos 10 anos anteriores a população tinha aumentado de 5,1%, ou seja aproximadamente 0,5% anuais o que poderia fazer supor, se (um se que depende mais da chegada dos brasileiros, ucranianos e outras almas que nos procuram, do que da produção dos casais portugueses, que, por razões várias, sofre de um défice de produtividade) se, dizia eu, se esse ritmo se tivesse mantido nos últimos dois anos, então haveria agora 10.459.937,1 potenciais clientes.
O número de utilizadores de telemóvel deveria ser no final do 3º trimestre praticamente 10 milhões.
Se (um se que depende neste caso bastante da falecida Dona Idalina, a minha professora da 2ª classe) for assim, teriam escapado, momentaneamente, incólumes aos assaltos dos operadores exactamente 459.937,1 potenciais clientes, ou seja 4,4% do total, isto é pouco mais de metade do n.º de crianças em idade pré-escolar.
Se admitirmos que cada português móbil gasta em média 30 m por dia a comunicar, isso perfaz cerca de 150 milhões de horas/mês para toda a comunidade móbil, ou seja talvez cerca de 20% das horas efectivamente trabalhadas pela população activa ("activa" é apenas um conceito estatístico e não implica nenhum juízo de valor).
Precisamos de saber mais alguma coisa para compreender a falta de produtividade lusitana? E não só a trabalhar, mas também no coiso – veja-se a população escolar no ensino básico que diminuiu mais de 300 mil alunos na última década.
Precisamos de mais informações para perceber a iliteracia epidémica dos gentios?
Moral
Entre falar e fazer, muito há que dizer (ditado popular, do tempo em que não havia telemóvel)
Post Scriptum:
Já depois de ter contado esta estória, li o jaquinzinho chamado Manipulações com Números do Jaquinzinhos, comentando, que é como quem diz, fritando, o artigo Um Quinto dos Portugueses Vive em Risco de Pobreza e Exclusão Social da Lusa estupidamente comprado pelo Público. Apanhando a boleia da manipulação, poderei acrescentar que somos o único país do mundo onde quase todas as almas que vivem em risco de pobreza e exclusão social dispõem de telemóvel? Possivelmente para ligar para a Lusa e o Público a dar conta da sua miséria.
Segundo o “Portugal Social” do INE, citado ontem pelo DN, os portugueses gastam em comunicações (telefone fixo, telemóvel, acessos Internet) quase tanto como gastam em saúde e TRÊS vezes o que gastam directamente em educação (excluindo, claro, o que gasta o Estado do bolso dos contribuintes). Uma boa parte dos 451 euros gastos por família em comunicações vai directa para o telemóvel.
Segundo o Censo 2001, a população residente era de 10.356.117 potenciais clientes TMN, Vodafone ou Optimus. Nos 10 anos anteriores a população tinha aumentado de 5,1%, ou seja aproximadamente 0,5% anuais o que poderia fazer supor, se (um se que depende mais da chegada dos brasileiros, ucranianos e outras almas que nos procuram, do que da produção dos casais portugueses, que, por razões várias, sofre de um défice de produtividade) se, dizia eu, se esse ritmo se tivesse mantido nos últimos dois anos, então haveria agora 10.459.937,1 potenciais clientes.
O número de utilizadores de telemóvel deveria ser no final do 3º trimestre praticamente 10 milhões.
Se (um se que depende neste caso bastante da falecida Dona Idalina, a minha professora da 2ª classe) for assim, teriam escapado, momentaneamente, incólumes aos assaltos dos operadores exactamente 459.937,1 potenciais clientes, ou seja 4,4% do total, isto é pouco mais de metade do n.º de crianças em idade pré-escolar.
Se admitirmos que cada português móbil gasta em média 30 m por dia a comunicar, isso perfaz cerca de 150 milhões de horas/mês para toda a comunidade móbil, ou seja talvez cerca de 20% das horas efectivamente trabalhadas pela população activa ("activa" é apenas um conceito estatístico e não implica nenhum juízo de valor).
Precisamos de saber mais alguma coisa para compreender a falta de produtividade lusitana? E não só a trabalhar, mas também no coiso – veja-se a população escolar no ensino básico que diminuiu mais de 300 mil alunos na última década.
Precisamos de mais informações para perceber a iliteracia epidémica dos gentios?
