20/08/2026

ARTIGO DEFUNTO: Segundo o jornalismo de causas, os salários médios deveriam ser o que o governo quisesse


Numa peça com o título estilo agitprop «Inflação devorou grande parte do aumento dos salários médios em 2026, a mesma jornalista do Expresso que escreveu as anteriores obtusidades usa o melhor da sua ciência para demonstrar o óbvio ululante de que o aumento nominal de 5,1% inclui uma inflação de 3,3% e, portanto, o aumento real foi só de 1,8%.

Poderia apresentar como desculpa para as suas obtusidades o suposto nobre propósito de desmontar as patetices chico-espertas do Dr. Castro Almeida nas jornadas parlamentares do PSD e do Dr. Montenegro na missa do Pontal que atribuíram ao governo a subida de 5,1% em 12 meses do salário médio, subida que, diria M de La Palice, resultou da média dos salários que as empresas tiveram de pagar para ter a mão-de-obra que precisaram num mercado de trabalho que é actualmente um sellers' market, com a particularidade de que os salários, ao contrário dos outros preços, não podem descer.

Poderia apresentar essa desculpa e poderia também ter percebido: (1) o governo tem menos influência no salário médio do que na construção do aeroporto Luís de Camões (60 anos) ou na inauguração do novo hospital de Lisboa (23 anos) e (2) um aumento real de 1,8% do salário médio é ainda assim notável quando (a) a produtividade do trabalho se manteve e (b) o aumento da população activa se fez sobretudo nas profissões menos qualificadas e com menores salários.