29/06/2026

Crónica da passagem de um governo (56a)

Outras Crónicas do Governo de Passagem

Navegando à bolina
Amália, o teste à vacuidade

Ao discurso do Dr. Montenegro no congresso do PSD não se aplicaria a boutade de Helvétiuis «um dilúvio de palavras num deserto de ideias», mas antes «um dilúvio de palavras num dilúvio de vacuidades». Uma dessas vacuidades é a referência ao Amália, o modelo português de IA, que ele anunciou na Web Summit de 2024 e agora diz que estará pronta em Julho, e apresentou como uma das «Dez medidas de um Governo reformista para fazer Portugal maior». Segundo ele, a coisa irá promover a cultura portuguesa, «apoiar operações mais críticas, como nas Forças Armadas, na Marinha em particular, através da análise segura de dados em tempo real em visitas virtuais ao nosso património cultural» e até «auxiliar e poupar tempo aos professores no planeamento das suas aulas».

E eu a pensar que o Amália seria apenas um karaokê alucinado. Afinal não é, porque com a falência da Unbabel o karaoke foi abandonado. É uma versão lusitana de um modelo europeu já existente o EuroLLM-9B, desenvolvido sob os auspícios da eurocracia bruxelense, e ao contrário deste último o Amália não será acessível pelos “utentes” e segundo o governo servirá para aplicações no Estado sucial, onde, não será difícil de prever, se dissolverá num oceano de incompetência, negligência e burocracia.

Fundo Soberano do Dr. Montenegro, uma espécie de PREC cor-de-laranja

Não estou surpreendido pelo facto da ideia, no mínimo bizarra, da criação de um “fundo soberano” não estar a ser mal acolhida pela comentadoria, com poucas excepções. Afinal explica-se pelo complexo de Eduardo Lourenço que os governos aproveitam para afagar os sentimentos de inferioridade de um país que não tem recursos naturais abundantes e elevadas reservas de divisas (como a Noruega ou os emiratos), nem capacidade de investimento público (os governos circulam numa autoestrada mexicana e nos últimos dois anos a taxa de execução desceu para 80% a 85% ), que os fundos soberanos exigem, nem a visão de longo prazo e hábitos de gestão rigorosa.

É um mal-entendido que Luís Marques descreve com ironia: «enquanto Medina, que é socialista, queria um fundo para promover “investimentos estruturantes”, uma ideia social-democrata, Luís Montenegro, que é social-democrata, propõe um fundo para investir em sectores estratégicos, uma ideia socialista».

Os "relações públicas" do governo da AD são quase tão bons como os do PS

Um pouco por todas as redacções, os jornalistas de causas amigos relevaram em títulos encomiásticos o lucro de 4,9 milhões da CP, ou seja, menos de 2% das suas receitas, que incluem 111 milhões de subsídios, que representaram mais de 1/3 da sua facturação (282,8 milhões de bilhetes e 21,4 milhões de manutenção).

O Dr. Matias pode não ter jeito para fazer reformas, mas dispondo de um talento excepcional para fazer anúncios, também não é um bom contador de estórias

À estória do Dr. Matias que o TdC atrasou o novo hospital de Lisboa anos e lhe aumentou em 164 milhões o custo, respondeu o Tribunal com factos que estragaram a estória do Dr. Matias e entre eles o de que o contrato lhe chegou em Fevereiro de 2024, já com um reescalonamento de despesa, e teve o visto três meses depois. Em vez desta mal alinhavada, o Dr. Matias podia ter aproveitado a ocasião para contar uma outra estória que vem desde 2003, a do próprio novo hospital de Lisboa, para mostrar a inépcia de 11 (onze) governos) até chegar ao TdC, e retirar daí o prognóstico de que o Fundo Soberano que o seu chefe anunciou terá todas as condições para ser um grandioso fiasco, se não morrer às mãos do próximo governo.

O Estado sucial como máquina de extorsão

mais liberdade

Onde todos os governos, sem excepção que recorde, se têm revelado muito eficazes é na extração de rendimentos aos contribuintes com uma progressão progressiva do tipo função zingarilho, em que o escalão de rendimento mais alto aumentou mais do dobro do escalão mais baixo.

Canários na mina de carvão

O relatório do FMI sobre Portugal publicado há dias prevê a continuação dos crescimentos medíocres até 2028 (1,7%, 1,6% e 1,8%) e evidencia outros aspectos não menos preocupantes, como a contribuição crescente do consumo privado para o crescimento real do PIB, em comparação com a contribuição decrescente do investimento e das exportações.

















E agora algo muito impopular de se dizer

O sismo de Caracas - uma catástrofe num país a cair de maduro após três décadas de socialismo chávista - fez até agora milhares de vítimas às quais se acrescentarão muitas outras quando o balanço estiver feito. O governo português enviar ajuda para um país com uma importante presença de portugueses (50 mil nascidos em Portugal e cerca de 200 mil inscritos nos consulados), dos quais, até agora, seis portugueses e várias dezenas de descendentes se encontram entre as vítimas, faz todo o sentido. Fará sentido enviar como ajuda uma comitiva com 60 elementos dos quais nem um terço estarão qualificados para ter um papel activo no resgate das vítimas? Não será sobretudo mais um exemplo da ineficiência (e provável ineficácia) do Estado sucial a socorrer vítimas de acidentes?

(Continua)