Moral
Entre falar e fazer, muito há que dizer (ditado popular, do tempo em que não havia telemóvel)
Post Scriptum:
Já depois de ter contado esta estória, li o jaquinzinho chamado Manipulações com Números do Jaquinzinhos, comentando, que é como quem diz, fritando, o artigo Um Quinto dos Portugueses Vive em Risco de Pobreza e Exclusão Social da Lusa estupidamente comprado pelo Público. Apanhando a boleia da manipulação, poderei acrescentar que somos o único país do mundo onde quase todas as almas que vivem em risco de pobreza e exclusão social dispõem de telemóvel? Possivelmente para ligar para a Lusa e o Público a dar conta da sua miséria.
22/12/2003
CONDIÇÃO MASCULINA: O homem como animal de companhia.
Concedo que este tema é pouco próprio da época natalícia, porque, inspirado pel’A Praia, resolvi passar ao largo das reflexões xaroposas sobre «a vida», etc. Será que podemos chamar a isto uma guinada à esquerda do Impertinente? Aqui fica a pergunta para o Pai Natal.
Sempre defendi a interpretação extensiva da Convenção Europeia para a Protecção dos Animais de Companhia, que abrangesse o “homem” como animal de companhia. Essa interpretação, longamente contraditada pela doutrina e jurisprudência, ganhou maior suporte com a publicação do Decreto-Lei n.º 276/2001 que aplicou em Portugal a Convenção.
Neste último diploma, o «Animal de companhia» é definido como qualquer animal detido ou destinado a ser detido pelo homem, designadamente, no seu lar, para seu entretenimento e companhia. Sabendo-se que o termo homem está aqui aplicado no seu sentido geral de “espécie humana”, o que substancialmente significa “mulher”, fica fácil de compreender que, nesse contexto, o “homem” é, em essência, um animal de companhia, detido pela mulher no lar para seu entretenimento e companhia.
É claro que nem todo o “homem” se encaixará na classe «Animal de companhia», como por exemplo os que não se encontrem em estado de concubinato. É por isso que o diploma contempla também a classe de “Animal vadio ou errante» (qualquer animal que seja encontrado na via pública ou outros lugares públicos fora do controlo e guarda dos respectivos detentores).
O animal de companhia pode ser objecto de hospedagem de diversos tipos, incluindo a «Hospedagem com fins higiénicos», quer dizer o alojamento temporário ..., por um período que não ultrapasse doze horas sem pernoita. Acredito que este tipo de hospedagem se possa destinar ao “homem” vadio (“animal errante”) numa fase experimental, antes da sua eventual promoção à classe “de companhia”.
Este tema tem muito pano para mangas. Por agora vou ficar por aqui, mas não sem antes referir alguns direitos do “homem” de companhia, frequentemente esquecidos pelo «Detentor» responsável pelos animais de companhia para efeitos de reprodução, criação, manutenção, acomodação ou utilização, com ou sem fins comerciais.
Como simples exemplos, aqui vão 3 desses direitos:
* espaço adequado às suas necessidades fisiológicas e etológicas, devendo o mesmo permitir ...a prática de exercício físico adequado (art.º 8º)
* As refeições devem ser variadas (art.º 12º)
* observação diária dos animais, o seu maneio e organização da dieta (art.º 13º).
Algumas perguntas a quem de direito: quantos “homens” de companhia vêem os seus direitos respeitados pelo «Detentor»? Que medidas o governo pretende tomar para fazer respeitar os direitos e a dignidade mínimos do “homem” de companhia?
São as perguntas possíveis, feitas em condições difíceis, mas são perguntas incómodas, à espera de quem as queira responder.
NOTA:
Nova Definição no Glossário das Impertinência: "Possível" (comuniquês).
Sempre defendi a interpretação extensiva da Convenção Europeia para a Protecção dos Animais de Companhia, que abrangesse o “homem” como animal de companhia. Essa interpretação, longamente contraditada pela doutrina e jurisprudência, ganhou maior suporte com a publicação do Decreto-Lei n.º 276/2001 que aplicou em Portugal a Convenção.
Neste último diploma, o «Animal de companhia» é definido como qualquer animal detido ou destinado a ser detido pelo homem, designadamente, no seu lar, para seu entretenimento e companhia. Sabendo-se que o termo homem está aqui aplicado no seu sentido geral de “espécie humana”, o que substancialmente significa “mulher”, fica fácil de compreender que, nesse contexto, o “homem” é, em essência, um animal de companhia, detido pela mulher no lar para seu entretenimento e companhia.
É claro que nem todo o “homem” se encaixará na classe «Animal de companhia», como por exemplo os que não se encontrem em estado de concubinato. É por isso que o diploma contempla também a classe de “Animal vadio ou errante» (qualquer animal que seja encontrado na via pública ou outros lugares públicos fora do controlo e guarda dos respectivos detentores).
O animal de companhia pode ser objecto de hospedagem de diversos tipos, incluindo a «Hospedagem com fins higiénicos», quer dizer o alojamento temporário ..., por um período que não ultrapasse doze horas sem pernoita. Acredito que este tipo de hospedagem se possa destinar ao “homem” vadio (“animal errante”) numa fase experimental, antes da sua eventual promoção à classe “de companhia”.
Este tema tem muito pano para mangas. Por agora vou ficar por aqui, mas não sem antes referir alguns direitos do “homem” de companhia, frequentemente esquecidos pelo «Detentor» responsável pelos animais de companhia para efeitos de reprodução, criação, manutenção, acomodação ou utilização, com ou sem fins comerciais.
Como simples exemplos, aqui vão 3 desses direitos:
* espaço adequado às suas necessidades fisiológicas e etológicas, devendo o mesmo permitir ...a prática de exercício físico adequado (art.º 8º)
* As refeições devem ser variadas (art.º 12º)
* observação diária dos animais, o seu maneio e organização da dieta (art.º 13º).
Algumas perguntas a quem de direito: quantos “homens” de companhia vêem os seus direitos respeitados pelo «Detentor»? Que medidas o governo pretende tomar para fazer respeitar os direitos e a dignidade mínimos do “homem” de companhia?
São as perguntas possíveis, feitas em condições difíceis, mas são perguntas incómodas, à espera de quem as queira responder.
NOTA:
Nova Definição no Glossário das Impertinência: "Possível" (comuniquês).
20/12/2003
BLOGARIDADES: O Natal na Bloguilha?
Deve ser este o primeiro Natal na Bloguilha. Que farão os bloguenautas nesta altura? Foram às compras como as criaturas normais? Também têm filhos, ou pais, ou namorada(o)s, amantes, concubina(o)s ou outras criaturas a quem devam oferecer prendas?
Como irão comemorar o Natal na Bloguilha?
Será que o Abrupto vai pendurar um presépio no meio de 3 poemas, 2 quadros e 5 gravuras?
Irá o debochado Pipi descrever a berlaitada do Pai Natal numa rena, na tundra gelada, antes de a atrelar ao trenó carregado de prendas para os meninos da Casa Pia?
Dedicará o Causa Nossa, pelo punho do doutor Prado Coelho, um ensaio à semiótica do natal da Esquerda, inconfundível com o Natal da direita?
Perguntas inquietantes, ainda sem resposta, a não ser a resposta metafísica e radical d’A Praia, que arruma o Natal da burguesia em três penadas:
reflexões xaroposas sobre «a vida», «intimismo», «confessionalismos fúteis» - a porcaria do costume em dose ainda mais intensa. Se fosse a vocês, passava ao largo.
Assim se distingue a esquerda à séria, da esquerda a fingir. Tomai lá, embrulhai e ponde no sapatinho.
Como irão comemorar o Natal na Bloguilha?
Será que o Abrupto vai pendurar um presépio no meio de 3 poemas, 2 quadros e 5 gravuras?
Irá o debochado Pipi descrever a berlaitada do Pai Natal numa rena, na tundra gelada, antes de a atrelar ao trenó carregado de prendas para os meninos da Casa Pia?
Dedicará o Causa Nossa, pelo punho do doutor Prado Coelho, um ensaio à semiótica do natal da Esquerda, inconfundível com o Natal da direita?
Perguntas inquietantes, ainda sem resposta, a não ser a resposta metafísica e radical d’A Praia, que arruma o Natal da burguesia em três penadas:
reflexões xaroposas sobre «a vida», «intimismo», «confessionalismos fúteis» - a porcaria do costume em dose ainda mais intensa. Se fosse a vocês, passava ao largo.
Assim se distingue a esquerda à séria, da esquerda a fingir. Tomai lá, embrulhai e ponde no sapatinho.
19/12/2003
ESTÓRIA E MORAL: O resultado da guerra pode influenciar as eleições numa democracia, como numa ditadura.
Estória
Na entrevista do dia 16 a Diane Sawyer da ABCNEWS, questionado sobre as próximas eleições em 2004, Bush comentou:
"Everybody's beatable in a democracy ... And that's the great thing about a democracy. People get to make that decision. I know how I'm voting."
Uma sondagem New York Times/CBS revelou um aumento da taxa de aprovação de Bush de 52 para 58 por cento, e uma redução da desaprovação de 40 para 33 por cento, subsequente à detenção de Saddam.
Saddam nunca teve que se preocupar com minudências de aprovação ou desaprovação, e já sabia o resultado das eleições ainda antes delas terem lugar.
Moral
Numa democracia o resultado duma guerra pode influenciar o resultado das eleições. Numa ditadura também.
Na entrevista do dia 16 a Diane Sawyer da ABCNEWS, questionado sobre as próximas eleições em 2004, Bush comentou:
"Everybody's beatable in a democracy ... And that's the great thing about a democracy. People get to make that decision. I know how I'm voting."
Uma sondagem New York Times/CBS revelou um aumento da taxa de aprovação de Bush de 52 para 58 por cento, e uma redução da desaprovação de 40 para 33 por cento, subsequente à detenção de Saddam.
Saddam nunca teve que se preocupar com minudências de aprovação ou desaprovação, e já sabia o resultado das eleições ainda antes delas terem lugar.
Moral
Numa democracia o resultado duma guerra pode influenciar o resultado das eleições. Numa ditadura também.
18/12/2003
DIÁRIO DE BORDO: A sociedade civil pel'O Meu Pêpê.
Tinha-me prometido outro dia começar a esboçar um Abrupto a la impertinente - O Meu Pêpê.
A preguiça e a necessidade de fazer pela vida, vão sempre adiando as boas intenções. Sem prejuízo delas, aqui vai uma referência (um retro-link?) a um post do Abrupto, provando que o homem quando resolve não pendurar quadros e suspende o derrame de erudição para a multidão de basbaques, produz peças políticas notáveis pela clareza radical.
O post Sociedade Civil, sobre as tretas que a esse título são paridas pelos emplastros e a esquerdalhada no país em que o estado da dependência é a dependência do estado, vai direitinha para o blogue imaginário O Meu Pêpê.
A preguiça e a necessidade de fazer pela vida, vão sempre adiando as boas intenções. Sem prejuízo delas, aqui vai uma referência (um retro-link?) a um post do Abrupto, provando que o homem quando resolve não pendurar quadros e suspende o derrame de erudição para a multidão de basbaques, produz peças políticas notáveis pela clareza radical.
O post Sociedade Civil, sobre as tretas que a esse título são paridas pelos emplastros e a esquerdalhada no país em que o estado da dependência é a dependência do estado, vai direitinha para o blogue imaginário O Meu Pêpê.
AVALIAÇÃO CONTÍNUA: Pior que a ignorância, é a ignorância da ignorância.
Secção Assaults of thoughts
A Plain English Campaign meteu-se com o Donald Rumsfeld atribuindo-lhe o prémio Foot in Mouth pela sua seguinte frase dita no princípio deste ano numa conferência:
"Reports that say something hasn't happened are always interesting to me, because, as we know, there are known knowns, there are things we know we know. We also know there are known unknowns; that is to say, we know there are some things we do not know. But there are also unknown unknowns - the ones we don't know we don't know."
Quem não concorda com o prémio é o Guardian que, apesar dos seus elevados padrões de escrita, ou talvez por isso mesmo, escreve no dia 3 no leader “Know your enemy":
This is indeed a complex, almost Kantian, thought. It needs a little concentration to follow it. Yet it is anything but foolish. It is also perfectly clear".
Quem é o Impertinente para discordar?
Para premiar o almost Kantian thought, so simply expressed in good Anglo-Saxon words, o Donald leva 3 afonsos. As luminárias politicamente correctas da Plain English Campaign levam 3 urracas para premiar a falta de little concentration e 5 chateaubriands pela ignorância da sua ignorância. E ainda o prémio especial do Impertinente: Foot in Ass.
A Plain English Campaign meteu-se com o Donald Rumsfeld atribuindo-lhe o prémio Foot in Mouth pela sua seguinte frase dita no princípio deste ano numa conferência:
"Reports that say something hasn't happened are always interesting to me, because, as we know, there are known knowns, there are things we know we know. We also know there are known unknowns; that is to say, we know there are some things we do not know. But there are also unknown unknowns - the ones we don't know we don't know."
Quem não concorda com o prémio é o Guardian que, apesar dos seus elevados padrões de escrita, ou talvez por isso mesmo, escreve no dia 3 no leader “Know your enemy":
This is indeed a complex, almost Kantian, thought. It needs a little concentration to follow it. Yet it is anything but foolish. It is also perfectly clear".
Quem é o Impertinente para discordar?
Para premiar o almost Kantian thought, so simply expressed in good Anglo-Saxon words, o Donald leva 3 afonsos. As luminárias politicamente correctas da Plain English Campaign levam 3 urracas para premiar a falta de little concentration e 5 chateaubriands pela ignorância da sua ignorância. E ainda o prémio especial do Impertinente: Foot in Ass.
17/12/2003
DIÁRIO DE BORDO: Senhor livra-me deles (2).
Há qualquer coisa de inautêntico, de postiço, no homem. Não me refiro às suas mudanças de políticas – o mundo é composto de mudança. Nem à óbvia instabilidade – não é o único, o doutor Santana Lopes é um caso singular e, ainda assim, não me parece postiço.
Há qualquer coisa que emana do homem, um não sei quê de falsas indignações, de falsas convicções, um olho sempre matreiro para as câmaras, uma permanente representação de si próprio.
Trata-se do doutor Paulo Portas, o Paulinho da Feiras.
Ao mano doutor Miguel não se lhe pode acusar de postiço. É apenas possuído por uma fé um pouco inquietante.
Perdi a fé (nunca foi inquietante) ainda era um infante, mas prometo a minha reconversão se o Senhor nos livrar de mais esta família.
Há qualquer coisa que emana do homem, um não sei quê de falsas indignações, de falsas convicções, um olho sempre matreiro para as câmaras, uma permanente representação de si próprio.
Trata-se do doutor Paulo Portas, o Paulinho da Feiras.
Ao mano doutor Miguel não se lhe pode acusar de postiço. É apenas possuído por uma fé um pouco inquietante.
Perdi a fé (nunca foi inquietante) ainda era um infante, mas prometo a minha reconversão se o Senhor nos livrar de mais esta família.
ESTÓRIA E MORAL: Perder o Big Brother ou aceitar as vítimas dos escombros?
Estória
Segundo uma sondagem RTP/PÚBLICO, 75 por cento dos inquiridos responderam não à pergunta "Concorda com a vinda de mais imigrantes para Portugal?". No escalão etário 45-64 anos, o não atinge mais de 80 por cento dos inquiridos.
Alguém devia dizer aos inquiridos e aos portugueses em geral que ou desgrudam do Big Brother, levantam a bunda do sofá e vão para a cama mais cedo, trabalhar para a reforma, se dispõem a sacrificar o segundo chaço e as férias no apartamento da Quarteira para dispor duns dinheiros para mais um ou dois putos, ou então têm que escolher entre as vítimas dos escombros do comunismo e as vítimas dos escombros do colonialismo português dos dois lados do Atlântico.
Moral
Folguemos enquanto podemos, outra hora choraremos (ditado popular).
Segundo uma sondagem RTP/PÚBLICO, 75 por cento dos inquiridos responderam não à pergunta "Concorda com a vinda de mais imigrantes para Portugal?". No escalão etário 45-64 anos, o não atinge mais de 80 por cento dos inquiridos.
Alguém devia dizer aos inquiridos e aos portugueses em geral que ou desgrudam do Big Brother, levantam a bunda do sofá e vão para a cama mais cedo, trabalhar para a reforma, se dispõem a sacrificar o segundo chaço e as férias no apartamento da Quarteira para dispor duns dinheiros para mais um ou dois putos, ou então têm que escolher entre as vítimas dos escombros do comunismo e as vítimas dos escombros do colonialismo português dos dois lados do Atlântico.
Moral
Folguemos enquanto podemos, outra hora choraremos (ditado popular).
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